domingo, 22 de maio de 2016

Os Três Dobrões - (2)



  O Sol vinha aquecer os seus corpos. Dentro em pouco a cidade estaria acordada e todos os pobres se descobririam novamente órfãos. Um vento suavizara em brisa e a brisa parecia abençoá-los. Já ganhavam o cenário das pradarias, das plantações. O monge assobiava, mais adiante murmurava um cântico. Roubard caminhava taciturno como nos primeiros tempos. Estranhamente repudiava a decisão. Não entendia que caminho seria esse, embora o caminhasse. Inquiria-se sobre esta perseguida felicidade. Vira dramas, dores e misérias. Lutara com denodo para amenizá-los. Aplicara-se; tornara-se discípulo de um monge, ao mesmo tempo seu confidente. Tudo fizera ao seu alcance, mas o caminho nada ainda acrescentara-lhe. Ao contrário, trouxera-lhe de recompensa outra profunda dor; para esta não havia agora remédios ou lenitivos!

  Como num filme lento a cores os cenários iam passando. Aqui e ali flores silvestres se ofereciam em buquês naturais. Irradiavam vida, coloriam-se pelo Sol! Adiante, eram os altos e imponentes bambuzais. Tocavam-se lá em cima, produziam curiosas formações de arcos. As nódoas solares e os borrões das sombras escorregavam sobre seus corpos.

  Irmão Antônio não mais solfejava. Caminhava altivamente. Os passos largos e o corpo forte traziam maior vigor aos cenários. O vento quando vinha tocar-lhe a testa e aos ruivos cabelos encaracolados, parecia querer refrescar-lhe a têmpera, abrandar uma ardência, amansar uma vontade férrea. A natureza provocava-o; ele se impunha; ela o respeitava; ele a transformava!

  Ao contrário do monge Roubard era presa fácil. Seu próprio mundo o encerrava. Não percebia o clangor inaudível ou a sussurrante voz inimaginável. Não desafiava, não detinha a presença do intuitivo: vivia o óbvio, o tangível, o factual. Era de alma ainda atordoada. A dor e o sofrimento o polarizavam mais que tudo. Mas por obra do destino ali estava. Trazia nas mãos um tesouro e no ventre uma fogueira!

  Adiante viram um pontilhão sobre um riacho. Atravessaram-no indo procurar um local aprazível. Sentaram-se, molharam os pés, a cabeça, e comeram. Roubard contou ao monge que enterrara um dobrão no lado de fora do galpão. O monge sorriu e agradeceu-lhe.

  Um ônibus velho parou e o motorista os convidou. Prosseguiram viagem até certo trecho e por mais dois dias viajaram a pé. Descansavam, pediam pousada e partiam cedo. No terceiro dia aproximaram-se de outra cidade. Vinham notando que a região era produtiva. A terra generosamente frutificava. Os cereais destacavam-se em maior escala.

   Uma onda de vozes, gritos e estampidos os fez de repente atentar. Súbito, um jipe carregado de lavradores quase os atropela. Empunham foices, enxadas e armas de fogo. Surge um caminhão com outros homens do campo. Eles gritam, cerram os punhos, clamam por vingança. Um trem apita, vem chegando. Irmão Antônio e Roubard, curiosos, aceleram os passos alcançando à cidade. A anarquia é geral. De um lado posicionam-se os lavradores, de outro o exército. Lojas estão saqueadas, as vitrines em pedaços. Há carros tombados, incendiados. Há sangue, gente morta, bombas explodindo, fumaça, uma verdadeira guerra!

  Chegam reforços do lado dos lavradores; mas muito mais do lado do exército que o trem os traz. A luta prossegue encarniçada. Levantam barricadas, novas mortes acontecem, os lavradores debandam; muitos são seguros pelos homens do exército, espancados e jogados nos vagões.  A maioria consegue fugir com tiros às costas; alguns ainda caem atingidos. O monge e Roubard escondem-se à distância, temendo ser confundidos.

  Quando os ânimos serenam, o monge corre para socorrer os feridos. Roubard o segue. Atendem lavradores e soldados. Um oficial os vê, inquiri-os; eles explicam que estavam de passagem e ele os permite ajudar. Os feridos gravemente são removidos para o hospital municipal; os mortos levados para serem enterrados. O trem parte carregando os presos, a gente ferida e os soldados mortos. O exército passa a patrulhar ruas e estradas, vem instalar-se pelas praças, montar tendas! O monge e Roubard ali permanecem e tomam conhecimento de uma versão da história.

  Os dias se passam e a situação se tranquiliza. O monge e Roubard conseguem pousada no fundo de um entreposto. Pilhas de batatas mal cheirosas fazem-lhes companhia. As mulheres trazem comida, viram-nos ajudar aos feridos e contam-lhes a outra versão da história. Ao final, ambos concluem que os homens do campo lutavam contra a exploração de poderosos latifundiários e comerciantes atravessadores. Já havia tido lutas anteriores entre ambos os lados. Como nada se resolvesse, e para não verem a cidade completamente saqueada e incendiada, as autoridades policiais pediram ajuda ao exército. O exército demorou a chegar e não conseguiu simplesmente conter os assaltos e invasões. O movimento revoltoso organizara-se com reforços de outros núcleos de trabalhadores, tocaiara-se na própria cidade e uma grande luta então fora deflagrada.

  O monge e Roubard, de comum acordo, iniciam um trabalho junto aos camponeses. Existe ainda revolta em muitos corações, e pobreza. Logo conseguem angariar a confiança daquela gente. O monge pratica a vocação sacerdotal, reza doentes, realiza curas, mas sem o mesmo labor diário de antes. Não desejando prender-se unicamente a isso resolve distribuir melhor suas atividades na semana. Roubard procura fazer o melhor. O tempo vai passando, porém a situação entre as classes não melhora. Roubard e o monge não se envolvem: unicamente trabalham. Tornam-se conhecidos por toda a região. Moram num casebre à margem de um sítio e gente de todos os lugares vem visitá-los. Ali eles estão bem e uma paz temporária os abençoa.

  Porém, entre os homens do lugar essa paz não existe. Novos conflitos vêm à tona. Os líderes dos lavradores revoltam-se, fazem comícios, ameaçam. Juntam-se a eles novamente homens de outros cantos, dispostos a lutar, cansados de reivindicar. São lavradores de pequenas cidades e vilas vizinhas que também apoiam, reivindicam, se rebelam. Torna-se iminente o perigo de invasões, de quebra-quebra, de queimas de plantações. Há inicios de negociações, desacordos, desafios. Fazendeiros reúnem-se, armam-se, contratam jagunços. Chegam notícias de mortes; a situação torna-se cada dia mais tensa!

