quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Alexandre o Grande ou o Filho de Amon (II)


  A infância de Alexandre foi calma e feliz. Partilhando o seu tempo entre a “Palestra” 15, a marcha e o estudo, o filho de Olímpias e de Filipe tornara-se logo um adolescente vigoroso, treinado nos exercícios físicos e exercitado na ginástica intelectual sob a direção de seu mestre o grande filósofo e médico o grego Aristóteles. 
 
  Leônidas, um rígido oficial da Guarda de seu pai, foi seu preceptor militar educando o jovem nos duros moldes espartanos. Nessa escola Alexandre temperou seu caráter que devia em breve afirmar-se com força. No físico, o adolescente de tez clara e cabelos de ouro, trazia já no rosto iluminado por seus olhos azuis, o prestígio natural e a boa fisionomia que são o apanágio dos heróis antigos. No restante, Alexandre era um aluno submisso e estudioso, apaixonado pela mitologia que conhecia Homero de cor: seu herói preferido era o belo Aquiles, personagem central da Ilíada, cuja vida ele a comparava com a sua própria; seu pedagogo Lisímaco elogiava essa tendência para a assimilação heroica, observando-lhe que a família materna fazia remontar sua origem até o famoso guerreiro.
  15. Estádio onde se praticavam todos os esportes.
  Filho do rei da Tessália, Peleas e da rainha Tetis, Aquiles “o dos pés ligeiros”, fora educado pelo pedagogo Fênix que Lisímaco não deixava de comparar consigo mesmo e sendo ainda criança, anunciaram-lhe que ultrapassaria seu pai nas façanhas e no heroísmo, profecia que se revelou certa. A analogia era tentadora entre Tetis e Olímpias, ainda mais que esta última como a rainha legendária, vivia abandonada por seu esposo que a temia como feiticeira, desde que vira uma serpente deslizar certa noite no leito real. O próprio nome de Aquiles, coisa notável, é derivado da palavra echis, que significa “serpente” e poderia assim designar o herói da guerra de Tróia como o filho “nascido da serpente”. Olímpias com seu temperamento místico e exaltado persuadira-se disso e fez correr os boatos no palácio, que Filipe não era o verdadeiro pai da criança; Zeus-Amon visitando-a sob a aparência de um réptil fecundara a rainha que desde aí se tornou a mãe de uma criança divina. No seu amor pelas coisas esotéricas, Olímpias transmitiu seu entusiasmo profético e sua paixão religiosa ao filho. Dessa maneira enviou-o desde a idade de treze anos, à cidade sagrada de Mezia onde ele foi iniciado na gruta das Ninfas, nos mistérios órficos.

  Não há nenhuma dúvida que tais cerimônias produziram no adolescente uma profunda impressão e tiveram uma influência decisiva na formação de sua sensibilidade. Assim, numa idade precoce, Alexandre “estava ainda disposto a crer que era o filho do destino, nascido entre sinais e prodígios para realizar os desejos dos “deuses” 16. É nessa época que se situa o episódio mais característico e o mais célebre da juventude do herói. 16. A. Weigall, op.cit. pág. 94.

  Filipe comprara de um mercador da Tessália um magnífico cavalo negro de estatura excepcional, chamado Bucéfalo. O animal revelou-se indomável e todos que tentaram montá-lo, mesmo os melhores cavaleiros, eram atirados ao chão. Alexandre pediu ao pai licença para montá-lo. Filipe, um pouco por curiosidade e um pouco de brincadeira, permitiu. Aproximando-se do cavalo Alexandre virou-lhe a cabeça na direção do Sol e enquanto elogiava-o falando delicadamente com ele, jogou-se sobre a montaria, instigando-a a toda a brida. O adolescente acabava de ganhar a partida. Logo que desceu do cavalo seu pai beijou-o dizendo-lhe: “Meu filho, procura em qualquer parte um reino digno de ti, a Macedônia é muito pequena!”.

  Durante todo esse período Filipe, intrépido, prosseguia nas suas guerras de conquista que deviam tornar a Macedônia um Estado completamente grego destinado a submeter à Hélade inteira à sua autoridade; e poderia ser de outra maneira tratando-se de um país que dera nascimento ao filho de um deus solar? 

  Precisamente e pode-se ver nisso mais do que uma simples coincidência, o rei da Macedônia logo participou de uma guerra imposta por motivos religiosos. Embora tivesse como finalidade fortalecer o poder de Filipe, a gênese desse conflito merece ser explicada, pois projeta sobre a história uma luz sobrenatural enviada pelo Sol de Apolo. Pouco depois do nascimento de Alexandre, sucedeu que os fócios, povo vizinho meridional dos tessálios cujo território lindava com o domínio sagrado de Delfos, apoderaram-se numa incursão sacrílega, dos tesouros encerrados no santuário de Apolo em Delfos.

  Indignado o Conselho anfictiônico, espécie de parlamento reunindo todos os Estados gregos num simpósio religioso, declarou a “guerra sagrada” contra os fócios. Convidado a participar da coalisão, Filipe aceitou com entusiasmo, muito feliz por ser admitido no seio da comunidade helênica. O rei da Macedônia pôs-se imediatamente como campeão das tradições gregas e foi colocado à cabeça das tropas destinadas a expulsarem os fócios sacrílegos. Vencido numa primeira batalha, Filipe voltou à carga depois de rezar e invocar o deus Apolo para que lhe desse a vitória. Adornou seus estandartes e os capacetes de seus soldados com folhas de loureiro, como para uma cerimônia délfica; dirigindo-se depois às suas tropas num discurso inflamado pediu-lhes que se colocassem sob a proteção do Apolo solar; dessa maneira tornaram-se invencíveis. Com efeito, os soldados galvanizados lançaram-se sobre o inimigo cantando os hinos em louvor dos deuses, sob direção de Filipe, assumindo este na circunstância os ares de um profeta vingador. A vitória dos macedônios foi completa.
     
  Filipe desejaria chegar a Delfos para receber com grande pompa os agradecimentos dos sacerdotes de Apolo, sob as aclamações da multidão inebriada, ao som das trombetas de bronze ressoando através vales e precipícios; mas os atenienses não queriam absolutamente ver Filipe instalar-se tão próximo de seus territórios e puseram tropas nos desfiladeiros das Termópilas. O rei macedônio não insistiu, mas nem por isso deixou de considerar-se o protetor dos templos de Delfos. Alexandre de espírito exaltado e místico seguiria brilhantemente as pegadas de Apolo o filho amado de Zeus, representando o esplendor de Hélios.

