terça-feira, 11 de agosto de 2015

A Face Negra da Terra - Parte III - Final

  A negra cortina se fazia estranha ao Portal, mas era imprescindível que ela ali estivesse. Que é a luz? Que são as trevas? Serão, ambas, irrefutáveis provas da perfeição do Criador? Haveria luz sem as trevas?

  A cortina ocupava o vão inteiro entre as colunas, fechando abaixo do arco. Flutuava, movia-se a quase imperceptível ritmo.

  Ainda em cumprimento ao ritual, Bruno elevou a mão direita pouco acima do rosto, apontando com os dedos indicador e médios unidos, pronunciando:
  - Abra-se o Portal! Permaneça no umbral o que Eu não Sou! Meu coração e pensamento sejam dignos de ser ouvidos!

  Ditas as palavras, baixou a mão em gesto único cortando o ar, e a cortina abriu-se ao meio. Através do rasgo, já era possível entrever o outro lado e ele deu dois passos colocando-se no entremeio. A cortina se cerrou e o envolveu, mas não encontrando egocentrismo em seu propósito, caiu desfeita ao umbral. Aliviado, Bruno reiniciou os passos.

  A luz, após o Portal, era exatamente a mesma de antes e ele se afastou tomando o reto caminho diante de si. Em espaços regulares, pequenas vias se desenhavam como asas. Dobravam-se em curvas terminando em pontas. O chão, constituído por blocos triangulares de cristais justapostos, emitia farto e iridescente brilho, mesclando matizes luminosos – principalmente azul e dourado – destacando às margens a cor ígnea. Idênticos blocos, matizes e margens orladas, também existiam nos desenhos das asas, tanto à direita como à esquerda. Um transparente manto já o envolvia; ele procurava ignorá-lo mantendo os olhos presos à claridade mais acima. E à medida que avançava, vinha-lhe à mente a sensação de estar ascensionando, subindo gradual e verticalmente, e um gostoso torpor o invadia.

  As chamas se acenderam. O caminho era agora um facho retilíneo, luminoso e brilhante, e uma luz brilhou em toda a sua longitude. Aos flancos labaredas crepitavam lançando ao ar pequenas faíscas. Era algo singular: a luz vibrava em transparente lâmina e as pequenas asas, tornadas ígneas, queriam soltar-se levando tudo em ardente voo. Entrementes, outro processo começou a se fazer sentir, semelhante a uma réplica ou transferência. Aquilo, sob cuja forma externa ele vinha vivenciando ao longo desse palmilhar, de certa maneira passava-se também em seu intimo. Uma lâmina idêntica àquela por onde ele pisava houvera se acendido no interior de seu próprio corpo. Estendia-se desde a base da coluna vertebral até ao alto da cabeça. Pequenas asas em chamas, a exemplo daquelas existentes no caminho, principiaram a arder em seus braços e pernas, aos flancos. Em poucos instantes, a transparente e luminosa lâmina alargava-se, moldando-se num tubo de igual teor. No interior desse tubo, em toda a sua extensão, surgia um vibrante fio azul.

  Ao cabo de segundos novas e rápidas variações aconteciam e o tubo desapareceu, mas o fio azul, agora mais espesso, vibrava intensamente. As pequenas asas ígneas de seus braços e pernas juntaram-se todas, formando duas grandes asas. A cabeça ficou envolta de um excedente brilho que lhe configurava uma grande auréola. Essas transformações rapidamente transmutaram-se, tornando-o numa estrela flamígera!
   
  Luz e chamas cambiavam em seu tronco. A luz oscilava do branco luminoso ao azul irradiante e as chamas, ao tomarem seus membros, iam do ígneo ao dourado. Ele sentiu-se mergulhar no mais profundo de si mesmo, perdendo o pouco domínio que ainda detinha sobre sua vontade e um irresistível impulso de voar veio tomá-lo, sendo imediatamente lançado para cima. Após alguns segundos, ou seriam minutos – impossível mensurar – atingiu um ápice, onde pousou. Tão logo se apoiou em base firme, o fenômeno transmutativo apagou-se magicamente e ele voltou à sua forma natural, como se nada tivesse acontecido.