  - Irmão Antônio – começou Roubard – passam-se sete anos desde que aqui chegamos. Esta noite tive um sonho. Vi-me retomando o caminho, deixando para trás este lugar turbulento. Não estou certo sobre a profecia do sonho, pois há tempos venho pensando em novamente partir. Seria verdadeira a mensagem ou simplesmente uma precipitação de meus imperfeitos desejos?

  - Não posso responder-lhe de maneira objetiva, caro Roubard. Não tive visões a respeito. Mas sinto-me igualmente inquieto como você. Se assim é partamos, não acha?

  Roubard acordou no meio da noite. O monge dormia e ele assim o deixou. Ao abrir a porta o jorro argênteo esparramou-se em facho pelo chão. Não sabia por que aquela insônia, aquela vontade de andar e percorreu os arredores notando que pela claridade do luar conseguiria até encontrar uma moeda no chão. Sim, era isso! Correu em busca de uma escavadeira jogando-a sobre um ombro e saiu por um caminho. Andou quase um quilometro sem rumo definido. Uma vontade repentina tomou-o e lançou-se temerariamente mato adentro. Pensava pisar numa cobra venenosa, ver-se diante de uma jaguatirica, um lobo do mato. Estava desarmado, tinha somente a escavadeira. Todavia, continuou. Adiante cortou a estrada principal em diagonal e prosseguiu por outro caminho.

  O ar estava leve. Somente com muita suavidade a brisa vinha jogar com a copa de uma árvore, com a folhagem de um arbusto ou com os compridos caules dos trigais. Tão leve como o ar e a brisa macia, um calor se espalhava em seu peito e uma sensação nervosa percorria-lhe todo o corpo. Tudo suave, estimulante, quase irreal. A luz do astro celeste infundia-se em si; sentia penetrá-lo como num conto de magia. Isto vinha criar-lhe um novo ânimo, impor uma coragem ante o desconhecido. Ele caminhava resoluto, aspirava o cheiro do mato, ouvia o ruflar de asas de uma coruja, percebia o quebrado e rasante voo de um morcego. Mas nada realmente o assustava e ele simplesmente prosseguia.

  Adiante, formas escuras das árvores assomavam figuras fantasmagóricas, mas Roubard não se permitia imaginá-las assim. Olhava-as com naturalidade; eram somente formas. De repente parou. Chegara a um lugar descampado rodeado unicamente por touceiras e pequenos arbustos. Sentiu vontade de cavar e cavou exatamente ali. Após um tempo descansou. Levantou a camisa e desatou o nó da algibeira, retirando um dobrão!

  A moeda ofuscava-se sob os raios lunares, mas não totalmente. Um místico conúbio ali se realizava. Roubard, oficiante deste cerimonial, apertou a moeda na palma da mão direita, repetindo o gesto da primeira vez, transferindo-lhe calor e emoção. Seu pensamento foi encontrar o rosto redondo e plácido de irmão Antônio, como se, invisivelmente, ele ali acompanhasse a todos os seus movimentos. Decidido, arremessou a moeda para dentro do buraco murmurando palavras de bons augúrios. Este supremo ato, para o qual todos os anteriores contribuíram em incidental sequência, precedeu ainda a um desfecho significativo, e um frêmito tomou Roubard aliviando-o de nova emoção mal contida. Ele tapou o buraco, disfarçou-o com touceiras de capim arrancadas nas imediações e preparou-se para voltar.

  Súbito, uma luz penetrante varou a noite. Um poderoso farol surgiu ao longe jorrando fachos em suaves e medidos ziguezagues. Ele aguardou e logo ouviu o distante ruído da máquina. Viajor noturno, o trem vinha chegando. Minutos depois, em reduzida marcha, passava a poucos metros de Roubard apitando e se anunciando.

   De novo se punham a caminho. Roubard, desta feita, não carregava o ingente peso da dor: ia com naturalidade. Cabelos e barba tinham quase encanecido e o rosto vincara-se mais. Entretanto, algo começava a crescer em si. Invisível atmosfera permeava-o; um ar de simpatia e atração configurava-lhe certa e natural altivez, embora nada disso ele soubesse perceber.

  Irmão Antônio, mais avançado em idade, curvava-se ligeiramente. Seus passos, embora ainda largos e cadenciados como a marcar o compasso de um ritmo quase sempre constante, não obstante arrastavam-se algumas vezes, mostrando diferença de outrora. Segurava um cajado, rustica e ligeiramente torneado por suas próprias mãos, no qual se apoiava com algo de coreografia de um velho e experiente ator. O semblante não envelhecera tanto. Os ruivos cabelos sim, e como em Roubard, vinham tomar conhecimento dos anos. Eram ainda visivelmente crespos, porém já mesclados de branco.
  - Sabe irmão Antônio – começou Roubard – nestes últimos sete anos muito me aconteceu. Nos primeiros meses, preso ainda àquela paixão que me corroía, não conseguia atinar com o verdadeiro valor das coisas. Tudo me era inútil, soando-me como se tocasse a vida sem verdadeiramente senti-la. O amargor trazido em meu coração provocava rudeza em meus gestos e tudo eu fazia desejando unicamente gastar-me. Tomava as obrigações como quem toma uma anestesia a fim de poder suportar uma incisão que lhe rasga a carne ou para a extração de um dente que o tortura. Não sei bem a que altura de nossas obrigações com o povo desse lugar o torpor foi passando sem que notasse esse efeito. Mas conseguia observar que, de pouco em pouco, minhas atitudes mudavam. Por uma graça ou por um trabalho realizado, uma estranha sensação viria mais tarde tomar-me, parecendo anunciar-me uma nova época, novos tempos. Ficava a imaginar o que seria: um mensageiro do céu a revelar-me anos de felicidade? Um despertar de poderes como os têm você?
  Entrementes, algo mais se modificou em mim e certa trégua veio acontecer em minhas inconstâncias. Entretanto, quando a paz emocional queria instalar-se em definitivo, um grito proposital vinha feri-la e espantá-la. Ora uma criança doente chorava diante de mim; uma mulher desesperada agarrava-se a meus braços, ou um lavrador confessava-me seus dramas íntimos. Isto me comovia, fazendo-me por vezes derramar lágrimas. Um sofrimento que não era meu sacudia-me não permitindo ao meu próprio eu ausentar-se. Em outras palavras: o processo de autoconhecimento que em mim se instalara parecia querer se resguardar, manifestar-se num futuro mais propício. O momento era de atrelar-me ao mundo, de adotar atitudes solidárias. Não obstante, o pensamento voltava a me pertencer e não evocava mais a triste recordação. Os ecos da paixão, antes poderosos e retumbantes, se enfraqueciam e somente por uma associação de ideias, em momentos de divagação, voltavam à tona. Contudo, não possuíam mais aquela antiga força insufladora de emoções; apagavam-se à dura realidade sem nada conseguir me provocar.
  Não encontrei a felicidade, caro monge, você sabe. Talvez a sensação descrita seja uma mensagem profética, um aviso de que a felicidade estaria a caminho, somente a caminho. O momento, quando e onde, me é totalmente desconhecido. Não me valeram até o instante as longas meditações, as tentativas de inserir-me no todo pela contemplação, conforme você ensinou-me e pratica, para ao menos estender a mão em direção dessa irreal fatalidade, essa coroação de esforços místicos, o summus stratus de toda a peregrinação humana. Se a mensagem é corretamente interpretada, o caminho é único nessa mesma trilha, mas os sentidos são opostos: ela estará realmente vindo e eu estarei indo. Sou infeliz ainda, irmão Antônio, mas não tanto!