  Chegando à idade de tomar as armas, recebera o filho de Filipe a educação que desejara seu pai? Sem temor de errar pode-se responder negativamente. Filipe, bom vivedor, embora de espírito religioso como todos os gregos de seu tempo, não gostava muito da magia na qual Olímpia se comprazia e não via de boa vontade Alexandre assistir assiduamente aos sacrifícios no templo, estudando sob a orientação de sua mãe a “arte misteriosa do augúrio e da adivinhação cuja forma mais conhecida era o exame das entranhas dos pássaros sacrificados e a observação de suas marcas cores e circunvoluções, tendo toda uma significação conhecida”. O jovem aprendeu assim a Empiromancia, ou adivinhação pelo fogo e a Ornitomancia, a arte de interpretar o voo dos pássaros. Estudou também a Astrologia, ciência dos caldeus que lhe predizia uma ascensão fulminante: seu tema de nascimento era assinalado pelo Carneiro, primeiro signo do Zodíaco simbolizado pelo animal solitário de Amon. Quando o astro do dia aparece, a natureza desperta e renasce à vida, abrasada pelo fogo do céu. No nascimento de Alexandre, entre às dez horas e a meia-noite, o Sol entrava no Leão e o signo ascendente horizonte oriental era o Carneiro. Essa dupla paternidade correspondia bem à vocação da criança: a de um conquistador e a de um espírito místico, sob a dupla insígnia de Amon-Ra.

  Era educado como um futuro grande sacerdote ou profeta e nós lemos que desde sua primeira infância sentia prazer em adorar os deuses e ofertar-lhes opulentos sacrifícios. Sua mãe enchia-lhe o espírito com a magia e o misticismo que para ele era o comer e o dormir de todos os dias. Leônidas instruíra-o na subordinação do corpo à inteligência e ambos traziam-no o mais possível distanciado do círculo formado pelos oficiais e companheiros de Filipe, sólidos guerreiros, sólidos companheiros e sólidos bebedores.

  Não obstante e contrariamente ao que se pode pensar, essa educação não prejudica a Alexandre e convém perfeitamente ao seu caráter orientado ao mesmo tempo para os sonhos celestiais e as ambições terrestres. Em 340 antes de J.C., Filipe comprometido à distância numa guerra contra os Estados do Norte confiou a regência ao seu filho. Era para Alexandre uma oportunidade de demonstrar seu valor político e militar. Agora com idade de dezesseis anos, começava sentir uma certa falta de afeição por seu pai que achava grosseiro e debochado, enquanto que ele mesmo vivia quase como um asceta. A revolta de uma tribo do Norte da Macedônia, os medas, foi o sinal de partida para a campanha. Alexandre pondo-se à cabeça de suas tropas saiu de Péla, a capital, no esplendor de suas novas vestes guerreiras. Não deixara de sacrificar antes aos deuses, invocando a ajuda do poderoso Amon em meio aos encantamentos e às nuvens de incenso.

  A expedição militar foi coroada de êxito. Não contaremos os novos episódios da guerra levada por Alexandre e Filipe contra as cidades gregas que recusavam submeter-se à supremacia macedônia. Sabe-se que essa resistência encabeçada por Atenas, terminou finalmente com o desastre de Queroneso, que consagrou a vitória das falanges macedônias e pôs ponto final às guerras entre as cidades vizinhas.

  Alexandre no decorrer dessa batalha manifestou uma coragem sem igual. Quanto a Filipe mostrou-se generoso com os vencidos, apresentando-se como o unificador da Grécia e não como um conquistador. A Hélade pela primeira vez tornou-se uma nação. Dessa vez Filipe podia finalmente preparar-se para pôr em execução seu grande projeto: a invasão da Pérsia, o império que desde as guerras medas, ameaçava a independência dos helenos.

  Entrementes Filipe morreu em 336 assassinado por um de seus companheiros de libertinagens, Pausânias, que a rainha Olímpias, cada vez mais abandonada, amara secretamente.

  Tornando-se rei da Macedônia, Alexandre que não tinha ainda vinte anos, demonstraria a medida de seu gênio. Os preparativos da expedição contra os persas foram apressados e o jovem rei que se julgava o novo Aquiles, uma espécie de Cristo ungido pelos deuses para realizar a vontade do céu, embarcou à cabeça de uma armada considerável com destino à Ásia Menor... Contemplando as ondas do Mar Egeu, Alexandre lembrava-se da resposta do oráculo de Delfos 17 que consultara algum tempo antes. Instando com a Pítia para que lhe respondesse rapidamente, esta numa frase que se tornou célebre disse: “Meu filho, tu és invencível!” O império Persa com o qual se havia Alexandre, era o mais vasto conjunto territorial governado por uma cabeça coroada, O “Grande Rei” Dario, da dinastia dos Aquemênidas, podia pois contemplar com satisfação seu imenso reino edificado por toda uma linhagem de conquistadores prestigiosos: Ciro, Cambises, Dario I. Da costa do Mediterrâneo até o Oceano Índico, do Egito até o Afeganistão, tudo se achava sob o domínio dos persas.
  17. O Oráculo de Delfos era o mais célebre da Grécia. Os consultantes chegando no santuário de Apolo deveriam primeiramente fazer uma oferenda ao deus e realizar um sacrifício. Se os augúrios fossem favoráveis os sacerdotes admitiam o consultante no templo e iam buscar a Pítia com fim de “introduzi-lo”. Esta deveria ter a idade de pelo menos cinquenta anos, embora se vestisse como uma jovem. Era escolhida entre todas as delfianas pela sua pureza de costumes, pois a partir da admissão em suas funções tornava-se a esposa do deus. Antes de cada consulta a Pítia dirigia-se à fonte Castália onde procedia às abluções rituais que a tornariam absolutamente pura. Em seguida entrava na grande sala (cela) em que se erguia o altar de Poseidonis e o célebre Omphalos, esse umbigo do mundo feito de uma pedra “caída do céu” que os antigos chamavam de “bétilo”. A profetisa retirava-se então no “santo dos santos” após proceder às fumigações consagradas de loureiro. O aposento subterrâneo onde ela se "comunicava" com Apolo era guarnecido somente de um tripé sobre o qual a Pítia se colocava e de uma estátua em ouro, do deus solar. Ali, respirando as emanações da terra, ela entrava em “entusiasmo”, isto é num delírio sagrado. A resposta do oráculo era interpretada pelos sacerdotes que o enviavam ao consultante sob a forma de um Opúsculo redigido em versos. O oráculo só podia ser consultado em certos dias. Alexandre apresentou-se num dia “nefasto” por esta razão a Pítia não quis dar-lhe uma resposta. Impressionada pela aparência do jovem príncipe, não pode entretanto calar a frase célebre que nós conhecemos. 

