segunda-feira, 29 de junho de 2020

Fundamentos da Meditação (12) - Mudança e Entendimento


  Compreensão é possível a qualquer momento em que a consciência esteja presente e ativa. Ainda, para realmente entendermos algo devemos estar habilitados a percebe-lo inteiramente. Assim, a fim de percebermos inteiramente as causas do sofrimento – que são os desejos e impulsos em nossa mente – necessário ver as causas onde elas residem – e que não estão no mundo físico – mas nos mundos internos, dentro de nós. Eis porque na meditação precisarmos deixar o corpo para trás de modo que a consciência consiga entrar naqueles mundos para ver referidas causas face a face.”

  Nessa tradição estudamos as escrituras das grandes religiões; estudamos tudo das ciências, as artes e as filosofias. Em síntese: estudamos toda uma abrangência do conhecimento que a humanidade têm desenvolvido no curso dos séculos. Entretanto o tudo desse estudo, o conhecimento e a informação, tornam-se inúteis se não formos capazes de aplica-los na prática e produzirmos profundas mudanças em nossas vidas pessoais – agora! Não há valor em obter-se uma educação se permanecermos os mesmos. O conhecimento deve ser capaz de produzir mudança, caso contrário é uma completa perda de tempo.

  Em nossa abordagem para meditação isso é especialmente significativo porque os estudos da meditação são muito sutis e muito difíceis de entender com o intelecto. Eis porque é comum ficarmos confusos com as filosofias e teorias da meditação. É fácil estarmos enredados em debates entre escolas e grupos, nos tornarmos associados a um grupo ou tradição contra outro, nos perdermos dentro de um labirinto de ideias competitivas sobre meditação.

  Para o estudante sério que pensa em reais mudanças na sua vida torna-se necessário dar um corte na emaranhada massa de teorias, filosofias, tradições e ideias a fim de encontrar aquilo que realmente resulte em mudança. O propósito de estudar meditação é a mudança; então devemos basear nossos estudos e práticas nesse fundamento e somente nesse. Estamos mudando? Essa questão não pode permanecer em teoria nem em filosofia. Precisa ser respondida com fatos observáveis e passíveis de provas.

MUDANÇA

  Trocar teorias ou crenças não conduz para a mudança real. Mudar nossa religião ou nossas roupas, nosso corte de cabelos ou a dieta... não traduz a mudança real. Isso é superficial. Necessitamos de mudança verdadeira, profunda, permanente e interior. Necessitamos mudar nossa mente de forma consistente para melhor.
 
  Para mensurarmos e confirmarmos a genuína e duradoura mudança, nossa atenção precisa estar focada em fatos do que seja observável em nossa mente, coração, corpo e no comportamento. A mudança real é mensurada por quem está dentro dela.
 
  Nossa cultura moderna insiste em que o bem estar material traz felicidade, ainda que o rico seja tão miserável quanto o pobre. O rico simplesmente tem mais dinheiro para gastar em operações plásticas, vaidades, egoísmos, etc. As circunstâncias externas de sua vida também  não o incentivam a nada mudar do básico de seu sofrimento. Ele ainda fica doente, sofre na velhice e morre solitário. Sofre pela perda de seus amados e de suas posses.

  Inclinamo-nos a mensurar nossa vida por circunstâncias externas: aparência, idade, posses materiais, casa, família, amigos, ainda que nada dessas coisas seja confiável para uma perfeita indicação de valores. Não nos damos conta de que as circunstâncias da vida constantemente mudam e estão sujeitas a forças além de nosso controle. Mudanças em nossas circunstâncias externas não são paradigmas próprios para nosso status espiritual.

  A realização de nosso sucesso na espiritualidade vai depender da qualidade de nossa mente, da qualidade do nosso coração e em como respondemos às circunstâncias da vida.

  Todos admiramos o pobre que a despeito de sua pobreza é feliz, contente, amigável, paciente. Suas atitudes e a qualidade de sua mente foram suas escolhas e dão-lhe força, não importando suas circunstâncias externas. Assim ao invés de exatamente admirarmos essa atitude por que não adotá-la e fazê-la parte de nós?

  É possível termos felicidade, paz e alegria. Os grandes mestres nos têm mostrado que isso é possível. Não é essa a mudança que queremos? Esse tipo de mudança resulta da mudança interior, não exterior.

  Todas as coisas em existência são como são por motivos de leis. Se desejarmos a mudança real precisamos aprender sobre aquelas leis e trabalhar com elas. Eis porque estamos a estudar os fatos de nossas vidas, a buscarmos como aquelas leis estão em movimento em nós. A principal daquelas leis dentre todas é a lei de causa e efeito. Hoje estaremos estudando como causa e efeito são postos em movimento e como leis adicionais direcionam as causas para seus efeitos. Assim aprenderemos como produzir causas e guia-las para os efeitos que queiramos.

  Para fazermos isso sucessivamente, primeiro temos de compreender que não vemos a realidade, conforme debatida em anterior palestra. Ao começarmos verificar as aparências do passado a fim de entendermos as forças que estejam efetivamente em operações chegamos a conclusão de que essa mudança em nosso comportamento interior altera nossas circunstâncias externas. Sim: sempre as tivemos lá atrás.

  Enganosamente pensávamos que se mudássemos nossas circunstâncias externas seríamos então alegres e felizes. Esta ideia está errada. A felicidade interior não nos vem de circunstâncias externas. Aqueles que buscam alegria e felicidade nas coisas exteriores – em pessoas, lugares, posses, status – estarão sempre e inevitavelmente desapontados

  A verdade é que, se em primeiro lugar mudarmos interiormente então encontraremos não só a real e duradoura felicidade – que não depende de impermanência nem de não confiáveis circunstâncias externas – mas também mudança nas circunstâncias exteriores. Tudo o que está acontecendo em nossas vidas é simplesmente um reflexo da qualidade de nossa mente.

  Pessoas passam suas vidas tentando mudar as circunstâncias externas e morrem tendo falhado. Não importa o que adquiram ou quão imensas sejam as circunstâncias externas de suas vidas: tudo aquilo perde-se na morte, porém elas, pessoas, levam consigo a qualidade do ser. Se vivermos apegados às posses e às pessoas, continuaremos daquela mesma maneira após a morte; então nunca encontraremos alegria e felicidade. Ao estudarmos os grandes empreendedores espirituais vemo-los não mudando suas circunstâncias externas, mas mudando suas circunstâncias internas. Pelas mudanças internas de suas mentes e de suas psiques, suas circunstâncias externas também mudaram.

  Assim podemos nos inquirir para sabermos como responder: que é mudança? Genuína, profunda, a mudança duradoura tem três características ou três aspectos: alguma coisa morre, alguma coisa nasce e alguma coisa é sacrificada. Quando a mudança é profunda não somente vemos esses três aspectos, mas também às consequências que mudam fundamentalmente tudo em redor. Para entendermos a mudança precisamos entender esses fatores e o ambiente no interior do qual eles ocorrem.

MUDANÇA EM NÍVEIS

  Estudamos a Árvore da Vida por que nos ajuda a entendermos as leis da natureza. Um fato significativo que a Árvore representa é que a mudança flui do sutil ao denso. Para criarmos algo primeiramente temos a inspiração, a ideia, daí o plano, o processo do custo, a montagem de tudo até que finalmente aquilo se torne uma realidade no mundo. A natureza existe de modo parecido: antes de qualquer coisa acontecer no mundo físico, acontece no sutil, nos mundos internos. Eis porque nossos sonhos podem nos revelar o que acontecerá em futuro. Em sonhos podemos ver o que está em formação; por eventual a formação pode aparecer fisicamente.

  Podemos usar esse conhecimento para nos ajudar a mudar. Se queremos mudar nossa vida física então precisamos mudar interiormente.

  Segue-se que se nosso conhecimento e entendimento são profundos, mais interiores, então podemos esperar que a mudança seja bem maior. Ou seja: o entendimento de algo no mundo denso não é difícil, visto requerer somente observação pelos sentidos físicos. Ademais esse nível do conhecimento pode somente conduzir a alguma coisa superficial. Isso comparado com o conhecimento interior de energia, emoção, mente ou vontade... que quanto mais profundo mais poderoso será e por isso mais consegue mudar situações em níveis abaixo.

  Ao compreendermos algo em nível emocional isso tem poder para nos mudar profundamente. Porém ao compreendermos na consciência, em nossa força de vontade, isso é muito mais profundo e muito mais poderoso que na emoção. Mais profundo ainda é compreendermos algo em níveis mais elevados na Árvore da Vida dentro de nós.

  A Árvore da Vida é um mapa do universo exterior (nossas circunstâncias externas), porém, mais profundamente é nossa reflexão interior. O principal valor da Árvore da Vida está circunscrito ao que ela reflete de nossas circunstâncias internas.

  O Oráculo de Delpho disse:

  “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”.

  O ponto é: não olhemos para fora a fim de resolvermos os anseios que temos interiormente. Não busquemos lá fora por fenômenos externos na tentativa de manobrarmos com nossos fenômenos internos. A dor que temos, o vazio, a dúvida, o medo, o ódio – todas essas coisas de nosso íntimo – não podem ser resolvidas através de qualquer influência externa. Elas somente podem ser resolvidas com nosso labor interior diretamente nelas. Eis o motivo de aprendermos a meditar.

  Meditação é a ciência da compreensão de nós mesmos, de modo a assim compreendermos também “o universo e seus deuses”.

