domingo, 22 de maio de 2016

Os Três Dobrões - (1)



  Afinal, que destino teriam os dobrões salvos do montante do ouro em A Maldição e a Virtude?
 As reflexões deste outro Conto de Magia ficam com os leitores.

 OS TRÊS DOBRÕES

  Eram-lhe confiadas as mais difíceis tarefas. Ele sempre sabia o que fazer, qual decisão tomar, qual o momento de atacar ou de aguardar. A inteligência, o apurado faro para os negócios, as perfeitas e objetivas análises: tudo isto, sem dúvida, o tornava o homem mais importante daquela importante empresa. Só não lhe tinham oferecido o cargo de presidente, isto o próprio presidente não desejaria. Hermes Roubard acumulava cargos e títulos e manipulava o dinheiro com extrema facilidade!

  Os amigos fiéis de quem é bem sucedido o rodeavam; convidavam-no para todo o tipo de distrações; as mulheres o cortejavam. Tudo lhe vinha às mãos!

  Possuía uma bela casa onde morava. Investia em ações, letras, em tudo o que pudesse, obtendo rendimentos – isso era certo! Recebia visitas ilustres, de vez em quando, para retribuir às atenções, promovia e organizava festas. Hermes Roubard era admirado, desejado, invejado!

  O tempo ia passando e sua fama crescia. Mas um dia deu-se conta de algo a incomodar-lhe. Que seria? Era alguma coisa a roer-lhe por dentro, a tirar-lhe a concentração não o deixando em paz! Cansaço? Boas férias junto de amigos certamente lhe fariam bem!

  O presidente aplaudiu a idéia, ressalvando, porém, que logo precisariam dele. Roubard preparou-se para a viagem, telefonou aos amigos no exterior partindo em voo noturno!

  Receberam-no com grande alegria. Hospedava-se entre pessoas de reais posses e influência. Tudo fizeram, todas as distrações e prazeres lhe proporcionaram; nada lhe permitiram faltar. Mas ele não conseguia esquecer. Esquecer o quê, Roubard? Ele mesmo não sabia!

  Resolveu interromper as férias retornando a casa. Não lhe foi difícil arranjar uma boa desculpa. Chegou sem se anunciar ficando dias trancado. Tentava ler, concentrar-se em alguma coisa. No meio das madrugadas, sob a argêntea lua, caminhava pelo enorme pátio nas floridas alamedas; sentava-se na grama, andava em redor da piscina: roía as unhas e pensava. Pensava sobre si, sua carreira, sua vida. Mas por que pensava tanto? Não sabia também responder!

  Uma tristeza veio acompanhar-lhe. Cismas e um gosto amargo navegavam em suas emoções.
  - Voltarei ao trabalho e assim esquecerei!

  O presidente recebeu-o efusivamente; mostrou-lhe desde logo os assuntos que se haviam acumulado desde sua partida. Roubard procurou interessar-se, penetrar nos problemas, buscar motivações. Tudo se resolveu com incrível rapidez e viu-se novamente festejado e aclamado!

  Roubard agora não dormia. Descartava-se dos convites cumprindo somente os compromissos de agenda inadiáveis. Tudo lhe era pesaroso: o trabalho, as reuniões sociais, os dias! Mas nada se alterara externamente; ele continuava a receber abraços e felicitações!

  O presidente notou-lhe as olheiras. Roubard foi encaminhado ao melhor médico. Fez exames, trouxe consigo uma receita de comprimidos comprou-os e os tomou. Tudo inútil, cada dia piorava!

  Os amigos procuravam interessar-se. As mulheres o visitavam e o acariciavam, mas ele logo as despedia alegando cansaço.

  Roubard pediu licença do trabalho. O presidente quase enfartou ao ouvir aquela horrível notícia. Tentou demovê-lo. Afinal, o trabalho sempre fora sua principal distração. Ele estava decidido e a licença lhe foi concedida. Acompanhou-a grande rebuliço e preocupações por sua sorte, pela sorte da empresa!

  Roubard mergulhou em misantropia. Somente a governanta e os dois empregados tinham contato com ele, mesmo assim a horas certas. As profundas olheiras, a barba e cabelos crescidos e o descaso aos trajes causavam pena ou medo!

  Roubard proibiu abrirem os portões e ninguém mais veio visitá-lo. O tempo foi passando, os empregados foram embora temerosos de suas esquisitices. A governanta foi a última a se despedir.
  - Coitado do senhor Roubard, tão moço e já ficando louco!

  O abandono era completo: a casa desarrumada, as roupas amontoadas por lavar, a cozinha em total desarranjo, as plantas descuidadas, o gramado por aparar, a piscina vazia e empoeirada. Os bichos e plumosos pássaros que possuía em viveiros e os cães de raça tinham sido roubados pelos empregados! A caixa do correio superlotava, ele a nada recolhia!

  Um dia o presidente veio visitá-lo. Roubard não se importou com sua presença ficando ali mesmo sentado sobre a alta grama. A empresa precisava dele, do seu talento e inteligência. Muitos problemas haviam surgido; enfrentavam tremendas dificuldades porque ele lá não estava. O presidente implorou, propôs-lhe dobrar sua retirada, a participação nos lucros: ele não aceitou.
  - Por que está jogando fora todas essas coisas, Roubard?
  - Porque não sou feliz! – finalmente desabafou.

  Roubard agora estava realmente só e abandonado! Nova e interminável noite começava a cair e ele se recolheu. Fazia dias que não entrava no próprio quarto. Sentou-se na cama pensativo e pesaroso. As lágrimas afloraram quase de imediato, banharam-lhe a barba e o peito. Foi um choro diferente, convulsivo e mais prolongado e ele pôde ali traduzir toda a angústia, toda a sua alma –  e desejou morrer!

  A noite se prolongou. A madrugada arrastou consigo o seu corpo cansado e emagrecido. Foi um sono profundo como há tempos não acontecia, e sonhou. Sonhou que caminhava pela borda de um horrível abismo, cheio de negrume e algo visguento a escorrer das paredes. Que importava este repelente aspecto, a vida não tinha face mais atrativa. Basta um pulo e tudo estará terminado! Lá embaixo só escuridão, nada mais. Aqui em cima, um homem desagregado. Mergulharei no desconhecido, quem sabe não estará lá a resposta? (Não, Roubard, ainda não!). De onde virá esta voz? (Não pule, Roubard!). Por que não? Sou tão infeliz; a vida para mim é somente uma sombra, mais negra do que as profundezas deste abismo! (Quer ser feliz?). Se quero ser feliz – ironizou – sou jovem e a vida se transformou em amargor. Onde estará esta quimérica felicidade, onde? (Vou dizer-lhe: lá adiante há dois caminhos, vê-os?). Vejo-os muito mal, somente os percebo. (Assim já está bem. Você deverá lá chegar e tomar um deles. O caminho da felicidade é o mais longo. Se realmente a desejar irá encontrar esse caminho!).

  Roubard acordou agitado. Em sua lembrança ecoavam as palavras: o caminho da felicidade!
  - Mas qual a direção, qual o rumo? - resolveu sair a procurá-lo - E se for distante? Pegarei meu carro, o acharei! – tomou-se de súbita decisão.