  Irmão Antônio pôs a mão no ombro daquele homem ao mesmo tempo amigo e discípulo, e falou:
  - Alegra-me ouvir isto, Roubard. Os anos para alguns se arrastam, para outros voam como uma máquina cruzando o céu. Em você o peso começa a aliviar-se, não em termos de corpo evidentemente, mas de alma terrena. Você não o sente mais como um homem angustiado e martirizado – não agora. A balança alteia-se e abaixa-se, e o fiel, você próprio, a controla e a ajusta. Existe ainda amargura em sua alma, sabemos disto, porém suportável; há também ilusões que ao devido tempo estarão descartadas. Tem razão, Roubard, a felicidade é uma questão de tempo e ele preside à solução de nossos mais intrincados enigmas. Ela vem vindo, chegará um dia, haverá de chegar!

  Aproximaram-se de um rio largo e navegável. Havia ali um barco a motor e um barqueiro. Roubard olhou para o monge e ambos concordaram com a inequívoca sugestão. Ao conversarem com o homem souberam existir rio abaixo uma vila, o ponto mais próximo de atracação. Tomar-lhes-ia o dia inteiro se não acontecesse forte chuva ou qualquer outro imprevisto. Como ambos possuíssem algum dinheiro, economizado de uma ou de outra maneira, conseguiram pagar as passagens. O barco tinha uma pequena cabine e um toldo encerado; ali, com certa proteção, poderiam descansar ou dormir.

  Ao cabo do tempo finalmente desembarcaram. Seus corpos doíam pelo desconforto, mostrando marcas de mordidas de mosquitos. Pisaram a relva macia um tanto úmida espreguiçando-se. Havia em meio ao cansaço e monotonia da viagem a quase alegria de estarem novamente em terra firme sem a necessidade de retornar ao barco, como nas paradas realizadas durante o percurso. O barqueiro amarrou o barco e veio acompanhá-los até a vila em busca de passageiros.

  Era um lugar pobre sem ser miserável. O povo olhava-os com curiosidade. Ao barqueiro eles já conheciam. Um rápido comentário percorreu todos os pontos de conversa. Logo alguém suspeitou que fossem dois missionários. Estariam chegando para edificar uma igreja. Algumas mulheres se apresentaram, beijando-lhes as mãos. Roubard não resistia, já se acostumara. O monge explicava-lhes que embora fosse um sacerdote não construiriam igreja alguma. Pretendiam ficar ali, talvez para auxiliá-los noutras coisas. O povo não se convencia.

  Pararam diante de uma casa velha e abandonada. O barqueiro prosseguiu. O monge perguntou àqueles que os vinham seguindo o que acontecera com as pessoas que ali tinham morado. Eles explicaram-lhe que havia muitos anos esse lugar fora uma escola, mas a professora morrera de pneumonia e ninguém mais ensinara. Somente meia dúzia de pessoas por aqui sabia ler e escrever.
  - Então podemos nos instalar aqui até decidirmos o que fazer?
  - Sim, senhor, padre, mas vocês podem dormir em nossas casas. Onde dormem cinco, dormem sete! - falou-lhes um dos homens reunidos em torno dos visitantes. O monge e Roubard, apesar dos convites, insistiram em ali permanecer.

  Havia um funcionário da arrecadação municipal sendo ao mesmo tempo conselheiro do povo. Tudo no lugar era pelo mínimo quer se tratassem das obras públicas ou de impostos, e ele veio encontrá-los na abandonada escola, oferecendo-lhes melhores acomodações. Tanto insistiu que o monge e Roubard acabaram por aceitar, indo para sua casa, ficando no quarto de hóspedes.

  Pela manhã, convidou-os a conhecer a vila e ao povo em geral. Sendo homens da cidade seriam motivo de honra para o lugar e os levou numa charrete puxada por dois cavalos. Viram, então, de perto, como vivia aquela gente e as condições rudimentares de sua agricultura – completamente obsoleta e quase caótica. Mas o pequeno comércio resistia às necessidades, apesar do desinteresse por sua sorte.

  O povo, apesar de todas as limitações, era uma gente jovial, amável e de boa natureza. A rudeza nos gestos e no falar devia-se quase inteiramente a uma carência de educação: a seu modo eram pessoas hospitaleiras. No entanto, o monge pressentia que novos métodos, adequadas técnicas de agricultura, e uma educação escolar, lhes fariam muito bem. Não seria tarefa fácil por que o espírito humano não larga com facilidade seu atavismo, a idiossincrasia. Isso, longe de desalentá-lo, estimulava-o. Além do mais, tinha Roubard, homem bafejado por aquilo a que chamavam de sorte. Quem sabe – continuava a imaginar – com jeito conseguisse desviar Roubard da pregação, deixando-a mais para o futuro, recolocando-o justamente nesta sua vocação de atrair os bons eflúvios do progresso material? Com sorte, acentuava ainda, coadunariam três trabalhos com maior vigor: a educação, a agricultura e o comércio, anexando ao povo novas energias. Assim imaginava.

  Conversou com Roubard propondo-lhe trabalharem desde logo em dois campos diferentes. Roubard reconstruiria a escola, ensinando objetivamente tudo que pudesse e o que de fato eles necessitassem. Ele, o monge, buscaria convencê-los a colocar em prática os melhores métodos da plantação, cultivo e colheita que aprendera na vivência com os homens do campo. Havendo bons resultados, forçariam o progresso em todas as áreas e direções, o quanto possível.

  Não houve qualquer resistência do funcionário da arrecadação diante das ideias, pelo contrário, aplaudiu-as como se fossem suas! Uma campanha foi feita junto ao povo, para cujo interesse o nome do funcionário aparecia sempre em primeiro lugar, logo se iniciando a reconstrução da escola. O funcionário orientava adultos e crianças a fim de que fossem aprender com o professor Roubard. Seria bom para a comunidade, para a vila.  Aproveitava para informar ao povo, que o monge se reuniria com lavradores e donos de sítios a fim de expor-lhes suas ideias e planos para uma nova época na agricultura. Era pensamento seu – dizia ainda o funcionário referindo-se a si próprio – que houvesse maior progresso da vila, pois ela ocupava os últimos lugares na arrecadação do município. Precisavam mudar aquela situação, serem notados no cenário político, evoluírem, seria bom para todos, para as futuras gerações.