  Quando realmente compreendemos a realidade, mudanças acontecem. Com a real compreensão as ilusões morrem, o conhecimento nasce e nossa antiga via do ser é sacrificada. Eis porque elevamos nosso nível do ser. O oposto existe quanto mais baixamos esse nível do ser, pois ao falharmos na compreensão da realidade agimos enganosamente e os três fatores, nascimento, morte e sacrifício resultam em profundo sofrimento.

COMPREENSÃO

  Unicamente olhando-nos e nos estudando não é o suficiente. Necessitamos adquirir entendimento, compreensão a fim de conscientemente conhecermos a nós próprios. Já nos olhamos constantemente; somos fascinados por nós próprios. Somos verdadeiros narcisistas; sempre olhando nosso próprio reflexo, sentindo nossa dor, prazer, orgulho, vergonha. Assim continuamos a sofrer prosseguindo na profunda ignorância da realidade pois, definitivamente, somente a nos olharmos não é o suficiente para produzirmos mudança.

  O que produz mudança real e positiva é entendimento e compreensão – em outras palavras: real conhecimento. Eis porque Sri Shankaracharya em seus escritos Atma Bodha (sobre o que demos um curso alguns anos atrás) disse que o conhecimento por si só conduz à libertação. Nada mais, unicamente autoconhecimento.

  Essa é a única coisa que pode conduzir à libertação. Nem Deus, a divindade, a igreja, a religião, o mestre, o livro, nada externamente a nós pode dar-nos a libertação do sofrimento, uma vez que o sofrimento está no íntimo. Unicamente pelo conhecimento do que são as causas podemos nos tornar livres delas. Esse tipo de conhecimento, autoconhecimento, só emerge através da compreensão. Possamos ter reunido um montante de fatos, mas se não os compreendermos não podemos resolver o enigma.

  Reunir fatos é bom. Necessário porém nos observarmos, nos estudarmos e aprendermos de nós próprios reconhecendo acerca de nós, que entretanto ainda não é o suficiente. Necessitamos compreender, entender. A palavra compreensão é muito precisa e científica. Usamo-la numa forma bem específica para traduzir conhecimento consciente, pela alma, por nossa essência. Compreensão não tem nada a ver com intelecto, memória, crenças ou tradições. Não tem nada a ver com o que temos estudado ou alguém mais nos tenha dito. Isso é informação intelectual e não compreensão. Lermos um monte de livros é um excelente exercício intelectual. Irmos a muitas palestras e aulas é também bom, mas é intelecto e não compreensão.

  Por compreensão entendemos o conhecimento adquirido pela consciência. Conhecimento que é parte de uma alma, parte de nossa essência. Compreensão é a parte do conhecimento que não se apaga ao morrermos. O tipo do conhecimento que temos quando nascemos é uma parte de nós. É um conhecimento que não tem um pensamento: é exatamente o que é.

  Não podemos adquirir compreensão simplesmente através de leituras de livros ou frequentando palestras; possamos ler todas as escrituras e tratados científicos do planeta, memoriza-los a todos, e ainda assim não termos sua compreensão. Observemos quantas das chamadas pessoas educadas conhecemos e apesar daquelas suas condições permanecem incrivelmente estúpidas, capazes dos mais terríveis crimes contra elas próprias e ao próximo. Educação, memorização, imitação não significam nada se não temos compreensão.

  Por outro lado, uma pessoa que nunca tenha lido nada, sendo completamente iletrada, pode incrivelmente ter entendimento, compreensão, sabedoria que são conhecimentos intuitivos e conscientes da realidade. Qualquer um de nós pode adquirir compreensão; não é assunto da educação, mas de estarmos usando a consciência na direção certa.

   Compreensão é um tipo de conhecimento, um tipo de entendimento que desenvolvemos ao aprendermos a usar a consciência, a entender a realidade. Ainda, compreensão combinada com educação é muito mais poderosa. Principalmente com ambas, educação e entendimento, necessitamos nos focalizar em fatos. Quando observamos os fatos e os compreendemos mudamos profundamente.

  Alguém que haja ouvido sobre o sofrimento da guerra traz o fato a nível bem diferente daquele que o tenha experienciado pessoalmente. Eis a diferença: se por um lado estão nossas ideias, teorias, crenças sobre algo, por outro lado estão a compreensão, o entendimento da experiência vivida e a observação da realidade.

  Necessário compreendermos a nós próprios se quisermos mudar profundamente. Se quisermos que nossa vida seja cheia de amor, paz, alegria, altruísmo e entendimento, precisamos então lograr êxito em situações de ódio, inveja, egoísmo, luxúria, dor, etc., daí, primeiramente precisarmos compreender aqueles defeitos. O que realmente significa compreender algo? Analisemos um pouco.

  Todos sabemos que ingestão de álcool é algo ruim para a saúde. Ainda assim observemos quantas pessoas bebem álcool! Igualmente todos sabemos que é ruim mentir, fofocar, fraudar, roubar e ainda assim desempenhamos cada uma dessas reprováveis ações. Desse modo termos a ideia de que algo seja ruim não é a mesma coisa que a compreendermos.

  Se nos sentarmos a beira do leito de uma pessoa que esteja morrendo de uma doença causada pelo álcool e conscientemente testemunharmos seu sofrimento, compreenderemos a realidade do álcool. Então iremos parar de beber.

  Quando somos roubados, nosso lar foi quebrado, nossas coisas pessoais foram levadas ou destruídas e se conscientemente observamos nossa dor compreenderemos como o roubo causa sofrimento. Assim pensaremos duas vezes se estivermos tentados a roubar. Entretanto, se alguém que não compreenda quiser “vingança” ou “o que lhe seja devido” e venha roubar de outros a fim de “obter o que merece”, naturalmente isso somente lhe causará mais sofrimentos.

  Comparativamente, se somos pegos a mentir e sentirmos conscientemente como nossas mentiras ferem a outros, então resolveremos contar verdades. Desse modo teremos compreendido que a mentira causa a dor. É neste caminho, pela experiência e consciente observância, que adquirimos compreensão.

  Ainda....é possível adquirirmos a compreensão sem termos sofrido a experiência através daquelas situações. Não temos de morrer de envenenamento por álcool para compreendermos o perigo daquilo; ao invés é somente necessário que nos tornermos suficientemente cônscios da realidade do álcool. Tornarmo-nos cônscios de uma realidade como esta é estarmos de tal forma aclarados sobre ela que não teremos a tentação de beber. Pois mesmo que fôssemos cercados por todas as mais caras e inacreditáveis bebidas alcoólicas que existam não nos sentiríamos tentados a beber. Porém se sentirmos tentação é devida a não compreendermos: logo temos ainda desejo.

  Através da meditação, pela ativação da consciência e observando os fatos de nossas vidas podemos adquirir profunda compreensão da verdade. E vendo-nos dentro das dificuldades e problemas em nossas vidas, compreendendo-as como se originaram, subsequentemente saberemos como muda-las. Esse é o valor da compreensão que nos mostra como nos elevarmos do sofrimento.

  Ademais, verdadeiramente, tendo uma vez compreendido algo, aquele conhecimento permanece conosco. Não pode ser retirado de nós. Quando descobrimos que uma pessoa de nossa amizade nos vem mentindo por um longo tempo ou fez algo realmente horrível, então tudo muda. Nunca mais voltamos a vê-la do mesmo modo de antes. Isso é semelhante com o que acontece com a compreensão: quando vermos que os comportamentos e qualidades de que tínhamos confiança por um longo período de vida foram na verdade as causas de nosso sofrimento, nunca mais os olharemos como antes, mesmo que queiramos. A compreensão nos muda.  

COMO A COMPREENSÃO DESPERTA

  Contudo podemos ver que a compreensão não desperta acidentalmente nem nos chega por um presente dos deuses. Ela está sujeita às leis. Assim, querendo compreender fundamentalmente a realidade de nossas vidas necessitamos trabalhar com aquelas leis.

  Primeiramente a compreensão é um resultado da lei de causa e efeito. Uma vez seja a compreensão uma função da consciência torna-se impossível termos compreensão se a consciência permanecer inativa, adormecida. Como resultado o primeiro passo é colocar a consciência em ativo estado de atenção momento a momento. É isso que por todo o curso tem sido o encorajamento para que façam: estar acordados momento a momento. Estar aqui e agora. Observem os fatos com total consciência do que estejam fazendo a cada momento.

  Se a consciência estiver ativa observando os fatos então aquela causa é capaz de produzir o resultado do entendimento, da compreensão. Pode soar-nos bastante simples e lógico agora, e não decepcionante, mas não estará acontecendo a menos que estejamos treinando para isso.

  Estamos adormecidos e fascinados pelas ilusões. Não estamos despertos e vendo a realidade. Então por primeiro temos de nos treinar a estarmos acordados e a romper com as ilusões onde nossa mente esteja constantemente navegando.

  No geral já temos estudado o processo essencial que conduz à compreensão, qual seja:

  Ética: pela adoção de ações benéficas, evitando ações nocivas e nos sacrificando por outros a consciência estará estabilizada, calma, serena.

  Samadhi: conquanto serena, a consciência consegue escapar de condições a que esteja presa; então estará livre para experienciar sua verdadeira natureza.

  Prajna: tendo agora clara percepção podemos ver o que seja real e compreensível.