  O carro estava ainda na garagem empoeirado como tudo. Os pneus tinham se esvaziado e não havia combustível. Roubard tomava-se agora de indecisões. Outrora traria imediatas soluções para estes pequenos problemas. Hoje, no entanto, vacilava, suava, ficava nervoso. Procurou no depósito. Quase nada lá havia: tinham levado tantas coisas, aqueles empregados indignos! Achou um galão. Por sorte tinha ainda combustível; daria para chegar ao posto mais próximo; mas quanto aos pneus? O posto não é distante, tentarei assim mesmo. Será que andará? Porém o motor não acionou; não tinha bateria, haviam-na também roubado. Ele desesperou-se, que fazer?

  Hermes Roubard sem dúvida estava mudado. A misantropia na qual ingressara tolhera-lhe os muitos de seus reflexos práticos. Sentia-se inútil, inferiorizado, sem forças de combater! Sentou-se na grama, no mesmo lugar de sempre. Começou a afundar em pensamentos, mas lembrou-se do sonho, do caminho da felicidade. Vamos, Roubard, ânimo! Levantou-se e correu para dentro; abriu a gaveta retirando de lá um maço de notas. Com este dinheiro mandarei consertar meu carro. Dará? Só tenho este! E saiu.

  Pouco depois retornava num jipe com dois homens. Traziam todos os acessórios necessários. Terminado o trabalho pagou-lhes e deu-lhes gorjetas. Eles saíram satisfeitos da vida, desejando-lhe mil felicidades. Roubard partiu. Deixava tudo exatamente como estava. Na mente uma só idéia: o caminho da felicidade! Por onde ia olhavam-no curiosamente através da janela; ele não ligava a nada; acariciava aquela idéia com paixão e desejo –  aquele sonho!

  Deixou a cidade, ganhou estradas, cortou por atalhos, cruzou sobre uma ponte e rodou por outros lugares.
  - Onde estará este caminho, onde? Adiante o combustível terminou. Raios, e agora? Nada havia por perto, ninguém para auxiliá-lo, e abandonou o carro.

  A tarde logo terminaria, mas continuava quente. Ele parou à margem daquela estrada de terra para descansar. O desânimo ameaçava enlaçá-lo, ele lutava para não se entregar. Tinha forças ainda, mas por quanto tempo? A sede e a fome o incomodavam, porém o que isto representava diante de sua busca? Na primeira curva enorme susto. Adiante da estrada, a alguns metros: dois caminhos! Ele correu..., quanta emoção! Tão excitado ficara que somente foi reparar em alguém sentado ali, entre ambos os caminhos, ao se aproximar. Era um monge com hábito! Um desapontamento o tomou!
  - Boa tarde, meu filho. Sente-se, descanse um pouco! - Roubard sério, um tanto arfante, e sisudo, sentou-se ao lado do monge - Parece-me sedento e faminto. Tome, beba de meu cantil, coma de meu pão!

  Roubard quis recusar, mas a sede e a fome não lhe permitiram. Tomou o cantil e o pão das mãos do monge, bebendo avidamente, mastigando com instinto de lobo. O monge olhava tranquilamente para adiante. Ao término, Roubard devolveu-lhe o cantil.  O monge, com gesto sacerdotal, recolheu-o.
  - Chamo-me Antônio, irmão Antônio, você como se chama?
  - Hermes Roubard! – respondeu contrariado.
  - Sabe, Roubard, estou aqui há quase uma hora. Eu sabia que você chegaria a qualquer momento. Roubard deu um pulo, pondo-se de pé. Seu rosto tornou-se carmim.
  - Sabia, como? – encarou ao monge.
  - Um monge conversa com Deus todos os dias. Ele quando quer responde. Tive uma visão, você acredita em visões?
  - Não sei... Nunca tive uma.
  - Pois bem, a visão mostrou-me exatamente este lugar e a companhia de um homem como você. Juntos trilharemos o caminho da felicidade.
  - O senhor também, um monge?
  - Chame-me de você, Roubard. De agora em diante marcharemos lado a lado. Não se surpreenda comigo. Monges buscam exatamente aquilo que você busca, que todos buscam consciente ou inconscientemente. A felicidade é de todos, pertence-nos. A maioria, entretanto, não sabe como procurá-la se distanciando dela. Mas nós vamos encontrá-la. A felicidade representa para nós a coisa mais importante: mais do que o pão que comemos e a água que bebemos. Ela é como o ar, o alento etéreo, a verdadeira vida! Um monge que não a almeja e não a visualiza, jamais chegará a entender o significado da própria vida, o sentido de viver, e nem um homem do mundo como você. Somos, portanto, iguais, Roubard, você e eu, e juntos estaremos até o fim!

  As palavras saiam-lhe impregnadas de uma forte energia que a princípio parecera não possuir. O rosto redondo e sereno transformava-se. Estranho e arrebatador brilho nos olhos tornava-o mais vívido. Roubard impressionava-se com aquele sacerdote. Agora, apagava-se a inicial decepção de ter de compartilhar sua jornada!

   Resolveram partir. Roubard quis ajudar irmão Antônio a se levantar. Ele, com gesto de mão, recusou, pondo-se de pé. Era alto, mais do que Roubard, e forte. Guardou o cantil e jogou as tiras da sacola de couro ao ombro. Ficaram diante dos caminhos ao final daquela estreita estrada. Qual deles tomar?
  - O da direita! – disse, apontando-o. Roubard simplesmente assentiu com a cabeça, e nele enveredaram.
                                                                  
  O Sol ainda manifestava a presença. O vento tocava-lhes os corpos bulindo com os seus cabelos. O farfalhar de folhas, o chilreio de andorinhas, o trinar de canários, os agudos guinchos de gaviões: essas vozes da natureza festejavam a vida parecendo chamá-los a fazer parte daquela aquarela. Rajadas mais fortes do vento dobravam seguidamente os macios e flácidos capinzais como em ordem ritualística. O céu entremeava-se de efêmeras e rápidas nuvens, viajantes temporárias a novas plagas. Irmão Antônio, em largos e cadenciados passos, parecia sentir mais profundamente a mensagem da vida; assobiava um alegretto, depois um hino religioso ou murmurava um trecho gregoriano. O capuz descansava-lhe às costas; os cabelos, fartamente ruivos, combinavam bem com seu rosto corado e ligeiramente sardento. Roubard não, somente caminhava, ia sério, por vezes carrancudo. A alegria do monge o incomodava. Já não tinha tanta certeza, como ele, que marchariam juntos até o fim!

  Quando o Sol mergulhava no horizonte, formando véu róseo e lilás, corando pedaços de nuvens nessa transparência temporária, irmão Antônio parou e apontou para os lados de uma plantação de milho.
  - Lá adiante, Roubard, vejo fumaça. Certamente é da chaminé de uma casa. Vamos chegar! Roubard relutou, não queria isso, o monge puxou-o pelo braço, fazendo-o andar. - Vamos, rapaz! Eu não desejo dormir ao relento, tentemos algo. Quem sabe nos darão de comer e um teto por essa noite!

