sábado, 5 de março de 2016

Rosinha - (2)


                                                                          CAPÍTULO II
                                                                 ÁUREA E SABE-TUDO

   Rosinha permaneceu em seu quarto pouco mais de meia hora. Sentada no chão, apoiando as costas na travessa da cama, sentindo o contato da colcha e a maciez do colchão, ficara a cismar. Ora encolhia as pernas e encostava a testa nos joelhos, ora apoiava o queixo sobre eles, enlaçando as pernas num abraço quebrado e apertado.

  À frente, preso à parede forrada de papel róseo salpicado de raminhos e diminutas flores, seu rostinho colorido sorria-lhe na ampliação emoldurada. Pendurados nesta e noutras paredes, bichinhos e quadrinhos povoavam os limites de seu mundo restrito, sob os olhares mudos e complacentes de bonecas sobre o reluzente guarda-roupas, e expressão humanizada de urso peludo e cachorro de pelúcia a um canto. Atrás, a bambinela abria-se deixando penetrar pela janela escancarada uma aragem fresca impregnada de evolante perfume agreste e agradável, misturada aos incessantes cantos de pássaros, agora distantes da percepção da criança.

  Durante o tempo crítico em que aqui permanecia ela agitava-se; a figura de Calunga arrojava-se e polarizava-lhe a atenção. Revia-a sorrindo e a admoestando, a contar aquelas histórias incríveis. Em certos momentos, súbitos tremores vinham sacudir as imagens febris, rasgando-as, fazendo-a alternar a postura há pouco adotada e retratar na fisionomia uma angústia mesclada à indignação. Espelhava-se, então, no pálido e gracioso rostinho, faiscante expressão que em seguida se diluía. Esses abalos, subiam-lhe à alma ou desciam-lhe quando se lembrava da mentira contada a Luiza e na suposição do castigo que àquilo adviria. O pensamento voava em direção a Sabe-Tudo. A essa altura, sem qualquer dúvida, ele já havia tomado conhecimento de sua mentira, da língua batráquia que cuspira a baba pegajosa sobre Luiza. Ante a conjetura, um gosto amargo fermentava-lhe a boca e com repugnância engolia a saliva que a sentia engrossar.

  Nesse desfile de imagens também revia o rosto redondo e negro de Luiza, a penetrante ação daqueles olhos argutos e o ar de dúvida que mostrara. Teria realmente acreditado? Nunca mentira antes e experimentara, além de gigantescas dificuldades, incomensurável resistência para declará-la. Por outro lado, teria Calunga conseguido evadir-se do pomar e saltado o muro por onde certamente viera? E como conseguiria? Certa vez ouvira Pedro falar a um dos empregados que o muro tinha mais de dois metros de altura e o terreno vizinho era mais baixo um metro. Contava revê-la para de novo conversarem sossegadas, sem o medo de serem surpreendidas. Mas como isso aconteceria se nada sabia dessa criatura, onde morava, o que realmente fazia ou se retornaria ao pomar? E se não lhe tivesse agradado e a julgasse só uma menina boba, certamente não voltaria! E também, por que iria querer voltar, arriscando-se a ser estraçalhada pelos cães, que certamente não os sabia existirem ao ingressar no pomar, se tinha tantas diversões, amigos e o guarda Félix para aconselhá-la. Se essas suspeitas se concretizassem teria mentido e se sacrificado a toa!

  Ante a acerba possibilidade, ela empurrou as pernas para adiante, em gesto repentino e áspero, estranho a sua natureza dócil e delicada, e largou ambas as mãos ao chão com certa violência, sentindo as palmas arder ao impacto. Não se contendo na exaltação, que se aproximava de uma indômita atribulação e inconformismo, levantou-se e se lançou para fora do quarto, indo apressadamente pelos corredores em direção da maciça e artisticamente trabalhada porta de jacarandá, a principal da mansão, que estava entreaberta. Tendo ultrapassado o pórtico, continuou resolutamente sob magnífica e alpendrada varanda, em cujas colunas abraçavam os finos galhos de uma trepadeira carregada de botões e flores silvestres, e se esgueirou ao fundo, como que flutuando graciosamente o corpo infantil envolto por vestido azul.

