segunda-feira, 29 de junho de 2020

Fundamentos da Meditação (12) - Mudança e Entendimento


  Compreensão é possível a qualquer momento em que a consciência esteja presente e ativa. Ainda, para realmente entendermos algo devemos estar habilitados a percebe-lo inteiramente. Assim, a fim de percebermos inteiramente as causas do sofrimento – que são os desejos e impulsos em nossa mente – necessário ver as causas onde elas residem – e que não estão no mundo físico – mas nos mundos internos, dentro de nós. Eis porque na meditação precisarmos deixar o corpo para trás de modo que a consciência consiga entrar naqueles mundos para ver referidas causas face a face.”

  Nessa tradição estudamos as escrituras das grandes religiões; estudamos tudo das ciências, as artes e as filosofias. Em síntese: estudamos toda uma abrangência do conhecimento que a humanidade têm desenvolvido no curso dos séculos. Entretanto o tudo desse estudo, o conhecimento e a informação, tornam-se inúteis se não formos capazes de aplica-los na prática e produzirmos profundas mudanças em nossas vidas pessoais – agora! Não há valor em obter-se uma educação se permanecermos os mesmos. O conhecimento deve ser capaz de produzir mudança, caso contrário é uma completa perda de tempo.

  Em nossa abordagem para meditação isso é especialmente significativo porque os estudos da meditação são muito sutis e muito difíceis de entender com o intelecto. Eis porque é comum ficarmos confusos com as filosofias e teorias da meditação. É fácil estarmos enredados em debates entre escolas e grupos, nos tornarmos associados a um grupo ou tradição contra outro, nos perdermos dentro de um labirinto de ideias competitivas sobre meditação.

  Para o estudante sério que pensa em reais mudanças na sua vida torna-se necessário dar um corte na emaranhada massa de teorias, filosofias, tradições e ideias a fim de encontrar aquilo que realmente resulte em mudança. O propósito de estudar meditação é a mudança; então devemos basear nossos estudos e práticas nesse fundamento e somente nesse. Estamos mudando? Essa questão não pode permanecer em teoria nem em filosofia. Precisa ser respondida com fatos observáveis e passíveis de provas.

MUDANÇA

  Trocar teorias ou crenças não conduz para a mudança real. Mudar nossa religião ou nossas roupas, nosso corte de cabelos ou a dieta... não traduz a mudança real. Isso é superficial. Necessitamos de mudança verdadeira, profunda, permanente e interior. Necessitamos mudar nossa mente de forma consistente para melhor.
 
  Para mensurarmos e confirmarmos a genuína e duradoura mudança, nossa atenção precisa estar focada em fatos do que seja observável em nossa mente, coração, corpo e no comportamento. A mudança real é mensurada por quem está dentro dela.
 
  Nossa cultura moderna insiste em que o bem estar material traz felicidade, ainda que o rico seja tão miserável quanto o pobre. O rico simplesmente tem mais dinheiro para gastar em operações plásticas, vaidades, egoísmos, etc. As circunstâncias externas de sua vida também  não o incentivam a nada mudar do básico de seu sofrimento. Ele ainda fica doente, sofre na velhice e morre solitário. Sofre pela perda de seus amados e de suas posses.

  Inclinamo-nos a mensurar nossa vida por circunstâncias externas: aparência, idade, posses materiais, casa, família, amigos, ainda que nada dessas coisas seja confiável para uma perfeita indicação de valores. Não nos damos conta de que as circunstâncias da vida constantemente mudam e estão sujeitas a forças além de nosso controle. Mudanças em nossas circunstâncias externas não são paradigmas próprios para nosso status espiritual.

  A realização de nosso sucesso na espiritualidade vai depender da qualidade de nossa mente, da qualidade do nosso coração e em como respondemos às circunstâncias da vida.

  Todos admiramos o pobre que a despeito de sua pobreza é feliz, contente, amigável, paciente. Suas atitudes e a qualidade de sua mente foram suas escolhas e dão-lhe força, não importando suas circunstâncias externas. Assim ao invés de exatamente admirarmos essa atitude por que não adotá-la e fazê-la parte de nós?

