quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A Escola de Atenas e o Fim da Filosofia Grega

Perseguidos, por seu turno, os filósofos retiraram-se para Atenas, que vira o nascimento e a primeira expansão da filosofia. Ali se sucederam, transmitindo o facho de mão em mão; Plutarco, Siriano, Proclo, Damáscio, Olimpiodoro e outros ainda, que desfrutaram de celebridade. Basta-nos reter dois nomes.

Proclo, nascido em Bizâncio no ano de 412 e morto em 485, foi aluno de Olimpiodoro em Alexandria e veio estabelecer-se em Atenas, onde professou, sofrendo a dupla influência de Plotino e Jâmblico. Restam-nos dele comentários sobre o Timeu e o Parmênides, e uma Teologia segundo Platão. Tem uma moral em que estabelece, por exemplo, a necessidade do Mal - dado que o Bem não pode ser completo senão quando se opõe a ele - e uma fisiologia, que é o estudo da natureza. Mas, sobretudo, desenvolve e crê aprofundar a doutrina ternária de Plotino, povoando, assim, o universo de entidades metafísicas.

Agrega em seu sistema [e é o que este tem de mais característico] uma simbólica pela qual reintroduz e de certo modo renova os principais deuses do paganismo. Distingue, na Inteligência, unidades inteligíveis, unidades inteligíveis intelectuais e unidades puramente intelectuais; na Alma, potências demiúrgicas, conservadoras, zoogônicas e anagógicas a que faz corresponder uma parte do Panteão: Urano, Saturno, Réia, Júpiter, Netuno, Plutão, Vulcano; entre as potências inferiores do mundo sensível, ilustradas pelos deuses inferiores, coloca os anjos, os demônios, os heróis e as almas dos corpos.

O filósofo Damáscio nos conduz a outras complicações ainda. Nascera em Damasco e viveu no tempo de Justiniano. Manteve estreita ligação com o frígio Simplício. Chefe da Escola de Atenas, sofreu as tribulações que recaíram sobre ela e morreu aos 75 anos.

"Assim, pois, nossa alma, por um instinto de adivinhação profética, percebe que existe um princípio de tudo, de qualquer maneira que se conceba este tudo; tal princípio está acima do todo e não se compõe num mesmo sistema com o todo... Numa palavra, não se lhe deve dar nenhum nome, não é possível concebê-lo nem pensá-lo..."

São os termos usados por Damáscio no seu tratado: Dos Primeiros Princípios. E, desse modo, tudo procede, havendo três momentos na processão: a coisa permanece o que é; evolui em si por um movimento de expansão interna; dobra-se por si mesma, voltando ao seu princípio. Tudo, portanto, é em número de três. Isto se vê ainda nas três tríades que se podem deduzir, e onde aparece o tempo, aliás incompreensível, pois "enquanto tempo ele não existe, e enquanto existe não é tempo", como o demonstra o instante.

Nesse tempo não deixam, porém, de operar o Demiurgo e os seus auxiliares demiúrgicos: os deuses que modelam as coisas à sua imagem; os deuses independentes ou sem cinturas que ora executam regularmente a sua função, ora a negligenciam, e os deuses sublunares que presidem à geração e à evolução. 

Isto nos dá uma ideia da especulação de Damáscio. Multiplica no inteligível as distinções sutis; sutiliza igualmente sobre a concepção da substância, em que pretende ver, de todos os mundos, o mais completo e universal; a fim de atingir o conhecimento, na medida em que este pode ser atingido, recorre a uma intuição que supera o entendimento e constitui uma espécie de compreensão.

O conhecimento, diz ele, é ao mesmo tempo conforme ao cognoscível e ao cognoscente. "A manifestação visível do ser, espécie de luz que o escolta precedendo-o, vai até o sujeito capaz de conhecer; lança-se por assim dizer ao seu encontro e ele, por seu turno...se-lhe une numa perfeita harmonia, realiza e sacia o seu desejo do ser, enchendo-se dessa luz com a qual tem uma afinidade intima..."

Tal é o neoplatonismo em Damáscio. Encontramos aí, a par de visões ainda luminosas e profundas, sem abuso evidente da dialética, em que o pensamento se extenua no seu próprio esfacelamento, e também a espécie de religiosidade, de um misticismo bastante turvo, que caracterizou esses tempos novos. A filosofia havia indubitavelmente chegado ao termo do seu itinerário.

Os próprios filósofos experimentavam um declínio mais brutal e mais penoso. Ante a malquerença do imperador, resignaram-se ao exílio, e o pequeno grupo julgou encontrar um refúgio e um ambiente propício às suas especulações junto ao rei da Pérsia, Cósroes. Entre eles contava o nosso Damáscio, Simplício, Eulâmio da Frígia, o lídio Príscino, dois fenícios: Erméias e Diógenes e Isidoro de Gaza.

Mas esses sábios não encontraram em seus amigos a sabedoria que esperavam. Horrorizaram-se, conta Procópio, com os costumes dos persas, entre os quais campeava a adultério, apesar da poligamia, e não tardaram a descobrir que o seu real protetor tinha, em filosofia, mais boa vontade do que competência. Voltaram descoroçoados. Cósroes, que envidou todos os esforços para retê-los, conseguiu pelo menos que não os inquietassem mais e lhes deixassem a liberdade de opinião. Mas um decreto de Justiniano, em 529, fechou a Escola de Atenas.

É o fim ostensivo e histórico da filosofia grega. No decurso de um milênio essa filosofia tinha se elevado às alturas e dado os frutos que vimos. Formulara, na sua essência e sob os seus diversos aspectos, o problema que torturará os homens sem que estes possam jamais resolvê-lo e já tinha dito tudo o que, na verdade, se pode dizer a respeito. Também neste ponto, e desde as origens, a Grécia tocara a perfeição.

Deveremos atribuir essa felicidade ao seu gênio, ou sucederá acaso que o espírito humano seja de curto alcance e, tendo chegado bastante depressa aos seus limites, não lhe reste outra coisa senão repetir-seAs produções do espírito, por outro lado, não morrem. Desenvolvem o seu conteúdo através dos tempos e neles gravam as suas possibilidades. A Idade Média reviverá as questões tratadas por Platão e Aristóteles para situá-las em novas perspectivas; mesmo a nossa filosofia moderna, que se vangloria, por vezes de datar tudo a partir de si, deverá reportar-se constantemente a esses mestres antigos, ainda quando os contradiz, e se alimentará de sua substância. Haverá um neoplatonismo do século XVI e podemos também saudar a sua renovação em nossos dias. 

A leitura de Platão continua tão iluminadora e nutritiva quanto a de Hegel e Spinoza, com a vantagem a mais da beleza formal. Não devemos, pois, abandonar este solo fecundo da Hélade sem lhe render o duplo tributo do respeito e da admiração.

Excerto da Obra "História da Filosofia", por Gonzague Truc - Editora Globo, Porto Alegre.

                                                        Rayom Ra
                                      http//:arcadeouro.blogspot.com
 

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