  A casa era simples e velha. As paredes amareladas mostravam manchas, o marrom das janelas descascava. Os viajantes aproximaram-se do muro, o monge destravou o portão, abrindo-o. Nenhum movimento do interior da casa foi percebido. Súbito, um cão enorme veio correndo e latindo pelo grande pátio. Roubard rapidamente retornou para o lado de fora. O monge permaneceu onde estava. Roubard, nervosamente, via o cão se aproximar e o monge parado. Ele gritou, o monge fez-lhe sinal com a mão. Que idiota vai ser mordido porque quer!

  O cão parou a dois passos do monge, rosnando e rangendo os dentes, tomando posição para um terrível ataque. Suas mandíbulas fremiam, os olhos mostravam o brilho do instinto aguçado. O monge simplesmente olhava-o nos olhos, e começou a falar com maciez, sussurrando as palavras. O cão passou a ganir. Ele, cuidadosamente, levantou um dos braços e com os dedos indicador e médio unidos fez o sinal da cruz, pronunciando breve prece. O cão aquietou-se, se agachou apoiando o queixo sobre as patas, ganindo timidamente. O monge andou até ele; arcou-se, acariciou-lhe a cabeça, escovou-lhe os pelos do corpo com a mão esticada. Sorriu e falou:
  - Pode vir, Roubard, ele não nos fará mal algum!

  Roubard, boquiaberto, não acreditava no que vira e relutava. O monge chamou-o novamente; ele ainda temeroso entrou indo para o seu lado. Nesse instante apareceu uma mulher na janela. O monge acenou-lhe. Ela correu para dentro sem nada dizer. O monge e Roubard ali aguardaram. Logo a mulher reapareceu ao lado da casa; com ela veio um homem. Ambos caminhavam depressa. O homem, tal como a mulher, mal acreditava no que via; ao se aproximar ficou de cócoras a examinar o cão: abria-lhe a boca e a cheirava.

  O monge apresentou-se e a Roubard, pedindo-lhes um pouco de comida, água fresca e se possível pousada. Explicou-lhes nada ter acontecido ao cão, haviam somente se tornado bons amigos. O homem, já de pé, um pouco refeito da surpresa, convidou-os a entrar, fazendo-os aguardar na saleta em cadeiras de treliça.

  O cheiro de comida estimulou-lhes o apetite, Roubard já ansiava pelo alimento. Três crianças apareceram curiosas, procurando ver quem chegara. O monge chamou-as e puxou conversa, passando a mão sobre suas cabeças, beijando-lhes as testas. A maior de todas respondia-lhe vivamente às perguntas e contou que o irmãozinho estava doente. O monge levantou-se imediatamente, chamando pela mulher. Ela veio correndo pelo corredor encerado, enxugando as mãos no avental. O monge perguntou sobre o menino, a mulher confirmou que ele realmente estava doente. Vinha fazendo de tudo para curá-lo com remédios caseiros. No momento banhava-o. O monge pediu para vê-lo, ela os levou ao quarto.

  Lá chegando viram o homem auxiliando-a no banho à criança. O cheiro de álcool impregnava todo o ambiente. O monge e Roubard permaneceram a um canto até o final do banho.

  Enquanto a mulher vestia o filho, o homem contava das dores na região do ventre e rins, sofridas pelo filho. Não o tinham ainda levado ao médico, pois a viagem seria longa e exaustiva e temiam pela resistência dele, posto que, para dita viagem, não dispunham de um carro. Por outro lado, não fora em busca do médico pela incerteza de sua disposição em vir atender ao chamado. No passado, fato ocorrido na vizinhança, ele rejeitara a viagem, preferindo receitar à distância. Não podia mesmo se aventurar a isso, porquanto não desejava deixar a mulher a sós na angustiante situação. Ademais, a criança revelava, às vezes, alguma melhora, ficando tranquila e sem queixas, isto os enchia de esperança. Os vizinhos? Não podiam agora solicitar-lhes os préstimos por causa do trabalho nas lavouras. Talvez amanhã alguém se apresentasse para uma ajuda. Eram boa gente, mas necessitavam também lutar pela sobrevivência!

  Terminada a tarefa, a mulher se pôs de lado e o monge passou a examinar a criança, em seguida impondo-lhe as mãos sobre as partes doentes e orando. Ao afastar-se do leito, solicitou à mulher que conseguisse algumas plantas, cujos nomes ela mostrou conhecer, indo-se imediatamente. O homem trouxe-os de volta para a saleta e o monge aguardou silenciosamente. Logo a mulher retornou com o solicitado, tendo o monge lhe pedido que o levasse à cozinha, porque ia preparar remédios. Roubard, atento a tudo, acompanhava-o. Lá chegando, o monge ordenou à mulher que pusesse água a ferver. Ela o fez e o monge, antes de tudo, lavou as plantas numa bacia de alumínio. Tendo juntado as plantas, misturando-as criteriosamente em dois lotes, preparou então dois chás, jogando num deles, além das folhas, pedaços da raiz de uma das plantas. Ao término dessa fase, mediu as quantidades e mandou que desse a criança duas doses de cada chá aquecido, intercalando-os a intervalos de duas horas.

  Jantaram todos. Roubard repetiu o prato e ainda se deliciou com os biscoitos de milho postos à mesa com café. Mais tarde, o homem desculpou-se por não lhes dar pousada dentro da casa pela falta de acomodações. Foi com eles ao paiol, e sob a luz de um lampião conduziu-os a um enorme monte de palhas de milho, envolvendo ali o melhor possível dois lençóis, trazendo-lhes, em seguida, travesseiros e cobertores; despedindo-se após, e os deixando às escuras.

  O dia raiava, os galos cantavam. O monge abriu os olhos e se levantou. Roubard, embora houvesse feito um sono só, qual seu companheiro, não se animou, virou-se para o outro lado e pretendeu dormir mais. O monge sacudiu-o fazendo-o despertar e ele, mal humorado, pôs-se de pé. Saíram pelo quintal. O frescor da manhã veio tocar-lhes os rostos e despertá-los em definitivo. O cão acercou-se deles fazendo-lhes festa, abanando o rabo. No fundo do quintal, próximo à cerca, enxergaram um poço para lá se dirigindo. Após se lavarem, o monge espreguiçou-se inspirando profundamente, absorvendo em maior quantidade o ar matinal que ali se temperava com o odor do orvalho, da terra umedecida e das plantas que exalavam. Um cheiro de canela vinha somar-se a tudo o que emanava, e eles notaram para lá da cerca alguns cepos de um tronco cortado dessa madeira. O monge puxava assuntos, apontando para as coisas que julgava significativas. Roubard, circunspeto como sempre, fazia meneios de cabeça ou respondia monossilabicamente. O lugar exaltava as coisas naturais; isto agradava plenamente ao monge, homem atento e perspicaz, mas pouco a Roubard, de alma distanciada da natureza.