  É possível termos felicidade, paz e alegria. Os grandes mestres nos têm mostrado que isso é possível. Não é essa a mudança que queremos? Esse tipo de mudança resulta da mudança interior, não exterior.

  Todas as coisas em existência são como são por motivos de leis. Se desejarmos a mudança real precisamos aprender sobre aquelas leis e trabalhar com elas. Eis porque estamos a estudar os fatos de nossas vidas, a buscarmos como aquelas leis estão em movimento em nós. A principal daquelas leis dentre todas é a lei de causa e efeito. Hoje estaremos estudando como causa e efeito são postos em movimento e como leis adicionais direcionam as causas para seus efeitos. Assim aprenderemos como produzir causas e guia-las para os efeitos que queiramos.

  Para fazermos isso sucessivamente, primeiro temos de compreender que não vemos a realidade, conforme debatida em anterior palestra. Ao começarmos verificar as aparências do passado a fim de entendermos as forças que estejam efetivamente em operações chegamos a conclusão de que essa mudança em nosso comportamento interior altera nossas circunstâncias externas. Sim: sempre as tivemos lá atrás.

  Enganosamente pensávamos que se mudássemos nossas circunstâncias externas seríamos então alegres e felizes. Esta ideia está errada. A felicidade interior não nos vem de circunstâncias externas. Aqueles que buscam alegria e felicidade nas coisas exteriores – em pessoas, lugares, posses, status – estarão sempre e inevitavelmente desapontados

  A verdade é que, se em primeiro lugar mudarmos interiormente então encontraremos não só a real e duradoura felicidade – que não depende de impermanência nem de não confiáveis circunstâncias externas – mas também mudança nas circunstâncias exteriores. Tudo o que está acontecendo em nossas vidas é simplesmente um reflexo da qualidade de nossa mente.

  Pessoas passam suas vidas tentando mudar as circunstâncias externas e morrem tendo falhado. Não importa o que adquiram ou quão imensas sejam as circunstâncias externas de suas vidas: tudo aquilo perde-se na morte, porém elas, pessoas, levam consigo a qualidade do ser. Se vivermos apegados às posses e às pessoas, continuaremos daquela mesma maneira após a morte; então nunca encontraremos alegria e felicidade. Ao estudarmos os grandes empreendedores espirituais vemo-los não mudando suas circunstâncias externas, mas mudando suas circunstâncias internas. Pelas mudanças internas de suas mentes e de suas psiques, suas circunstâncias externas também mudaram.

  Assim podemos nos inquirir para sabermos como responder: que é mudança? Genuína, profunda, a mudança duradoura tem três características ou três aspectos: alguma coisa morre, alguma coisa nasce e alguma coisa é sacrificada. Quando a mudança é profunda não somente vemos esses três aspectos, mas também às consequências que mudam fundamentalmente tudo em redor. Para entendermos a mudança precisamos entender esses fatores e o ambiente no interior do qual eles ocorrem.

MUDANÇA EM NÍVEIS

  Estudamos a Árvore da Vida por que nos ajuda a entendermos as leis da natureza. Um fato significativo que a Árvore representa é que a mudança flui do sutil ao denso. Para criarmos algo primeiramente temos a inspiração, a ideia, daí o plano, o processo do custo, a montagem de tudo até que finalmente aquilo se torne uma realidade no mundo. A natureza existe de modo parecido: antes de qualquer coisa acontecer no mundo físico, acontece no sutil, nos mundos internos. Eis porque nossos sonhos podem nos revelar o que acontecerá em futuro. Em sonhos podemos ver o que está em formação; por eventual a formação pode aparecer fisicamente.

  Podemos usar esse conhecimento para nos ajudar a mudar. Se queremos mudar nossa vida física então precisamos mudar interiormente.

