domingo, 14 de junho de 2026

Excertos de Ramatís - 02

01. Pergunta: - Certa vez dissestes que, estando encarnado no tempo de Jesus, tivestes ensejo de conhecê-lo pessoalmente, quando visitastes a Hebreia. Poderíeis dizer-nos algo dessa vossa experiência junto ao Mestre?

Ramatís: - Embora a nossa afirmação não vos sirva de prova irrefutável, mas apenas um enunciado de confiança, nós gozamos a felicidade de um encontro pessoal com Jesus, na Palestina, quando nos filiávamos a certa escola filosófica de Alexandria (1).
  (1) Ramatís fazia parte de certa Escola Iniciática de Alexandria, onde se procurava conhecer a contextura do "homem imortal". Eram ensinamentos expostos à luz do ambiente tranquilo da fraternidade oculta, parecidos com as convicções dos essênios e pitagóricos, porém, firmados francamente no conhecimento da Lei do Carma e no Processo da Reencarnação. Não estamos autorizados a dizer que filósofo Ramatís foi na época, embora algo conhecido. - Nota do Médium.
  Assim, pudemos conhecer algo dos ensinamentos da "Boa Nova" e do "Reino do Céu" que ele pregava entre os judeus e pagãos. Quando o encontramos, ele usava uma túnica de esmeralda brancura e um manto azul celeste, cabelos soltos nos ombros e calçava umas sandálias de cordões amarrados nos tornozelos.
 Vimo-lo subir a encosta do morro, seguidos pelos seus diletos discípulos e caminhando com infinito cuidado, a fim de não pisar sobre as pétalas aveludadas das anêmonas dos prados, que floresciam prodigamente, atapetando o solo com suas flores brancas, lilases e tarjadas de um róseo brilhante. 
  Sob um bosque de ciprestes havia uma pedra avantajada e cômoda, emergindo entre os tufos de capim verde e florinhas silvestres, que estremeciam sob a afago da brisa suave.
  Voltando-se para a multidão que se formava aos seus pés, encosta abaixo, Jesus primeiramente espraiou o seu olhar sereno sobre a paisagem. Sua alma parecia deleitar-se com os vinhedos, os ciprestes, os limoeiros, as oliveiras e a brancura dos campos de trigo no vale do Jordão. Tudo estava engalanado na força da estação primaveril; o campo cobria-se de flores e até dos troncos apodrecidos surgiam florinhas encarnadas, roxas, azulíneas e amarelas. A paisagem era empolgante de beleza, de cores e luzes, pois seria difícil encontrar cenário tão fascinante quanto o da Galileia na sua explosão de flores e perfumes inebriantes do ambiente campestre!
  Acomodando-se sobre a rocha atapetada de musgos, Jesus espraiou o seu olhar sereno sobre a multidão, que ardia de ansiedade por ouvi-lo, enquanto João lhe estendia o "xale de rezar", peça tradicional entre os galileus, com o qual ele cobriu sua cabeça.
  Em seguida abençoou aquela gente silenciosa e começou a falar pausadamente, porém, dando relevo às frases e imagens que definiam suas ideias, enquanto os seus ouvintes estavam contagiados por sublime emoção.
 Era imenso o poder verbal de Jesus, pois impressionava profundamente as criaturas que lhe bebiam as palavras como um néctar dos deuses. Sua voz era pausada, repleta de doçura e de uma sonoridade musical cristalina, jamais ouvida por nós; as palavras vibravam no ar como lantejoulas vivas espargindo sons maviosos e tecendo um manto de harmonia a envolver sob o céu dadivoso a turba hipnotizada pelo verbo salvador.
  Espírito equilibrado e de visão exata, suas palavras ajustavam-se hermeticamente ao pensamento enunciado e conseguiam despertar emoções cujo eco ficava vibrando para sempre na alma dos seus ouvintes.
  As mãos do meigo Rabi eram de molde irrepreensível em suas pregações e gestos, elas pareciam mansas pombas configurando-lhe no espaço os contornos do pensamento, e avivando as suas palavras amorosas. 
  Naquele dia em que buscávamos conhecê-lo, o Mestre explicava a parábola do "Semeador"(3)pois ele costumava pregar o ensinamento de conformidade com o ambiente e as circunstâncias que o tornassem mais vivo e entendível (4). Escolhia cada parábola de acordo com o tipo de auditório, pois a sua elevada intenção era oferecer a solução para os problemas de ordem moral e social daqueles que o ouviam! 
    [ (3) [Mateus, XII. vs. 1 e 23; Marcos VI, vs. 1 e 20, Lucas VIII, vs. 4 e 15]
   (4) Nota de Ramatís: - Quando Jesus falava aos campônios expunha a parábola do semeador, do grão de mostarda, do joio e do trigo: aos pescadores referia-se à parábola dos peixes; num banquete ou festividade, falava dos talentos, do tesouro enterrado; entre negociantes e especuladores, da pérola de grande valor, o credor incompassivo, os dois devedores; entre magnatas, servia-se das parábolas do rico insensato, o rico e Lázaro; entre os assalariados, explicava-lhe a parábola dos servos inúteis, dos trabalhadores da vinha e do mordomo infiel; entre homens da lei mencionava o juiz iníquo e entre os religiosos a história do publicano e o fariseu.
  Rodeado pelos campos floridos, cujo ar doce e perfumado atraía o odor dos figos, das uvas, dos limões e dos pêssegos maduros, trazidos nas asas do vento brando e fresco, Jesus comovia até às lágrimas, ao explicar que o semeador lançou suas sementes no solo duro, na rocha, na terra espinhenta; porém, finalmente, obteve êxito no bom terreno!
  O lugar escolhido para essa prédica era de magnífica inspiração, pois além da florescência dos narcisos do campo, do fogaréu de papoulas vermelhas e das anêmonas safirinas lilases e ametistas, que coloriam toda a planície de Genesaré, sem deixar um só desvio do solo descoberto, o quadro formoso completava-se pelo dorso esmeraldino levemente crispado do mar da Galileia, a despedir faíscas à luz do sol, que formava dourada cortina translúcida à altura da crista nevada dos montes mais altos.
  Jamais poderíamos esquecer a veemência e a fé com que Jesus enunciava os seus ensinamentos, ainda prematuros e arrojados aos judeus subordinados à sua crença dogmática mosaísta. A gente da Galiléia, rude e ignorante, mas dotada de sentimentos compassivos, sublimava-se ante a prédica do seu querido Rabi, pois ele realmente vivia em si mesmo aquilo que ensinava. Não era um sistema político, nem filosófico; porém, doutrina moral e religiosa, que tocava o coração e pedia aprovação do sentimento, muito antes do raciocínio da mente.
  Quando retornamos para Alexandria e consultamos os nossos maiorais a respeito das atividades do Rabi Jesus, que tanto nos havia impressionado, todos eles foram unânimes em confirmar que, malgrado a sua aparente insignificância na época, na realidade ele era o maior revolucionário espiritual descido à Terra, a fim de sintetizar os ensinamentos de seus precursores e redimir à humanidade!