  A palavra prajna literalmente significa “conhecimento além”. Isso descreve o conhecimento que está além do “pequeno conhecimento” (jnana) que temos em nosso intelecto. Prajna é conhecimento consciente, compreensão, aquilo que reside na verdadeira essência de nossa consciência; sendo o conhecimento que retemos mesmo depois da morte. Prajna também indica conhecimento do além, conhecimento das dimensões além do mundo físico, mas especialmente conhecimento do Absoluto, o Vazio, o fundamento.

  Para nosso objetivo hoje, prajna é conhecimento da realidade que não está filtrado de qualquer coisa terrena. Conforme já explanado, para adquirir prajna necessitamos do samadhi e para adquirir samadhi necessitamos ética (sila). Coloquemos esta estrutura em palavras comuns:

  1. Da base do comportamento ético (internamente e externamente) estabelecemos o estágio para a real meditação. Ética permite ao corpo e mente relaxar e concentrar.

  2. Através da meditação livramos a consciência de todos os fatores condicionantes: corpo, energia, emoção, pensamento, etc. Quando a consciência estiver liberta ela espontaneamente experiencia sua verdadeira natureza, que é felicidade (samadhi).

  3. Nesse estado, pela percepção de qualquer coisa acontecendo, é possível vermos a verdade daquilo, entendendo-a. Esse procedimento é prajna, compreensão.

  Contudo precisa ser bem entendido que a consciência começa a compreender no momento em que esteja ativa. Quando estamos nos observando conscientemente estamos em posição de entender o que percebemos e esse entendimento é compreensão. Entretanto ao nosso nível as coisas estão filtradas, influenciadas pela presença de todos os fatores condicionantes: fisicalidade, personalidade, emoções, envolvimentos, etc.

  Compreensão é possível a qualquer momento em que a consciência esteja presente e ativa. Ainda, para realmente entendermos algo devemos estar habilitados a percebe-lo inteiramente. Assim, a fim de percebemos inteiramente as causas do sofrimento – que são os desejos e impulsos em nossa mente – necessário ver as causas onde elas residem – e que não estão no mundo físico – mas nos mundos internos, dentro de nós. Eis porque na meditação precisarmos deixar o corpo para trás de modo que a consciência consiga entrar naqueles mundos para ver referidas causas face a face.

  A libertação do sofrimento é somente possível através da compreensão das suas causas. Contudo para adquirir aquela compreensão devemos nos tornar muito habilidosos com a meditação. E para nos tornar muito habilidosos com a meditação necessitamos de muito boa ética.

  Tendo estabelecido causas e condições – ética e meditação – como a compreensão surge? Surge pela ação da consciência.

  O intelecto sozinho não pode trazer compreensão. A emoção sozinha não pode trazer compreensão. Os sentidos físicos não podem trazer compreensão. Cada um deles pode participar e prover-nos com seu próprio ponto de vista, mas compreensão é uma manifestação da consciência. Sem dúvida. Uma vez que nosso intelecto, emoção e fisicalidade são tão corrompidos é mais que provável de virem interferir na compreensão ou mesmo impedi-la inteiramente. Eis porque é melhor meditar sem a interferência do intelecto, emoção ou sensação física.

  Em todos os níveis, sejam em nossa vida diária ou durante a meditação, o que nos traz compreensão é a consciência: aquele senso em nosso coração que conhece o certo do errado, que conhece como agirmos mesmo que não possa explicar o porquê. A consciência está conectada com a divindade em nós e se aprendermos ouví-la ela nos conduzirá para fora do sofrimento. Nosso problema reside em que não escutamos a nossa consciência. Ao invés escutamos aos nossos desejos.

  Nossa consciência sabe que não devemos trair a esposa, mas nosso desejo quer sexo e atenção e quando encontramos isso os desejos abafam a voz da consciência. Não a ouvimos. E quando a tempestade do desejo se acalma, novamente submergimos pela culpa e temos que manobrar com a consequência de nosso adultério. Sofremos e causamos sofrimento a outros. Se tivéssemos ouvido nossa consciência teríamos evitado tudo aquilo.

  A consciência é uma pequena centelha da inteligência que não raciocina nem sucumbe pela emoção ou sensação. É uma observadora, uma conhecedora e uma arauta do conhecimento. Ela expressa a vontade da divindade. Expressa o caminho para a libertação. Ela conhece o caminho para fora da escuridão. Simplesmente precisamos aprender como ouvi-la. A meditação é o caminho do aprendizado.

  Através da meditação, silenciando corpo, mente e emoção ativamos a consciência e sustentamos sua atividade. Nesse estado de ativa observação a consciência consegue ser ouvida claramente. Onde? No coração. Não como emoção, mas como intuição.

  A consciência é o embrião ou semente da intuição. Conforme libertamos a consciência do condicionamento ela se expande tornando-se um sentido muito poderoso que percebe e entende muito além da mente, emoção ou corpo. Daí, ao acessarmos o estado de meditação aquietando corpo, mente e emoção e colocando qualquer coisa diante da consciência – uma imagem, um problema, uma memória – a intuição pode então penetrar naquela coisa a fim de entende-la. É desse modo que adquirimos compreensão e entendimento. A mente não pode fazer isso. A emoção não pode fazer isso. O corpo não pode fazer isso. Somente a consciência pode.

  Assim é necessário aprender a pormos a consciência em ativo estado o tempo inteiro. Para isso ocorrer a consciência deve ser única no comando de tudo dentro de nós, ou seja: devemos usar o intelecto conscientemente, devemos usar a emoção conscientemente e o corpo conscientemente. Devemos usar os sentidos conscientemente. Isso significa o dia inteiro, a noite inteira, em todas as ações.

  Com essa dinâmica rapidamente expandimos a consciência e fortalecemos sua presença. Ficamos então acostumados com o sentido da consciência (intuição) que sabe o que fazer e quando. E eventualmente dessa dinâmica a compreensão emerge. 

  A compreensão emerge naturalmente, não pode ser forçada. Ela não responde à demanda, à intensificação ou à violência. Ao invés emerge como faz uma flor: naturalmente, através da nutrição e condições apropriadas.

  Quando quisermos entender um problema observemo-lo firme e pacientemente com grande atenção e serenidade, sem especulações, sem adivinhações, crenças ou análises; ao invés somente observemo-lo com renovado frescor como se observássemos um nascer do sol.

  Ao observarmos um nascer do sol não precisamos intelectualizar sobre o fato, etiqueta-lo ou descreve-lo; palavras interferem com sua beleza e obscurecem sua natural poesia. Do mesmo modo quando quisermos compreender qualquer coisa temos de observar sem a mente ou emoção  interferindo. Quando observamos um fenômeno desse modo – sem tentar muda-lo ou tirar algo dele – a compreensão inevitavelmente emerge. Entretanto, se estivermos a exigir; impacientes; frustrados; intensos, a compreensão nos fugirá.

  Ademais a compreensão emergirá por si mesma quando estiver pronta, exatamente como a flor que desabrocha em nosso jardim. Pode não desabrochar enquanto estivermos sentados em meditação. Pode desabrochar num sonho ou enquanto caminhamos ou trabalhamos. Pode desabrochar quanto lemos ou lavamos. No momento em que estiver pronta a emergir surgirá dentro de nós e subitamente compreenderemos, acariciando aquele maravilhoso sentimento do “A-há!”.

  A causa disso acontecer é a continuidade da consciente ação em nossas atividades diárias e nas práticas da meditação. Se estivermos sempre nos esforçando em nossa observância, e presentes, meditando diariamente tanto quanto possamos, a dinâmica da compreensão é posta em movimento. Tanto mais energia invistamos na continuidade da ação consciente mais dinâmica nossa compreensão virá a ser. É física simples: ação e consequência.

  Então usemos corpo, intelecto e emoção conscientemente, mas deixemos a consciência estar no comando.

EXERCÍCIOS

  1. Diariamente aprofundar-se e expandir sua auto-observância.
  2. Diariamente praticar retrospecção meditativa.
  3. Não especular, teorizar ou intelectualizar sobre fatos que esteja observando.
  4. Anotar os fatos de seu dia em seu diário espiritual.

  Pensamento do Dia: “Se você obtiver conhecimento da luz comece por discutir a escuridão. Se considerar a Verdade comece por discutir a falsidade, o oposto.

POR UM INSTRUTOR GNÓSTICO



  Tradução Inglês / Português: Rayom Ra

                                                        Rayom Ra
                                     http://arcadeouro.blogspot.com.br

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Fundamentos da Meditação (11) - Ilusão e Realidade


tibetan painting of meditation

Figura 1

  Quando a consciência se torna estável e desenvolvemos aquela flexibilidade em que o corpo e a mente tornam-se subservientes à consciência, então somos capazes de olhar as coisas e não ficarmos presos a elas – unicamente as vermos como elas são. A consciência liberta passa a ver o corpo exatamente como corpo, não mais como sua identidade. A consciência vê a energia simplesmente como ela é: exatamente energia, e não algo para ser por ela fascinada, com ela identificada ou para jogos. É algo para ser amada e usada com sapiência, para sentir emoções como elas são, as vibrações do corpo astral, os conteúdos psicológicos que refletem as impressões boas ou más transformadas.”