 Caminharam de volta. Ao atingirem metade do percurso o estimulante odor de café fresco veio aguçá-los. A mulher assomou à porta, ao alto de rústica escada de madeira de três degraus, sorrindo-lhes alegremente e os convidou a entrar. Roubard, embora não movesse um único músculo da face animou-se, pois seu apetite fora estimulado. Ao adentrarem, a mulher ajoelhou-se e beijou a mão do monge. Essa atitude espantou Roubard que se afastou um passo. Esse mesmo gesto da mulher repetiu-o o homem. Contaram-lhe, então, que o menino acordara com outra disposição sem nenhuma dor. O fato, sem dúvida, devia-se ao resultado da reza e dos chás. A pedido do monge levaram-nos ao quarto e ele examinou novamente a criança, desta vez olhando-a dentro dos olhos. Ao final, declarou que deveriam continuar com os chás por mais dois dias, prescrevendo uma alimentação especial, à base de vegetais e papas de cereais. Essa alimentação deveria conter o mínimo de sal durante os três primeiros dias. Orou mais uma vez, impondo as mãos, e se retiraram. De sua parte nada mais havia a fazer.

  A conversa do café foi mais alegre, menos para Roubard que somente pronunciou três ou quatro palavras. Antes de partirem, a mulher embrulhou uma broa de milho num papel verde; fez outro embrulho menor com bolinhos e encheu o cantil do monge com água fresca. Ele guardou tudo, abençoou-os e desejou-lhes abundância, paz e saúde. O generoso casal os levou ao portão e pouco depois, à primeira curva, os viajantes desapareciam detrás das longas e dobradas folhas de um milharal.

  - A vida de um monge requer muitos sacrifícios –  dizia irmão Antônio, à sombra de uma árvore, à margem do caminho onde haviam parado para descansar e tomar água –  por anos a fio, desde a juventude, quando ainda é aspirante, ele se submete aos mais cansativos exercícios e rígidas disciplinas. No início há aquele entusiasmo natural, quase juvenil, próprio das almas ardentes e devotas. Ele vê naquilo o sentido da existência; a possibilidade de uma completa e inteira realização. Deixa o mundo com alegria – onde realmente nada de atrativo conseguiu encontrar – e vem entregar-se a esta nova vida, como um homem apaixonado se entrega aos braços da mulher amada da qual espera todas as compensações. Não mais toma conhecimento da vida exterior, senão superficialmente, e concentra-se o tempo inteiro neste seu novo mundo. Caem-lhe às mãos livros e mais livros; ouve prédicas; venera seus instrutores; vive intensamente a aspiração de um dia chegar a monge.
  Porém, vem o tempo em que o cansaço pouco a pouco o envolve e um desânimo começa a grassar em seu universo íntimo. Em consequência, uma legião de pequenos seres viventes, até então obstruída em suas ações, se levanta e se mistura aos reclamos de seu ego. É a primeira grande prova do aspirante! Ele já não ora com tanta frequência; entrega-se mais longamente às reflexões da vida, aos desgostos dos desejos insatisfeitos, de tudo quanto poderia ter feito e não fez. Muitas vezes, procura motivos para sair e visitar alguém. Na realidade, sai em busca de distrações, e excita-se ao ver um corpo bem torneado de uma mulher, ou o sorriso malicioso de uma jovem bonita. Arde-lhe o intenso desejo julgado extinto ao abraçar a vida monástica, e quantas noites atravessa em claro, procurando abafar aqueles lancinantes apelos.
     Mas vem novo tempo! Se resistiu bravamente, as tentações vão diminuindo, escoando como água que se misturou à terra, levando com ela muitas impurezas. Ele é promovido a neófito. Novos estímulos, novos ensinamentos, novas práticas. Ele agora traz consigo emoções mais controladas, uma aspiração melhor modelada. O entusiasmo volta a compartilhar de seus atos, e as obrigações as realiza com outro alento. Os anos vindouros virão ser consumidos naquela mesma luta, na abstinência, em disciplinas e práticas. Mas a cada tempo previsto, o demônio das tentações virá fazer-lhe periódicas visitas, saber ainda quanto lhe é devido!
  Um dia, ele descobre o verdadeiro valor de tudo quanto vinha fazendo e ao que tão resolutamente se entregou. O ser humano ganha novo conteúdo em suas reflexões. A vida em si começa a se despir da primeira série de múltiplos véus que a encobrem. A primeira volta da dança é completada. A natureza para ele não é mais uma sucessão de formas de vidas biológicas orgânicas ou de vidas inorgânicas. Há algo mais: há um sentido pulsante e sumamente inteligente que nela agrega todas as coisas num plano definido não percebido antes pelo intelecto. Ele agora começa a ver com a alma, a sentir influxos de paz no coração, a perceber com maior nitidez meandros de uma infinitesimal fração do complexo vida.  Paralelo a isto, sente-se agigantar; viver realmente. Nada mais o segura. Ele pretende amar a tudo, dar aos homens de seu sangue, de seu pão, de sua vida!
  Chegando a este elevado grau, as práticas, disciplinas e rituais, tão cansativos, que para o restante de seus irmãos de monastério continuam a ser a forma inteligível do espírito, caem-lhe desfalecidas. Não necessita mais delas. Descansa-as como um homem recuperado descansa suas muletas. Ele agora atua com a alma, com a força perene da vida que se espraia através das formas, das palavras e dos pensamentos. Ele experimenta realizar em si as sublimes verdades tão exaustivamente descritas e definidas por filósofos e estudantes de ocultismo, a despeito de muitos destes não terem chegado a conhecê-las.
  Neste ponto uma sinuosa dúvida há de estar se arremessando em seus pensamentos, Roubard. Você estará se perguntando por que estou aqui ao seu lado, procurando trilhar este desconhecido caminho chamado por nós de o caminho da felicidade, se tanto eu conheço, tantas coisas superiores eu descrevo, se por isso não deveria eu já ser feliz?  Eu lhe direi: sonhos de um monge que viveu mais da metade de sua vida encerrado em prisão de portas abertas, tentando em vão alcançá-los, que por isso angustiou-se derramando copiosas lágrimas. Não estranhe, companheiro, eu lhe estar confidenciando estas coisas por que são a verdade. A felicidade para mim ainda é uma questão abstrata e filosófica.
  Mas Deus teve piedade deste humilde servo fazendo-o ter mais uma visão em meio a tantas que já tivera, desta feita anelada a um desafio de coragem e desapego: o de trilhar esse caminho prático ao lado de um irmão de igual aspiração e coragem; alguém como eu, que desejando e acalentando esta felicidade, disposto estivesse por ela a sacrificar-se, deixando para trás tudo o que possuísse e que lhe fosse amargo como o fel.

  Roubard nada dizia. Ouvira a tudo atentamente, observando o rosto corado do monge. A menos de meia hora não o conhecia; julgava-o um homem misterioso e impenetrável. Entretanto, neste momento, olhava-o através de uma janela aberta por ele próprio. O que dizer-lhe se, apesar de tudo, não conseguia ainda distinguir com nitidez aquela pequena parte de seu mundo interior? O monge levantou-se e Roubard o acompanhou.