  Passado um tempo a escola reabriu começando a ser frequentada por algumas crianças e pouquíssimos adultos. Era somente uma turma. Em relação às ideias do monge, não houvera qualquer interesse, nem reuniões. Para não ficar totalmente alheio ele foi visitar os produtores e conversar com cada um deles.
  - Os meios para trabalhar a terra continuarão os mesmos por enquanto, explicava-lhes. Entretanto, plantaremos maiores quantidades, negociaremos. – Eles argumentavam que as vilas vizinhas, ou cidades, eram distantes e de todas as formas produziam para seus próprios sustentos. – Haverá coisas que não plantam ou a produção seja insuficiente necessitando importar; ademais, há a estrada de ferro. Vocês venderão para outras cidades, ganharão dinheiro, comprarão equipamentos modernos!

  Tudo inútil havia realmente forte resistência a novos métodos e depois de repetidas tentativas o monge finalmente desistiu. Não se saíra bem naquele papel. Isso talvez coubesse melhor a Roubard!

  Como alternativa, uniu-se a ele na escola, passando a assisti-lo. Mais tarde, viriam os jovens. Estes se interessavam de fato e aprendiam tudo mais rápido. Uma vez por ano os dois professores partiam para outras cidades em busca de material didático. Traziam livros, cadernos e acessórios para o ensino procurando sempre modernizar o que faziam.

  Alguns anos consumiram nesse labor, mas não muitos. O cansaço ou alguma coisa já conhecida de outrora viria novamente encontrá-los. Decididos a não se deterem por mais tempo, partiriam pela madrugada sem nada avisar. Haviam ganho dois burros para se locomoverem pelos lugares distantes e agrestes da região, nas visitas que faziam para ensinar ou auxiliar as pessoas, e resolveram levá-los. Desta feita, foi Roubard quem julgou tomar a decisão e sem excitação ou especial motivação mística cavou no fundo da escola, com ajuda de Irmão Antônio. Antes de jogar o último dobrão dentro do buraco, realizou o pequeno ritual de aquecimento da moeda na palma da mão, pronunciando as palavras de bons augúrios.

  Ao romper do dia já estavam longe. Iam pelo mato, rio abaixo. Paravam muitas vezes para descansar. Não aguentavam mais as agruras de uma jornada como aquela com a mesma disposição de outrora. Estavam quase velhos, precisavam cuidar-se. Por dois dias viajaram no lombo dos animais, dormindo sob árvores, armando barracas e fazendo fogueiras. Conseguiam pescar e comer peixe frito. Ao final do terceiro dia cruzaram uma ponte; adiante tomaram uma trilha desconhecida embrenhando-se mais ainda mato adentro, deixando o rio para trás. Pouco andaram logo acampando. Dormiram mais uma noite sob cricridos de grilos, coaxares de sapos, ou piares de corujas. Ao crepúsculo de um novo dia levantaram-se, mas não foram muito longe. A poucos metros dali viram um casebre de pau-a-pique com telhas de barro cozido. Curiosos, aproximaram-se e chamaram. Ninguém veio atendê-los, eles abriram a porta: estava abandonado!

  Percorreram o quintal notando a existência de um galinheiro vazio; mais ao longe viram um pequeno curral de porcos, também vazio. Um córrego vinha cortar a terra por entre capins e matos. Ao fundo, bem mais distante, dois pequenos morros impunham-se como duas colinas gêmeas. Em derredor, se mostrava um extenso campo de agricultura semi trabalhado. Havia por ali uma horta com hortaliças e verduras; havia aipim, abóbora, pés de milho e frutas, todos carentes de cuidados pelo abandono. Um cacarejar chamou-lhes a atenção e viram uma galinha vermelha sair do mato, acompanhada de meia dúzia de pintos. Eles riram e sentaram-se. Ficariam por ali o quanto desse, até que o dono voltasse. O dono não voltou, eles foram ficando. Pretenderam modificar o panorama do lugar, dar melhor produtividade à terra semeando-a, mas não tinham ferramentas nem sementes.

  Um viajante passou fortuitamente pelo lugar: era um mestiço forte. Ao vê-los aproximou-se. Perguntado acerca do dono do lugar não soube responder, era a primeira vez que tomava esse caminho. Os dois não se identificaram, dizendo somente terem chegado para morar e Roubard teve uma idéia. Disse estarem a enfrentar imensas e inesperadas dificuldades e procurou barganhar. O homem lhes traria uma lista de coisas e em troca receberia seu burro de cargas. Os olhos do mestiço brilharam e entrou para discutir a barganha.

  Com as ferramentas que conseguiram e demais coisas que as acompanharam, principalmente sementes, uma nova fase iniciou-se naquele solitário lugar. Aos poucos iam modificando o antigo cenário. A horta crescia, o verde se esparramava. O campo de agricultura também limpo em grande área, brotava belas e saudáveis espigas. O galinheiro fora reconstruído, possuíam agora galinhas e ovos.

  O mestiço voltou e o monge ofereceu-lhe o seu burro. De novo barganharam. Equipavam-se uma vez mais de necessários utensílios, conseguindo estabelecer-se com certo conforto. Por três vezes mais, ao longo de dois anos, o mestiço retornou trazendo-lhes coisas, recebendo o dinheiro que possuíam. Vinha sempre remando e atracava mais abaixo na grande volta do rio, há meia hora dali. Quando o dinheiro acabou o mestiço não voltou mais.
                                                                    
  Suas vidas decorriam agora com poucas nuanças. Quando não estavam a cuidar das plantações, ou a fazer reparos na casa, meditavam ou descansavam. Pouco conversavam, somente o essencial; tinham se tornado autênticos eremitas!

   A ação do tempo fixara-lhes definitivas e indeléveis marcas. Roubard não possuía mais um único fio negro em sua barba e cabeleira. A testa e todo o rosto sulcava-se profundamente. O monge perdera os cabelos e também ganhara rugas. Seus corpos dobravam-se ante o peso dos anos. Com dificuldade se locomoviam. Muitas vezes adoeciam e procuravam tratar-se com ervas e plantas. Por grande sorte, ou pela vida natural que levavam, não tinham contraído nenhuma doença grave ou incurável. No entanto, já não podiam dizer-se completamente esquecidos do mundo, pois outras pessoas que por ali passavam os chamavam a fim de pedir água, algum alimento ou mesmo entravam para descansar. O mestiço tinha espalhado que no casebre moravam dois homens bons que não desejavam sair de lá para nada.

   Certa ocasião, um homem resolveu procurá-los. Tinha uma dor de cabeça incurável. Soubera anos atrás na cidade por onde passara que um padre milagroso tinha morado ali perto num sitio de um lavrador. Fizera muitas curas e desaparecera de repente com seu auxiliar sem deixar vestígios. Por instinto ou intuição suspeitava de que seriam as mesmas pessoas de quem falara o mestiço.