 A posse de um tal império estava na medida dos projetos de Alexandre que desejaria conquistar todos esses territórios. Erraríamos se pensássemos que Alexandre foi levado somente por uma sede desmensurada de conquista. Em verdade a sede de conhecimento, o desejo de deus, essa paixão da alma eram seus guias. Seu pai espiritual, Amon-Ra, inspirara-lhe essa campanha e devia obedecer-lhe. O santuário de Amon não se encontrava no coração do Egito, terra sagrada entre todas, humilhada e injuriada nas suas crenças milenares pelo domínio insuportável dos persas? Seria preciso liberar o Egito, cingir a dupla coroa dos faraós e proclamar a vitória do deus Sol! Somente assim Amon se apaziguaria e Alexandre poderia empreender a conquista do mundo.
  O caminho do Egito passava pela Ásia Menor. O conquistador devia preparar-se o mais rapidamente e bater os exércitos persas nas costas do Mar Egeu, antes de esboçar seu grande movimento voltando-se para a Palestina e o vale do Nilo. O historiador Weigall sublinha esse pensamento de Alexandre:

  A última Tula de sua presente visão de conquista não residia no longínquo Oriente onde o destino arrastou-o depois; na minha opinião situava-se no deserto, ao oeste do Egito, a duzentos e oitenta quilometro atrás da costa do Mediterrâneo. Ali se achava o oásis Siauah, a morada do deus Amon, do qual num sentido místico se julgava filho; devido a essa conquista do litoral do Mediterrâneo oriental ele criaria uma grande estrada grega, intercalada de cidades gregas, dando a volta desde a sacrossanta Siauah ao sul até a Macedônia ao norte e de lá à Dodona, a morada de Zeus-Amon, o santo lugar dos compatriotas de sua mãe.

  Ao mesmo tempo para Alexandre ao desembarcar na terra da Ásia, já pisada pelos guerreiros de Homero, marcharia sobre os passos de Aquiles com o qual se parecia de maneira surpreendente na juventude de seus vinte e um anos, revestido de sua couraça reverberando mil raios do Sol, tendo a cabeça um capacete de prata com altas plumas brancas com que era reconhecido de longe por seus soldados. Na galera real foi oferecido um sacrifício a Poseidon, deus dos mares e o sangue de um touro branco enrubesceu a espuma da praia. Prestava assim homenagem a Tetis, a ninfa das águas, mãe de Aquiles e avó de Alexandre.

  Desde que o navio tocou a areia da praia, Alexandre saltou em terra. O jovem rei se pôs a recitar os versos da Ilíada, depois declarou tomar posse do país pelo direito das armas.

  Novos altares foram elevados a Zeus, Atena e Hércules. Por fim, Alexandre, na ausência de inimigos desejou visitar o lugar da antiga Tróia ou Ilion, onde se desenrolara as proezas dos heroísmos gregos. No templo de Atenas, o jovem rei apoderou-se das armas que diziam pertencerem a Aquiles e no lugar colocou seu escudo incrustado de ouro. Desde aí essa armadura troiana acompanhou-o sempre durante as batalhas “como um símbolo mágico de sua afinidade com o herói homérico de outrora”. 18. A. Weigall, op.cit.

  A tumba de Aquiles foi depois objeto de sua visita. Chorou lembrando-se do herói e depositando flores sobre o mármore fez uma libação numa taça de ouro.

  Os persas esperavam Alexandre nas margens do rio Granico, mas esse não lhes deu tempo de se manifestarem. Avançando com sua cavalaria de elite atravessou o rio e cortou em duas as linhas adversárias, logo transformando a derrota dos persas num desastre. Alexandre durante toda a batalha teve o Sol pelas costas. O astro do dia estava com ele para conceder-lhe a vitória.

  Carregando rapidamente para o sul, de passagem o Conquistador apoderou-se da Frígia, depois atravessando as “Portas da Cilicia”, saiu na Síria, apoderou-se de Tarso e encontrou-se diante de Sódia. Ali Dario o esperava com um exército considerável, de toda a maneira muito mais numeroso que a pequena tropa macedônia. Estimam-se os efetivos do Grande Rei compreendidos os mercenários, em duzentos mil homens. Diante deles não alinhava Alexandre mais de trinta mil.

  Chegando na planície de Isso, mais uma vez o conquistador tomou a iniciativa das operações. Numa carga irresistível, Alexandre atingiu o centro do dispositivo inimigo e encontrou-se ao alcance da lança de Dario. Este vendo a feição que tomaram os acontecimentos empreendeu a fuga num carro. Em breve o exército macedônio despedaçou os persas: o desastre foi muito pior que no Granico e a batalha de Isso permanece uma das mais belas vitórias de Alexandre.

  As portas do Egito estavam agora abertas. Alexandre encontrou ainda resistência diante do porto de Tiro, cujo sítio durou seis meses, de janeiro a julho de 332 e que ele não queria deixar para trás. Passou-se então um fato extraordinário: a tomada da cidade correspondia à data astronômica do levante hélico de Sírio, a estrela do Cão, o que significa que o Astro, ausente do céu durante todo um período do ano reapareceu no horizonte oriental para marcar a vitória de Alexandre e anunciar-lhe que logo usaria a tiara dos Faraós. Na astrologia egípcia Sírio adquire efetivamente uma importância de primeira grandeza e a “Grande Provedora” é constantemente evocada nos textos das Pirâmides. “Isis vem a ti (Osíris) alegre por teu amor; Tua semente sobe nela, penetrante como Sírio, Horus penetrante sai de ti em seu nome de: Horus que está em Sírio” (Pyr, 1635-1636). 

  Sírio no esoterismo do Templo Egípcio representa o papel de Grande Fogo Central, para nosso Sol. Ora a Ciência Moderna nos ensina que esta estrela dupla, cuja densidade é extremamente pesada, poderia bem sugerir a existência de um sistema atômico tendo como núcleo o antigo “Canícula (ou Sírio)”. Tratar-se-ia do Sol Intermediário anunciado por Jâmblico?

  Seja como for, Alexandre o Grande como piedoso filho de Amon modificou o calendário grego para que daí em diante o momento do nascer de Sírio marcasse o começo de um ano novo como era feito no Egito.

  Prosseguindo em sua marcha, o exército macedônio arrebatou Gaza, o ferrolho do vale do Nilo. Constatando que qualquer resistência seria inútil, o governo persa entregou o país sem combate.