  O Sol alto viera banhar seus corpos com ardor. Eles se refugiaram novamente à beira do caminho sentando-se sob uma árvore frondosa, e comiam. Por algum tempo o silêncio acompanhou o repasto, como à mesa sacerdotal. Roubard novamente apreciara os bolinhos e a broa de milho. Irmão Antônio, sem fome, comera somente meia fatia do pão e tomara três goles de água. Ao término, não se levantaram. Algo os segurava por mais tempo naquela tranquila paragem. Irmão Antônio, encostado no tronco, levantou os olhos divisando ao longe cumes de montanhas vestidas de uma névoa azulada que já se desfazia. Mais acima, nuvens escuras e enodoadas certamente deslizariam e trariam chuva. Ele baixou os olhos e com mãos entrelaçadas mexeu os grossos dedos. Seu semblante tomara-se de uma ansiedade qualquer, coisa que a alma sinalizava a querer retratar, tornar palavras.
  - Numa de minhas visões – começou olhando para adiante – enquanto orava, vi algo que permaneceu para sempre em minha memória. Eu saía à noite com lampião à mão levando uma escavadeira. Ao ultrapassar os limites do muro do monastério, encontrava um caminho. O caminho não era usual, e creio, raramente trilhado, vindo terminar num barranco. Eu descia pelo barranco com grande dificuldade, escorregava e me equilibrava o quanto podia; no sopé, caminhava para a direita até achar uma pedra. Da pedra para cima contava sete palmos, depois mais sete para a esquerda e começava a cavar, encontrando um pequeno cofre envolto por uma capa de couro apodrecida. Abria-o e retirava uma pequena algibeira, perfeita, intacta. Folgava o laço e metia a mão dentro dela, encontrando três moedas de ouro, três dobrões! Com mil trovões, quantos anos teria isso? Amarrava a algibeira à cintura por debaixo da veste e retornava. No caminho de volta encontrava um homem despido e dava-lhe a algibeira com os três dobrões.
  Essa visão permaneceu por muito tempo se reproduzindo em minha memória. Meses depois, tendo solicitado permissão ao conselho para ausentar-me periodicamente da vida monástica a fim de buscar no mundo o que eu não possuía, permissão esta negada de imediato, lembrei-me de procurar o tal cofre. Saí à noite, à lua cheia, enveredando pelos matos. Perdi-me várias vezes, retornando sempre ao mesmo ponto. Recomeçava atento, procurando lembrar-me do que a visão mostrara-me. A certa altura encontrei o caminho.  Uma incontrolável emoção agitou-me fazendo tremer-me o corpo. Apesar de um tanto diferente, um instinto de certeza me levava acreditar ser ele. Com essa certeza em mente percorri-o chegando ao barranco. Desci agarrando-me nas touceiras, mas acabei rolando para baixo. Todavia, a pedra ali estava! Seguindo a indicação, contei os palmos e cavei, encontrando o cofre e a algibeira, ei-la!

  O monge meteu a mão no bolso e a retirou, mostrando-a. Estava envolta pelos cordéis. Roubard olhou-a sem muito interesse. O monge baixou a mão, apoiando-a na coxa. Havia nele desassossego; apertava-a fortemente como uma criança aperta um saquinho de doces. Logo seu rosto e corpo ficaram inertes. Um único e quase imperceptível movimento mostrava ali uma vida inconsciente. Esta vida, ainda guardada em seu íntimo, mostrava-se existir por seu polegar que mexia e acariciava a algibeira num vai-e-vem rígido e ritmado. Ele a segurava com mão de ferro; o que representaria aquilo? Roubard inquiria-se, agora realmente curioso.

  Roubard incomodava-se com aquela quase inércia. A figura do monge assim parada causava-lhe certo temor e ele perguntou-lhe a primeira coisa surgida à mente:
  - E quanto à permissão, eles afinal a deram?   O monge teve ligeiro estremecimento.
  - Não, eles jamais o fariam; é contra todas as regras e convenções da ordem. Um monge não pode tomar resoluções como essa. Como era de se esperar, o conselho decidiu que eu deveria permanecer cumprindo as minhas obrigações religiosas em estrito acordo com os costumes. Dar-me-iam uma licença para meditar e refletir. Isso seria passageiro – sabiam de antemão – logo eu voltaria a pensar como sempre, como todos, como um só corpo. Fingi aceitar tal oferta, cujas restrições impunham-me a permanência no monastério. Mas naquela mesma noite escrevi a carta de desligamento, endereçada ao Irmão Maior, deixando-a à escrivaninha. Reafirmava os meus motivos, dizendo principalmente de minha ansiedade, da necessidade de buscar em meio às agruras do mundo. A decisão – informei-o ainda – já a tinha tomado há algum tempo e ninguém conseguiria demover-me. Nada mencionei de minhas visões, como jamais houvera feito antes. Visões suscitam dúvidas sobre a sanidade de um visionário, por isso mantive o segredo. Saí, como disse, sorrateiramente, em busca da algibeira que tinha deixado no mesmo lugar em que a achara; tomei-a dali e vim encontrá-lo, Roubard. Ele agora sorria. Roubard não suportando aquele sorriso baixou os olhos. O monge se levantou e recolocou a algibeira no bolso.

  O caminho que trilhavam foi morrer sobre uma estrada também de terra. Tomaram-na e prosseguiram. As pernas doíam-lhes obrigando-os a parar de trecho em trecho. Uma nuvem de poeira chamou-lhes a atenção. Vinha pela estrada. Era de um caminhão com toldo que parou próximo a eles. O motorista meteu a cabeça para o lado de fora mostrando sorriso e dois dentes de ouro, perguntando-lhes para onde iam. O monge apontou para adiante.
  - Para a cidade? – o monge confirmou - É muito longe, vou para lá também. Venham subam! Eles subiram e se alojaram ao seu lado.

  Uma chuva intensa obrigou o motorista estacionar fora da estrada. Passaram para a carroceria e descansaram. Mais tarde, o homem resolveu cozinhar. Num fogareiro, fritou linguiça e fez café. Comeram com broa e com os bolinhos que restaram. A noite veio alcançá-los ali mesmo e dormiram sobre uma lona, protegidos pelo encerado, sob a forte chuva que aumentara.

  Pela madrugada, o monge e Roubard acordaram com os gritos do homem. Ele esperneava e arrancava a roupa do corpo. O monge acendeu o lampião para ver melhor. O rosto do homem se transfigurava. Ele babava, rugia, puxava os cabelos. Roubard, apavorado, pulou para fora do caminhão, gritando para o monge. Seria perigoso ali permanecer com um possesso. O monge não lhe deu atenção se aproximando do homem. Ele vendo-o, lampião a mão, fez menção de atacá-lo. O monge levantou a mão direita e recitou uma oração de exorcismo. O homem recuou, jogando-se ao chão, debatendo-se. O monge ajoelhou-se, deixando de lado o lampião, e pôs-lhe a mão sobre a testa. Esbravejou e agarrou-o pelos braços. O homem, esbugalhando os olhos, gritou horrivelmente, depois desfaleceu. O monge pôs-lhe novamente a mão sobre a testa e orou, desta vez tranquilamente. O homem veio retornando à consciência e sentou-se. Ao ver o monge ao seu lado e dar-se conta de seu lastimável estado, chorou profundamente. Roubard pulou de volta para a carroceria. Pouco depois os três voltavam a deitar.