  Encontrava-se no interior de um lugar cujas dimensões de valores e qualidades eram sobremodo superiores. Permeava-o outra vida: era algo elétrico, dinâmico, magnético, disseminando-se e se transmitindo pelo ar. O lugar era verdadeiramente um jardim no formato de uma coroa. Pés de variegadas flores e arbustos compactos com folhas coloridas delineavam os seus limites: subiam em formosos bicos e abaixo vinham se constituir em segmentos retos que se interligavam. No exato centro dessa coroa, brilhava um lago absolutamente circular, de uma água perfeitamente límpida e azul. O anel que configurava sua volta era largo e dourado. O fundo era branco, claramente percebido, onde havia um disco de ouro externando doze raios, ultrapassando por baixo a margem circular, terminando fora da água. Os raios, também de ouro, transmitiam reflexos tanto debaixo da água como fora dela.

  Algo extremamente interessante vinha contemplar a visão de quem ali permanecesse: uma agradável combinação de matizes produzia um fenômeno de refração no lago. A pouca distância, já era possível notar com inteira nitidez o fundo do lago a pairar sobre a superfície, sobrelevando-se em excêntrica miragem. Isso se tornava possível, em parte, pelo resplandecente banho da claridade que provinha de fora.

  Havia em redor do lago quatro bancos de pedra lisa e polida, voltados, cada um, para uma respectiva orientação astronômica. Diante dos bancos, a via circular, coberta por milhares de pétalas de flores, detinha ao alto uma trepadeira perfeitamente aparada, apoiada em finos mourões inclinados e encurvados para baixo. A trepadeira lançava-se alpendrada para o centro da coroa, debruçando-se às margens do lago em todo o seu desenho, largando pétalas das flores sobre a via.

  Não ventava nesse instante. Os galhos, ramos ou flores na figura da coroa, jaziam totalmente imóveis. Nem sempre era possível ver dali o azul do céu. A visão somente acontecia em determinados instantes sobre o lago, quando as nuvens, engolfando a montanha, se abrissem parcialmente, e as chamas não estivessem em propagação e ardência. As chamas irrompendo dentre as nuvens ou fora delas, produziam ruído de rasgar maciamente um tecido. Seguia-se o deslize e expansão das próprias chamas para as várias direções. Esse último movimento assemelhava-se a um toque de carícia na seda. Enquanto as chamas não ressurgissem, a claridade era mais ou menos estável, acentuando-se aos poucos do branco-róseo ao dourado suave. Às vezes abraçava por fora translúcido manto azul de finíssima tessitura.

  Mas tudo era fogo, mesmo nos entremeios da ação mais forte e vibrante das chamas, quando após impulsarem-se elas decaíam querendo desaparecer. O ar, a atmosfera, o espaço etéreo, conservavam nas entranhas a resultante ação ígnea, a exemplo de invisível cortina em perene ardência. A claridade não era um reflexo, mas a própria ardência e crepitação. O Jardim –  a coroa propriamente – na verdade, não era alcançado pelo furor das chamas; era-o, isto sim, pelo espírito da presença que se comunicava através de tudo sob a ação inicial do fogo.

  Havia um apêndice à coroa. Num ponto mais abaixo da montanha, constituía-se um patamar de pedra negra em formato hexagonal. Esse tipo de laje antecedia a uma cripta situada mais acima, a cujo acesso era necessário subir três degraus. A cripta possuía a figura de um pentagrama encravado no chão, vindo após uma urna funerária ladeada respectivamente à direita e à esquerda, na cabeceira e aos pés, por um total de quatro tochas ardentes. Na rocha, ao fundo, aparecia um sol em tom dourado. Bruno aqui estivera algumas vezes em meditação. Após as experiências vividas no âmbito da Fraternidade Irmãos Atlantes – tendo merecido ouvir nesse lugar certas revelações – fora-lhe concedida a permissão de ascender à coroa.

  Nesse momento Bruno encontrava-se em pé, olhando fixamente para o lago. Desde o instante da transmutação de seu corpo para uma estrela flamígera, ele perdera o senso de proporção de todas as coisas. Veio dar-se conta do que realmente era algum tempo depois de aqui ter chegado. Em rápido olhar em derredor, vieram-lhe à memória as gratas recordações de sua última visita a esse Jardim. Lembrou-se com satisfação, dos momentos em que recebera todas as diretrizes para transcrever um encadeamento sucessório nas centúrias. Era o fechamento premonitório da história da célula no atual momento vibratório de manifestação física no planeta, revelado em quadros mentais. O encadeamento profético e cognitivo precisaria traduzir os ideais da célula para o atual ciclo, a partir de sua última e pregressa manifestação física no planeta. E ficou tudo muito claro e perfeito ao final de tudo.