  Segue-se que se nosso conhecimento e entendimento são profundos, mais interiores, então podemos esperar que a mudança seja bem maior. Ou seja: o entendimento de algo no mundo denso não é difícil, visto requerer somente observação pelos sentidos físicos. Ademais esse nível do conhecimento pode somente conduzir a alguma coisa superficial. Isso comparado com o conhecimento interior de energia, emoção, mente ou vontade... que quanto mais profundo mais poderoso será e por isso mais consegue mudar situações em níveis abaixo.

  Ao compreendermos algo em nível emocional isso tem poder para nos mudar profundamente. Porém ao compreendermos na consciência, em nossa força de vontade, isso é muito mais profundo e muito mais poderoso que na emoção. Mais profundo ainda é compreendermos algo em níveis mais elevados na Árvore da Vida dentro de nós.

  A Árvore da Vida é um mapa do universo exterior (nossas circunstâncias externas), porém, mais profundamente é nossa reflexão interior. O principal valor da Árvore da Vida está circunscrito ao que ela reflete de nossas circunstâncias internas.

  O Oráculo de Delpho disse:

  “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”.

  O ponto é: não olhemos para fora a fim de resolvermos os anseios que temos interiormente. Não busquemos lá fora por fenômenos externos na tentativa de manobrarmos com nossos fenômenos internos. A dor que temos, o vazio, a dúvida, o medo, o ódio – todas essas coisas de nosso íntimo – não podem ser resolvidas através de qualquer influência externa. Elas somente podem ser resolvidas com nosso labor interior diretamente nelas. Eis o motivo de aprendermos a meditar.

  Meditação é a ciência da compreensão de nós mesmos, de modo a assim compreendermos também “o universo e seus deuses”.

  Quando realmente compreendemos a realidade, mudanças acontecem. Com a real compreensão as ilusões morrem, o conhecimento nasce e nossa antiga via do ser é sacrificada. Eis porque elevamos nosso nível do ser. O oposto existe quanto mais baixamos esse nível do ser, pois ao falharmos na compreensão da realidade agimos enganosamente e os três fatores, nascimento, morte e sacrifício resultam em profundo sofrimento.

COMPREENSÃO

  Unicamente olhando-nos e nos estudando não é o suficiente. Necessitamos adquirir entendimento, compreensão a fim de conscientemente conhecermos a nós próprios. Já nos olhamos constantemente; somos fascinados por nós próprios. Somos verdadeiros narcisistas; sempre olhando nosso próprio reflexo, sentindo nossa dor, prazer, orgulho, vergonha. Assim continuamos a sofrer prosseguindo na profunda ignorância da realidade pois, definitivamente, somente a nos olharmos não é o suficiente para produzirmos mudança.

  O que produz mudança real e positiva é entendimento e compreensão – em outras palavras: real conhecimento. Eis porque Sri Shankaracharya em seus escritos Atma Bodha (sobre o que demos um curso alguns anos atrás) disse que o conhecimento por si só conduz à libertação. Nada mais, unicamente autoconhecimento.

  Essa é a única coisa que pode conduzir à libertação. Nem Deus, a divindade, a igreja, a religião, o mestre, o livro, nada externamente a nós pode dar-nos a libertação do sofrimento, uma vez que o sofrimento está no íntimo. Unicamente pelo conhecimento do que são as causas podemos nos tornar livres delas. Esse tipo de conhecimento, autoconhecimento, só emerge através da compreensão. Possamos ter reunido um montante de fatos, mas se não os compreendermos não podemos resolver o enigma.

  Reunir fatos é bom. Necessário porém nos observarmos, nos estudarmos e aprendermos de nós próprios reconhecendo acerca de nós, que entretanto ainda não é o suficiente. Necessitamos compreender, entender. A palavra compreensão é muito precisa e científica. Usamo-la numa forma bem específica para traduzir conhecimento consciente, pela alma, por nossa essência. Compreensão não tem nada a ver com intelecto, memória, crenças ou tradições. Não tem nada a ver com o que temos estudado ou alguém mais nos tenha dito. Isso é informação intelectual e não compreensão. Lermos um monte de livros é um excelente exercício intelectual. Irmos a muitas palestras e aulas é também bom, mas é intelecto e não compreensão.