02. Pergunta: - Por que Jesus preferia explicar sua doutrina através de parábolas?

Ramatís: - Certas tribos da Judéia e adjacências, com as quais Jesus tivera contato mais assíduo, entendiam-se entre si através do emprego pitoresco de parábolas. O Mestre, inteligente e intuitivo, percebeu que essa expressão verbal era o mais perfeito veículo para ensinar sua doutrina aos homens de sua época e também sintetizá-la de modo a servir para a humanidade futura.
  A parábola é o meio apropriado para os fins de comparação; e Jesus passou a empregá-la para despertar a mente das criaturas mais simples e sem cultura disciplinada. Ele era um apaixonado pela análise da natureza e constantemente recorria aos seus fenômenos e objetivos, comparando-os com os acontecimentos da vida humana. Dava-lhes a feição das coisas que pareciam vivas e se mantinham em estreita relação, como se a Terra fosse apenas a antessala do céu, onde o homem primeiramente devia limpar suas sandálias.
  Os seus princípios mais altos, ele os pode formular através dessa correlação constante das parábolas e das coisas animadas e inanimadas, às quais acrescentava o seu sublime toque de poesia espiritual. Os homens então o entendiam facilmente e se prendiam à suavidade e às ilações filosóficas que Jesus tirava da queda de uma folha, do murmúrio do regato, da mansuetude da pomba, da importância do tesouro enterrado ou da singela semente no solo!
  Sentiam-lhe o pensamento muito antes dele chegar à conclusão moral ou filosófica do que dizia; embeveciam-se ante a beleza e a força das imagens que sabia compor em simbiose com o encanto da natureza. Os acontecimentos mais severos e os fatos mais complexos assumiam tons de ternura e feição familiar, que cativavam e penetravam com a força do bom senso.
  Através da parábola, Jesus fazia resumidas narrativas e oferecia admiráveis lições de moral superior, que eram entendíveis em qualquer época e em qualquer latitude da vida humana. Ele sabia modelar as frases e escoimá-las do trivial, do inócuo e do inexpressivo, transformando a mais singela pétala de flor no centro de um acontecimento de relevante fim espiritual.
  Nas parábolas, ele punha toda sua tática e inteligência, pois o mais insignificante fenômeno da Natureza transfundia-se na força de um símbolo cósmico. Os seus ensinamentos estão repletos de comparações singelas, mas sempre ligadas à vida comum dos seres, que atravessaram os séculos e se transformaram em conceitos definitivos, constituindo-se num repositório de encantamento para a redenção humana.
  Os provérbios, os aforismos e os adágios de senso comum de certos povos e tribos, sob o quimismo espiritual de Jesus, valiam por ensinamentos eternos; eram frases que ondulavam sob a brisa cariciosa do seu Amor e penetravam fundo na alma dos homens!  Simples conceitos e máximas aldeônicas iluminaram-se à guisa de princípios filosóficos inalteráveis; o modo peculiar de uma gente entender-se entre si, desdobrou-se num processo de análise e revelação em favor do entendimento da vida eterna. Só mesmo a força criadora de um anjo, e o sentimento excelso de um Santo, conjugados à sabedoria cósmica de um Sábio seriam capazes de modelar preceitos eternos sob a argila das palavras mais insignificantes.
  Aqui a diminuta semente de mostarda serve para explicar a Fé que move montanhas e cria os mundos; ali a parábola do talento enterrado adverte quanto à responsabilidade do homem no mecanismo da vida e da morte: acolá o joio e o trigo simbolizam a seleção e a divisão profética dos "bons" e dos "pecadores" no seio da humanidade!
  Enfim, as parábolas foram o maravilhoso recurso de que Jesus se serviu para ajustar o seu pensamento avançado e transmiti-lo de modo entendível aos conterrâneos.
  Elas oferecem um tom de respeitabilidade e o seu conteúdo é sempre de nobre significado moral, no sentido de despertar a reflexão sobre a Verdade, que deve ser o fundamento da vida eterna do Espírito!

[Excertos da obra O Sublime Peregrino - Capítulo XXII - "As Pregações e as Parábolas de Jesus", por Ramatís, através de Hercílio Maes]

                                                             Rayom Ra
                                      http://http278arcadeouro.blogspot.com

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