  Enquanto Bruno divagava, as chamas reacenderam envolvendo o espaço externo ao Jardim. A coroa transformou-se. Todas as cores ficaram muito mais fortes adquirindo colorações diferentes de sua originalidade. Bruno passou a sentir-se penetrado de uma nova vitalidade; um calor que não ardia perpassava-lhe todo o corpo deixando-o com a sensação de maior leveza. Algum tempo depois as chamas decaíram e uma névoa permaneceu. Aos poucos a névoa foi clareando, mostrando-se principalmente em tons róseo, dourado e branco. Finalmente, o Jardim clareou-se por completo.

  Bruno sentou-se naquele banco voltado para o sul e fechou os olhos concentrando-se na própria alma. Com isso, desligou-se do ambiente externo, viajando mentalmente, repetindo sempre as palavras como a um mantra auto elaborado: “nuvem escura, como enfrentá-la?” Mais tarde voltou à consciência. Pareceu-lhe não ter ocorrido qualquer mudança externa. Tudo transpirava harmonia e paz, muito embora o teor magnético do Jardim impregnasse poderosamente aos átomos de seu corpo e esses respondessem com vibrações mais dinâmicas. O extraordinário lugar vivia em todas as coisas como uma só alma. Uma realidade abarcante movia-se no íntimo de tudo, fazendo-se sentir a cada segundo. Mas nada era igual ao que se passara segundos antes: o presente era especialmente escorregadio. A subjetiva percepção da envolvente atmosfera arremetia o pensamento de quem ali estivesse a um transcendente parâmetro de tempo e espaço, apesar de todos os limites existentes.

  Não haveria nada a mudar: estava tudo perfeitamente inserido naquele momento. O que existiria seria uma progressão da consciência, quando essa pudesse se desprender das aparências ou das limitações auto criadas e atingisse a um espaço futuro, aonde viesse abrir-se em sensações. Bruno, em reflexões, enquanto aqui estivera noutras oportunidades, ousara, algumas vezes, sondar a esse fenômeno, perguntando-se se essa percepção e sentir seriam, tão somente, devido a uma ação periódica das chamas. Concluíra, outrossim, que as chamas são a própria vida dimanada do Criador. Ele as houvera criado sob Sua ação renovadora, incessantemente manifestada. O revestimento na aparência de todas as coisas pode decair por que está submetido a uma lei temporal, tendo um limite de sobrevivência nas miríades de formas do mundo. Mas o essencial, não: as chamas sendo uma vida distinta e independente bastam-se a si mesmas; são eternas existências, não precisando renovar-se, mas simplesmente viver a sua própria imanência. Elas transcendem o tempo e o espaço, não sendo contidas nem encerradas pelas formas. As chamas, ao final das contas, são uma só vida, várias vezes desdobradas: e todas são a um só tempo a Chama do Saber. Eis porque, concluiu, as chamas ardentes no Jardim falavam-lhe como se nele elas todas estivessem – e de fato, ao final de tudo, estavam!

  As horas se passavam. Bruno nesse instante caminhava descalço sobre as pétalas de flores. À medida que as ia sentindo sob a sola dos pés, seus perfumes recendiam, exalando algo indefinível. Ele trazia os braços largados atrás, sobre a parte posterior dos quadris, com mãos sobrepostas. Seus olhos buscavam ora o chão ora o alto, mas não se fixavam em nada porque nada o distraía. Repetia obsessivamente a mesma questão aguardando por uma resposta.

  Anoitecera sem que percebesse. Uma projeção de sombras procurava o Jardim, porém não era possível notar os seus avanços de dentro da coroa. Mesmo ao se produzirem dentre as brechas das claras nuvens, eram obstados pelo alpendre; a luz circundante não lhes permitia de todas as formas grassar, perdendo assim a consistência. Mas tal como em horas de céu azul, a exceção noturna também ficava por conta do lago, e assim, somente pedaços do manto negro, às vezes, sobre a água, vinham refletir-se, obtendo rápido acolhimento.