  Foi como libertador, em meio ao entusiasmo popular que Alexandre fez sua entrada no Egito, O exército e a armada a comando de Hefesto, encontraram-se em Heliópolis, a cidade do Sol, símbolo da vitória e em Mênfis, a capital dos reis onde fixara residência, Alexandre recebe o colégio sagrado dos sacerdotes de Amon que vêm oferecer-lhe a tiara dos faraós.

  No templo de Ptah, no decorrer de uma cerimônia, acessível somente aos iniciados, tem lugar a sagração; o grande sacerdote de Ptah despojou Alexandre de suas vestes e este purificou-se num banho de água lustral; o grande sacerdote pôs suas mãos sobre ele, depois untou-o com óleo santo em todos os pontos que são os centros ocultos da vida 19, a seguir vestiram-lhe as roupas da realeza; ele sentou-se no trono dourado, pôs a mitra branca do Baixo Egito e o almofariz vermelho do Alto Egito; a coroa Atef do deus Ra, a faixa da cabeça Seshed, a coroa de pele azul ou Kheperesch, a coroa ibes, por fim o diadema feito de altas plumas de avestruz. Alexandre então realizou a “subida real” penetrando num grande “naos” de granito rosa, colocado sobre um pedestal de argila e cercado de este a oeste dos colossos osiríacos. Na impressionante penumbra foi chamado “filho e Amon” e graças a ele reinaria sobre todos os domínios do Sol 20. Entregaram-lhe finalmente os símbolos de realeza: o cetro com asa, símbolo da vida e o flabellum ou chicote, sinal de todo poder. Só então foi investido do grande nome e enumera-se o enunciado de seus títulos reais: “filho de Horus, rei do Alto e Baixo Egito, eleito do Deus-Sol, Alexandre o bem-amado de Amon, senhor das ascensões como o deus-Sol por toda a eternidade”.

  19. Os chackras são os centros de força do homem. O termo é indu e significa “roda”. Em número de sete (número sagrado, esses centros conhecidos pelos iniciados desde a mais alta Antiguidade, foram descobertos novamente no Ocidente no século XX pela prática do yoga. Os diferentes chacras são partindo de baixo: o chackra umbilical, o chackra do coração, chackra da garganta, o chackra da fronte e por fim o chackra do lótus ao alto da cabeça). Cada centro é um ponto de energia, sol em miniatura situado ao longo da corrente de energia formado pela “serpente de fogo” circulando ao longo da espinha dorsal. O despertar dos diferentes chackras segundo técnicas secretas acarreta o aparecimento de poderes além do normal ligados a uma programação espiritual correspondente. Quanto à origem dessa corrente de energia verdadeiramente prodigiosa não se pode explicar senão pela condensação no homem das Forças Solares veiculadas pelo éter. (Para um amplo desenvolvimento ver a obra de C.W. Leadbeater, Les Centres de Force dans l´homme, Adyar, Paris, l927).

Nota de Rayom Ra: Nessa explicação faltaram relacionar os chackras chamados respectivamente, dentre outros nomes, de esplênico, na região do baço, e o mais abaixo chamado de básico, na região dos órgão sexuais..

  20. C. Desroches – Noblecourt, Vie et Mort d’um pharaon, Hachete, 1968, pag. 175.

  Achando-se herdeiro do ultimo faraó expulso pelos persas, Alexandre prosterna-se diante da estátua de Nectanebo e beija-a na boca para receber o alento de seu predecessor.

  Visitando seu novo reino decide construir um grande porto no delta do Nilo, que se chamaria Alexandria em lembrança de seu nome. Os planos são confiados ao grande arquiteto grego Dinocrato e a cidade se tornará a capital da cultura helênica. Aproveitando o tempo de interrupção da guerra, Alexandre quis fazer uma peregrinação há muito desejada: a visita ao oráculo de Amon. Antes do combate decisivo contra Dario tinha necessidade de ficar sozinho com seu “pai espiritual”.

  Acompanhado somente de alguns fiéis Alexandre se pôs a caminho para o oásis de Siauah situado no deserto da Líbia há trezentos quilômetros no interior das terras. Não era um passeio, porém uma viagem que durava oito dias a pé – nessa época não se utilizavam camelos – através de um deserto de areia ardente. Alexandre encontrou-se numa tempestade de areia que o fez perder o caminho, mas o voo dos pássaros guiou a pequena tropa até o oásis. A sede fez-se logo sentir, pois não havia água, mas Alexandre não se dava conta de coisa alguma: estava transportado por seu sonho como num estado secundário e quando chegou ao pé do pequeno templo escondido entre um punhado de palmeiras, caiu de joelhos agradecendo ao céu. Alexandre foi recebido pelos sacerdotes de Amon e introduzido sozinho no santuário. Pôde contemplar a barca simbólica que continha a imagem divina. Diodoro da Sicília conta assim:
  O ídolo do deus Amon está recoberto de esmeraldas e de outros adornos e produz os oráculos de maneira particular. E levado pelos oitenta sacerdotes numa longa barca de ouro, sustentando o deus sobre os ombros os sacerdotes dirigem-se automaticamente para onde os conduz a vontade divina. Atrás deles vem a procissão das jovens e das mulheres que cantam durante todo o percurso hinos e orações.

  A imagem de Amon não era uma estátua como se pensou muitas vezes, porém um meteorito, “uma pedra caída do céu”, segundo a expressão dos antigos. Essas pedras foram sempre veneradas na Antiguidade porque apresentavam a par de sua origem um caráter sagrado. Essas “pedras de raio” eram para os gregos o atributo de Zeus que governa o céu e no que concerne pois ao oráculo egípcio, esse poder se confundia com o de Amon deus cósmico do panteon egípcio. Mircéa Eliade considera que ademais esses meteoritos “representavam o centro do mundo” ao mesmo tempo “símbolos e emblemas”. Seu caráter sagrado supõe uma teoria cosmológica ao mesmo tempo que uma concepção precisa da dialética hierofânica 21. Essas pedras representavam efetivamente a “casa de deus”, provenientes de um fragmento destacado da divindade central o Sol.

  Alexandre pediu ao grande sacerdote que se tornasse seu intérprete junto a Amon, depois perguntou o que lhe queimava os lábios: seria ele o senhor do mundo? Foi respondido que sim. Perguntando depois se todos os assassinos de seu pai haviam sido castigados, o oráculo respondeu: “Expressa-te melhor porque nenhum mortal pode matar teu pai (que é Amon); mas todos os assassinos de Filipe foram castigados”. Alexandre fez ainda outras perguntas e silenciou sobre as respostas secretas.