  Descendo o degrau único da extremidade da varanda, alcançou a serpenteante e principal rua insinuada por todo o bosque e deparou-se com Pedro, vindo em sentido oposto, segurando à mão direita a tesoura de jardinar. Ao vê-la, sorriu, parando a informar-lhe:
  - Os cães estão soltos novamente. Não consegui encontrar nenhum gato ou outra coisa qualquer. Se escutar os dois latirem não vá lá sozinha, procure-me.  São ordens de seu pai!
  Rosinha que nada sabia das buscas de Pedro arregalou os olhos e ainda curiosa perguntou:
  - Você viu direito nas ameixeiras?
  - Se tinha alguma coisa nas ameixeiras o Sansão e o Hércules não acharam nada e se era o gato tinha fugido. Eu só notei que eles procuraram numa das macieiras e depois se afastaram.

  Pedro prosseguiu e Rosinha ficou pensativa. Bem que gostaria de ir lá de novo para olhar na ameixeira e tirar as dúvidas, mas não tinha coragem por causa de Sabe-Tudo. Com que cara iria olhá-lo novamente se passasse por perto dele? Mesmo que evitasse olhá-lo, ele certamente a olharia e perguntaria por que mentira depois de tudo o que lhe ensinara. Ante essa possibilidade, um calor subiu-lhe ao rosto e seu corpo foi sacudido por leve tremor. Ela era a culpada, a mentirosa; Sabe-Tudo teria toda a razão de ralhar com ela, pedir explicações. Quanto a Calunga, era possível que estivesse mesmo longe daqui, mas se não estivesse poderia fugir a noite, quando os cães patrulhavam não só o pomar bem como se afastavam em direção ao bosque. E se a descobrissem antes disso e dessem o alarme, ou a atacassem no chão? Ai, sim, estaria tudo perdido!

  Sob esses torturantes pensamentos e indagações ela atravessou diagonalmente a bela rua, tomando um daqueles caminhos que entrecortavam diminutos hortos, arrodeando quadras ou acompanhando voluptuosas trepadeiras. Chegando ao jardim, imensa área frontal onde canteiros espalhavam-se ordenadamente sob a proteção de sombras de altas e copadas árvores, alcançou os roseirais que tão bem conhecia e sistematizava.