O Início da Meditação

  Até agora temos falado sobre técnicas da meditação, terminologias da meditação, fundamentos da meditação, formatos e estruturas da meditação e especificamente como a meditação está ilustrada nas tradições budistas tibetanas, através das pinturas dos nove estágios do Shamatha ou consistência da meditação.

shamatha lg

Figura 2

  Esses estágios da estabilidade meditativa ou serenidade são observações experienciais das qualidades do coração, mente e corpo necessárias a experienciarmos para sucessivos alcances do que seja a chamada “flexibilidade”, ilustrada ao alto dessa imagem.  Flexibilidade é uma qualidade da experiência física e psicológica onde nosso corpo e mente tornam-se obedientes, inclinados a auxiliar-nos em nossa vida espiritual ao invés de se tornarem obstáculos ou impedimentos. A maioria das pessoas ao tentar aprender a meditar acha que o corpo e a mente não ficarão quietos. São por demais agitados, com muitos desejos, desconfortos, sempre buscando distrações, com coceiras e dores, com fome e sede e com todas as diferentes coisas que o corpo requer bem como requer a mente com seus pensamentos e sentimentos, memórias, preocupações e projeções. É todo esse caos físico e psicológico que nos aflige e nos dificulta ao aprendizado do que realmente seja meditação.

  As primeiras dez palestras deste curso têm sido sobre o que necessitamos entender a fim de largarmos esse estado de caos onde temos permanecido e adentrarmos física e psicologicamente num estado de serenidade. Ninguém pode nos proporcionar isso. Não podemos comprá-lo. Não podemos encontrá-lo em qualquer outro país ou cidade, não conseguimos achá-lo em nenhum lugar exceto dentro de nós próprios, sendo algo que precisa ser cultivado pelas escolhas que fizermos momento a momento.

  Como se dá a escolha do uso do corpo se nossa mente cria o estado experiencial que estamos tendo nesse momento? Se estamos estressados, agitados, em conflitos, nublados por pensamentos, emoções e desconfortos físicos, devem-se ao modo com que estamos manobrando nosso corpo e mente a cada momento experienciado. Isso é causa e efeito. Produzimos as causas que resultaram nos efeitos que agora experienciamos. Meditação é exatamente a base fundamental da causa e efeito. Se produzirmos as causas manobrando sabiamente com nosso corpo e mente criamos o efeito da serenidade. Não depende do tempo, do dinheiro, do status, do quanto ou onde vivamos. É de outro modo inteiramente dependente de como usamos a nossa total energia e nada mais.

  Entendamos que esse estado de serenidade seja tão importante porque é necessário. Primeiramente é importante devido ao nosso atual e corrente estado de sofrimento e todos podemos concordar com isso. Ao falarmos do que seja sofrimento não é meramente porque o sofrimento esteja localizado no físico, mental ou emocional, mas por ser um profundo estado de não sabermos. Não sabermos quem somos ou porque estamos aqui sofrendo a incerteza de nosso futuro e de nossa busca. De não sabermos quando e como morreremos.

  Na verdade nos encontramos só ligeiramente conscientes do fato de que morreremos. Não estamos preparados para isso pois essa fundamental ignorância não nos quer manobrando com a inevitabilidade da morte. Preferimos evitar isso e nos distrairmos ao invés de nos prepararmos. Esse profundo estado de ignorância é verdadeiramente a base significativa de todas as religiões mundiais: esse estado de sofrimento da humanidade, de como manobrar e realizar mudanças.

Bhavachakra: A Roda do Tornar-se

  No budismo isso é conhecidamente ilustrado numa imagem chamada Bhavachakra. A maioria das pessoas a chamam a Roda do Samsara, a Roda da Vida, mas esses não são os seus nomes. O verdadeiro nome é Bhavachakra, que significa “Roda do Tornar-se” e esse é um termo muito significativo. (nota do tradutor: versão livre de algo como “roda do transformar-se”,”roda do vir a ser” “roda do porvir”, “roda do colher”, etc). Já demos um curso sobre o assunto. Se estiverem interessados em aprender mais sobre isso vejam [Bhavachakra Course]. [Ver também nossa postagem traduzida: https://arcadeouro.blogspot.com/2019/11/bhavachakra-roda-do-tornar-se-roda-do.html]. O que a Roda ilustra não é simplesmente o mundo exterior que a maioria das pessoas assim estudam de modo literal num nível de jardim da infância.

bhavachakra

  Figura 3

  Nessa grande Roda da Existência nos domínios de Yama o Deus da Morte, é onde estão desdobrados os seis reinos através dos quais todos os seres transmigram. Ali existe esse significado, porém o maior significado esotérico é aquele onde a Roda por inteira desdobra acerca de nossa mente e como a mente funciona. E também em como experienciamos a vida. Os objetos de nossa psique estão ali refletidos. Essa Roda na qual todas as coisas existentes se movem, subindo e descendo, está permanentemente acontecendo em nossas vidas o tempo inteiro e quando observamos nossa mente conforme explicado nos procedimentos desse curso, descobrimos que temos enorme elenco de vontades contraditórias que são os diferentes tipos de entidades viventes em nós.

  Numa dada situação podemos sentir-nos muito arrogantes, muito orgulhosos. Podemos parecer possuindo o melhor de tudo e provavelmente a maioria de nós negaria isso. Contudo se alguém desse grupo fosse para a Índia, Síria, a certas partes da África, pareceria um Deus, visto que teria acesso a qualquer coisa que desejasse em assuntos de comida, sobrevivência, qualidades de bens ou a qualquer outro tipo de disponibilidade. Estamos nos incluindo no contexto geral de pessoas do grupo da humanidade que vive no ocidente parecendo Deuses, uma vez que a maioria das pessoas no mundo não possuem o que os ocidentais possuem.

  Esse é o reino do topo, o nível dos Deuses. Normalmente ao enfocarmos isso parece-nos estarmos a imaginar os Deuses das mitologias, entretanto detemos em nós os aspectos psicológicos do orgulho, arrogância, do bem estar e apegos as nossas coisas. Esses são os defeitos dos deuses que podemos comparar como se fossem as formas dos defeitos terrenos excessivamente materialistas.

  Possuímos também porções animalescas ou partes disso, aspectos em nós que são muito instintuais. Por exemplo: estamos sempre temerosos por nossa segurança. Ficamos sempre terrificados sobre nossa posição ou finanças. Isso é instinto animal, tipo qualidade de aspectos psicológicos. Naturalmente temos os nossos diabos e demônios em nossos domínios inferiores que se expressam através do ódio, violência, roubo e crueldade. Nenhum de nós admite sermos assim, mas temos tudo isso. Se duvidarmos, observemos como nossa mente fala com as demais pessoas. Se alguém nos dá um corte na rodovia em que dirigimos ouçamos a linguagem de nossa mente, o palavreado chulo, a violência do pensamento que descarregamos sobre aquela pessoa. Isso não é uma qualidade humana, mas qualidade demoníaca que todos possuímos.

  Vejamos então essa grande Roda a demonstrar todos os elementos contraditórios e conflitantes que vão surgindo em nossa atmosfera psicológica o tempo inteiro. Não é um mapa do que esteja fora de nós, mas daquilo que está dentro de nós. O mais significativo de tudo sobre essa grande Roda é seu eixo. Vejamos que a Roda é algo poderoso e depende inteiramente do ponto em torno do qual ela gira. Se o ponto central estiver danificado a Roda por inteiro virá cessar seu funcionamento.

  Desse modo o Bhavachakra, que é a Roda de nossa psique, tem um eixo central, e se conseguirmos compreender acerca daquele eixo, podemos muda-lo – podemos mudar a Roda. E a Roda do Tornar-se sobre a qual normal e repetidamente estamos circulando, adiciona na palavra “circulando” o significado sânscrito do Samsara. Assim sendo é aqui onde a palavra Samsara entra no jogo dessa Roda, pois estamos sempre circulando.

  A maioria das pessoas pensa, quando estuda esse tipo de material, que a liberação ou libertação do sofrimento, tem a ver com uma bênção dada pelos deuses ao seu desempenho em alguma grande tarefa em favor de um determinado deus – como exemplo de uma repetição de um mantra ou a um demonstrar de sua crença em tais e tais coisas –  tornando-se assim um devoto seguidor da religião que herdou de seus familiares, etc. E que ao seguir as regras e preceitos de sua religião esta, um dia, o fará liberto de todas as coisas.

  Entretanto em lugar algum na natureza encontramos que a lei cessa de operar em virtude daquilo que alguém crê. Não acontece em lugar algum, não há qualquer escritura que adicione isso. Mesmo Jesus dizia não ter vindo negar a lei, mas confirma-la. Para nos tornarmos libertos isso não é assunto de crença ou tradição. De todos os modos – isto sim – é trabalho de purgação, daquilo que nos causa sofrimento.

  Sofremos porque temos ódio; temos luxúria, orgulho, inveja, medo, avareza e preguiça. Essas qualidades conduzem ao “crime”, às ações nocivas e são as causas de nosso pessoal sofrimento e dos demais. Eis porque cada escritura no mundo alerta-nos de que nenhum idólatra, assassino, adúltero, fornicador ou ladrão pode entrar nos reinos paradisíacos uma vez que os resultados criados por suas ações os aprisionam em níveis inferiores. É isso que essa Roda revela. Mesmo os Deuses estão aprisionados aqui. Estão armadilhados por envolvimentos com seus poderes, com suas posses e status. Cada nível é uma gaiola e o único modo de nos libertarmos dessa Roda é entende-la no que ela gradativamente representa. É compreender a realidade básica de nossas vivências e romper com a ilusão. Vemos os Deuses sofrerem na ilusão tanto quanto os demônios. Todas as escrituras no mundo descrevem essas mesmas coisas a seus modos.

  A libertação virá acontecer quando estivermos convivendo intimamente com a verdade. Não é unicamente vê-la, porém compreende-la. É isso o que Nagarjuna, o grande instrutor budista disse: “Estaremos libertos quando nossas ilusões e ações cármicas estiverem esgotadas”.