  Ao saber de ambos saiu a procurá-los, explicando ao monge o motivo de sua vinda, implorando que o curasse. Irmão Antônio avaliou o seu problema dizendo-lhe que um espírito doente o perseguia, estando colado a ele. O homem pediu-lhe para afastá-lo de si. Irmão Antônio mandou-o aguardar saindo pelas redondezas, voltando ao cabo de meia hora com ramos de plantas e uma braçada de diversos galhos verdes. Ordenou-lhe que se despisse completamente e o homem sequer relutou.

  Estando completamente nu, irmão Antônio sapecou-lhe as plantas por todo o corpo. Conforme ia batendo grunhia, resmungava ou dava ordens ao espírito. Depois, impôs as mãos à cabeça do perseguido, rezou e fez o sinal da cruz diversas vezes. Finalmente, com dedos unidos bateu-lhe três vezes no coração e três na testa, afirmando ter arrancado o espírito obsessor que não mais o perturbaria. Mandou-lhe – ao chegar a casa – que ateasse fogo nessa roupa que vestia e nas demais que possuísse, jogando as cinzas no rio ou num cemitério e comprasse novas. O homem vestiu-se, beijou-lhe as mãos e foi embora.

  Duas vezes ao ano, por alguns anos, esse homem agradecido voltou, trazendo-lhes roupas, cobertores, calçados, apetrechos, algum mantimento, sementes, às vezes até garrafas de vinho ou licores. Irmão Antônio e Roubard aceitavam. Em ocasiões, ele dormia na casa partindo ao amanhecer, não sem antes pedir ao monge uma reza ou uma benção.

  Certa tarde chuvosa e fria, enquanto sentavam próximo ao fogo a fim de aquecer-se, o monge começou a recitar qualquer coisa. A voz saía-lhe rouca e pausada. Fechara os olhos deixando as mãos pousadas sobre os joelhos. Falava com grande dificuldade, não somente pela idade, mas por uma razão até então não entendida por Roubard. Passado instante, a voz foi se tornando vibrante. O ar do rosto se transformava do inexpressivo ao jovial; a recitação, ainda vibrante, era agora acompanhada de gestos.

  Roubard, a princípio assustado, seguia com atenção a sucessão de movimentos do companheiro. Os sons pronunciados pelo monge enchiam aquele pequeno espaço, estremeciam o corpo de Roubard deixando-o algo atordoado. Iam do grave ao agudo, cresciam ou decresciam, tornavam-se fortes ou mansos, verdadeiramente mântricos! 

  Aos sons seguiu-se uma invocação em linguagem desconhecida. A cabeça erguia-se, os braços abriam-se para cima. Depois uma sussurrante prece – suave como um bálsamo ou inusitada poesia. A prece atraiu ao ambiente uma paz que a tudo permeava. A cabeça do monge então pendeu para adiante. Roubard levantou-se indo ampará-lo.

  Manhã seguinte, gemendo e com imensa dificuldade, Roubard arrastava o corpo inerte de irmão Antônio. Envolveu-o num lençol branco e o depositou na cova aberta no fundo do quintal. Fincou ali uma grande cruz de paus, desejando que significasse quão grande tinha sido aquele homem. Depois chorou muito e soluçou.

  O inverno passou e também a primavera. Roubard, mais só do que nunca, pensava. Não tinha mais disposição para se mexer ou trabalhar. Lembrou-se do monge. Haviam se decidido ao mesmo tempo por viver um motivo mais forte. Encontraram-se na mesma encruzilhada diante de um único destino. O caminho trilhado prometia levá-los ao encontro da felicidade, daquilo que se elegia em seus pensamentos como o cume, a coisa mais importante, a única motivação que julgavam existir para continuar respirando. Ao invés disto que haviam encontrado? Miséria, dor, trevas, sangue e mortes. Em verdade, a felicidade jamais houvera se apresentado. Existiria de fato ou seria quimérica ilusão construída pelo demônio, justamente para enganar homens sem esperanças?

  Julgara-se a certa altura da jornada menos infeliz. Adiante, viveria de emoções insulsas, jamais da realidade. Ao experimentar certa trégua em suas íntimas lutas, atribuíra-a, neste instante, ao próprio trabalho que o mantinha ocupado, às experiências acumuladas. Nunca a uma possível aproximação desta mística forma de um sonho louco! Ainda era a mesma pessoa solitária e infeliz. Afastara-se definitivamente dos homens; tornara-se, por fim, um morto-vivo. As visões que costumavam povoar seu mundo íntimo enquanto meditava, provaram-se também ilusórias; eram amorfas, escorregadias, intangíveis, nada mais que isto. Pareciam rir de sua dor, de sua tolice em tentar. Louco e demente eis o que sempre fora. Louco e demente fora também seu companheiro de infortúnios, um monge curioso conhecedor de fórmulas ditas mágicas, de cânticos estranhos e técnicas de fazer coisas, tudo construído pela imaginação. As visões quixotescas, as intuições, os sonhos de atingir o inexistente, os três dobrões! Quantos sonhos irmão!    

  Cansa-me este lugar agora que meu companheiro partiu. Vou-me embora. Adeus, irmão Antônio, adeus, monge! Deixo-o só. Perdoe-me se não suporto mais olhar para estas coisas. A todo instante vêm lembrar-me de minha vida, de nossas vidas. Sei que não adianta fugir por que a natureza não deixará de enviar sua executora impiedosa a fim de retomar aquilo que me deu emprestado para se divertir. Porém, assim mesmo vou andando, talvez para apressar este encontro último!

  E Roubard se foi. Vestia-se como um pobre que realmente era. Levava ao ombro a bolsa de couro velha e encoscorada, a única coisa que lhe lembrava do amigo. Ao chegar ao rio sentou-se à margem para novamente descansar. Queria também molhar os pés, refrescar-se. As pernas doíam-lhe, respirava com dificuldade; o calor era forte, consumia-lhe energia.

  Súbito, o ruído ritmado e acelerado de um motor penetrou-lhe os ouvidos e viu um barco subindo. O barco aproximava-se rapidamente, Roubard assustou-se. Quis correr, teve medo, entretanto tropeçou, caiu e ficou estirado. O condutor do barco, moço alto e forte, percebendo os movimentos e queda daquela pessoa, desviou seu curso para a margem aproximando-se. Ao notar que se tratava de um pobre velho que o olhava assustado, pulou do barco, rindo e debochando, ajudando-o a se levantar. Roubard, mediante essa disposição, acalmou-se um pouco concatenando as palavras com dificuldade, dizendo-lhe que pretendia ir rio acima. Depois de tanto tempo era-lhe tão difícil falar, dialogar! O rapaz, penalizado, apoiou-o e o colocou sobre o barco o levando.