  A deslumbrante beleza das rosas oferecia-se debaixo de matizes transpirantes de frescor enlaçando-a com inebriantes perfumes, desejando atraí-la para compartilhar de seu encantamento infantil. Porém, envolta por tremulante bandeira azul, seu peito fremia em sucessivas ondas de temores e preocupações que a assaltavam e nada percebia exteriormente, presa que estava a um único pensamento. Ao pé da roseira predileta, cuja especial fragrância imperceptível para tantos, não o era para sua sensibilidade extra-sensorial, estendeu a mão um tanto rígida, acariciando as pétalas de uma rosa branca, e a cumprimentou quase em sussurro:
  - Boa tarde, Áurea!
  Evolante onda a perfumou e ela, sentindo deliciosa tontura, aliviou-se de certa carga de preocupações, sobrevoando com o pensamento a coroa daquela alta roseira.
  “Boa tarde, Rosinha, que alegria revê-la!”  A voz soou para a criança de forma doce e melodiosa como sempre, como de uma mulher jovem e meiga, que imaginava, seria a voz de sua mãe.
  - Áurea, você é minha amiga não é? Quero dizer, continua sendo?
  “Claro criança, como pensar em deixar de sê-la?”
  - É que, bem..., então você nunca vai deixar de me amar, mesmo que eu cometa faltas?
  “Por que eu faria isso? Todos cometem faltas! Se eu deixasse de amá-la por causa de uma falta cometida eu não teria amor, seria um juiz impiedoso!”
  - Então você continua me querendo como sempre?
  “Como sempre não, a cada dia mais. O amor precisa crescer todos os dias, como eu, como você. Somente assim assume maiores belezas e experimenta novos sabores”
  Rosinha ficou pensativa por alguns segundos, depois perguntou, deixando entrever na fisionomia o peso que lhe afligia a consciência.
  - Sabe-Tudo pensa como você?
  “A respeito das faltas humanas?”
  - Sim, também sobre o amor. Ele é um filósofo, é diferente de você.
  “Ouça, Rosinha, um filósofo sem amor e não tendo a compreensão dos mistérios do coração é uma voz sem calor e uma mente sem luz. Se a sabedoria de Sabe-Tudo cala profundamente em você, então a resposta você mesma pode dá-la. De mim somente sei falar da beleza. Afinal, quem verdadeiramente pode julgar?”
  De novo Rosinha mergulhou em reflexões. Como a criança custasse a retornar, Áurea recomeçou:
  “Já olhou hoje para o céu, Rosinha?”
  - Hem, o céu? Que tem ele?
  “Veja como o azul está sempre presente lá e como se reflete no seu próprio vestido. Já lhe disse alguma vez que o azul do céu é um véu muito longo que a Mãe Celestial veste para ornar seu vestuário?”
  - Um véu, daquele tamanho?
  “E todo bordadinho de lantejoulas e contas. As lantejoulas tremeluzentes que os súditos vêm bordar depois de muito trabalhar são as estrelas”.
  - Os súditos trabalham muito?
  “Muito. Trabalham tantos anos para bordar as lantejoulas e as contas que se fossem anotar esse tempo ficaria um número desse tamanho! Mas não é só bordar, não!”
  - Que mais então?
  “É fabricar de acordo com o modelo; é do aparente nada para o tudo ser. E que alegria quando está tudo terminado, como eles cantam e comemoram, e como elas brilham!”
  - Eles são como os anjos?
  “Maiores ainda, os anjos os auxiliam em outras tarefas menores, os obedecem. Eles são indescritíveis!”
  - Fale mais das lantejoulas e das contas, Áurea!
   “As lantejoulas que piscam são, como disse, estrelas ou sóis que vão surgindo. Há sóis azuis, amarelos, verdes, violetas, e de todas as cores conhecidas e ainda desconhecidas. Ao redor de um sol, sem o esplendor de seu brilho, são bordados pequenos ornamentos – as contas coloridas – chamados planetas que girando sem cessar fazem um desfile sempre igual carregando neles a Vida. Quando o tempo passa e todas as coisas que neles existem chegam a um final, a Mãe Celestial vem e recolhe tudo daquele pedacinho do véu. Então a lantejoula e as contas se escondem detrás do véu e lá ficam por algum tempo. Tempos depois, volta a lantejoula com as contas e os súditos fazem festas e cantam!”
  - Que bonito Áurea. Quer dizer então, nessa história, que o planeta Terra é uma conta e o Sol uma lantejoula?
  “Isso mesmo, criança, presos num único fio!”
  - E nós, o que somos?
  “Isso é outra história. Talvez Sabe-Tudo deseje contá-la um dia, filosoficamente”
  - Ah, conte você Áurea! Eu quero ouvir de você! – pediu com veemência.
  “Está bem, criança, mas vou contar-lhe somente um pedacinho, está certo?”
  - Está!
  “Antes mesmo de as lantejoulas surgirem e também as contas, os súditos preparam as sementes que virão plantar. Elas ficam guardadas em enormes estufas, descansando e recebendo alimentos...”
  - Sementes? E elas comem?
  “Elas não comem como você, Rosinha, elas recebem alimentação por ondas de energia, para se manter hibernadas. Você sabe o que é hibernação?”
  - É...,é..., dormir no gelo!
  “Mais ou menos. Só que lá não há gelo, é uma hibernação ao natural. Então os súditos usando aparelhos, lentes e as próprias mentes vão incutindo nas sementes os seus deveres e obrigações, descrevendo-lhes também toda a história de suas vidas e contando-lhes como apagar os seus erros...”
  - Mas como é isso? Que história é essa, Áurea?
  “Você tem razão em me perguntar, criança, porque eu comecei a narrar pelo meio, mas vou explicar-lhe: essas sementes são aquelas que foram recolhidas pela Mãe Celestial e mandados os súditos as levar para as estufas. Nessa ocasião, elas já haviam se esquecido de quase tudo de suas vidas, restando somente pequenas lembranças e enquanto elas dormem, os súditos as ajudam a...”
  - Áurea, essas sementes afinal são de plantas?
  “De plantas, de bichos, de pedras e de gente!”
  - Nossa mãe! Agora é que eu não estou entendendo mais nada!
  “Então preste bastante atenção: cada semente vive num reino da natureza vestida de um corpo qualquer. Assim é uma árvore, um animal, uma pedra e um ser humano. Por milhares de anos as sementes viventes no mesmo reino vão recebendo as lições que a Mãe Celestial ensina através da natureza e dos súditos. Depois, as sementes que aprenderam direito e realizaram o que tinham de realizar pularão para outro reino, ganhando outros corpos e os mudando sempre que necessário. As que se atrasaram precisarão permanecer para repetir as lições, aprender o que tinham de aprender e realizar o que antes se recusaram. Chegando o tempo de a Mãe Celestial de novo as recolher do véu todas as sementes, atrasadas ou não – especialmente aquelas sementes de homens e mulheres que não conseguiram alcançar o reino dos anjos – elas todas voltarão para as estufas. Mais tarde, noutra volta ao véu, quando lantejoula e contas forem outra vez bordadas, as sementes voltarão cada uma ao respectivo lugar de onde haviam saído, ou de onde foram retiradas!”
  - Onde fica a semente de homem?
  “Fica no seu coração”
  - Quem tem o coração duro é castigado?
  “O castigo é o próprio coração quem determina. Todo o coração que pulsar pela maldade receberá de volta a maldade, como aquele que pulsar pelo amor receberá de volta o amor. Somente corações amorosos fazem suas sementes ficar mais leves do que a pluma, assim as sementes conseguem voar mais alto ainda que os anjos”.
  - Que história engraçada você me contou, Áurea!
  “Engraçada, Rosinha, por quê?”
  - Porque nessa história parece que todo mundo está numa escola.
  “Acertou, criança, o mundo é uma escola e somente os tolos não percebem isso e gazeteiam aulas. A inteligência do Pai e da Mãe Celestial está presente em tudo e graças a eles a vida prossegue sem parar!”