  Por compreensão entendemos o conhecimento adquirido pela consciência. Conhecimento que é parte de uma alma, parte de nossa essência. Compreensão é a parte do conhecimento que não se apaga ao morrermos. O tipo do conhecimento que temos quando nascemos é uma parte de nós. É um conhecimento que não tem um pensamento: é exatamente o que é.

  Não podemos adquirir compreensão simplesmente através de leituras de livros ou frequentando palestras; possamos ler todas as escrituras e tratados científicos do planeta, memoriza-los a todos, e ainda assim não termos sua compreensão. Observemos quantas das chamadas pessoas educadas conhecemos e apesar daquelas suas condições permanecem incrivelmente estúpidas, capazes dos mais terríveis crimes contra elas próprias e ao próximo. Educação, memorização, imitação não significam nada se não temos compreensão.

  Por outro lado, uma pessoa que nunca tenha lido nada, sendo completamente iletrada, pode incrivelmente ter entendimento, compreensão, sabedoria que são conhecimentos intuitivos e conscientes da realidade. Qualquer um de nós pode adquirir compreensão; não é assunto da educação, mas de estarmos usando a consciência na direção certa.

   Compreensão é um tipo de conhecimento, um tipo de entendimento que desenvolvemos ao aprendermos a usar a consciência, a entender a realidade. Ainda, compreensão combinada com educação é muito mais poderosa. Principalmente com ambas, educação e entendimento, necessitamos nos focalizar em fatos. Quando observamos os fatos e os compreendemos mudamos profundamente.

  Alguém que haja ouvido sobre o sofrimento da guerra traz o fato a nível bem diferente daquele que o tenha experienciado pessoalmente. Eis a diferença: se por um lado estão nossas ideias, teorias, crenças sobre algo, por outro lado estão a compreensão, o entendimento da experiência vivida e a observação da realidade.

  Necessário compreendermos a nós próprios se quisermos mudar profundamente. Se quisermos que nossa vida seja cheia de amor, paz, alegria, altruísmo e entendimento, precisamos então lograr êxito em situações de ódio, inveja, egoísmo, luxúria, dor, etc., daí, primeiramente precisarmos compreender aqueles defeitos. O que realmente significa compreender algo? Analisemos um pouco.

  Todos sabemos que ingestão de álcool é algo ruim para a saúde. Ainda assim observemos quantas pessoas bebem álcool! Igualmente todos sabemos que é ruim mentir, fofocar, fraudar, roubar e ainda assim desempenhamos cada uma dessas reprováveis ações. Desse modo termos a ideia de que algo seja ruim não é a mesma coisa que a compreendermos.

  Se nos sentarmos a beira do leito de uma pessoa que esteja morrendo de uma doença causada pelo álcool e conscientemente testemunharmos seu sofrimento, compreenderemos a realidade do álcool. Então iremos parar de beber.

  Quando somos roubados, nosso lar foi quebrado, nossas coisas pessoais foram levadas ou destruídas e se conscientemente observamos nossa dor compreenderemos como o roubo causa sofrimento. Assim pensaremos duas vezes se estivermos tentados a roubar. Entretanto, se alguém que não compreenda quiser “vingança” ou “o que lhe seja devido” e venha roubar de outros a fim de “obter o que merece”, naturalmente isso somente lhe causará mais sofrimentos.

  Comparativamente, se somos pegos a mentir e sentirmos conscientemente como nossas mentiras ferem a outros, então resolveremos contar verdades. Desse modo teremos compreendido que a mentira causa a dor. É neste caminho, pela experiência e consciente observância, que adquirimos compreensão.