  Pouco conversavam por que Roubard não sustentava os assuntos e mal respondia. O barqueiro assobiava e cantava. Por todo este dia viajaram. Roubard trouxera frutas e as comia. O rapaz ofereceu-lhe peixe frito e pão. Roubard pôde alimentar-se melhor. Finalmente o barco veio encostando à margem. O rapaz atracou informando-lhe que ficaria por ali. Adiante havia uma cidade; lá Roubard conseguiria outro tipo de ajuda. Roubard, num impensado gesto, abraçou-o fortemente desejando-lhe sorte.

  Era tudo estonteante! Os carros correndo e buzinando pela estrada; casas, comércio, rádios, músicas explosivas, restaurantes, lojas, aparelhos de  todos os tipos! Roubard encolhia-se quando ouvia o ronco mais forte do motor de um veículo; levava as mãos aos ouvidos. As pessoas olhavam-no, caçoavam dele, de seu modo de se conduzir, das esquisitices.

  Entrara diretamente no movimento da cidade. Via gente bem vestida, apressada. Via mais carros, mais lojas, ouvia mais barulho por toda a parte! Meio atordoado atravessou a rua; foi sentar-se num banco no meio da praça. Descansou e observou. Há quanto tempo não via gente assim, cidade! Achava-se desconcertado, fora do ritmo da vida. Era tudo tão diferente: as pessoas, as roupas, a maneira de falar, de ser! Não entendia por que corriam tanto, da pressa! Passou as mãos nos cabelos brancos, alisou a longa barba e virou-se para o lado a fim de acompanhar o voo solitário de um pombo. Pelo menos esse não participava daquela confusão dos diabos, ou não contribuía. O pombo insinuou-se entre árvores, ultrapassou-as e descreveu um semicírculo. Roubard seguiu-o com olhos atentos: admirava seu desprendimento, a independência do voo! Em lance calculado, o pombo imprimiu um novo ritmo ao bater das asas, ganhou velocidade, subiu abruptamente e pousou no telhado de um largo edifício, o maior daquela quadra.

       O pombo aquietara-se. Roubard trazia os olhos para o frontispício do prédio deslizando-os com lentidão, lendo o que ali estava escrito. Ao término estava tenso, mal podendo acreditar. As palavras em peças de aço brilhoso anunciavam: “ACADEMIA ANTÔNIO-ROUBARD”.

  Roubard atravessou a rua sob buzinas, sendo quase atropelado. Estava boquiaberto. Diante do prédio releu o título. Quantos anos teriam se passado, dez, quinze, mais ainda? Perdera a conta, nem sabia em que ano estavam. A escola, a vila: tudo se transformara! O incontido progresso chegara, alcançara-os. O dobrão fora o responsável, mudara o rumo e a história do lugar. Irmão Antônio estava certo, mas o que fizera seria bom?

  Alguém o esbarrou, ele se desequilibrou caindo sentado. Ouviu palavras de zanga, escárnio e impropérios. Mandaram-no procurar o albergue no final da rua. Roubard estava cansado. A emoção somava-se ao desgaste natural da viagem, da última caminhada antinatural para ele, pela absorção da atmosfera super dinâmica e nervosa da cidade. Foi quase se arrastando para o final da rua, encontrando o albergue.  Entrou e sentou-se no chão.

  Uma mão sacudiu-o, acordando-o. Dormira sem sentir, desfalecera de cansaço. Havia movimento, fila; pisavam-lhe os pés, ele se levantou. Hora da comida!  Entrou na fila, recebeu um prato, foi servido indo sentar-se ante comprida mesa sobre um longo banco, ladeado por companheiros de sorte! Tendo comido, um homem chamou-o fazendo-o entrar numa sala. Despiram-no. Ele não esboçou a menor reação por que vira que lhe dariam novas roupas: era tudo tão estranho, seria verdadeiro? Estenderam-lhe roupas usadas, mas limpas: ele as vestiu. As que vestira estavam sujas, jogadas num monte com outras. Procurou a velha bolsa. Estava a um canto para ser também jogada fora. Ele a agarrou e saiu.

  Retornou à praça; ficou ali a contemplar a obra. Fizeram-lhe companhia, perturbaram-no; ele se levantou saindo sem destino. Um objeto rebrilhou no chão. Era um porta-níqueis de metal dourado. Ele o pegou e o abriu; havia notas e moedas. Recolheu-as colocando-as no bolso, largando o porta-níqueis no chão. Adiante, tomou o primeiro ônibus que viu parado. O ônibus saiu da cidade ingressando numa estrada. Roubard desejava reconhecer um lugar, uma casa, a memória não ajudava. Final da viagem. Roubard, sem saber para onde ir aguardou. Outro ônibus parou e ele o tomou. Foi levado a lugares mais afastados do centro da cidade. Adiante, viu uma estrada de ferro e em seguida a estação. Excitou-se, tomaria o trem, viajaria para mais longe!

  Roubard instalou-se no banco, relaxou e dormiu. O trem sacudia; o banco era duro e desconfortável; ele dormia e acordava. Antes do sol se levantar, Roubard estava atento à janela; observava o panorama que aos poucos se tornava mais nítido. Viu campos de plantios e lavouras bem tratadas. Surpreendia-se com as dimensões de cada reserva, com a quantidade de máquinas, algumas estranhas e desconhecidas para ele! Caminhões enfileiravam-se pelas estradas transportando homens àquela hora da manhã, dirigindo-se para várias direções e sentidos ou circulando em torno dos campos. A julgar pelo que via os homens estariam sendo transportados para trabalharem na colheita.

  Com efeito, adiante viu campos e colheitas. Meia hora depois o agente anunciava a próxima cidade já entrando em seus limites. Algo lhe despertou os sentidos, mas não identificava exatamente o que seria. Na medida em que o trem se interiorizava, Roubard procurava atentar para o tamanho da cidade. Seria grande, muito maior do que a anterior de onde vinha!

  Dizeres de boas vindas indicavam o nome daquela cidade e ele finalmente lembrou-se. Excitado levantou o vidro. Queria observar, ver o que suspeitava! À margem da estrada de ferro viu muitos armazéns, silos e entrepostos. Ocupavam enorme área para a estocagem dos produtos agrícolas e provavelmente dos manufaturados para embarques. Havia movimento; entra e sai de caminhões; via homens com papéis e pranchetas à mão.

  A parada foi rápida. Logo o trem partiu. Um passageiro veio sentar-se no banco da frente. Roubard sem conter-se o tocou ao ombro perguntando-lhe acerca da cidade, das relações entre lavradores e comerciantes. Surpreso, o homem respondeu-lhe que há muitos anos não tinham qualquer problema entre classes. Isto pertencera ao passado. Pequenos e grandes proprietários agiam com normalidade: plantavam e colhiam; os produtos eram trazidos para os armazéns das cooperativas. Havia também fábricas, produtos para exportação. Se problemas existiam decorriam das oscilações do próprio mercado, portanto de uma ordem natural. Os lavradores, além do mais, tinham sindicato para representá-los, levavam suas exigências às esferas legalmente constituídas. Negociavam, faziam suas reivindicações. Havia escolas, hospitais, o livre culto das religiões. Nada os impedia nas relações entre trabalho, capital e sociedade; dispunham de todos os instrumentos e instituições necessárias, e os faziam funcionar da melhor maneira possível.