                                                                             *     *     *

  O gostoso cheiro do jantar sobrevoava a ampla e longa cozinha, exageradamente espaçosa para o movimento diário da mansão. A cozinheira dava últimas mexidas nas panelas e abrandava o fogo de duas bocas de gás. A um canto, relaxadamente, a auxiliar descansava porque não tinha muito a fazer nesse momento, ao passo que a outra responsável pela limpeza da casa, agora uniformizada de copeira, olhava para o céu através da porta aberta, buscando alcançar as últimas projeções do tom róseo já carregado em roxo quase escurecido.

  Na sala de jantar a mesa estava posta para três. Rosinha, recém-saída do banho, se instalara na varanda e lá ficara a ler uma revista em quadrinhos enquanto aguardava a chegada do pai. Luiza – a terceira – que compartilhava da honra de jantar com a diminuta família, tendo inspecionado o banho de Rosinha e verificado que se ensaboara e enxugara direito, voltara para a cadeira de balanço e lá permanecia tricotando.

  As dezoito e quarenta e cinco em ponto, a Mercedes cinza claro dirigida por Frederico penetrou a rua principal do bosque, iluminando profunda faixa da propriedade, provocando com seus possantes faróis projeções ensombradas e fantasmagóricas de galhos ou troncos. O veículo parou junto ao degrau e Frederico, já sob o banho de luz da varanda, apeou e apressou-se em abrir a porta para o patrão. O corpo cheio e não muito alto de Almeida surgiu do carro. Rosinha correu e pulou-lhe ao pescoço, ele a beijou e a acariciou, trazendo-a pela mão, fazendo-lhe corriqueiras indagações acerca do dia. Passaram da varanda para o corredor e ali se separaram. Rosinha correu para a sala de jantar enquanto Almeida dirigia-se para o seu quarto. As dezenove e cinco estavam todos jantando.