  Os padres entregaram-lhe ao mesmo tempo um manuscrito mágico, talismã que deveria protegê-lo durante a vida e revelar-lhe o segredo do Universo. Esse papiro encerrado num tubo de ouro é que talvez foi enterrado com a múmia de Alexandre.

  21. Mircéa Eliade, Traité d’histoire des religions, Payot, 1970, p. 197.
  22. Algumas pessoas não tiveram dúvidas em pensar que esse “talismã” usado por Alexandre o Grande não era outro senão a Tábua de Esmeraldas de Hermes Trimegista, iniciador do Egito.

  Desde então adornado com a auréola divina, o Conquistador retornou ao Egito onde prosseguiu ativamente nos projetos grandiosos que concebera para Alexandria: a fundação de uma biblioteca imensa, a construção de um farol gigantesco, a construção de um porto de água profunda e o traçado de avenidas retilíneas.

  A partir desta data a “divindade” de Alexandre foi aceita pelos gregos ou pelo menos pelos macedônios. O oráculo de Apolo em Brânquidas e o da Eritréia reconheceram-no como um deus e ele mesmo sempre achou que tinha Zeus-Amon por pai, indo mesmo ao ponto de se dirigir aos atenienses, fazendo alusão a Filipe como a alguém “que no passado fora chamado meu pai”. A contar desse momento Alexandre começou a usar em torno da cabeça a redezinha de ouro adornada de dois cornos de carneiro, emblema solar de sua divindade, parecendo assim com seus cabelos louros, o próprio deus Amon.

  O jovem rei podia daí por diante consagrar-se inteiramente ao seu projeto supremo: conquistar o império de Dario e atingir os limites do mundo civilizado.

  No momento de se lançar na grande aventura oriental, Alexandre tinha o sentimento de atravessar as portas do mistério, pois que sabiam os gregos mais que os macedônios sobre o império dos aquemênidas? Pouco em verdade e mais comumente histórias transmitidas de boca em boca, distantes da realidade. Contava-se, por exemplo, que os persas eram bárbaros, serviam somente para construir casas de talpa, adoradores do fogo, devotos de um culto primitivo, escravos dominados por um tirânico asiático despótico e cruel.

  Os soldados helênicos mal conheciam o nome de Babilônia, essa enorme metrópole vinte vezes maior que Atenas e Susa, Persépolis, Ectabana, essas opulentas e vastas cidades permaneciam para eles nomes desconhecidos. Suspeitariam sequer a imensa extensão dos territórios dominados pelos monarcas aquemênidas?  Com exceção da Ásia Menor e da Babilônia, que para eles representariam essas províncias tão vastas semelhantes a mundos? A Susiana, a Média, a Hircânia, a Bactriana, a Sogdiana? Regiões desconhecidas e quase míticas envolvidas em espesso mistério. 

 Guiados somente pelo sentimento de superioridade que lhes dava a qualidade de cidadãos gregos e, confiantes na estrela do general que admiravam mais que tudo, esses homens lançaram-se ao assalto de um mundo que jamais enfrentariam se soubessem a verdade. Quarenta mil soldados de infantaria e oito mil cavaleiros puseram-se em marcha na direção do Eufrates. Atravessando depois o Tigre de surpresa, o exército grego encontrou-se de repente diante de tropas inumeráveis. Dario reagrupara na planície de Gagamelos um exército imenso composto de persas, bactrianos e mesmo de indianos, citas, partos e medos, contingentes recrutados em todas as partes de seu imenso império. Ao todo o Grande Rei reunia duzentos e cinquenta mil homens. Ademais Dario contava muito com elefantes de guerra e seus carros de combate, armados de foices afiadas como navalhas. Mas fora dito que essa exibição de forças não serviria de nada. Alexandre era o enviado dos deuses; os astrólogos de Mênfis que o conquistador levara consigo, deveriam pronunciar-se; ora, nesse mesmo dia produziu-se uma eclipse da Lua. Sabe-se que a Lua sob a forma da deusa Astarté era venerada em Babilônia. Esse escurecimento do astro noturno passou aos olhos de Alexandre por um sinal de seu pai Amon-Ra, o deus Sol que lhe anunciava a vitória, e os adivinhos disseram que era exatamente assim.

  Desde aí Alexandre não mais duvidou. Reuniu de madrugada seu exército e recomeçando a manobra de Isso, atirou-se à luta com seu entusiasmo habitual arrastando a cavalaria para o centro do dispositivo inimigo, enquanto suas falanges sustentavam o choque da cavalaria persa: chegando no seu magnífico cavalo Bucéfalo, Alexandre encontrou-se face a face com Dario que tomado de terror saltou de seu carro e montou num cavalo, afastando-se a galope. À notícia da fuga do rei, o exército debandou ou entregou-se incondicionalmente.
Image: Edwin Long - The Babylonian Marriage Market

  Recebido com todas as honras pelos dignatários civis e religiosos, Alexandre fez sua entrada em Babilônia sobre ruas cobertas de flores. Diante desse acolhimento, o conquistador decidiu respeitar a cidade e não entrega-la à pilhagem. 

 Os macedônios ficaram estupefatos ao verem, não uma extensão de casebres, porém uma cidade de gigantescas muralhas eriçadas de torres monumentais. Com seus jardins suspensos, seus palácios decorados de falança e ouro, a cidade eclipsava tudo o que os soldados tinham visto até então. No coração da Babilônia erguia-se imensa e multicolorida o corpo central dessa “Torre de Babel” bíblica, que parecia querer escalar o céu.

  Seus sete andares, cada um de uma cor diferente, simbolizavam, espelho terrestre do além, os sete dias da semana durante toda a evolução planetária, desde a saída do caos durante o período saturnino, até a sua volta ao Sol divino através da metamorfose de nosso mundo. E a pirâmide camaleão de cores cambiantes parecia participar dessa depuração gradual. Pois ela passava do negro de Saturno à brancura de alabastro de Vênus, pelo rosa pálido de Júpiter o azul vivo de Mercúrio ao vermelho escuro de Marte, para ajustar-se como o pistilo de uma flor, no templo prateado da Lua e na capela dourada de Bel. 23. Edouard Schuré, L’Evolution divine, L.A.P., pag. 222.

  O próprio Alexandre desde o começo da campanha ia de surpresa em surpresa. Agora não mais se considerava um invasor, mas sim um profeta e um libertador levando à Ásia a mensagem grega da liberdade como uma oferenda. Em troca ele começava a ver toda a beleza e a riqueza espiritual do Oriente e se pôs a estudar a religião e a filosofia dos persas.