  Voltando a Bruno, não importava se fosse dia ou noite – isso seria de somenos importância – porquanto permanecia fechado sobre a significativa e pertinente questão que lancetava seu ego. Cansado de andar em círculos ao longo da via, voltou ao mesmo banco, buscando emergir de todas as coisas, sobrelevar-se à consciência mais alta. Esse estado mental, ele alcançara uma única vez neste último tempo de meditação. A ausência de uma significativa resposta começava a alimentar novas e crescentes preocupações. Outra incômoda e impronunciada questão rondava-lhe aos mais recônditos de seus pensamentos, batendo incessantemente: e se retornasse sem uma solução prática à tentativa de bloqueio da nuvem escura?  Entretanto, a despeito do emprego de todas as técnicas de meditação que conhecia nada obtivera, e acabou por desistir. Virou-se então opostamente, girando sobre o assento do banco, e mirou o lago. Havia rebrilhos na superfície da água azul, pequenas luzes ali se espelhavam; instintivamente ele volveu os olhos para o céu, vendo através da translúcida rosada névoa pontos oscilantes de luz sobre as claras nuvens. Tratava-se de diminutos focos iridescentes que permaneciam sempre nas mesmas posições. Ao olhar maquinalmente de volta para o lago, viu formar-se dentre as pequenas e deslizantes marolas, uma imagem contornada pelos reflexos daqueles focos de luz. Era um rosto! Surpreso, procurou fixar-se sobre essa formação; logo o rosto delineou-se melhor, tomando perfeitos contornos, e materializou-se.

  O rosto era masculino e belo. Os dourados cabelos, a meio tamanho, com franja sobre a testa, reluziam como o mais precioso ouro. Possuía uma tiara, também de ouro, contornando a testa e a cabeça, assentando melhor os cabelos. O rosto não tinha idade; os olhos eram verdes; o delicado queixo terminava com extremidade quadrada. Ele tomou-se de vida, piscou, e diante do olhar estupefato de Bruno, falou-lhe com austeridade:

  “Julgastes vossa preocupação única? Saibai que durante todo esse tempo mentes superiores também trabalham com possibilidades diante da nova inclusão, denominada por vós humanos de a nuvem escura. Acalmai vosso coração; como podeis esquecer-vos de que os Mestres Superiores não saberiam da inaudita presença? Tentastes uma só vez fazer contato com os mensageiros dos Mestres? Julgastes que a imagem mostrada ao Ministro Extraordinário, escaparia à consciência dos Superiores? Como podeis imaginar tamanha amplitude de um possível acontecimento como esse a tragar somente as energias e preocupações de uns poucos obreiros como vós? Ouvi com atenção por que falo com clareza e discernimento a uma mente sábia e a um coração puro: fazei a vossa parte da melhor maneira possível, não negligenciai vossas obrigações, saiais a lutar com denodo e sabedoria. Ninguém fará humanamente melhor o que é dos humanos, mas lembrai-vos: o futuro se definirá na Terra por tudo quanto os homens fizerem de bem ou mal. Dar-vos-ei uma pequena indicação de como agir na ocasião, mas todos os passos serão de vossa exclusiva competência. Memorizai!”

  Os olhos daquele magno rosto fecharam-se; a fisionomia tornou-se como de uma esfinge reinante no tempo e sobre todas as coisas. A imagem pétrea assim permaneceu por alguns segundos, perfeita, intacta, bela, irretocável! Depois começou a oscilar, acompanhando o suave movimento da água. Foi-se tornando mais fraca, translúcida e desapareceu. No lugar ficaram os vacilantes pontos luminosos. Bruno olhou para o céu vendo as luzes lá em cima também recuar, até serem totalmente encobertas pelas nuvens.

  Ele voltou a fitar o lago, mas nem teve tempo para reflexões por que ouviu um estridente guincho provindo de uma das gigantescas águias a sobrevoar a coroa do Jardim. Ela abriu as enormes asas e pairou sobre o lago, acima dos limites do alpendre, lançando em direção a Bruno um pergaminho que trazia preso às patas. O pergaminho caiu diante de seus pés e a águia afastou-se.

  Ele arcou-se e o tomou, abrindo-o de imediato, vendo tratar-se de um plano para um posicionamento estratégico de combate à malignidade da nuvem escura. Estudou-o com atenção nos mínimos detalhes, percebendo no desenho um entrelaçamento de forças entre os planos terreno e espiritual, sobre cuja fase não tocante à irmandade, que de todas as formas não estando ali significativamente representada, não deveria mesmo dela conjeturar ou discutir.