  Rosinha comeu pouco. Almeida por trás das lentes observou-a com seus olhos azuis. Ao término, trouxe-a para a poltrona da biblioteca e tendo-a colada à perna, fumava belo e envernizado cachimbo irlandês.
  - Por que você jantou pouco, andou comendo coisas depois das quatro?
  - Não comi nada, pai, é que estava mesmo sem fome
  - Verdade?
  - Verdade! – respondeu-lhe olhando-o num súbito relance.
  Almeida silenciou começando a dar seguidas baforadas, lançando o olhar para a estante, desligando-se de Rosinha.
  - Pai, mentir é feio? – ela tirou-o da abstração.
  - Hem? O que?
  - Mentir é feio?
  - O que você comeu antes do jantar?
  - Nada, pai, já disse. O que eu queria saber é se um dia eu contasse uma mentira o senhor ia me castigar.
  - Qual foi a mentira que você me contou? – o rosto redondo do pai mostrou maior curiosidade ao encarar o rostinho belo e pálido.
  - Não menti nunca. Eu só queria saber se um dia eu mentisse o senhor ia me castigar.
  - Depende – respondeu sem qualquer interesse ou convicção, relançando o olhar em direção da estante, se desligando novamente. Rosinha voltou à carga:
  - O senhor já mentiu alguma vez?
  - Hem?
  - Mentir, pai! O senhor já mentiu? Almeida tirou o cachimbo da boca emborcado-o sobre o cinzeiro de vidro, batendo-o de leve e o fazendo soltar cinza. Depois, sacou o pequeno isqueiro dourado do bolso e supostamente reacendeu o cachimbo, dando novas baforadas. Então, como se estivesse muito ocupado ordenou:
  - Agora deixe-me sozinho, eu preciso pensar sobre um assunto.
  Rosinha imediatamente girou nos calcanhares e andou em direção da porta. Ao cruzar o pórtico lançou-lhe derradeiro olhar. Almeida novamente se distanciara sob tênue e azulada nuvem de fumo.

                                                                              *     *     *

  Rosinha fugia de sombras e coisas que queriam agarrá-la. Ela corria e tropeçava; as formas a perseguiam. Apavorada, presa ao chão, quase não conseguia mover-se. De repente, galgou a cerca do bosque e ao saltar caiu num buraco largo e meio profundo que Pedro cavara, batendo no fundo. Depois, foi conversar com Áurea, que tinha as flores murchas e os galhos carregados de longos espinhos. Com voz rouca e lúgubre Áurea abriu-se e gritou: “venha!”, tentando agarrá-la. Rosinha, apavorada, pulou para trás enquanto a roseira gargalhava sinistramente, se sacudindo toda, deixando cair aquelas rosas murchas. Em seguida, arrancou-se da terra, e como ameaçador monstro com galhos abertos veio em sua direção. Rosinha, gritando, fugiu correndo, se lançando pelos caminhos do bosque a pedir socorro, porém ninguém aparecia. As plantas e árvores, nas marginais dos caminhos, riam e zombavam de sua fuga e ela sentiu-se abandonada. Com muito esforço, alcançou o portão do pomar abrindo-o, correndo para os lados de Sabe-Tudo. Porém, ao contrário do que esperava, Sabe-Tudo não lhe deu acolhida, antes, se balançando como fosse cair, a acusava: “você mentiu, você mentiu, vai ser castigada!”, querendo também agarrá-la!

  Com a testa coberta de suor, trêmula e assustada, Rosinha verificou que tudo não passara de um sonho ruim e se enrolou na fina colcha para tentar dormir novamente. Partes desconexas desse mesmo pesadelo repetiram-se por duas vezes, torturando-a.

  Pela manhã, Luiza assustou-se ao entrar no quarto e ver-lhe a palidez. Ela, acordada, nada falou da agitada noite, estando, ademais, enfraquecida. A governanta pousou-lhe a mão na testa acusando febre. Nervosa, correu ao doutor Almeida, que, à mesa da copa, lendo o jornal que Frederico trouxera, aguardava a presença da filha para o café, e relatou-lhe o fato. Almeida veio vê-la imediatamente, constatando a febre, ordenando a Luiza telefonar ao médico, e perguntou à filha o que ela sentia. Mediante respostas pouco conclusivas, deixou-a e aguardou a chegada do médico.