  Ilusões são as histórias que contamos a nós próprios psicologicamente. São nossas enganosas percepções da realidade. Ações cármicas contaminadas são todas as coisas que tenhamos feito durante a influência das ilusões.

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  Figura 4

  A parte central daquela Roda mostra simbolicamente três criaturas. Ali o mais importante dos símbolos está representado por um cão ou um porco, traduzindo simplesmente a “ignorância”. Não é aquela ignorância de alguém que nunca tenha aprendido a ler ou a escrever, mas a fundamental falta do conhecimento. É o não saber do que é real e por conta disso todos nós estamos num estado de ignorância. Pois cada um acredita em Deus, mas quantos conhecem Deus de sua pessoal experiência? À maioria das pessoas que afirmasse conhecer tal coisa poderíamos chama-la de maluca. Muito embora sejamos pessoas espiritualistas e amemos religião e misticismo, se ouvirmos alguém a dizer “oh! Tive uma experiência com Deus e falei com Ele”, a olharemos e nos expressaremos: “uau”! Está doida!”. É uma grande contradição. Pessoas religiosas que estudam Deus devem também admitir que é possível saber por sua própria e exata experiência o que seja Deus e que realidade Ele é.

  Essa básica ignorância é proveniente da falta de conhecimento do que seja a realidade e sofremos disso por termos um grande vazio em nós. Enorme esfera de dúvida e de ansiedade íntima nos oprime, sendo tão poderosa que no exato instante de nossa vida em que nos preparamos contra isso, fugimos terrificados, imersos em qualquer outra coisa que consiga obscurecer aquele sentimento de terror.

  Por exemplo: quando ficamos crescidos e entramos por essas questões do quem sou eu, qual é minha intenção e no que estarei me tornando, e falhamos na obtenção das respostas, voltamo-nos então para aquilo que nossos amigos fazem para se distrair – drogas, sexo, rock and roll, carreira, dinheiro, posses, casamento, ter filhos – e a todas as demais coisas que a sociedade nos diz satisfazer-nos.

  Perseguimos a todas. Conseguimos dinheiro, família: esposa, crianças – temos drogas, rock and roll, sexo e outras coisas que antes supúnhamos nos preencheriam e que nelas encontraríamos plena satisfação. Porém todas elas nunca nos satisfazem. Estão simplesmente cortinando aquela básica e irrespondida inquirição que nos causa tamanho desconforto, e ao invés de sabermos conviver com essa ignorância nos tornamos vítimas dos desejos. Tornamo-nos prisioneiros. Começamos a satisfazer todos os nossos desejos na intenção de evitarmos aquela básica e irrespondível inquirição, e gradualmente os apegos e desejos nos subjugam. Então aqui o pássaro representa a enorme diversidade de desejos e apegos.

 Na cultura asiática isso é representado por um pássaro uma vez que há certos tipos de pessoas que permanecem presos a um marido ou a uma esposa, podemos assim dizer, e seus comportamentos tornam-se extremos naquelas ligações. Assim aquela cultura usa o pássaro a fim de a isso representar. Simplesmente representa uma qualidade psicológica, uma básica e destacada qualidade fundamental de nossa psique, qual seja: estarmos sempre buscando por algo que não temos.

  Mesmo quando alcançamos algo não ficamos satisfeitos. Podemos viver décadas na perseguição a um objetivo e tendo completado a busca podemos nos satisfazer por cinco minutos, então uma profunda insatisfação logo emerge, nos resgata; ela ainda está lá e nos lançamos pela busca de algo a mais a fim de nos satisfazer daquela sensação de vazio, de não termos aquilo de que necessitamos. Estamos sempre buscando fora de nós por algo que nos satisfaça daquele inerente desejo, daquele anseio que nos conduz física, emocional e mentalmente.

  Ao mesmo tempo queremos evitar qualquer coisa que contradiga nosso sentido de self, que contradiga a um objetivo e ao que valorizamos. Queremos evitar dores. Queremos evitar alguém que nos faça sentir inferiores. Temos então estas três qualidades:

  1. Ignorância (cão/porco)
  2. Desejo (pássaro)
  3. Aversão (cobra)

  Elas formam a dinâmica básica de nossa inteira experiência desse atual tempo de vida e de tempos anteriores. Nesse momento essas três forças estão ativas em cada um de nós, porém não somos conscientes delas. Elas são a base de cada um de nossos pensamentos. São a base de cada emoção e cada sensação. Por exemplo: vemos uma propaganda e não estamos realmente prestando atenção nela, entretanto o anúncio comercial está em verdade fluindo através de nós. Então em algum momento despertamos ao fato de termos o desejo de possuir aquela coisa mostrada pelo comercial, mas não sabemos por que. E começamos exatamente a pensar sobre a coisa. “Oh! Seria muito bom. Talvez eu deva ter aquela coisa”. Embora tenhamos visto que as imagens daquele comercial mostravam pessoas alegres e sorridentes, parecendo contentes, mas que em verdade o que desejamos intimamente é a mesma qualidade emocional das pessoas conforme mostrada, passamos a acreditar que o produto anunciado é o que nos satisfará. De fato não é o produto, pois o que queremos é afastar o sofrimento que em certos momentos dele somos possuídos. Entendem essa dinâmica?

  Desejamos algo externo a fim de evitar a dor, mas existe uma dinâmica, pela ignorância fundamental, de uma realidade estabelecida em muitos níveis. Aquele objeto não nos trará a felicidade. Não seremos iguais as pessoas daquele comercial. Ao invés passaremos dias e dias em nosso trabalho nos escravizando a fim de ganhar o dinheiro para comprar aquela coisa. Compramo-la, trazemo-la para casa e ficamos felizes por cinco minutos e então, de novo descontentes começamos a buscar alguma outra coisa. Eis como a vida trabalha na era moderna e tem sido assim por século com todos os tipos de variações, mas com a mesma básica dinâmica. Nunca contentes, sempre desejosos, sempre ignorantes, e o resultado é o sofrimento.

  É sobre isso que a Roda gira integralmente. É tanto verdadeiro para aqueles que estão assolados pela pobreza como é para aqueles que estão fabulosamente ricos. As circunstâncias exteriores podem ter grande diversidade, porém a experiência psicológica é rigorosamente a mesma. Todos estão sofrendo intensamente!

  Querendo aprender a meditar vem a ser uma das razões a desejarmos descobrir como essas três forças estão nos destruindo. Elas fazem isso momento a momento. Nós como pessoas viventes num corpo físico temos nossas emoções, nossos pensamentos e habilidades para agir.

  Sintetizamos isso chamando-as de os três cérebros:

  1. Intelecto
  2. Emoção
  3. Corpo (motor, instinto, sexo)

  O corpo pode ser algo explicado como tendo motor, instinto e sexo. Esses três: motor, instinto e sexo são funções da fisicalidade. Utilizamos essas forças através do corpo; então podemos sintetiza-las em uma só coisa. Temos aqui três cérebros, três centros de nossas atividades primárias que são independentes uns dos outros, estando usualmente em grande desarmonia entre eles. Temos certos tipos de continuados pensamentos, diferentes tipos de sentimentos, porém o corpo estará realizando inteiramente outras coisas além. Raramente todas aquelas coisas estarão integradas e agindo em harmonia entre elas.

  Em meio a isso estamos sendo constantemente assaltados por impressões. Impressões são as percepções que recebemos através de nossa mente, visão, audição, tato, paladar e olfato. Em outras palavras: através de nossos seis sentidos. Sim, seis, não exatamente cinco sentidos. Os cinco sentidos são as janelas através das quais percebemos fisicamente; entretanto temos outro sentido que é a habilidade de sentir fenômenos psicológicos, como pensamentos e emoções.

  Esse sentido é verdadeiramente muito poderoso. Necessitamos reconhece-lo em consonância com aqueles demais sentidos. Então nesse dado momento, exatamente agora, todos nós estamos recebendo dados sensórios através desses seis sentidos. Recebemos através do tato, paladar, olfato, audição, visão, informações psicológicas e todos os dados recebidos estão constantemente nos assaltando, sendo transformados através de nossos três cérebros.

  Ou seja: estamos reagindo pelo que percebemos, mas não somos conscientes daquilo. Sobretudo não estamos no controle; as coisas acontecem e reagimos automaticamente. Se alguém na estrada nos corta temos um rompante de raiva e pensamentos de ódio em mente; o corpo então fica bastante tenso e vem-nos o impulso de irmos nos vingar, nos posicionando a frente do outro para também cortá-lo, certo? Assim, pois, acontece uma interação muito rápida entre as percepções e a mente. O corpo é exatamente um reflexo adicional daquela reação.
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  Figura 5

  Aquele que deseja aprender como meditar precisa tornar-se capaz de ir percebendo essas coisas constantemente. Não somente de ir percebendo, mas também de estar ao comando conscientemente. Ser capaz de receber todos esses pensamentos e emoções, avaliando mentalmente tudo o que vê, ouve, toca, experiencia e cheira, escolhendo as reações e respostas mais apropriadas. Não, simples e exatamente, para tê-las acontecendo, mas para escolhe-las. Assim quando estamos numa loja e tratamos com uma pessoa muito zangada, ao invés de sentirmos raiva em troca, que seria nossa reação natural, ou ficarmos com medo e desejarmos nos afastar dali, devemos ser capazes de observar aquela pessoa e compreende-la.