  Tendo memorizado o plano, enrolou novamente o pergaminho, porém assustado, largou-o no ar, porque subitamente ele se aquecera, começando a incendiar-se. Ao cabo de poucos segundos o pergaminho incinerou-se num fogo vivo e dourado, consumindo-se completamente sem deixar qualquer vestígio. Nem tendo ainda se recuperado dessa nova surpresa, seguiram-se as seguintes palavras: “Nenhum registro deste plano irá transferir-se para o vosso cérebro terreno. Os malignos não poderão sondá-lo de forma alguma. No momento certo a intuição revelará o posicionamento adequado a adotar-se para o início da luta!”
                                                                           
  Tendo retornado ao castelinho, as imagens quase todas se apagaram, permanecendo unicamente umas poucas cenas acontecidas no Jardim Ardente. Permeava-o, não obstante, a certeza de que no momento da ação contra a nuvem escura, saberiam como agir.
                                                                           
  Bruno chegou aos círculos. O trabalho transcorria com normalidade. A noite caíra; a luz artificial produzia sombras que se moviam ao balanço das lâmpadas. Sombras também insistiam em se mover sobre o planeta. Por quanto tempo ainda as correntes resistiriam nessa oposição? O cansaço estampado nos rostos dos irmãos era preocupante.

  Havia um campo fortemente magnético que atuava intensamente para o interior dos círculos. Esse campo determinava a atração centrípeta da energia. Outro campo, de atração centrífuga, empurrava da periferia para fora toda e qualquer tentativa de invasão de forças contrárias. Nada estranho poderia ali penetrar ou ingerir no trabalho desenvolvido pela irmandade – isto de muitas maneiras os deixava tranquilos.

  A idéia inicial de Mendez houvera sido modificada. Os Mensageiros dos Superiores trouxeram-lhes novas e diferentes instruções sobre a repolarização da energia primária. Não era desejável, hábil ou coerente a irmandade arcar com essa imensa responsabilidade que compreenderia a macro vida do planeta. Desta feita não se tratava de exercer ajustes no plano de vida e evolução da célula, nem de estabelecer eventual plano solidário com outras células numa mobilização intercontinental. Situações especiais, embora de grande amplitude, mas pequenas num contexto de escala mundial, estariam adstritas a decisões e esforços da própria hierarquia no âmbito de sua irmandade. Ações coordenadas nesse teor seriam, antes de tudo, precedidas de um planejamento real e concreto a fim de prever manobras de qualidade e quantidade relativas tão somente a capacidade de gerir da célula. A estrutura de qualquer célula não pode produzir soma de esforços que vão além de sua própria economia. E o atual problema era demasiadamente grande.

  A repolarização – conforme denominara o Superior em suas primeiras explanações sobre o plano – sem dúvida, modificaria o sentido da energia primária. Se por um lado a mudança de atitude perante a presença da energia – conforme disseram os Mensageiros dos Superiores – os isentaria de uma responsabilidade infinitamente maior, aliviando a ele, Bruno, de enorme carga de preocupação e incomensurável trabalho – afora o que já tivera –  por outro lado, o fato vinha trazer-lhe um aguçamento mental que o impulsionava a tentar saber como isso seria feito nas dimensões superiores. Essa curiosidade, mais tarde, foi-lhe em parte satisfeita pelos relatos de Sorman sobre sua viagem às dimensões. As naves, as máquinas e as cabeças, passaram a realizar essa vital ação. Esse trabalho, se realizado somente aqui embaixo, logicamente em proporções menores, sem o emprego daquela avançada tecnologia, os levaria em poucos minutos à extrema exaustão. Necessitariam, para tanto, de se utilizar de outras técnicas envolvendo diferentes posturas físicas, mentais e até artes evocatórias.

  Tinham razão os Mensageiros. Os recursos de que dispunham não seriam suficientes para realizar grandes avanços contra a energia primária ou nuvem escura. Essa flagrante desvantagem revelara-se a si desde o princípio, ao ser informado por Sorman do tamanho e profundidade do vórtice e da proporção da energia viajando pelo espaço. Sabia, sim: não conseguiriam contê-la ou sufocá-la concretamente, mesmo se todas as células espalhadas pelo planeta pudessem unir-se a um só comando, trabalhando com eficiente disciplina e perfeita coordenação. Essa realidade praticamente o apavorou, entretanto guardou-se em não demonstrar um nível excessivamente alto de apreensão ou possível medo. Assim mesmo omitira-se de julgar, mas não de lançar reptos, incentivar ou exortar à luta.