  Nesse comenos, Luiza trocou-lhe a roupa, notando que a criança suara em demasia. Rosinha obedecia a tudo como um robô, realizando movimentos lentos e sem ânimo. Pelas oito e trinta, Frederico chegava com o médico – um senhor crestado, de uns cinquenta anos, com os cabelos e bigode quase completamente encanecidos. Consultando Rosinha, nada constatou de grave, diagnosticando um mal passageiro, prescrevendo-lhe comprimidos vitaminados e repouso, dando-lhe um anti-térmico que trouxera na valise. Almeida e Luiza então voltaram para a copa em companhia do médico.

  No momento em que os três se preparavam para deixar a mansão, a empregada anunciou a chegada da preceptora de Rosinha, com alguns minutos de atraso, raro acontecimento. Ao saber da indisposição da menina Marga deu mostras de aborrecimento, mordendo os lábios e apertando os olhos sob aquelas lentes claras e sem aros, porque não fora comunicada a tempo. As gordas e macilentas bochechas coloriram-se, e como hábito levou a mão à cabeça, ajeitando ao penteado. Almeida, sem mesmo ter-lhe percebido a irritação, convidou-a a irem juntos na Mercedes, prometendo deixá-la onde indicasse. O convite excitou-a e foi com outra disposição ao quarto beijar a testa de Rosinha desejando-lhe melhoras, pedindo a Luiza que lhe desse notícias bem cedo na manhã seguinte. A criança, mergulhada ainda no marasmo, ao ver a antipática mestra indo embora, sentiu grande alívio.

  Naquela manhã Rosinha realmente descansou e dormiu. Não teve sonhos e acordou pelas onze e meia. Luiza, tão logo a viu desperta, veio correndo de copo na mão, enfiando-lhe goela abaixo dois comprimidos que o médico receitara, dando-lhe água para melhor engoli-los. Rosinha, amuada, levantou-se assim que a governanta deixou o quarto e trocou de roupa vestindo outro de seus vestidos azuis. Nada mais sentia e estava faminta. Luiza protestou ao encontrá-la no corredor e quis obrigá-la a voltar para a cama, onde lhe traria o almoço.  Rosinha esquivou-se da ama correndo para a mesa. Luiza foi atrás insistindo que ela voltasse para o quarto, mas Rosinha, já sentada, reagiu:
  - Não vou e pronto!

  O almoço foi-lhe servido mais cedo e sozinha diante daquela comprida mesa ela comeu menos do que esperava. Achou interessante a situação, mais ainda por não ter a companhia  desagradável de Marga. Ao término, saiu em direção do bosque sob os protestos de Luiza que a queria ainda descansando. Mas como a criança parecesse recuperada, deixou-a livre, indo também almoçar.

  Era meio-dia e os homens se recolhiam para o refeitório onde todos os empregados faziam as refeições. Rosinha, pela rua principal do bosque, ia encontrando os três empregados externos e eles a saudavam. Sem rumo certo ela entrava e saia pelos caminhos. O Sol estava quente, mas a temperatura era amainada pelas rajadas de suave brisa a balouçar galhos e copas. Folhas caiam, Rosinha as pisava a passos descuidosos enquanto seu pensamento novamente se aferroava a preocupações. Chegou ao lago contornando-o, e súbito lembrou-se dos latidos dos cães que dali a arrastaram ao pomar. Reviu Calunga e desejou voltar lá para talvez reencontrá-la. Sabe-Tudo interpôs-se a ambas e ela tremeu. Lembrou-se do pesadelo. Não o via mais como uma figura imponente e bela, com voz grave e senhoral, a dizer-lhe das coisas e a ensinar-lhe do mundo. Via-o agora como na madrugada, horripilante, querendo agarrá-la e a gritar: “você mentiu, você mentiu, vai ser castigada!”