  Vejam que normalmente nos meteríamos numa luta ou em argumentos ou escaparíamos assustados com nosso coração palpitando, querendo sair daquela situação. Aqui a ignorância, ansiedade e aversão normalmente causariam uma reação. Alguém sendo conscientemente conhecedora percebe quem é aquela pessoa e compreende que a pessoa zangada está num entremeio de ignorância, ânsia e aversão, sofrendo, e sua explosão de ódio deve-se unicamente a uma expressão de dor. Por que então responder e nos adicionarmos àquele sofrimento? Por que ficar raivosos em resposta a alguém que seja doente e sofredora? Seria cruel, sem sentido e provavelmente causaria mais dor, mais sofrimento. Vejam que isso é um simples exemplo.

  Cognição nesse tipo de relacionamento entre as impressões e a psique é o que produz o efeito que experienciamos psicologicamente. Se nossa mente está agitada, se estamos tendo emoções, dúvidas, medos, ansiedades, incertezas, todos os tipos de dores, todos os tipos de conflitos psicológicos são devidos a que esses processos estão acontecendo sem estarmos no pessoal controle nem estarmos a dirigir nossa vida apropriadamente. Em outras palavras: achamos que aquilo que vemos sentimos e pensamos seja exatamente a maneira certa em como vemos, e aqui reside nosso problema. Nossa esposa, nosso amor nos chega aborrecida e zangada e retribuímos ficando também zangados por que unicamente temos aquela percepção pensando que seja o real. Então respondemos do modo como percebemos, mas não estamos vendo a realidade. Estamos vendo as desilusões.

  Por exemplo: duas pessoas veem um mesmo oficial de polícia. Cada uma responderá a esse momento diferentemente. Aquela que tenha tido más experiências com a polícia no passado, que tenha vivido num lugar onde a policia seja opressora, estupradora, assassina – sentirá ódio, medo ou terror. Aquela que tenha um membro familiar que seja um oficial de polícia sentirá calor – um sentido de conexão, um sentido de familiaridade ou irmandade. É a mesma imagem do mesmo oficial de polícia que ali está, porém as reações dos indivíduos em questão que o percebem são completamente diferentes e nenhuma é a real. Nenhuma das duas é a realidade.

  Cada indivíduo está simplesmente retratando aquelas impressões que estão sendo traduzidas psicologicamente. Nenhuma das duas pessoas está vendo a verdade. Nenhuma! Não estão vendo o oficial de polícia como ele é. Não veem sua psique, suas experiências, suas dores, seus sofrimentos e seu conteúdo básico. Não veem absolutamente nada disso. O que veem são pessoais impressões sobre ele e como suas mentes interpretam aquelas impressões. Rapaziada, vocês estão seguindo o que eu estou destacando? Em outras palavras: tudo o que estamos percebendo é como se fosse através de um espelho nebuloso, e tudo o que o espelho reflete é o conteúdo de nossa própria psique. Nunca vemos a realidade. Somente vemos reflexos do que psicologicamente está se passando em nós.

  Quando sairmos daqui, andarmos e estivermos no parque de estacionamento, na verdade não o veremos por que nossa mente já estará pensando onde iremos logo em seguida ou o que iremos fazer no próximo e exato instante. Não veremos onde estaremos. Não estaremos cônscios do local no momento pois nossa mente já estará em algum outro lugar. Quando em nosso emprego realizando o nosso trabalho, o corpo físico poderá estar se desempenhando das tarefas, mas a mente estará lá atrás com nossos dez anos de idade, nos divertindo gostosamente no verão com amigos....

 Somos completamente distraídos. Agora nesse instante todos estão pensando sobre isso, certo? Ninguém está realmente ouvindo o que eu estou dizendo. Estão começando a voltar-se para suas pessoais memórias recordando quando tinham dez anos de idade. Veem como isso trabalha? A desconexão entre o que realmente está acontecendo e o que a mente está refletindo através das impressões transformadas? Desse modo entendemos que meditação não é exatamente sobre aqueles poucos minutos durante os quais nos sentamos em nossa cadeira ou colchão. Meditação é sobre o que vemos o tempo inteiro. Sobre como percebemos. Tanto mais nos coloquemos frouxamente vendo só as nebulosas imagens de nossa psique transformando impressões, nunca sentiremos a verdade, a realidade. Os esforços do meditante é para expandir a consciência dramaticamente. É para quebrar a desilusão da psique preguiçosa e expandir a fim de conseguir ver o que é real, discriminando a ilusão do real.
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  Figura 6

  Esta Árvore é a densidade dos estados relativos. Os estados mais baixos são extremamente pesados e completamente ilusórios. Tudo parece real, mas esse tudo é uma mentira. Quanto mais alto ascendamos nesse mapa mais perto chegamos do que seja fundamentalmente real. É muito claro, mais expansivo e menos condicionante. Existem leis. No topo elas são mais simples, porém embaixo todas as coisas são muito complexas. Esta é a essência da sua estrutura.

  Nossa habilidade em existirmos e termos vida deve-se a que dentro de nós há uma chama de viva energia que universalmente tem diferentes nomes. No oeste é chamada Cristo. É uma Luz, um Fogo, uma Energia, uma Inteligência, uma Força. No leste tem muitos nomes. O mais interessante – e do que estaremos falando hoje por todo o restante da palestra – é de um tipo de energia, um tipo da principal presença que permite a cada coisa vivente existir. É um Raio que se lança para baixo desta Árvore da Vida dando crescimento a todas as coisas. Esse Raio, essa Luz, essa Inteligência, essa Energia está aqui e agora. É nossa habilidade em perceber, nossa função fundamental.

  Se aprendermos a nos centrar naquele estado de consciência, de simples percepção, separados de todas as coisas percebidas, podemos tocar naquela força fundamental e experienciá-la, conhecendo-a, encontrando a serenidade, o conhecimento, a visão interior, a sabedoria, a compaixão e despertar grande dedicação. Todas as virtudes que observamos em todos os profetas e santos são expressões daquela Luz. É aquela Luz que emerge do Vazio, do Absoluto. Para compreender isso temos que compreender um pouco mais desta Árvore.

KAYA

  Há uma palavra em sânscrito chamada “kaya”, usualmente traduzida para significar “corpo”. Porém, exatamente como nosso corpo físico é uma unidade de muitas coisas, então o termo é “kaya”. Ao observarmos nosso corpo físico vemos que realmente não é uma só coisa. O corpo físico é uma montagem de muitas partes que funcionam juntas para dar-nos vida. O termo “kaya” implica na mesma coisa, mas é um termo muito específico usado na filosofia asiática para referir a parte superior da trindade na Árvore da Vida. Bem, toda religião tem uma trindade e há uma razão para isso.

  No oeste sabemos sobre o Pai, Filho e Espírito Santo. A correspondência a isso no induismo é: Brahma, Vishnu e Shiva. A mesma e exata função no budismo é o Trikaya ou três kayas: Dharmakaya, Sambhogakaya e Nirmanakaya. É a Trindade, uma forma simbólica que representa a estrutura básica na natureza. Essa Árvore é um ciclo ou uma série de trindades – uma trindade superior, uma trindade média, uma trindade inferior e uma pendurada no fundo, de um mundo decadente, o nosso mundo físico.

  A trindade superior é a interior que se encontra sobre cada coisa: Pai, Filho e Espírito Santo. Em hebreu: Kether, Chokmah, Binah. Kether significa “coroa”. Em qualquer lugar na Bíblia onde leiamos a palavra “coroa” (crown em Inglês), que no hebreu é Kether, tem o seu significado, não sendo unicamente coroa. Está se referindo espiritualmente àquela nossa parte. Chokmah significa “Sabedoria” em hebreu, e de novo, não é exatamente aquilo que possamos ler num livro. Essa é um tipo de penetrante iluminação íntima na natureza fundamental da realidade. Ademais, Chokmah é uma expressão universal. Se pudermos imaginar cada ser iluminado, cada buda, cada anjo, cada deus em todos os universos e todo o amor deles, isso é Chokmah. É a unidade de todas as coisas iluminadas como uma expressão única de pura compaixão. Isso é Chokmah. É totalmente simples, totalmente pura, totalmente amor radiante. Isso é Chokmah. Binah é hebreu para “Inteligência”.

  O estado fundamental do ser, o ponto Kether, que emerge do nada: a primeira coisa que surge da não existência para a existência é o Pai – a radiante e incompressível Divindade que irradia como aquela grande compaixão atuando através da inteligência. Eis como a Trindade trabalha através de toda a natureza. É muito sutil, muito elevada e está em nós, em cada um de nós. Daí que a luz irradiando dentro da densidade da natureza se torna Espírito, torna-se consciência abstrata, pensamento abstrato, mente concreta, emoção, energia, fisicalidade ... e aqui estamos fascinados pelas ilusões, totalmente ignorantes de onde veio esta centelha do estado de ser. Se pudermos sair das ilusões, vê-las o que elas são, podemos então restaurar de volta nossa conexão com aquela causa principal e de novo experienciar a realidade: essa realidade que está dentro de nós.