  Ainda....é possível adquirirmos a compreensão sem termos sofrido a experiência através daquelas situações. Não temos de morrer de envenenamento por álcool para compreendermos o perigo daquilo; ao invés é somente necessário que nos tornermos suficientemente cônscios da realidade do álcool. Tornarmo-nos cônscios de uma realidade como esta é estarmos de tal forma aclarados sobre ela que não teremos a tentação de beber. Pois mesmo que fôssemos cercados por todas as mais caras e inacreditáveis bebidas alcoólicas que existam não nos sentiríamos tentados a beber. Porém se sentirmos tentação é devida a não compreendermos: logo temos ainda desejo.

  Através da meditação, pela ativação da consciência e observando os fatos de nossas vidas podemos adquirir profunda compreensão da verdade. E vendo-nos dentro das dificuldades e problemas em nossas vidas, compreendendo-as como se originaram, subsequentemente saberemos como muda-las. Esse é o valor da compreensão que nos mostra como nos elevarmos do sofrimento.

  Ademais, verdadeiramente, tendo uma vez compreendido algo, aquele conhecimento permanece conosco. Não pode ser retirado de nós. Quando descobrimos que uma pessoa de nossa amizade nos vem mentindo por um longo tempo ou fez algo realmente horrível, então tudo muda. Nunca mais voltamos a vê-la do mesmo modo de antes. Isso é semelhante com o que acontece com a compreensão: quando vermos que os comportamentos e qualidades de que tínhamos confiança por um longo período de vida foram na verdade as causas de nosso sofrimento, nunca mais os olharemos como antes, mesmo que queiramos. A compreensão nos muda.  

COMO A COMPREENSÃO DESPERTA

  Contudo podemos ver que a compreensão não desperta acidentalmente nem nos chega por um presente dos deuses. Ela está sujeita às leis. Assim, querendo compreender fundamentalmente a realidade de nossas vidas necessitamos trabalhar com aquelas leis.

  Primeiramente a compreensão é um resultado da lei de causa e efeito. Uma vez seja a compreensão uma função da consciência torna-se impossível termos compreensão se a consciência permanecer inativa, adormecida. Como resultado o primeiro passo é colocar a consciência em ativo estado de atenção momento a momento. É isso que por todo o curso tem sido o encorajamento para que façam: estar acordados momento a momento. Estar aqui e agora. Observem os fatos com total consciência do que estejam fazendo a cada momento.

  Se a consciência estiver ativa observando os fatos então aquela causa é capaz de produzir o resultado do entendimento, da compreensão. Pode soar-nos bastante simples e lógico agora, e não decepcionante, mas não estará acontecendo a menos que estejamos treinando para isso.

  Estamos adormecidos e fascinados pelas ilusões. Não estamos despertos e vendo a realidade. Então por primeiro temos de nos treinar a estarmos acordados e a romper com as ilusões onde nossa mente esteja constantemente navegando.

  No geral já temos estudado o processo essencial que conduz à compreensão, qual seja:

  Ética: pela adoção de ações benéficas, evitando ações nocivas e nos sacrificando por outros a consciência estará estabilizada, calma, serena.

  Samadhi: conquanto serena, a consciência consegue escapar de condições a que esteja presa; então estará livre para experienciar sua verdadeira natureza.

  Prajna: tendo agora clara percepção podemos ver o que seja real e compreensível.

  A palavra prajna literalmente significa “conhecimento além”. Isso descreve o conhecimento que está além do “pequeno conhecimento” (jnana) que temos em nosso intelecto. Prajna é conhecimento consciente, compreensão, aquilo que reside na verdadeira essência de nossa consciência; sendo o conhecimento que retemos mesmo depois da morte. Prajna também indica conhecimento do além, conhecimento das dimensões além do mundo físico, mas especialmente conhecimento do Absoluto, o Vazio, o fundamento.