  Depois da Babilônia as outras grandes cidades, Susa, Passárgada, Persépolis a capital, caíram entre as mãos do conquistador. Porém Ecbatana, a residência de verão de Dario reservaria aos macedônios uma última surpresa. Num quadro maravilhoso de montanhas azuladas, coroadas de cimos nevados, a rica cidade, capital da Média, estendia seus palácios e seus jardins.

  A cidade, disse-nos Heródoto, comportava sete cinturas concêntricas, uma ultrapassando a outra na altura de suas ameias. Os da primeira cintura eram feitas de pedras brancas; os da segunda de pedras negras; os da terceira eram de cor púrpura, os da quarta azuis, os da quinta vermelho sardônica. Quando aos dois últimos muros, eram laminados de prata e ouro. Bem no centro achava-se a residência do rei.

  Encontra-se aqui entre os persas a cosmogonia planetária da Babilônia; mas enquanto que entre os semitas assírios a Lua era exaltada, entre os arianos do Irã, penetrados da doutrina de Zoroastro, era o sistema heliocêntrico o exaltado e enquanto que o Sol dos cosmos atrai os outros planetas, o rei da Pérsia no meio do seu palácio, luz do império, atrai todos os povos em torno de seu total poderio.

  Alexandre compreendeu esse fabuloso ensinamento e proclamando-se rei da Ásia, tendo vocação para governar todos os territórios desse imenso continente pensou reunir todos os povos sob a mesma lei e a mesma religião, a de Ormuzd, a de Zoroastro, a de Amon-Ra. Sucedendo a Dario que acabara de ser assassinado por seus próprios oficiais, coloca o seu manto de púrpura sobre o corpo do rei e proclama-se seu herdeiro. Usa a tiara dos medas e reveste-se com as roupas orientais, exigindo desde aí que se prosternem a seus pés, essa “proskinesis” que é sinal de adoração.

  Os soldados e os oficiais persas são introduzidos na infantaria e na cavalaria. O exército puramente grego transforma-se num gigantesco mosaico militar agrupando todos os povos do império e já que Alexandre é o sucessor de Dario, os assassinos do Grande Rei serão castigados. Beassus um dos sátrapas participantes da conspiração é perseguido, preso e condenado à morte. Alexandre identifica-se totalmente com o antigo rei e pretende reinar sobre todos os territórios do império conciliando o Oriente com o Ocidente, sempre antagonistas. O Sol do levante e o Sol do poente não difundem a mesma luz? Alexandre sentia agora toda a profunda sabedoria da Ásia, feita de intuição e não de razão lógica.

  Seu desejo, escreve Plutarco, não foi de correr, assolar a Ásia como um capitão de ladrões; nem de devasta-la e saqueá-la, como se uma felicidade inesperada residisse no saque e no proveito. Sua vontade era a de tornar a terra toda habitável, submetida à mesma razão e todos os homens cidadãos de um mesmo Estado e de um mesmo governo. Se o grande deus que enviou a alma de Alexandre aqui embaixo não o tivesse subitamente chamado a si, haveria no futuro uma única lei regendo todos os vivos e o Universo inteiro seria governado pela mesma justiça como sob a mesma luz. A maneira como ele realizou sua expedição mostra-nos que agiu como um verdadeiro filósofo, não para conquistar copiosas riquezas, mas para fazer reinar a paz universal, a concórdia, a união e assegurar a comunicação entre todos os homens. Julgando-se enviado pelo céu para ser o reformador geral, o governador e o reconciliador do Universo, reuniu o todo em um, de todos os lados, fazendo-os beber a todos, por assim dizer, na mesma taça da felicidade. Mesclando as vidas, os costumes, os casamentos e os hábitos, ele ordenou a todos os homens vivos que considerassem a totalidade da terra habitável como a pátria deles e convidou todas as pessoas de bem a sentirem-se parentes uns dos outros, somente os malvados estavam excluídos. 

  Para ressaltar bem aos olhos essa vontade de continuidade, Alexandre visita o mausoléu do grande conquistador Ciro que ainda hoje se pode ver na planície de Passárgada. Penetra na tumba por uma estreita abertura e nessa solidão que o põe em face da morte, Alexandre decifra a inscrição do sarcófago que muito o perturba: “Eu sou Ciro que conquistou dos persas este império. Não invejes o ínfimo punhado de terra que recobre meu corpo”.

  Só existem efetivamente os reinos materiais e o novo “rei da Ásia” compreende que deve se tornar um “cosmocrata”, quer dizer um monarca dominando o Universo material e um chefe sacerdotal, intermediário entre deus e os homens, colocando-se sob a dupla proteção de Ciro e de Zoroastro, o instaurador da religião de luz cujos passos ele segue, ele o filho do Sol pela graça de Zeus-Amon.

  Pois de conquista em conquista, da Média em Hircânia, das areias ardentes da Gedrósia à verdejante Pártia, o disco de ouro do Sol, sempre mais brilhante e mais quente convida a seguir o caminho em direção as suas origens luminosas. Esse imenso périplo conduz Alexandre às terras mais distantes e agora ele penetra em direção ao norte, nessas terrae incógnitae de Bactriana e de Sogdiana cuja população lhe opõe uma resistência bravia e cuja revolta dificilmente consegue dominar, ele o vencedor de inumeráveis combates. Nessas regiões montanhosas, cada pico rochoso é uma fortaleza que é preciso sitiar. Dir-se-ia que nesse lugar concentra-se uma última resistência encobrindo algum segredo impressionante.

  Mas dessa vez ainda Alexandre está decidido a vencer, levado por uma angústia misteriosa. Ele sente o apelo do Sol e porque Bactriana e a Sogdiana são países de Zoroastro onde o profeta ensinou sua grande religião, ele necessita dessas províncias impregnadas de influência espiritual. Uma vez ocupada essa terra sagrada, Alexandre sabia que não mais seria vencido e é igualmente por motivos religiosos e místicos que os últimos comandantes de Dario, os generais e os sátrapas do Oriente, opuseram uma resistência selvagem ao conquistador. Eles sabiam a parada que a batalha representava, a posse de Báctria, a cidade natal de Zoroastro, a cidade mágica visitada pelos “superiores desconhecidos” da Índia, a cidade magnífica ligada ao coração do mundo, constituindo uma das entradas do reino subterrâneo de Agarta, esse império misterioso onde se situa o “Rei do Mundo”, sob as montanhas da Ásia Central.

  Entrando em Báctria em 239, Alexandre permanece aí dois anos que aproveita para estudar a doutrina dos “mestres de sabedoria” dos quais nada sabemos.