   O dobrão, pensou Roubard, o segundo deles. Havia-o enterrado próximo dali, não lhe restava a menor dúvida, ele açoitara o mal, atraíra o progresso e o impulsionara!

  O trem prosseguiu. Para Roubard a viagem terminaria numa estação qualquer. Cansado de tanto viajar sobre trilhos resolvera ficar. A fome incomodava, restava-lhe ainda algum dinheiro e parou numa birosca de beira de estrada comendo pão, ovos, lingüiça frita e tomando café com leite. Há quantos anos não tinha uma refeição dessas! Comprou mais e acondicionou na bolsa; depois seguiu a pé. Uma chuva veio pegá-lo no caminho, precisou andar depressa, mais do que normalmente fazia. Por sorte encontrou uma ponte sobre pequeno rio, protegendo-se debaixo dela. Como a chuva apertasse, ele ali permaneceu na companhia de uma velha mendiga, com quem dividiu o alimento que trazia. A mulher soltava palavras sem nexo, de vez em quando concatenava ideias e conversava com lógica. Mas depois de gastar seu pequeno repertório coerente voltava a dizer tolices.

  Num desses momentos de breve lucidez, perguntou-lhe de onde ele vinha. De muito longe, de tal cidade, respondeu Roubard. E para onde você vai? Para uma cidade onde estive há muitos anos. E qual é o nome desta cidade? Apesar do tempo, esse registro não lhe desaparecera da memória por que era ponto base de seu destino, de sua vida, como lhe foram as cidades que há bem pouco deixara para trás. Assim, informou-lhe o nome. A velha mulher, com riso, afirmou-lhe ser ali mesmo. Mas esse não é o nome da cidade, falou Roubard desanimado, desconfiando que ela começasse de novo a fugir da razão. Foi mudado há muitos anos, eu me lembro sim. Foi pouco depois que meu noivo me deixou fugindo em companhia de um padre. Nós íamos nos casar, mas ele fugiu, Roubard fugiu! Ela gargalhou e tossiu. Não fuja, Roubard, volte! Gritou e gargalhou de novo!

  Roubard levou um tremendo choque, trazendo a mão ao coração. O sangue subiu-lhe ao rosto asfixiando-o por segundos e nada mais enxergou. Quando isto foi passando, outra dor mais profunda arrancou-lhe um novo pedaço da alma. O arrependimento fazia-o pagar por aquilo que deixara em aberto no livro do destino. Ele se levantou e ajoelhou-se diante da mendiga:
  - Perdão, eu não sabia o mal que lhe estava causando. Eu só pensava em mim!

  Tomou-lhe as mãos e quis beijá-las; ela arrancou-as com violência e gargalhou até cair de costas. Lágrimas inundaram-lhe os olhos de Roubard, descendo pela barba. A mulher silenciara aquietando-se; unicamente os soluços de Roubard eram agora ouvidos.

  Pela manhã a mendiga ainda dormia; ele deixou-lhe todo o alimento que restara. Nada mais tinha para dar-lhe e orou fervorosamente, pedindo que sua alma finalmente encontrasse a paz. Saiu cautelosamente temendo despertá-la.

  As pernas mal obedeciam, o peito doía, ele arfava. Parava de trecho em trecho, respirava com dificuldade, levava a mão ao peito e descansava. Súbita tonteira sobreveio-lhe; ele quis agarrar-se, mas não tendo onde se apoiar caiu desfalecido.

  Ao acordar estava sobre uma cama; via soro, balão de oxigênio, enfermeiras. Quis levantar-se, não lhe permitiram. Que aconteceu? O senhor foi encontrado desmaiado à beira da estrada por nossa ambulância. O médico colocou-o na maca trazendo-o para o hospital. O senhor teve um enfarto, precisa repousar. Não, eu tenho de prosseguir! Por favor, fique quieto, senão vai piorar!

  Seguraram-no, obrigaram-no aquietar-se, deram-lhe anestésico e ele dormiu. Ao acordar alimentou-se. Resignou-se por dois dias. Mas, à noite, enquanto na enfermaria todos dormiam e pelo hospital a vigilância interna relaxava, ele arrancou os tubos de soro e medicação, vestiu-se, pegou a bolsa e evadiu-se. Chegando à rua saiu a andar pelo quarteirão. Mas se sentindo cansado buscou refúgio num horto, encontrando uma gruta à beira de um lago nela permanecendo. Algo familiar veio novamente mexer com sua memória, trazer-lhe recordações não definidas, agitar com o subconsciente. Como o dia raiasse, ele voltou para as imediações do hospital. No caminho encontrou um negro avançado em idade e perguntou-lhe acerca daquele hospital.

  O homem contou-lhe que fora construído há muitos anos. Ele se lembrava de toda a sua história porque era morador das redondezas. Dois missionários, um padre e um homem comum, haviam chegado. O bairro era muito pobre, miserável mesmo, eles tinham vindo para ajudar o povo. Construíram um galpão de madeira e à moda deles transformaram-no em hospital e em muito mais coisas. Trabalharam com dedicação pelo povo. Mas um dia se foram sem nada avisar abandonando o galpão. Coincidentemente, no mesmo dia, veio um grupo de universitários, estagiários de medicina e assistentes sociais que faziam um mapeamento das comunidades carentes, segundo um programa de governo. De seus relatórios da miséria daquela gente, a atenção do governo foi sendo despertada e como os jornais e a televisão passassem a se interessar, uma comissão oficial de estudos foi enviada para definitivamente tratar do assunto. Ao constatarem o abandono da população, fizeram planos para a construção de um hospital, iniciando a obra no exato lugar do galpão. Demoliram muitas casas transferindo moradores. Depois, foi a vez de outras casas na periferia do hospital, até que finalmente quase todo o bairro veio a ser demolido. O hospital ampliou-se, outros prédios vieram fazer parte do bairro, segundo um projeto urbano muito bem elaborado. Com o correr dos anos o bairro cresceu, o comércio expandiu-se, mas o hospital permaneceu atendendo principalmente à população pobre.

  O homem se foi, Roubard sentado no meio fio sob uma árvore refletia acerca da história. Uma leve tonteira veio cortar-lhe a reflexão; ele buscou inspirar com mais vigor, seu corpo inteiro doía-lhe, os pés inchavam, as pernas tinham ficado endurecidas. A tonteira foi passando, mas uma fraqueza veio instalar-se. Tinha fome, talvez a fraqueza fosse devido a isto. Levantou a cabeça e viu dois pobres caminhando em sua direção. Ao passarem adiante perguntou-lhes onde havia comida. No albergue do hospital, estamos indo para lá.