  Para nosso objetivo hoje, prajna é conhecimento da realidade que não está filtrado de qualquer coisa terrena. Conforme já explanado, para adquirir prajna necessitamos do samadhi e para adquirir samadhi necessitamos ética (sila). Coloquemos esta estrutura em palavras comuns:

  1. Da base do comportamento ético (internamente e externamente) estabelecemos o estágio para a real meditação. Ética permite ao corpo e mente relaxar e concentrar.

  2. Através da meditação livramos a consciência de todos os fatores condicionantes: corpo, energia, emoção, pensamento, etc. Quando a consciência estiver liberta ela espontaneamente experiencia sua verdadeira natureza, que é felicidade (samadhi).

  3. Nesse estado, pela percepção de qualquer coisa acontecendo, é possível vermos a verdade daquilo, entendendo-a. Esse procedimento é prajna, compreensão.

  Contudo precisa ser bem entendido que a consciência começa a compreender no momento em que esteja ativa. Quando estamos nos observando conscientemente estamos em posição de entender o que percebemos e esse entendimento é compreensão. Entretanto ao nosso nível as coisas estão filtradas, influenciadas pela presença de todos os fatores condicionantes: fisicalidade, personalidade, emoções, envolvimentos, etc.

  Compreensão é possível a qualquer momento em que a consciência esteja presente e ativa. Ainda, para realmente entendermos algo devemos estar habilitados a percebe-lo inteiramente. Assim, a fim de percebemos inteiramente as causas do sofrimento – que são os desejos e impulsos em nossa mente – necessário ver as causas onde elas residem – e que não estão no mundo físico – mas nos mundos internos, dentro de nós. Eis porque na meditação precisarmos deixar o corpo para trás de modo que a consciência consiga entrar naqueles mundos para ver referidas causas face a face.

  A libertação do sofrimento é somente possível através da compreensão das suas causas. Contudo para adquirir aquela compreensão devemos nos tornar muito habilidosos com a meditação. E para nos tornar muito habilidosos com a meditação necessitamos de muito boa ética.

  Tendo estabelecido causas e condições – ética e meditação – como a compreensão surge? Surge pela ação da consciência.

  O intelecto sozinho não pode trazer compreensão. A emoção sozinha não pode trazer compreensão. Os sentidos físicos não podem trazer compreensão. Cada um deles pode participar e prover-nos com seu próprio ponto de vista, mas compreensão é uma manifestação da consciência. Sem dúvida. Uma vez que nosso intelecto, emoção e fisicalidade são tão corrompidos é mais que provável de virem interferir na compreensão ou mesmo impedi-la inteiramente. Eis porque é melhor meditar sem a interferência do intelecto, emoção ou sensação física.

  Em todos os níveis, sejam em nossa vida diária ou durante a meditação, o que nos traz compreensão é a consciência: aquele senso em nosso coração que conhece o certo do errado, que conhece como agirmos mesmo que não possa explicar o porquê. A consciência está conectada com a divindade em nós e se aprendermos ouví-la ela nos conduzirá para fora do sofrimento. Nosso problema reside em que não escutamos a nossa consciência. Ao invés escutamos aos nossos desejos.

  Nossa consciência sabe que não devemos trair a esposa, mas nosso desejo quer sexo e atenção e quando encontramos isso os desejos abafam a voz da consciência. Não a ouvimos. E quando a tempestade do desejo se acalma, novamente submergimos pela culpa e temos que manobrar com a consequência de nosso adultério. Sofremos e causamos sofrimento a outros. Se tivéssemos ouvido nossa consciência teríamos evitado tudo aquilo.

  A consciência é uma pequena centelha da inteligência que não raciocina nem sucumbe pela emoção ou sensação. É uma observadora, uma conhecedora e uma arauta do conhecimento. Ela expressa a vontade da divindade. Expressa o caminho para a libertação. Ela conhece o caminho para fora da escuridão. Simplesmente precisamos aprender como ouvi-la. A meditação é o caminho do aprendizado.

  Através da meditação, silenciando corpo, mente e emoção ativamos a consciência e sustentamos sua atividade. Nesse estado de ativa observação a consciência consegue ser ouvida claramente. Onde? No coração. Não como emoção, mas como intuição.