  A antiga cidade ainda está hoje em pé e seus vestígios elevando-se num quadro selvagem, encerram uma majestade que impressionam todos os visitantes. Tonynbee que visitou a cidade em 1960 nos diz: 

  Hoje vi Balkh com meus próprios olhos e recolhi uma coleção e imagens. A primeira foi a de sua muralha meridional como é vista da estrada que vem do sul. A segunda foi o vasto espaço interior da cidade, contemplado do alto de Bordj-I Aryan, um pavilhão empoeirado no ângulo sul-oeste de suas muralhas. A terceira foi tomada olhando da cidadela (que é ela mesma uma cidade dentro da cidade).  A quarta foi tomada do alto da cidadela, de onde o olhar não descobre somente o recinto da cidade e a maior parte do circuito de suas muralhas, mas também uma grande parcela da campina circundante. A quinta foi novamente a muralha meridional, mas desta vez observada desde o último terraço de um dos templos de Zoroastro que flanqueiam de um lado e de outro as proximidades da cidade, quando abordada deste lado. A última imagem foi a face sudeste de sua muralhas, vista por cima de meu ombro esquerdo enquanto meu carro deixa Balkh pela nova estrada que leva a Mazar-I-Sharif. 

  É claro que o perímetro encerrado entre as muralhas exteriores de Balkh é irrisório comparado à área construída de Chicago ou Los Angeles, onde cada ponto é separado dos outros por uns cinquenta quilômetros. Entretanto Chicago e Los Angeles deixaram-me frio, ao passo que Balkh – essa concha vazia de uma cidade morta – literalmente aterrorizou-me. Eu já estava prevenido. Já esperava impressionar-me com sua grandiosidade. Curvara-me longamente sobre as fotografias e as cartas. Lera todas as descrições que pudera encontrar. Porém a imagem que eu construíra para mim mesmo em nada correspondia à realidade. Que os turistas que se extasiam com Chicago fiquem satisfeitos! Estou certo que os alexandrinos que visitaram Balkh no tempo que era a capital do Império grego-bactriano ficaram estupefatos. E estou certo que os romanos que a visitaram no tempo em que era uma das capitais do Império de Kuchan tiveram a mesma sensação. De minha parte fiquei aturdido. Essas muralhas ciclópicas, as torres esses amontoados de terra, mesmo no estado de deterioração atual, dão uma grande idéia da majestade que pode alcançar o esforço humano persistente, sem desfalecimento através de doze séculos.

  Que idade tem Balkh? Ninguém saberia dizer. Ela se orgulha de ser a mãe das cidades. Mas nada permite verificar essa afirmação. Pode-se datar todo um período de civilização graças a um caco de ânfora. Porém as muralhas de terra, embora atingindo proporções tão colossais, não revelam seus segredos aos arqueólogos. Os tijolos secos ao sol não têm idade. Podem pertencer tanto a um milênio quanto a um outro. 

  De maneira que tudo o que pudemos saber do passado de Balkh interrogando os vestígios titânicos de suas muralhas é haver sido uma das maiores metrópoles do Universo durante oitenta e cinco por cento do tempo que transcorreu desde o aparecimento sobre a Terra do que chamamos de civilização. Foi somente nos curso dos últimos setecentos e cinquenta anos que Balkh se perdeu nas trevas do olvido. 24. Arnold Toynbee. Entre l’Oxus et la Jumna, Oxford, 1961. Pgs. 92-95.

  Porém uma vez ainda a “grande luz” estava mais longe. Os sacerdotes de Zoroastro tinham explicado bem ao rei como no começo tudo era luz, “semelhante a uma tocha encerrada num cristal”. Em oposição estavam os “receptáculos tenebrosos” ou forças do mal. Mas se Alexandre quisesse saber ainda mais, disseram eles, deveria ir até a Índia, às margens do rio Ganges onde se encontravam os “homens sábios” meditando nos seus templos em forma de lótus. Lá Alexandre conheceria a sapiência suprema ensinada por Çakya Muni, o Buda, muitos antes.

  A Índia! Havia então algo mais para além do império persa e do Grande Oceano efervescente que circunda a terra; devia situar-se mais longe. Alexandre resolveu invadir a Índia fabulosa.

  O exército acrescido dos contingentes estrangeiros agora assimilados no crisol militar pôs-se a caminho em direção ao sul. O rei da Pérsia e da Ásia ia fazer trinta anos e queria festejar seu aniversário na capital do reino indu, depois fundar ao longo do seu caminho as cidades que levavam o seu nome 25.

  25. Alexandre chegou ao norte até o Kazaquistão atual, ao norte do Rio Iaxartes que vai desaguar no Mar de Aral. Essa etapa era então sulcada pelos guerreiros nômades, os sitas. Foi nas margens desse rio que o conquistador fundou “Alexandria-do-fim-do-mundo”.

  Um enorme obstáculo barrava a passagem para as planícies do Indus: o Indu Kush, o maciço montanhoso que se ergue às portas do Afeganistão. Os gregos, transpondo o passo de Kahybar, tomando o sentido contrário do itinerário das grandes migrações arianas, indagavam o que encontrariam do outro lado: os boatos mais extraordinários circulavam sobre esse país; falava-se de homens de duas cabeças, seres andróginos, pássaros multicores que eram ensinados a falar. Não se utilizavam de elefantes para carregar peso e de leões para guardar as casas? Os palácios dos reis eram, diziam, incrustados de pedras preciosas e os templos possuíam telhados de ouro maciço.

  Entretanto a verdadeira riqueza não estava nisso tudo, mas entre os homens de cabeça raspada, vestidos com a túnica amarela de Buda.

  Já os sinais do destino se acumulavam convidando a antiga tribo ariana dos macedônios a reunirem-se aos seus irmãos de raça: ao tomar a fortaleza de Aornos que lhe barra a passagem, Alexandre saberia que ela resistiu vitoriosamente a Crixna; esse profeta e mensageiro da Índia foi ao mesmo tempo um guerreiro e um chefe espiritual e essa figura heroica impressiona o “rei da Ásia e da Pérsia”, como a imagem de um destino paralelo ao seu e ainda mais que os gregos lembrando-se do tempo em que os indus e os helenos formavam um único povo dominando as grandes estepes da Ásia Central, assimilam Crixna, o herói solar, a Héracles, que realizou seus famosos doze trabalhos em favor dos homens.