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  Figura 7

  Aquela Trikaya: Dharmakaya, Sambhogakaya e Nirmanakaya, no budismo é tratada sobre os corpos a fim de nos ajudar a compreender o que são. Dharmakaya é o corpo da verdade ou o corpo da realidade. Sambhogakaya é o corpo da alegria ou fonte perfeita. Nirmanakaya é o corpo da transformação. Não são corpos como nosso corpo físico. São qualidades abstratas do ser. São difíceis de serem compreendidas intelectualmente. Contudo, o que é significativo para a compreensão ao nosso nível é que esses são degraus de luzes, tipos de inteligências que temos dentro de nós, a verdadeira natureza raiz de nosso estado de ser. E se tivermos a capacidade, o treinamento, para recuar de todas as formas de delírios e nos centrarmos mais e mais profundamente, podemos tocá-las e experiencia-las, e aquelas experiências transformam radicalmente uma pessoa.

  Essa experiência pode ser obtida em nossa vigília, no processo da entrada do sono, que é um processo chamado “dream yoga”, e no momento da morte. Há muitas significativas oportunidades no curso de nossas existências em que podemos obter isso, reconhecer o que seja nossa real natureza, a realidade fundamental, e nela experienciarmos que todas as coisas que achávamos tão importantes eram simplesmente ilusões completamente insignificantes, e a realidade verdadeira e fundamental é a compreensão daquilo que vem alinhada com a grande inteligência.

  Quando estudamos as vidas de grandes mestres, budas, santos e profetas vemos sempre essas particulares qualidades. Eles sempre compreendem a realidade. Eles sempre têm grande compaixão e sempre têm uma tremenda inteligência capaz de adentrar nos mais cruciais problemas, de tal forma que nos deixam desconcertados. Estudem as vidas de Jesus, Krishna e Moisés e verificarão isso. Um tipo de psicologia que não é como a nossa, mas que vem sempre acompanhada por tremenda compaixão e inteligência. É assim como esse Trikaya trabalha.

  Classicamente no budismo isso é representado por um espelho a fim de nos lembrar que o que estamos buscando espiritualmente não está fora de nós. Está no espelho. A mente é um espelho. Tudo o que vemos está refletido, mas esquecemos aquilo. O que nos acontece quando assistimos TV, quando assistimos um filme, quando jogamos um vídeo game ou lemos um livro? Não nos tornamos naquilo que estamos lendo? Não esquecemos nosso corpo? Não pensamos naquilo que fazemos? Observemos e descubramos que quando estamos assistindo aquele show na TV nos tornamos no que estamos vendo. Esquecemos completamente de nós. Esquecemos a sala onde estamos e de nosso próprio corpo. Nos tornamos o ator e a experiência. Nosso coração aumenta com as emoções. Nosso corpo salta em reação às coisas que estamos vendo na tela por que nos esquecemos de nós próprios.
        
  Em outras palavras: nos tornamos hipnotizados pela ilusão. Nenhum de nós gosta de admitir tal coisa, mas é exatamente o que acontece quando também jogamos vídeo games ou assistimos TV, filmes ou a internet.  Esquecemo-nos de nós próprios nos tornando totalmente imersos numa experiência psicológica que é 100% ilusória. Não é real! Pensamos que seja real. O corpo, o coração, a mente pensam que seja real, mas não é.
 
  Mesmo que logicamente digamos a nós próprios: “Oh! Eu sei que isso é um show, são somente atores, ou exatamente gráficos de computador e sei que nada disso é real”. Mas não sabemos que psicológica e fisicamente estamos respondendo àquelas cenas e eventos como se estivessem realmente acontecendo. Eis porque quando o herói está em grande perigo ficamos nervosos, tensos e sentimos calafrios porque nosso coração e mente sentem que aquilo seja real, uma vez que não estamos cônscios de nós próprios e do que estejamos fazendo. Ou seja, estamos adormecidos, sonhando com a ilusão da tela.

  Fazemos a mesma coisa a noite inteira enquanto o corpo está descansando. Fazemos também o dia inteiro por que estamos engajados no exato mesmo tipo de hipnose com o conteúdo de nossa mente. Pensando, pensando, pensando! Imaginando conversas, imaginando eventos e cenas que não existem. Vemos uma pessoa atrativa e começamos a imaginar como seria nossa vida com ela ou enquanto dirigimos o carro pensamos sobre aquelas cenas: ”Eu gostaria de saber como ela seria. Nossas vidas seriam talvez assim ou assim? Oh! Sinto falta de minha amiga do colégio!” e vagueamos em torno, psicologicamente fascinados por ilusões.

  Quando vamos para um confronto com alguém começamos a imaginar àquela cena, à conversa, o que iremos dizer, o que a pessoa irá dizer e reagimos àquilo fisicamente, psicologicamente – o corpo estará reagindo, a mente estará reagindo, mas nada disso é real! Não estamos vendo a realidade naquele instante onde estamos ou no que estejamos fazendo. Estamos ali fascinados por nossa própria mente, adormecidos. Não estamos vendo a realidade. Essa é a nossa vida!

  Gastamos toda a nossa vida dessa maneira, completamente fascinados por ilusões, conduzidos por desejos e aversões, imaginando essas conversas com pessoas, querendo afetos, aprovações e atenções, tentando evitar sermos feridos ou rejeitados. Tudo enquanto principalmente ignorarmos a verdade, a realidade do onde estamos, de nossos pés no chão, de nossos olhos que não veem o que realmente está acontecendo. Por isso a humanidade sofre. Ninguém está aqui. Todos os que encontramos não estão ali! Seus corpos físicos podem estar ali, mas suas psiques estão em algum outro lugar. Nenhum de nós encontra outro “olho-a-olho”, “cara-a-cara”, consciência a consciência e nos engajamos mutuamente. Talvez num lampejo, por um momento, uma vez ou outra, mas na maior parte do tempo são ilusões conversando com ilusões. Na verdade não vemos a outro. Não vemos a nós próprios. Eis porque o espelho é tão importante. Vermo-nos e compreendermos que se pudermos romper com todas as ilusões, conseguiremos estabelecer a realidade.

  Precisamos reconhecer que o Dharmakaya não está fora de nós, mas em nós! Dharmakaya representa Kether, o mais alto pico da Árvore da Vida. É um profundo extremo, um nível abstrato da natureza, mas está aqui e agora. Falta-nos exatamente a capacidade em sermos cônscios dele, porém um Mestre é cônscio. Pode não soar importante ao nosso nível, mas sermos cônscios é a coisa da maior importância – conhece-lo! É o Ser do estado de ser. A expressão fundamental do ser está Nele e está aqui e agora, porém simplesmente não estamos interessados nisso. Amamos por demais nossas ilusões.

  Ademais, Sambhogakaya está aqui e agora; Chokmah, aquela fundamental sabedoria/compaixão, está aqui e agora. Aquilo a que os cristãos chamam Cristo. Aquele estado de ser, aquela Inteligência que está em cada coisa vivente – uma chama, um fogo em nós agora – e cada um de nós pode experienciá-la – é parte de nós. Não podemos experienciá-la se estivermos fascinados pela ilusão. Além disso o Nirmanakaya está também aqui e agora, a ação inteligente enraizada na compaixão e na verdade.

  Tudo o que existe emergiu fundamentalmente do Absoluto como uma expressão de três forças – a Lei dos Três. Eis porque há trindades em todas as religiões.

  A Lei dos Três na sua forma simples pode ser entendida como:
  1. Positivo (o princípio ativo)
  2. Negativo (o princípio receptivo)
  3. Neutro (o princípio conciliatório), que os traz juntos.

  Qualquer coisa que queiramos desempenhar, qualquer coisa que aconteça é sempre uma combinação desses três fatores. Se desejarmos ter sucesso em algum empreendimento devemos nos tornar cônscios do trabalho dessas três forças. Se quisermos ter filhos não podemos escapar da Lei dos Três.

  A Lei dos Três regula a vida desde seu mais básico nível. Onde está a Lei dos Três na procriação de crianças? O homem é um princípio ativo, a força que provê, que projeta. A mulher, o princípio receptivo, recebe a força do homem. O que os traz a se juntar? Sexo, amor, que estão na Lei dos Três. Não há outra maneira de criar um ser humano em qualquer parte do Universo. Homem, mulher, sexo – é isso o que está expresso naquelas três forças.

  Se quisermos elevar o nosso nível do ser, incrementar nossas vidas, necessitamos alavancar aquele mesmo tipo de forças, mas que requer conhecimento. Dharmakaya é conhecimento ou verdade. É conhecer a realidade. Ao agirmos sem conhecer a realidade, fazemos erradamente. Pensamos estar ajudando pessoas e com frequência os estamos ferindo por que realmente não conhecemos a verdade. E com frequência tentamos ajudar a nós próprios e na verdade estamos também nos ferindo, pois de fato não sabemos a verdade. Para realmente ajudarmos e mudarmos alguma coisa, necessitamos saber a verdade daquilo, a verdade fundamental. Se não fizermos isso estaremos tornando as coisas piores. Uma vez que saibamos a verdade daquilo e tenhamos compaixão e sabedoria, podemos agir inteligentemente, vermos que aquelas três forças devem trabalhar juntas. Se qualquer delas faltar haverá falha.

  O problema reside em que na maioria das coisas que fazemos física, emocional e intelectualmente não trabalhamos com as três forças superiores, mas com suas polaridades opostas. Na maior parte do tempo não sabemos o que está realmente acontecendo, não sabemos a realidade; usualmente agimos sob algum desejo ou aversão. Todos queremos desenvolver nossas vidas espirituais, saber algo da verdade, sobre Deus, a Divindade, sobre o que seja a realidade fundamental, então buscamos práticas espirituais, grupos espirituais, movimentos e ensinamentos espirituais, mas como temos ânsias, apegos e desejos, não queremos estar face àquilo que de fato esteja acontecendo.