  A consciência é o embrião ou semente da intuição. Conforme libertamos a consciência do condicionamento ela se expande tornando-se um sentido muito poderoso que percebe e entende muito além da mente, emoção ou corpo. Daí, ao acessarmos o estado de meditação aquietando corpo, mente e emoção e colocando qualquer coisa diante da consciência – uma imagem, um problema, uma memória – a intuição pode então penetrar naquela coisa a fim de entende-la. É desse modo que adquirimos compreensão e entendimento. A mente não pode fazer isso. A emoção não pode fazer isso. O corpo não pode fazer isso. Somente a consciência pode.

  Assim é necessário aprender a pormos a consciência em ativo estado o tempo inteiro. Para isso ocorrer a consciência deve ser única no comando de tudo dentro de nós, ou seja: devemos usar o intelecto conscientemente, devemos usar a emoção conscientemente e o corpo conscientemente. Devemos usar os sentidos conscientemente. Isso significa o dia inteiro, a noite inteira, em todas as ações.

  Com essa dinâmica rapidamente expandimos a consciência e fortalecemos sua presença. Ficamos então acostumados com o sentido da consciência (intuição) que sabe o que fazer e quando. E eventualmente dessa dinâmica a compreensão emerge. 

  A compreensão emerge naturalmente, não pode ser forçada. Ela não responde à demanda, à intensificação ou à violência. Ao invés emerge como faz uma flor: naturalmente, através da nutrição e condições apropriadas.

  Quando quisermos entender um problema observemo-lo firme e pacientemente com grande atenção e serenidade, sem especulações, sem adivinhações, crenças ou análises; ao invés somente observemo-lo com renovado frescor como se observássemos um nascer do sol.

  Ao observarmos um nascer do sol não precisamos intelectualizar sobre o fato, etiqueta-lo ou descreve-lo; palavras interferem com sua beleza e obscurecem sua natural poesia. Do mesmo modo quando quisermos compreender qualquer coisa temos de observar sem a mente ou emoção  interferindo. Quando observamos um fenômeno desse modo – sem tentar muda-lo ou tirar algo dele – a compreensão inevitavelmente emerge. Entretanto, se estivermos a exigir; impacientes; frustrados; intensos, a compreensão nos fugirá.

  Ademais a compreensão emergirá por si mesma quando estiver pronta, exatamente como a flor que desabrocha em nosso jardim. Pode não desabrochar enquanto estivermos sentados em meditação. Pode desabrochar num sonho ou enquanto caminhamos ou trabalhamos. Pode desabrochar quanto lemos ou lavamos. No momento em que estiver pronta a emergir surgirá dentro de nós e subitamente compreenderemos, acariciando aquele maravilhoso sentimento do “A-há!”.

  A causa disso acontecer é a continuidade da consciente ação em nossas atividades diárias e nas práticas da meditação. Se estivermos sempre nos esforçando em nossa observância, e presentes, meditando diariamente tanto quanto possamos, a dinâmica da compreensão é posta em movimento. Tanto mais energia invistamos na continuidade da ação consciente mais dinâmica nossa compreensão virá a ser. É física simples: ação e consequência.

  Então usemos corpo, intelecto e emoção conscientemente, mas deixemos a consciência estar no comando.

EXERCÍCIOS

  1. Diariamente aprofundar-se e expandir sua auto-observância.
  2. Diariamente praticar retrospecção meditativa.
  3. Não especular, teorizar ou intelectualizar sobre fatos que esteja observando.
  4. Anotar os fatos de seu dia em seu diário espiritual.

  Pensamento do Dia: “Se você obtiver conhecimento da luz comece por discutir a escuridão. Se considerar a Verdade comece por discutir a falsidade, o oposto.

POR UM INSTRUTOR GNÓSTICO



  Tradução Inglês / Português: Rayom Ra

                                                        Rayom Ra
                                     http://arcadeouro.blogspot.com.br

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