  Os Mensageiros, por outro lado, embora o instruíssem sobre alguns aspectos da repolarização, nada lhe revelaram de substancial aos planos deles. Quanto a isso, limitaram-se a passar-lhe palavras com certo teor enigmático que, de toda a sorte, serviram muito mais para deixá-lo entre a desconfiança e a incerteza do que propriamente seguro. O duelo, por sinal, voltara-lhe à mente ao rever os irmãos trabalhando nesse momento, confiantemente, sem o conhecimento de grande parte da realidade oculta. Unicamente trabalhavam obedientes às ordens. Essa constatação, velha e casuísta, veio de novo mexer com sua consciência, fazendo imediatamente emergir ao pensamento a mesma indagação: pecava por omissão ou mentia-lhes? Entretanto, os subterfúgios de seu experiente ego procuravam inocentá-lo como a um ser humano normal, comum, impotente perante as leis universais ou acontecimentos dessa magnitude cósmica, perguntando-se: quantas vezes fatos cósmicos como esse já não teriam ocorrido na vida milenar do planeta sem que nada soubesse?

  Uma nova questão veio abortar de seus pensamentos: o conhecimento da provável realidade, talvez caótica, que se estabeleceria com os efeitos danosos dessa invasão a Terra, não lhes seria um tributo à elevação pretendida pela célula nesse interlúdio planetário? Quanto mais consciência maior o sofrimento!
  - Parem as correntes, descanso geral! – ele gritou-lhes. Os círculos, um a um, foram interrompendo os fluxos. – Desfaçam os círculos até segunda ordem, retirem-se e refaçam-se!

  Logo a área onde estavam ficou deserta. Sombras e luz artificial dominaram todo o cenário. O céu de nuvens escuras sistematicamente riscado por relâmpagos ou tomado de súbitos clarões pareceu-lhe mais sombrio e ameaçador que antes. O vento e a chuva jamais cessavam; havia horas estavam expostos a todas essas intempéries.

  A Casa Rosa superlotava. O salão principal e a varanda eram palcos de verdadeira multidão. Eles retiravam gorros, capuzes, casacos, sapatos e meias. Enxugavam os rostos, tomavam café ou chá, comiam pão e biscoitos sentavam-se às cadeiras, ao chão, apoiavam-se nos corrimões. Ora um burburinho mais alto se espalhava como envolvente onda, ora transformava-se num grande falatório. Procuravam soltar as emoções antes contidas ou represadas. Praticamente com alegria constatavam nada lhes ter acontecido de mal, apesar da explosão que os assustara e do raio que felizmente a ninguém atingira.

  Bruno cruzou o salão percorrendo todo o corredor, chegando à biblioteca. Abriu a porta e acendeu as luzes, trancando-a novamente à chave. Sentou-se à mesa, apoiando os cotovelos sobre o grosso e claro vidro, trazendo o queixo às mãos entrelaçadas. Fechou os olhos, concentrando-se no rosto de Mendez. O contato foi feito, mas o Superior pediu-lhe um pequeno tempo até retirar-se da corrente. Com efeito, poucos minutos depois restabelecia o contato.
  “Como está a situação?”- perguntou Bruno.
  “Normal, sem incidentes!”
  “O estado geral dos irmãos é bom?”
  “Sim, porém o cansaço já é grande, creio podermos suportar somente até meia-noite”.
  “Devem todos parar nessa hora, voltando para suas casas. Novas equipes permanecerão até às oito da manhã, como planejado.”
  “Certo, cumpram-se as ordens!”

                                                                        o     o     o

  A vida no planeta nessas últimas horas estivera tumultuada. Em muitos países os elementos em revolta haviam provocado diversos estragos. Diante de uma sucessão de acontecimentos, os governos viam-se em inesperadas dificuldades. Onde as populações não tinham ainda se defrontado com a violência das tempestades, outras consequências transtornavam a normalidade. Religiosos fanáticos, extremados, organizações terroristas, usurpadores de toda espécie, agitadores de massas, facções criminosas, fomentadores de guerras – enfim, toda a sorte de mentes voltadas para a destruição, que fazem do ódio o principal móvel da vida, estiveram em intensa movimentação, reunindo-se, planejando ou já tomando rédeas para tortuosas atividades. Havia evidentemente uma insuflação geral incitando a esses egos sair e procurar.