       Roubard os seguiu a certa distância, estava fraco demais para acompanhá-los. No albergue comeu boa comida e saiu. Apesar de tudo, aquela cidade não lhe causava nenhum bem, queria deixá-la o quanto antes. Estava muito cansado, as dores não passavam, de vez em quando sobrevinham-lhe novas tonteiras. Um gosto estranho subia-lhe pela garganta, quase vomitava. Como não tivesse dinheiro para viajar resolveu esmolar. Sentado na esquina com uma lata à mão recebia migalhas de dinheiro. Durante três dias assim ficou, comia no albergue do hospital e por lá também dormia. Juntara somente pequena e insuficiente quantia para adquirir uma passagem de ônibus. A saúde abalava-se cada vez mais. No final deste mesmo dia, por engano ou por desígnio, jogaram dentro da lata uma nota dobrada. Ele a retirou e alegrou-se. Com ela poderia agora adquirir a passagem; sobraria troco para comprar comida!

  No albergue deram-lhe roupas limpas, ele comeu ali pela última vez. Problemas vieram mudar os seus planos e não pode comprar a passagem por que não tinha documentos. Além de tudo, quem iria viajar ao lado de um mendigo? Ele saiu da rodoviária desalentado e triste. Somente ali tinham exigido tal coisa, desprezavam-no. Habituara-se às chacotas e ao escárnio, não ao desprezo. Estava, porém, decidido e se pôs a caminho com todas as dores e dificuldades. Ao deixar os limites urbanos da cidade e palmilhar a estrada, passavam-se três dias. Ele tossia muito, descansava a todo o momento.

  Roubard não aguentava mais. Ao longe, dentre confusas imagens, viu um grande veículo imaginando que seria outro ônibus. Quem sabe aqui lhe permitiriam viajar nele. Meteu a mão no bolso retirando o dinheiro que possuía mostrando-o. Era um caminhão.  O motorista ao vê-lo quase se lançando no meio da estrada freiou o veículo. Roubard pediu-lhe ajuda, iria até onde seu dinheiro pagasse. O motorista puxou-o para dentro da cabine. O caminhão transportava carga coberta por um toldo; por várias horas viajaram. Roubard, estafado, dormiu. O dinheiro que segurava esparramou-se sobre o banco. Ao pararem num posto de gasolina, próximo a um restaurante, o motorista acordou-o. Roubard, assustado, ajeitou-se. O motorista disse-lhe que ia deixá-lo ali porque poderia comer e descansar. Roubard quis dar-lhe todo o dinheiro, mas ele recusou e prosseguiu viagem.

  Roubard piorava; as dores por vezes aumentavam, ele seguidamente levava a mão ao peito. Comprou um pão, tomou café e prosseguiu a caminhar. Ingressou numa estrada qualquer e afastou-se do movimento pesado da rodovia. A estrada veio cruzar um caminho no qual ingressou. Via casas, quintais, pequenas plantações, arvoredo. A tarde estava agradável, a temperatura amena. Mas Roubard não tinha condições de sentir profundamente todas essas coisas. De vez em quando via pedaços mais distantes do céu, via nuvens brancas. Queria ver mais, desejava respirar o ar campestre, rever pastagens, sentir o bucolismo da vida pacata. Dores profundas e lancinantes vinham interromper esses desejos, tolher os seus passos, trazer-lhe angústias. Ele cambaleava, levava a mão ao peito, gemia. O gosto estranho na garganta lembrava-lhe sangue; o rosto queimava, a cabeça latejava: assim mesmo ele prosseguia!

  Uma imagem livre, sem conexão alguma, assomou dos labirintos de sua mente: era irmão Antônio! Ele sorria-lhe.  Idiota, pensava Roubard. Veja a que estou reduzido, ao que cheguei. De seus gloriosos e místicos sonhos nada restaram. Os dobrões, aqueles traidores talismãs. Trouxeram esperanças inúteis, coisas e mais coisas. Vejo agora, sinto tudo claramente. Por minhas mãos eles escorregaram infiltrando-se na terra, no mundo dos homens, semeando o progresso e a edificação de monumentos. Monumentos a quê? À cegueira humana, ao orgulho das classes. Veja, Roubard, aqui há escolas, os homens aprenderão coisas, serão doutores. Ali, Roubard, guardarão seus produtos, os alimentos; a fome e o desconforto não os alcançarão. Aqui, Roubard, o hospital magnífico atende aos esquecidos, aos que não têm onde cair mortos! Malditos dobrões, malditas moedas de ouro. Enganaram-me o tempo todo, enganaram-nos seu monge cabeçudo! Parte de minha vida carreguei-os julgando-os portadores de alguma profética verdade, da anunciação de uma nova vida. Mas eles eram somente três moedas: a magia estava em minhas mãos. Eu sou o culpado!

  Uma dor mais forte fê-lo cair de joelhos, gritando. Ele suportou aquilo por quase um minuto. A dor atenuou e ele se levantou. Na mente aquele rosto ainda sorrindo.  Estou indo monge, estou indo! Deu mais alguns passos e chegou ao final daquele caminho, ali se deitando. Fechava os olhos, via confusas imagens, deformações. Abria-os e essas coisas continuavam. Um peso fez com que os cerrasse em definitivo: a dor agora o torturava mais e começou a ouvir muitas vozes. Quis prestar atenção, não as entendia. Aos poucos vieram a ser abafadas: uma só voz passou a ecoar claramente: era forte, enérgica, ele a conhecia muito bem:

  - Nós vamos encontrá-la, Roubard, precisamos dela. Ela representa para nós a coisa mais importante; mais do que o pão que comemos e a água que bebemos!
  - Fala-me agora, monge, recorda-me de nosso início!
 
  Um som agudo como a vocalização de um cântico, penetrou-lhe os ouvidos. Ouvia agora palavras estranhas entoadas como música, como mágicos sons! Seu corpo estremeceu e convulsionou num derradeiro frêmito; uma paz imensa e grandiosa que nunca conhecera o tomou, um sorriso de felicidade veio rasgar seu rosto inerte e ele assim permaneceu!
  
  Naquele lugar onde dois caminhos vinham se juntar e prosseguir numa só estrada, acharam o seu corpo. Removeram-no dali e o enterraram como indigente. Tiveram a idéia de fincar uma cruz de paus entre os dois caminhos, no exato lugar onde ele terminara os seus dias. A cruz suportou muitos anos. Os braços abertos estariam a espantar a quem desejasse um dia iniciar semelhantes passos sem estar temperado no próprio sofrimento. Pois para tal empreitada era requerido tacitamente o despojo de todas as ilusões e da escravidão aos prazeres do mundo. Não fosse assim a jornada seria vã, e os sacrifícios inúteis!

[Por Rayom Ra – Direitos Autorais 48020]


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