quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Rosinha

Rosinha penetrara os caminhos do jardim parando diante de Áurea.

- Conte-me uma história alegre e bonita, Áurea! A roseira então começou: “Era uma vez uma rosa. Quando ainda botão, ardia em aspirações de logo abrir-se, mostrar sua formosura ao mundo, ser visitada por abelhas e beija-flores. Queria ver o sol, receber a saudação matinal e os sussurrantes galanteios da brisa. Queria e desejava contemplar do alto de seu fino caule as plantas rasteiras, pender-se e balançar-se em ostentação, abrir largos sorrisos de superioridade. Sonhava com a mão do jardineiro enlevado e satisfeito acariciando-lhe as pétalas, a orgulhar-se dela – a mais bela dentre todas!

E veio o dia em que a irresistível pressão da natureza excitou-a fazendo-a irromper de botão a rosa. E na medida em que suas pétalas cresciam se abrindo, ela procurava olhar para o céu, ver o sol, sentir as carícias do vento, sobrepor-se às plantas inferiores. Porém, sua visão embaçou e seu corpo inteiro foi arremessado com violência, quase sendo arrancado do pé. Naquele exato instante, em que nem ainda respirava direito o ar do mundo, um temporal de chuva e vento desabava e escurecia o céu. Raios e relâmpagos riscavam o espaço; trovões ribombavam assustadoramente; o furioso vento uivava carregando coisas com seus impetuosos açoites, e a custo ela conseguia manter-se presa ao pé. Naquela agitação, pode ver que era a única rosa que se abrira na roseira.

A noite veio e a tempestade diminuiu, porém chovia ainda e ventava. Ela só, tremendo e se angustiando, aguentava temerosamente aquele castigo sem ter ninguém com quem conversar ou amparar-se. Nem coragem reunia a fim de olhar para baixo em direção aos capins e plantas rasteiras, temendo uma vertigem e desfalecimento. Pela madrugada esfriou horrivelmente, ela trepidava e se encolhia, vendo, afinal, em certo momento de maior desespero, como embaixo as plantas rasteiras e os capins se acolhiam e se amparavam. E ela estava só e abandonada, ninguém se apiedava dela! Quem dera tivesse ali um amigo ou companheira para juntos suportar as intempéries. Sofria horrores, nem um minuto sequer de sua vida conhecera a alegria. Tolo orgulho, de que lhe servira se de nada lhe valia agora! Tivesse antes se despetalada, fosse lançada ao solo, se misturasse ao capim que pelo menos era unido e servido de alimento para um bicho!

Mas como não há mal que sempre dure e nem bem que nunca acabe, a noite terminou e novo dia veio raiando. O céu mostrava-se agora de poucas nuvens - finas e insignificantes - deixando-se trespassar pela luz arroxeada, começando a ganhar tons róseos e belos. Ao ver o atraente dia que se anunciava, o desejo de viver com volúpia, e os sonhos sonhados, retornaram à sua imaginação. Veria o sol, sentiria a carícia da brisa da manhã, saberia realmente o que é a beleza de viver e se mostraria a todos!

Mal esses desejos começaram a ser acalentados e se preparava para receber os primeiros raios solares, uma mão firme segurou-a e afiada faca ceifou-a do pé. Uma dor súbita a entorpeceu e a enristou, e um grito abafado congelou-se. A mão trouxe-a, juntando-a a três palmas e ramos ciprestes. Imensa tristeza veio acompanhá-la, porém agora procurava se consolar por estar junto de outros. Um papel celofane os enleou, um barbante os amarrou e foram levados num só molho. Após curta viagem, em que nada viu, pode perceber, afinal, gente de todos os tipos, vestindo roupas escuras, chorando desesperadamente e dentro do cemitério iam seguindo ao enterro. A atmosfera de opressão e os uivos de dor feriam sua sensibilidade, ao mesmo tempo sentia sua própria vida ir aos poucos escoando. O sofrimento das pessoas a compungia e mesmo estando colada às palmas e ramos ciprestes não desejava consolar nem ser consolada, porque morria também.

O ataúde foi descido sob gritos e desmaios e a rosa e seus acompanhantes, despidos do celofane, viram-se arrojados para o túmulo, chocando-se à tampa da madeira, quase desfalecendo ao impacto. A rosa que já morria, foi de repente impedida de ver aqueles rostos tristes ou curiosos, ficando inteiramente abafada e sufocada sob a escuridão do túmulo que era lacrado. Inconformada de ter nascido para um fim tão inglório e injusto, ela soluçava. Logo o último suspiro arrancou-lhe a alma do frágil e sofrido caule e viu-se transportada para outro mundo, outra dimensão. Uma alva e fina mão, bela e formosa, segurou-a graciosamente e um nariz perfeito cheirou-a. A rosa olhou-se e viu que estava inteira, suas pétalas mostravam-se vivas e cheias de cintilações. Uma alegria invadiu-a e constatou não ter morrido. Ao seu consentimento telepático, a mesma mão retirou-a do caule sem qualquer dor, elevando-a com graça e poesia, prendendo-a cuidadosamente aos cabelos da linda moça que sorria, aquela há pouco deixada morta no ataúde. Era a ressurreição de ambas e o início de nova vida, sob as vistas e atenção dos anjos que ali as recebiam!”

-Puxa, Áurea, que história triste. Eu pedi uma alegre e bonita!

“Não, Rosinha, a história é bela. Não reparou como o sofrimento da vida quebrantou o orgulho da vaidosa flor? Não percebeu como, ao final, morrendo inglória e injustamente, segundo ela, veio a soluçar? As dores da vida purificam dos erros e os pungentes soluços fazem externar a sabedoria humilde da alma”

[ Extraído da obra Rosinha, por Rayom Ra, disponível por inteira em on line ou para downloads no site Rayom Ra (Rayom_Ra) on Scribd | Scribd]
[ Os textos do Arca de Ouro, de autoria de Rayom Ra, podem ser reproduzidos parcial ou totalmente, desde que citada a origem ]

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