  Roubard não conseguia mais dormir, somente cochilava. Tentava ver o homem deitado, mas devido à escuridão somente o percebia. Acordara inúmeras vezes imaginando um novo e terrível acesso de loucura e o homem a se precipitar sobre eles a fim de matá-los. Em certa hora, resolveu levantar-se não vendo o monge ao seu lado. Preocupado, pulou para fora do caminhão. A chuva havia cessado desde a madrugada; o Sol ressurgia brando e limpo. Irmão Antônio, ventarola à mão, lutava para manter vivas uma dúzia de brasas no fogareiro. Ao lado havia três montes de folhas. Roubard tossiu e ele virou-se pedindo-lhe que acordasse o homem. Roubard voltou para o caminhão tocando-o no ombro com certo temor. O homem acordou assustado e acompanhou Roubard.

  O monge ordenou-lhe que se aproximasse. As brasas agora eram maiores. Timidamente ele obedeceu ficando a um passo. Irmão Antônio jogou as folhas no braseiro e invocou. A fumaça ora espiralava ora dançava no ar como insinuantes dançarinas, engrossava como fileiras de guerreiros, e subia. Mais folhas, mais invocação, mais fumaça. Roubard olhava curioso e espantado. O homem fechava os olhos, talvez de vergonha. Irmão Antônio ordenou que ele atravessasse a fumaça, pulasse o braseiro e de novo assim fizesse. Sete vezes ele repetiu; sete vezes o monge invocou. Roubard pouco entendia, o homem nem um pouco: o monge falava em latim. O cheiro era forte, embora agradável, e Roubard gostou.

  Finalmente o monge rezou-o à frente e às costas, apagando o braseiro. Tirou um papel do bolso dando-o ao homem. Disse-lhe para ler o que ali continha durante sete dias, antes de dormir. Feito isso nada mais teria, a obsessão terminava. Em gesto já conhecido por Roubard, o homem ajoelhou-se e beijou a mão do monge. Pouco depois comiam o que havia sobrado do jantar e seguiam viagem. O homem deixou-os à entrada da cidade a pedido de irmão Antônio, agradecendo mais uma vez ao religioso, e seguiu viagem.

  Belas residências, homens e mulheres bem vestidos, carros novos e caros, comércio bom e variado, era o que viam enquanto caminhavam. Roubard, sujo, barbudo e com cabelos em desalinho envergonhava-se quando reparavam neles. Irmão Antônio parecia com nada se importar. Conseguiram carona num jipe dirigido por um rapaz alegre e extrovertido e se desviaram do centro, aproximando-se do outro extremo da cidade. Para onde iriam? Roubard não sabia, nem o monge. O rapaz largou-os numa rua qualquer e prosseguiram a pé.

  A profunda miséria que ali viam chocaria almas sensíveis. O rosto do monge contristava, a fisionomia de Roubard alterava-se. Para este seria nojo, mau cheiro do pobre. Quanto mais andavam mais miséria iam vendo. Crianças sujas, mulheres seminuas, homens desalentados, gente doente e abandonada. O monge parou e segurou o braço de Roubard. Gotas de suor sobressaíam de sua larga testa. Ele arfava ligeiramente; os olhos mostravam um tipo de ânsia, de sofrimento íntimo. Miséria assim monge algum daquele monastério poderia ter visto, nem Roubard homem refinado e de sociedade. O monge puxou-o a um canto, para trás da parede de tijolos de um casebre.
  - Roubard, quero dizer-lhe algo que trago guardado. Não lhe contei tudo acerca das visões que tive. Não era ainda o momento ou talvez não tivesse a certeza, mas contarei agora. Ao retornar com a algibeira à mão trazendo os dobrões, e ao dá-los ao homem despido, não lhe pude ver as feições. Também não as vi do homem com quem trilharia esse caminho. Esta certeza fui tê-la ao vê-lo chegar. Agora, novamente, a certeza está em mim, e vejo tudo nitidamente. As duas pessoas eram uma só: você! Tome a algibeira com os dobrões, são seus!

  Roubard olhava-o com expressão aparvalhada. O monge depositara a algibeira sobre sua mão. Os compridos cordéis apontavam diretamente para baixo como a mostrar o mergulho de um longínquo mistério. “Descubra os véus, desnude o segredo, possua-o!” Estas palavras soaram-lhe aos ouvidos. Ele, nervoso e trêmulo, dirigiu-se ao monge:
  - Que faço com isso, por que eu?
  - Suas mãos são imantadas, Roubard. Não como as de um Midas, mas como de um mago que, por estranha sorte, faz frutificar tudo aquilo que toca, atraindo o ouro e o progresso. Plante-os, um a um, em lugares diferentes, ao longo de nossa jornada. Ali ficarão como poderosos talismãs, ali atrairão o progresso! – o monge falava com grande excitação.

  Ainda trêmulo, ele abriu a algibeira, retirando os dobrões. Eram grandes, rebrilhavam. Irmão Antônio os havia polido, mostravam efígies, três diferentes, de épocas também diferentes a julgar pelos tipos. Curiosamente, em nenhum deles podiam ler os anos que tinham sido cunhados, nem suas origens.
  - Guarde-os, Roubard; amarre a algibeira à cintura, sob a camisa. Não deixe que a vejam; não a perca!  Roubard obedeceu.

  Uma mulher veio correndo. Era magra, mal vestida, e chorava. Segurou a mão do monge, chamando-o de padre. Seu filho estava morrendo, seu único filho; apesar de toda a miséria ela o amava e não queria perdê-lo! O monge a seguiu juntamente com Roubard. Penetraram por vielas, espremeram-se entre paredes, pularam sobre esgotos fétidos. Tudo era desolador; aquela gente vivendo jogada como se não pertencesse a um mundo de homens! Vez por outra encontravam abrigos em melhores condições. A grande maioria carecia de todas as coisas. Finalmente chegaram. Um menino esquelético deitava-se sobre um colchão aos pedaços. De tão fraco nem abria os olhos. O monge rezou-o impondo-lhe as mãos. Ele necessitava mais do que rezas: de alimentação. O monge chamou Roubard, mandando que a mulher aguardasse.
  - Tem algum dinheiro, Roubard?
  - Nenhum.
  - Então venha comigo, precisamos fazer algo!

  Saindo daquela parte miserável chegaram a meio caminho entre o rico e o pobre. Havia pelas imediações um grande empório, farto de alimentos. O monge e Roubard entraram; um homem gordo, de bigode, veio atendê-los. O monge explicou ao que vinham, pedindo algum alimento: produtos vegetais, ovos e vinho, se possível. O homem não se sensibilizou; nada podia fazer. O monge propôs-lhe trocar alimentos por um dia de trabalho de Roubard, talvez dois. Roubard olhou-o assustado. O homem mirou-o não gostando de sua aparência. O monge explicou que Roubard era homem de dar sorte, se aceitasse a permuta certamente seus lucros aumentariam. O homem coçou as mãos rechonchudas, o queixo, enroscou os curtos dedos nos cabelos e propôs uma quinzena de trabalho. Em troca, além dos produtos pedidos pelo monge, daria também roupas limpas para Roubard, refeição e dormida no fundo do estabelecimento.
  - Para dois? - insistiu o monge
  - Está bem, para dois.