  Ao invés, queremos que a realidade espiritual sustente nossas ânsias e encoraje os nossos desejos. Queremos evitar a dor, o desconforto; queremos alimentar os desejos, então preferimos não saber do real problema. Preferimos ignorar qual seja a causa do nosso sofrimento. Preferimos em verdade assinar alguma apólice de seguro que conseguimos da religião como: “okay, se você acredita nisso, nisso e nisso... e todos os meses nos der muito dinheiro, então irá para o paraíso”.

  Realmente amamos isso por que significa não termos de tratar com toda a realidade. Não temos de enfrentar o fato de que em nosso íntimo há muitas coisas nocivas e muito do sofrimento causado por conta disso. Não queremos tratar dessas coisas, queremos ignorar. Queremos nos assegurar de nos mantermos agarrados aos nossos sofrimentos e deixar as coisas como estão. Queremos exatamente a apólice de seguro que então nos conduzirá ao céu. Entretanto não funciona desse modo. Desafortunadamente a vida não é assim. A natureza não é assim. A Divindade não é assim.
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  Figura 8

  Este mapa da Árvore da Vida nos mostra densidade através da multidimensionalidade e todo ele obedece às leis da física. Não é exatamente nesse caminho que esta física aplica fisicalidade, mas através da relatividade multidimensional. Porém há uma verdade fundamental aplicada a todos os níveis da existência assim traduzida: “cada coisa pertence a quem dela é”. Por exemplo, ódio, luxúria, inveja, essas são qualidades de demônios não qualidades de budas, anjos ou mestres. Se pessoas tem ódio ou orgulho, gula ou ganância permanecem onde essas qualidades habitam e essas qualidades habitam nos domínios do inferno; que são as regiões mais baixas, os lugares de sofrimentos. Pessoas estão presas lá por suas qualidades. Se uma pessoa quer ser libertada daquelas experiências de sofrimentos ela precisa libertar-se das correntes que a mantém assim. Isso significa matar o ódio, destruir o orgulho, erradicar a luxúria para então aquilo que intimamente a está aprisionando venha ser libertado. Ou seja: que aquilo que a está aprisionando intimamente retorne para seu lugar natural. Simples assim!

  Eis porque necessitamos fazer mudanças em nós a cada momento. Iremos de boa vontade permanecer fascinados com ilusões e presos aos nossos sofrimentos ou por nossa vontade teremos a coragem de encarar a realidade de nosso estado psicológico e muda-lo? Nós podemos! Mas a única maneira pela qual podemos nos libertar das condições que nos cegam é entende-las. Contudo, não podemos entender algo que não conseguimos perceber. Se quisermos entender algo temos de nos habilitar a ver aquilo. Não somente pensar sobre aquilo. Precisamos ver. Perceber diretamente não na exata fisicalidade, mas internamente com nossos outros sentidos.
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Figura 9

  Aqui está nossa fisicalidade – Malkuth. Quando nos sentamos para meditar aprendemos a relaxar o corpo e então podemos ficar livres daquele condicionamento, de suas energias, suas emoções e seus pensamentos. Quanto mais relaxado nos tornamos mais calmos e serenos o deixamos e menos ele nos condiciona como observadores. É isso que vimos ensinando por todo o curso – como pô-lo num estado de absoluta quietude de modo que a consciência que está nele possa elevar-se. Ao fazermos isso obteremos a capacidade de começar a ver todas aquelas coisas como elas são.

  Quando a consciência se torna estável e desenvolvemos aquela flexibilidade em que o corpo e a mente tornam-se subservientes à consciência, então somos capazes de olhar as coisas e não ficarmos presos a elas – unicamente as vermos como elas são. A consciência liberta passa a ver o corpo exatamente como corpo, não mais como sua identidade. A consciência vê a energia simplesmente como ela é: exatamente energia, e não a algo para ser por ela fascinada, com ela identificada ou para jogos. É algo para ser amada e usada com sapiência, para sentir emoções como elas são, as vibrações do corpo astral, os conteúdos psicológicos que refletem as impressões boas ou más transformadas.

  Mais importante: podemos começar a investigar as causas reais de nossas dores, os sentimentos de orgulho, de ódios, aquela qualidade de luxúria, mas não as vendo como algo abstrato ou filosófico: realmente vendo-as todas nos mundos internos como elas trabalham, pensam ou sentem; a forma como nos cegam, os seus desejos e aversões e sua ignorância fundamental.

  Num sentido podemos dizer que alguém que saiba meditar corretamente sentar-se-á, libertar-se-á de todos aqueles fatores condicionantes, focar-se-á nas causas dos sofrimentos e ir-se-á em frente a investiga-las, vê-las pessoalmente, cara-a-cara ... nos mundos internos. Não como a algo fantástico, mas como a algo real e experienciável. Algo compreensível.

  É assim que ganhamos conhecimento, visão interior e compreensão. É esse o sentido da meditação: vermos a realidade primeiramente em nós próprios. Quando começarmos a ver que a luxúria que criamos no curso de todas as nossas existências é verdadeiramente a grande causa de dores e sofrimentos, é sobremodo libertador. Além disso essa visão traz-nos grande compaixão pelos outros, os que ainda sofrem na ilusão e luxúria. E começamos a compreender que o orgulho é uma gaiola. Que os sofrimentos daqueles que estejam tentando manter-se no orgulho como a uma fonte de felicidade, exatamente por isso nunca a terão. Aprendemos aquelas coisas não através de filosofias ou lógica, mas por vívidas experiências em meditação, sonhos, visões; pelas experiências da consciência em estados de alertas ao perceber a verdade.

  Primeiramente temos de despertar aqui fisicamente. Tornarmo-nos cônscios de nós próprios em corpo físico momento a momento, para estarmos sempre atentos aqui e agora. Ao aprendermos isso, aquela habilidade começa a expandir-se para todos os lugares onde estejamos. Quando vamos para a cama dormir e começamos a sonhar é porque estamos começando a ficar despertos em nosso corpo físico durante nossa vida diária. Assim é porque de volta ao mundo dos sonhos – o mundo físico – nele estamos começando a ficar cônscios, despertos, e não mais sonolentos. Não mais estaremos sonhando como uma montaria de nossos desejos; ao invés disso, estaremos presentes.

  A habilidade em estarmos despertos expande-se pouco a pouco através daquelas outras regiões. Assim que uma delas liberta a consciência das condições do aprisionamento a consciência obtém força, expande-se mais e mais, começa a ver mais da realidade. Não se trata do que pensamos que esteja aqui. A realidade é algo muito, muito maior. Para experienciá-la, compreende-la em nós próprios, temos os exercícios que prosseguem das palestras anteriores.

EXERCÍCIOS

  1. Diariamente como parte de sua auto-observância momento a momento, questionar a validade do que percebe.
  2. Diariamente praticar retrospecção meditativa. Recordar o que percebeu externamente e internamente o dia inteiro.
   3. Escrever os fatos de seu dia em seu diário espiritual.
 
  Contudo, com sua auto-observância momento a momento, você não somente deveria estar observando-se a si próprio como auto experiência, mas também estar questionando a validade do que observa? Observar que a auto-observância é uma habilidade, um senso do estar presente aqui e agora, vendo o self sem estar sendo identificado, usando da distinção entre o observador (que é a consciência) e o observado (que são os três cérebros e a percepção recebida pelos três cérebros).

  Nessa distinção que fazemos agora, necessário começar com o questionamento: “isso é verdadeiramente real? Estou vendo a realidade?”, considerar isso dando um passo a mais e testar-se, começando realmente desejar saber se está vendo a verdade ou está sonhando.

  Como em muitas vezes, na medida em que consegue lembrar-se de que ao fazer isso torna-se bem cônscio de si próprio, e questionando o que você está vendo, testar-se assim: “isso é real ou estou sonhando?”, então pegue seu dedo e tente esticá-lo. Ficar atento ao fato, realmente questionando-se por que sabemos que se estivermos sonhando nosso  dedo esticará.

  Necessário para, real e conscientemente, com muitos subsídios, tentar estica-lo. Se fizer esta prática com muita seriedade, se auto-observando e estando cônscio de si próprio momento a momento, chegará subitamente o instante de seu dedo esticar-se e você entender que está sonhando e não está em seu corpo físico. Estará sonhando, seu corpo estará adormecido, mas você estará agora no plano astral, desperto no mundo astral.

  Então alguém que faça este exercício e economize energia durante o dia terá a experiência de começar a ver muito mais coisas que antes não via.

  A segunda parte é para naturalmente continuar meditando diariamente. Estivemos praticando retrospecção do mesmo modo que queiramos questionar a validade do que percebamos em meditação. Assim não mais aceitar imediatamente o que vê como sendo real, mas deter aquele senso de dúvida: “Isso é real ou é falso? Isso é real ou é ilusão?”. Separar o percebedor da coisa percebida; recuar e tornar-se cônscio da transformação daquelas impressões. Finalmente, claro, continuar com seu diário espiritual.

POR UM INSTRUTOR ESPIRITUAL

  Pensamento do Dia: “Detenha todas as coisas de cada momento, pois cada momento é uma criança da Gnose; cada momento é absoluto, vivo e significativo. Transitoriedade é especial característica da Gnose. Amamos a filosofia da transitoriedade.”
Samael Aun Weor. “A Eliminação da Cauda de Satan”.


  Tradução Inglês / Português: Rayom Ra

                                                                           Rayom Ra
                                                          http://arcadeouro.blogspot.com.br