  Em seu caminho Alexandre vislumbra os primeiros eremitérios habitados pelos brâmanes, esses sacerdotes detentores de uma sabedoria milenar. O rei pergunta e eles respondem-lhe mostrando os livros sagrados: a Baghavad Gita, o Mahabârata. Esses textos já se irradiam por toda a Ásia. Através de Crixna o Verbo solar espalhou-se na Pérsia e através de Zoroastro que ensina o culto de um deus único de luz, e Mitra por seus mistérios ganha já o Oriente próximo. No Egito Akhenaton, único descendente de príncipes arianos, os mitanianos, restaurou o culto do disco de ouro e a Grécia aclama Apolo, o deus do Sol e da Lira, enquanto que Dionísio, o triunfador da morte ressuscita as almas. Não percorreu esse último o Egito e a Síria para finalmente ganhar a Índia onde se perdem seus passos, segundo a mitologia grega? Alexandre descobre uma cidade misteriosa chamada Nisa e quando o chefe dos anciãos conta-lhe a história da cidade, ele não tem mais dúvidas: é um grandioso afresco mitológico que se desenrola diante de si mesmo e Dionísio, Héracles, Amon e Ormuzd aparecem-lhe como outros tantos símbolos múltiplos, outras tantas imagens diversas enviadas pelo príncipe luminoso oculto no Sol: a cidade foi fundada pelo próprio Dionísio sobre a montanha que se chama Monte Meru, o Meros grego. Pois esse lugar é ao mesmo tempo a montanha sagrada que viu a apoteose de Crixna. Os macedônios estão maravilhados: a hera e a vinha medram nessa terra como no bosque de Dionísio na Grécia; eles se adornam de guirlandas e de pâmpanos celebrando durante dez dias uma incrível bacanal que deleita Alexandre. Alguns se põem a profetizar ou caem em êxtase. Não é mais exército é um coro de hierofantes que por fim se abala e se prepara para atravessar o Indus e entrar no país de Taxila, região amiga cujo soberano fez aliança com o conquistador.

  Na primavera de 326 Alexandre celebra os jogos e os sacrifícios na capital do Estado vassalo, prelúdio de uma nova campanha. Porus o marajá que reina do outro lado do Hidaspes, recusou-se a submeter-se e desafia os gregos; um exército de elefantes é sua arma secreta. Mas Alexandre não se deixa surpreender, atravessa o Hidaspes com o grosso de seu exército e ataca pela retaguarda as tropas inimigas que são logo cercadas. Porus combate até o fim corajosamente e Alexandre deixa-o à cabeça de seus Estados 26.

  26. Na capital do reino de Porus, Taxila, Apolônio de Tiana, o teúrgo pitagórico que viveu no século I, descobriu com uma alegria mesclada de surpresa que a lembrança de Alexandre estava sempre viva após três séculos: “Apolônio e Damis entraram num templo que se erguia perto, porém fora do contorno dos muros. Colunas de Pórfiro cercavam uma cela central cujas paredes recobertas de baixos-relevos em bronze perpetuavam a lembrança dos feitos que tornaram a memória de Porus inseparável de Alexandre. Sobre um fundo negro, o ouro, o oricalco e a prata faziam brilhar, com uma arte suntuosa da cor e um conhecimento perfeito do relevo e do vazado, as couraças, os capacetes e os escudos dos guerreiros. Esse templo magnífico fora construído para a glória de Alexandre por Porus, era o insigne monumento de uma gratidão duradoura”. Dessa maneira, até na Índia foi Alexandre venerado como um deus e o que é mais surpreendente, como um deus solar. No templo do Sol da mesma cidade, Apolônio pôde ainda contemplar a múmia de um elefante de guerra que Alexandre, em lembrança do herói da Ilíada, dera o nome de Ajax e consagrara ao Sol. Num anel de ouro em torno de um dos dentes, podia-se ler: Alexandre, filho e Zeus, consagrou Ajax ao Sol. E fato ainda mais significativo, a estátua de Alexandre fora colocada no último santuário. (In: Apollonius de Tyane, por Mario Meunier, Grasset, 1936, pag.75).

  Mas desta vez o exército invasor achava-se esgotado. Os macedônios não têm mais alento e pensam somente em voltar à pátria onde poderão desfrutar de um merecido repouso. E quando Alexandre perseguindo seu eterno sonho de conquistas prepara-se para invadir a planície do Ganges, atravessando o Hidaspes com suas tropas, pela primeira vez recusam-se a segui-lo. É um sofrimento para o conquistador e seu coração despedaça-se de dor. General sempre vitorioso, absoluto de um império imenso, eleito do deus-Sol, Alexandre se vê detido pela inércia de seu exército que não o compreende mais. Os homens não se acham mais à altura dos seus planos. Por acreditar que seu destino era semelhante ao de um deus, o filho de Olímpias descobre que comanda homens e não titãs. Não conhecerá os templos dos “homens sábios”, não será o hóspede do “rei do mundo” na cidade de Shamballah e o seu sonho inacabado será perseguido por outro que não o realizará. Juliano, filho de Hélios-rei, marchará sobre os passos de Alexandre, chamado pela voz trovejante do Sol.

  Menos de três anos depois, em 323 Alexandre extinguiu-se fulminado pelo impaludismo, na cidade da Babilônia. Seus comandantes disputaram como feras o império e finalmente partilharam os despojos. Na sua morada celeste Alexandre reunira-se ao Sol 27, suas peripécias não mais interessaram. A Grécia vivera, Roma retomaria a tocha e no seu sonho universalista continuaria a afirmar o “Único”.

  Nota de Rayom Ra: Procurando conciliar as datas, temos que Alexandre nascera em 20 de julho de 356 A.C., tendo morrido em 10 de junho de 323, portanto, a um mês e 10 dias de completar seus 33 anos de idade.
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  27. A lenda substitui aqui a história e consagra a “ascensão de Alexandre” ao Sol. Numerosas cenas, esculturas, pinturas e mesmo joias representam essa apoteose. Roma por sua vez erguerá Alexandre à altura dos deuses e o grande macedônio terá seus templos na Cidade eterna. Voltando às representações da “Ascensão” do herói, vê-se mais seguidamente Alexandre em pé sobre o carro de Hélios (o Sol) puxado por grifos ou leões; um outro tipo de representação mostra-o arrebatado sobre seu trono: num terceiro grupo Alexandre é arrebatado por águias que o levam para o astro eterno. Por cima de todas essas figuras, sobre a cabeça do personagem brilha uma estrela, evidente símbolo astrológico de Sírio, o astro que preside os destinos dos reis segundo os egípcios e os caldeus que a chamam de Sarrus, o rei ou o “senhor dos céus”. Seu aparecimento no céu, como já explicamos, corresponde à epifania do Sol no solstício.

Fonte: Os Filhos Místicos do Sol, Jean-Michel Angebert - Difel

Rayom Ra
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