  Uma ardência no estômago a fez parar e levar a mão ao local, sentindo ligeira vertigem e o corpo a esfriar. Não devia estar pensando nessas coisas, faz mal depois da comida! Sentou-se ali mesmo sobre a grama verde e viçosa que orlava todo o lago e decidiu que não mais iria ao pomar. Algo a tomou, obrigando-a a fazer enorme esforço a fim de apagar a imagem espectral criada pelo pesadelo, levando-a a observar as sinuosidades das serpentinas líquidas lançadas pelo belo repuxo no centro do lago e à marolante água. Como resultado, seus lábios rosados, de pouco em pouco, iam afrouxando da tensão, permitindo a boca pequena de cantos suavemente voltados para baixo, se mostrar quase ao natural. O brilho dos olhos transmutava-se do vívido e excitado para o diáfano e contemplativo. Os braços já se soltavam e o pensamento deixava adormecer, num torpor quase completo, o rumor da tempestade que a estremecera e nela ficara.

  O estereótipo das serpentinas e o das marolas que vinham morrer na beira do lago ajudaram-na num efeito relaxante, quase hipnótico, paralisante das preocupações. Acusava agora o odor refrescante da água, o aroma da terra e o cheiro das plantas. Sentiu sono e deitou-se ali mesmo – rente a baixa mureta que acompanhava o desenho do lago – e dormiu mais uma vez. Foi um sono leve e delicado que a enviava aos limites de dois mundos, o do corpo e o da alma. Ouvia ao longe os ruídos que se apagavam na distância, desejando desprender-se e voar, mas ao mesmo tempo querendo ficar.

  Não saberia quanto tempo assim permaneceu e ao acordar num súbito estremecimento, ante o bravio arreliar de um bando de irrequietas maritacas sobre as palmeiras, sentou-se não atinando com o que fazia ali. Deu um pulo e levantou-se, lembrando-se que passeava. Resolvida a sair dali, abandonou o bosque, buscando o corredor principal da mansão, refugiando-se em seu quarto. Luiza ao vê-la chegar deixou de estar preocupada.

  No quarto, andou de um lado a outro, indo diversas vezes à janela a sondar a vegetação do bosque. Ouvia em momentos isolados um ou outro distante latido dos dobermanns e prestava desusada atenção. A brisa tinha ido; em seu lugar um vento soprava com mais vigor e intensidade, sacudindo a galhagem fina das árvores, a levantar os longos e pendentes chorões e às samambaias dos caramanchões. Apesar do relaxante sono de há pouco, seu ânimo não se levantara e de novo a conduzia para pensamentos sombrios. A presença sempre marcante de Calunga perambulava-lhe nas imagens mentais e novos instantâneos temores eram atraídos por essa aparição. Sabe-Tudo surgia-lhe a todo instante associado ao eco da mentira.

  Angustiada, passada uma hora, decidiu sair. Suspeitando que Luiza estivesse tricotando na sala de estar, rumou pelo corredor em direção oposta, para a porta principal, ganhando a varanda, descendo o degrau único e arrodeando a casa. Metendo-se por um dos caminhos, surpreendeu-se a se ver acionando a tranca do portão de acesso ao pomar. Correndo rija e tensa para debaixo da macieira, olhava somente para adiante, temendo ver o que não queria. Sansão e Hércules correram para ela, embaraçando-se a sua frente, atrapalhando-lhe os passos. Ela afugentava-os, mas eles faziam-lhe festa. Já debaixo da fruteira olhou para cima, ansiosamente, volvendo a cabeça sobre o fino e branco pescoço, buscando em todas as direções, indo a seguir para debaixo da ameixeira. Um rápido relance pela circunvizinhança a fez, sem querer, esbarrar em Sabe-Tudo e pretendeu ignorá-lo, porém nele se prendeu sentindo o coração acelerar. No entanto, uma névoa de clara luz desceu-lhe ao pensamento, o penetrou e o transpassou. Ela sentiu-se dominada e invadida por incitações reflexivas. Sabe-Tudo era exatamente o mesmo, pensou! Não tinha mil garras sinistras, era somente um pessegueiro, um grande pessegueiro! E do temor recalcado saltava-lhe agora o antigo sentimento de amizade ao grande amigo. Ele era o mais sábio de todos, do mundo inteiro, não iria querer-lhe mal algum, por que não enxergara isso antes?

