Um poder viajando através do espaço, deixava atrás de si o permanente rastro de sua presença. Um som semelhante a uma avalanche acompanhava aquele poder, mas era algo grotesco, jamais ouvido, que se encaminhava pelo ar como rolasse adiante de um dilúvio em permanente e incontida expansão. Havia intensa escuridão, no entanto era possível discernir o progresso do poder. Em certo instante, Sorman deteve a impressão de o avassalador som e o sensorial poder estarem amalgamados numa só ação, e deslizarem por uma inconcebível esteira no fenomenal espaço de um vasto, profundo e insondável oceano etéreo. Até então, ele ficara preso àquelas imagens que, apesar de imensuráveis, cabiam num monumental plano cartesiano; mas de repente, sentiu um deslocamento e trasladou de seu horizonte de observação para outra dimensão, muito acima daquelas voluptuosas e verdadeiramente indescritíveis projeções. E nessa nova situação no universo, num ponto qualquer fora do espaço-tempo, voltou a contemplar a aterradora e fantástica figura.
A incomensurável Face Negra ocupava agora todo o espaço alcançado pelo campo visual de Sorman. Perplexo, ele tentou desviar-se da imagem; buscou uma brecha por onde pudesse concentrar sua atenção a fim de escapar da visão, mas a falta de outra qualquer referência, por menor que fosse, trouxe-o inexoravelmente de volta para a total contemplação. Era tão gigantesca a aparição – segundo podia supor pela astronômica projeção – que conteria a todos os átomos de uma existência cósmica, em todos os seus mundos de enigmáticas e simultâneas dimensões.
Mas ao invés de pavor, como na primeira visão de muitos meses atrás, Sorman petrificava. Algo congelara-lhe todas as reações; somente o sentido interior da visão e o da audição passaram a agir-lhe como as únicas coisas vivas. Nessa nova e inusitada condição, podia então observar que a descomunal e infinita Face Negra estava de olhos fechados, e soprava. O avassalador som, antes ouvido, sendo exatamente o mesmo agora percebido através de seus lábios entreabertos, trazia consigo o poder que de inicio ele acusara. Ela soprava por um tempo de sensação interminável, e o som e o poder juntos, eram sustentados e lançados para distâncias inimagináveis, muitíssimo além de tudo quanto a mente finita poderia suspeitar ou conjeturar. E quando aquele alento terminou, a boca falou lenta e prolongadamente, com voz rouca e grave, à semelhança de esdrúxulo e abismal ruído resultante do atrito de muitos metais pesados: FAAAÇAAA-SEEE!
A boca permaneceu aberta; imediatamente partiram dela milhões de formas negras que eram atravessadas por dois grandes raios ígneos provenientes de seus olhos. As formas não incandesciam. Eletrificavam! Tornavam-se transparentes véus ampliados elasticamente a cobrir todos os espaços por onde o poder e o som haviam antes propagado. Ao cabo de algum tempo, enquanto perdurara a percepção dessas últimas imagens, a Face vestira sorriso sarcástico e diabólico, ficando seus olhos apertados e repuxados. Em seguida, a forma total passou a menos densa, cada vez mais etérea, até desmanchar completamente, vindo se transformar numa infinita película negra de sutilíssima tessitura, finalmente pousando sobre todas aquelas coisas infundidas no universo, permeando-as como água jogada sobre a areia, nelas permanecendo.
Ao acordar, Sorman estava trêmulo. Impressões, em sucessões, impregnavam-lhe o cérebro. Mediante a incapacidade de mentalmente controlar o emocional, ele se levantou um tanto atordoado, indo ao banheiro a fim de tomar uma ducha. Reagiu bem, e enquanto se vestia, trouxe uma das mãos adiante do ventre examinando-a no dorso e dedos. Estava absolutamente firme, muito embora ainda lhe percorresse um leve tremor por todo o corpo, semelhante a rápidas descargas elétricas.
Capítulo XIII - Parte II de "A Face Negra da Terra" - por Rayom Ra
Parte I
https://arcadeouro.blogspot.com/2023/11/a-face-negra-da-terra-i-r.htm
Parte II
Parte III
Nenhum comentário:
Postar um comentário