  O monge abraçava o alimento. O homem nervosamente escolhia-o. Ao final, irmão Antônio, satisfeito, se foi. Roubard, mal humorado, permaneceu. Seu patrão mandou-o que tomasse banho. Trouxe-lhe roupas limpas: calças, cuecas, camisa e sandálias de couro. Estendeu-lhe ainda um aparelho de barbear com lâmina, um tubo de creme e um pincel. Juntou a isso um pedaço de sabão de coco e uma toalha grande. Resmungava a todo instante. Não sabia por que estava fazendo aquilo. Afinal, não fizera bom negócio. Pouco depois, Roubard reapareceu; tinha novo aspecto, ficara mais jovem, cheirava à limpeza. O homem riu de satisfação; Roubard era simpático, isto era bom para os negócios!  Deu-lhe de comer e instruiu-o como fazer, solicitando-lhe sorrir sempre; jamais contrariar a opinião do freguês.

  O monge lutou bravamente contra a morte. Preparou sucos, caldos, arranjou mastruço, bateu vinho com ovos, saia pelos matos em busca de ervas e raízes, orou e implorou. Às noites voltava para o fundo do estabelecimento onde Roubard trabalhava. Comia e dormia sobre um colchão, pelo chão, tal como Roubard.

  O monge tornara-se conhecido. A população pobre vinha pedir-lhe rezas, conselhos, ajuda. Ele fazia o que podia, mas não podia fazer muito sozinho.

  Os quinze dias se passaram. Roubard acordou disposto a largar o trabalho, mas o monge disse-lhe para ficar; precisavam levar alimentos para aquela criança e para outras. A morte não havia sido vencida naquele caso. O homem apareceu satisfeito declarando que realmente a freguesia passara a frequentar mais o estabelecimento. Seus lucros aumentavam um pouco, somente isso. Pediu para Roubard ficar. O monge olhava-o severamente; o homem aguardava. Roubard, contrariado, aceitou. Ficaria por mais uma semana.

  A morte foi vencida. Novos casos surgiram. Roubard foi ficando: mais uma semana, passou de um mês. O povo admirava-os. Roubard não gostava muito disso, daquela gente mal cheirosa. Irmão Antônio atendia-a, falava-lhe, orava e curava. O homem vivia a rir de satisfação.

  O tempo passou. O monge vinha encontrá-lo, como sempre, às noites. Roubard andava carrancudo e mal humorado. Evitava conversar com o monge. Certa manhã, decidido, iria procurar o dono do estabelecimento a fim de deixar o trabalho. Irmão Antônio zangou-se, disse-lhe para ficar, precisavam disto. Roubard enfureceu-se, desatou o nó da algibeira, a jogou ao chão aos pés do monge.
  - Tome, monge, eu os devolvo! Não pense que me comprou com suas histórias. Estou farto de você, de suas ordens. Vamos, Roubard, faça isso! Fique aqui, tome conta disso! Não tenho sido outra coisa senão um instrumento de manejo. Você está me escravizando, tirando-me a força e a capacidade de decidir e viver: atrela-me como a um dócil animal. Se não pode se aguentar sozinho volte para o monastério, seja lá outra coisa ou de novo um anacoreta! Vou retornar de onde vim e tomar o outro caminho. Até este você decidiu por mim, adeus monge! Roubard bateu a porta com violência. Irmão Antônio permaneceu. O portão rangeu e voltou, mas Roubard se foi!

  A chuva o pegara desprevenido. Roubard, molhado, abrigava-se debaixo de uma árvore. A água corria pela estrada, misturava-se a terra e empoçava. Os finos galhos balançavam, pendiam sob o peso. A natureza toda regozijava pelo banho, pelo rejuvenescimento, pela sede que matava! Roubard, encorujado, lamentava a sorte. A barba crescia-lhe de novo, negra, quase farta. O semblante expressava angústia, mostrava olheiras, abatimento: o estômago reclamava da fome! Duras palavras ditas ao monge, afiadas e cortantes. A alma ferida arremessara-lhe as armas. Estaria arrependido? Mesmo se estivesse não desejava submeter-se mais às suas ordens, às ordens de ninguém, era independente. Trilharia o caminho sozinho!

  A chuva estiara. Roubard, pés na estrada lamacenta, foi em frente. De repente, vê um vulto; seria ele? Seu coração dispara: emoção, alegria? Procura controlar-se, ele vem vindo do mesmo jeito, no mesmo largo passo. Vem sério, nunca o vira assim.
  - Roubard, companheiro, perdoe-me. Suas palavras naquela manhã calaram-me profundamente. Na ânsia de fazer pelo próximo sacrificava-o. Não tinha esse direito. Sua revolta foi espontânea e necessária. Desejo corrigir meu erro; sou pouco experiente no trato com os homens do mundo. Quer ainda compartilhar comigo desta jornada?
  - Sim, quero - respondeu cabisbaixo logo prosseguindo, mas quero também pensar e decidir!
  - Prometo não interferir!

  Os dois retornaram. Irmão Antônio ofereceu-lhe pão e Roubard aceitou. Voltaram conversando e traçando planos.

  O dono do estabelecimento ao ver Roubard e o monge correu feliz a abraçá-los convidando Roubard a voltar ao emprego. Roubard prometeu pensar a respeito. A sós com o amigo, conversou. Precisariam de muitas coisas para ajudar aqueles infelizes. Roubard agora se animava. Finalmente, chegaram a um ponto comum e Roubard foi procurar o dono do estabelecimento: aceitaria o trabalho sob novas condições. Queria um salário e ajuda material para os pobres. Que ajuda? Inicialmente madeira e outros acessórios para que pudessem construir um galpão junto a eles. Lá o monge lhes prestaria assistência; depois de pouco em pouco levariam suprimentos e remédios. O homem coçou a mão, o queixo, levou os curtos dedos aos cabelos. Roubard, vendo-lhe a indecisão, prometeu ousadamente que dentro em pouco necessitaria aumentar o empório, tal a procura. Os olhos do homem brilharam, as gordas bochechas coraram e aceitou.

  O plano dava resultados. O galpão construído fora transformado em quase tudo: hospital, farmácia, central para distribuição de algum alimento e até em confessionário. Todo dinheiro que Roubard ganhava dava-o ao monge. A profecia de Roubard também se cumpria. Em um ano o empório fora ampliado. O estoque de mercadorias duplicara, as vendas aumentavam sempre. Roubard modernizara o atendimento da clientela; criara pequenos departamentos, selecionara melhor os produtos e ampliara as opções. Instituíra entregas em domicilio; estabelecera vendas por telefone e abrira créditos especiais para clientes importantes. Patrocinando um programa na rádio local, juntara-se a outros anunciadores estimulando eventos esportivos em clubes ou em áreas públicas, às vezes em parceria com a prefeitura. O dono do estabelecimento levava as mãos à cabeça sempre que precisava abrir o caixa em atendimento aos apelos de Roubard. Mas sorria largamente e acendia um charuto quando Roubard, ao final dos meses, mostrava-lhe os resultados positivos dos balancetes. Então, mais relaxado, lhe atendia aos novos pedidos, muitas vezes pela metade.