  Envergando novo ânimo, mesclado a uma súbita coragem,  partiu resolutamente em sua direção, ao meio do pomar. Todavia, ao aproximar-se, seu rosto afogueou; um resquício do temor recalcado, misturado ao sentimento de vergonha e arrependimento, pretendeu tomá-la e ela, emudecida, olhou-o um tanto de cabeça baixa e assim ficou.

  Uma soma de faiscantes raios projetou-se do tronco, formando rápidos e multicoloridos contornos em derredor. Eram efeitos que deixavam entrever uma estranha e misteriosa presença ali ancorada, ou  trazida num faz-de-conta perfeito e insuspeitável. Os efeitos se apagaram e a voz ecoou na mente da criança, tornando-a gostosamente leve como se não possuísse corpo.
  “Boa tarde minha menina, já estava saudoso!”  Ela, no entanto, continuava emudecida, olhando o chão, segurando agora as mãozinhas atrás em habitual atitude de timidez ou consternação.
  “Quando uma sombra ameaça e aflige o que melhor se faz é combatê-la à luz da inteligência. Se as forças faltam por humanas fraquezas, abre-se o coração com quem merece confiança.” Ela olhou-o com certo receio, levantando lentamente aquelas safiras azuis, franzindo a testa:
  - Então você já sabe?
  “De que, Rosinha?”
  - Da minha falta, da...,da..., mentira?
  “É isso somente que a aflige, a mentira?”
  - É que..., eu não queria que eles descobrissem Calunga, por isso menti. E agora, que vai acontecer comigo?
  “Criança, criança, a mentira é um mal quando provoca o mal, porém não faça das palavras um objeto que esteja a torturá-la. Há idas e vindas na lei da vida e quem poderá julgar o que falou o seu coração? E o seu coração é leve como uma pluma, amada criança. Não faça da mentira sua companheira, mas não a deixe golpeá-la mais vezes e inutilmente!”
  - Então você não está zangado comigo?
  “Por que estaria? Eu sou somente um filósofo, não sou? E filósofos procuram entender, não julgar. Se lhe dou meu amor e compreensão não é para retomá-los, são seus. Mas diga-me: como é essa Calunga e por que a protegeu com tanta coragem?
  - Ela..., ela é formidável – disse com grande entusiasmo – é livre, faz o que quer, aprende o que quer! É inteligente e sincera, mesmo quando desconfia que você e Áurea não são verdadeiros...desculpe! – envergonhou-se novamente.
  “Está tudo bem, Rosinha, somente contamos segredos a quem confiamos, não se preocupe!”
  - Eu não sei se ela voltará. Talvez não tenha gostado de mim, me achado uma menina boba. Eu sou boba, Sabe-Tudo?
  “Boba, Rosinha? Você é mais preciosa do que a mais preciosa das virtudes humanas. Não deixe que isso a envaideça, mas saiba sentir que há um valor inestimável em você e logo o mundo virá conhecê-la. Não se julgue pelas reações alheias, antes procure conhecer-se!”
  - Eles irão conhecer-me? De que jeito, Sabe-Tudo?  -  prendeu-se a isso.
  “O destino joga com peças que os homens não sabem controlar. Aliás, eles próprios na sua inconsciência, não são além de peças de vontades mais poderosas. Cedo, Rosinha, eles a conhecerão, porém esqueça isso por enquanto, porque de nada adianta pensar. O que vem, virá!
  - Pelo que você está me dizendo eu me tornarei conhecida por muitas pessoas, então poderei sair e conversar à vontade?
  “Não imagine demais, criança, o que tinha a dizer disse-o. Deixe tudo por conta do porvir e viva o presente!”.

                                                                  Segue Capítulo 3
                                         
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                                                                         Rayom Ra
                                                http://arcadeouro.blogspot.com.br


                        

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