  O monge trabalhava sem tempo para meditar. Roubard de novo pensava. Como antes, vinha sentindo uma onda de tristeza e enfado. Começou a desviar a atenção do trabalho. Irmão Antônio logo notou-lhe a mudança, porém aguardou. O processo tomava corpo. Roubard já não conversava. Finalmente abriu-se contando ao monge que, como outrora, aquele trabalho o cansava e desejava fazer outras coisas.
  - Que coisas, Roubard?
  - Algo assim como você faz. Gostaria de saber orar, curar, conhecer fórmulas mágicas. Há um vazio em mim, uma necessidade de vida, de um estímulo interno. Quero saber meditar, abençoar, amar.  Quem sabe seja isto que realmente me falta!

  Irmão Antônio olhou-o com admiração. Seu largo rosto aclarou-se num brando sorriso. De mãos unidas à frente sentava-se, como Roubard, sobre pequeno banco de madeira no fundo do galpão. Ali pouca coisa mudara, eles não faziam questão de conforto, dormiam sempre nesse mesmo lugar. Roubard fixava agora o chão e o monge falou:
  - Por quanto tempo venho esperando ouvir isto, companheiro. O excelente trabalho realizado por você foi, sem dúvida, importante. Sem ele pouco ou nada poderíamos ter feito em benefício dessa pobre e deserdada gente. Todavia, a alma é insaciável; é permanentemente observadora; ela pede sempre mais, preside os dramas de nosso ser inteiro. E somente nos alivia com as coisas vindas mais do alto. Tudo é bom e necessário: o trabalho, o alimento, a cura. Ajudam-nos a bem viver com nossas consciências e com os homens. Porém, em certas crises de nossas vidas, o ego lúcido reclama mais autonomia, liberação de certos liames com o mundo; ele deseja novas experiências. Este é o segundo vislumbre deste seu momento, Roubard.  O primeiro deu-se ao optar pelo caminho. Vou ajudá-lo!

  Roubard decidiu não trabalhar mais como vinha fazendo. O comerciante assustou-se:
  - Vai deixar-me?
  - Não, ainda. Quero agora trabalhar três dias na semana com os mesmos ganhos. Os dias restantes vou vivê-los inteiramente com Irmão Antônio. O homem protestou, propôs aumentá-lo, o queria trabalhando o tempo todo, a semana inteira.
  - Aceita o que lhe proponho ou vou trabalhar para o vizinho? O homem aceitou.

  Roubard passou a conviver mais de perto com a miséria. Agora a tocava, ajudando ao monge em quase tudo. Ouvia e aprendia.

  Ampliava-se o campo de trabalho. Os problemas avolumavam-se e a popularidade de ambos crescia. O tempo passava. O monge costumava liberar Roubard para ir visitar doentes – àqueles cujo tratamento ele, o monge, houvera iniciado. Na necessidade da fé ou do conhecimento mais profundo do mal, Roubard somente acompanhava. Nesses casos, ia fazendo chás, aconselhando, catalogando reações, sempre ao comando à distância do monge, e impunha as mãos. De nada reclamava: tudo realizava como iniciante discípulo em quem faltava ainda, verdadeiramente, a alma sacerdotal e o talento.

  Mas houve fracassos. Em muitas ocasiões seus esforços eram anulados. Tinham de acontecer, pois os recursos de que dispunham eram precários, alguns inexistentes. Em certas situações, unicamente pelo saber de leis naturais, o monge chegava aos problemas, porém nem sempre às raízes e às soluções. Não obstante, mais do que o auxílio positivo e concreto contra os males do corpo, era a presença de ambos que marcava e confortava aquela gente, principalmente a figura sacerdotal do monge que se apresentava ao alcance de todos.

  Roubard agora conseguia vislumbrar contornos, rostos e imagens enquanto meditava. Vez por outra sonhava, via-se conversando e ouvindo.

  Certa manhã o monge mandou-o visitar uma doente. Era moça bonita, inteligente, embora inculta. Ela recuperava-se e Roubard lá voltou outras vezes. Uma paixão repentina brotou em seus corações. Roubard passou a visitá-la às noites. Esta paixão ardia-lhe e o dividia. Noites em que não a visitava, desejava lá estar. Ela era ardente e cada vez mais apaixonada.

  Roubard já não era o mesmo. Sua atenção e aplicação ao trabalho sofriam sensíveis quedas. A custo conseguia interessar-se por um problema ou acompanhar a evolução de uma tarefa. Com efeito, não via mais o ideal da mesma maneira como há cinco anos! Finalmente contou ao monge. Disse-lhe de suas emoções e sentimentos: fragmentava-se; sentia exaustão. Não podia mais continuar daquela maneira: casava-se dando novo rumo a sua vida ou partia.
  - Roubard, novamente o sofrimento pungente o impulsiona a decisões transcendentais. Como antes, o ego debate-se, enlaça-se nos fios de suas próprias criações, querendo deles se libertar. Gritos ecoam na consciência, gritos de socorro ou de clamor pela liberdade, qualquer que seja essa liberdade. Eu também sinto inconstância. Há tempos instalou-se em mim a necessidade de partir. O pouco aqui realizado pôde trazer conforto e esperança para muitos. Mas o caminho não mais espera-me, chama-me para que eu prossiga. Se optar por partir iremos ambos pela manhã. Caso contrário, parto eu, sozinho!

  Roubard não se decidia; varava a noite acordado. Nesses momentos, como outrora, estremecia, hesitava. Fora algo assim que o levara a abandonar toda a sua boa e folgada vida, a ficar praticamente nu diante de um caminho. Irmão Antônio tinha razão: o sofrimento costuma anteceder a uma grande decisão. Partir ou ficar, qual o verdadeiro destino? Um gosto amargo descia-lhe pela garganta aferroando-se em seu coração.

  Cansado, finalmente adormeceu. Ao despertar, uma réstia de sol entrava pela janela. Ele sentou-se na cama não vendo o monge. Sua bolsa e os demais pertences não lá estavam. A cama feita tinha alguma coisa sobre ela. Roubard quase esquecera, passara-se tanto tempo desde aquele dia! Uma dor aguda atravessou-lhe o coração e lágrimas queimaram-lhe a face. Seu grande amigo partira, porém confiara-lhe seu valioso tesouro: os três dobrões!

  Havia uma enxada a um canto usada em suas hortas. Roubard agarrou-a com decisão. Saiu do galpão e no pequeno pedaço de terra ao fundo, afastou algumas madeiras apoiadas na parede começando a cavar profundamente. Exaurido e ofegante, com mãos trêmulas, abriu a algibeira e derramou sobre a palma direita uma moeda, apertando-a firmemente. A moeda aqueceu-se; ele fundia-se nela. Não sabia o que pensar ou dizer, então decidiu jogá-la no buraco, fosse o que fosse! Tapou tudo, bateu a terra, depois entrou correndo!

  Na saída da cidade veio encontrá-lo. Irmão Antônio sentava-se à margem da estrada. Roubard chegou arfante e descansou ao seu lado. O monge estendeu-lhe o cantil; Roubard bebeu e o devolveu. O monge aguardava. Roubard permanecia calado. O monge resolveu quebrar o silêncio:
  - Continuamos nessa mesma direção, Roubard, ou terá alguma outra idéia? – Roubard meneou negativamente a cabeça e o monge retomou – Vamo-nos, então, nossa jornada deverá ser longa!

                                                                              Segue Parte 2

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