  Intensa movimentação também acontecia nos mundos internos da FIA e aliados. Aqueles trabalhadores não atuantes em consonância direta com o plano de contenção da energia primária e nuvem escura vinham, por outro lado, formar fileiras no enfrentamento das forças demoníacas. Eram exércitos de soldados, legiões de especializados combatentes, falanges de lutadores marciais, conhecedores de artes mágicas e imensa gama de discípulos da sabedoria iniciática. A luta tomava várias direções ou vertentes. Não se tratava unicamente de cercear o inimigo ou combatê-lo corpo a corpo. Tratava-se também, entre tantas coisas, de lutar pelos ideais do pensamento, travar o estreitamento mental originário do despotismo e ações violentas; era convocar os homens de mentes científicas para uma luta aberta em favor da humanidade. As sãs oposições, os ideais nobres, os valores contributivos à paz, os refreadores da violência, o fortalecimento das culturas, o desenvolvimento mental e espiritual do homem: todo um trabalho de embasamento servindo há milênios para lapidar as massas de vividas civilizações, e da recente história mundial, apesar dos absolutismos, reinados desastrosos, regimes totalitários, fanatismos religiosos, orgulhos sacerdotais, pseudo raças eleitas, escravidões, conquistas de guerras, capitalismos selvagens e tantas aberrações – e um amplo retrospecto de estudos dos avanços ou retrocessos das sociedades, e de capítulos negros da insanidade humana que levaram consigo milhões de pessoas à morte ou a inúteis sacrifícios – todos esses valores positivamente conquistados, sabiam os homens de pensamento esclarecido, precisavam ser, tanto quanto possível, reconfirmados para sua própria salvaguarda.

  A necessidade das forças negras é sempre inverter valores; elas gozam e se locupletam; enchem-se de vazios arroubos; cantam hosanas à vitória do anarquismo sobre a ordem, do atraso sobre o progresso, do mal sobre o bem. Não há valores que mais respeitem; não existe hierarquia que não seja a do mais profundo, indigno e repelente sobre a Terra. Repudiam a luz e a verdade intrínseca à luz, mas não têm culpa disto, por que não podem vê-las e não as vendo não as sentirão; assim jamais as entendem. O seu negro mundo é amplo, tão amplo quanto é na Terra o de seu oposto, mas ainda assim somente incursionam em seu próprio caminho quando realizam hercúleos esforços de oposição a quem simplesmente constrói.

  Dessa maneira, a convocação foi geral à célula, não somente aos departamentos atuantes da FIA. A irmandade, como um só corpo, tomou para si essas difíceis tarefas no tocante à capacidade de realizar. A cada um segundo as suas obras, e a célula dos Irmãos Atlantes penetrou como pôde no momento da humanidade.
                                                                             
  Os três dias que se seguiram foram notadamente decepcionantes. A FIA e aliados não conseguiram manter o mesmo ritmo de cooperação ao plano, como de início. Irmãos adoeceram, ficando até impedidos de sair de casa. Outros, em grande número, esgotados pelo alto nível da energia deles subtraída, ou pelo excessivo esforço mental realizado, foram excluídos em definitivo. Devido a esses problemas e aos que de diversas origens vieram participar das relações de vida dos irmãos, a produtividade dos círculos decaiu consideravelmente em todos os setores de operações. Os persistentes nessa cruzada, pretendendo não se dobrar às incidentais adversidades, chegavam da mesma maneira ao limite de suas forças, tornando-se imperioso reconhecer-se a impossibilidade de continuar aquele trabalho.

  A nuvem escura já cobria a quase totalidade do planeta. A situação nesse tempo – quanto ao revolvimento da atmosfera e revolta dos elementos – não se modificara. Em muitos países, temores recrudesciam a todo instante diante da perspectiva de maremotos, terremotos ou mesmo de erupções vulcânicas. E dos temores ao pânico, rompeu-se a linha de menor resistência. Inúmeras famílias abandonaram suas casas buscando locais mais seguros. Via-se com frequência a diáspora de próximo ao mar, em derredor de vulcões – mesmo os extintos há séculos – ou de áreas notoriamente fragilizadas por falhas geológicas. Como consequência, aldeias, vilas e cidades se esvaziaram.

  Diante disso vandalismos aconteceram: desordeiros, desocupados e ladrões, aproveitando-se dessas evasões, realizavam pilhagens. Polícia e forças especiais patrulhavam ruas em busca de proteger os bens das populações. Mas de todos os lados as coisas caminhavam para a dissolução da ordem e confusão. Pessoas não tendo para onde correr ou não querendo deixar os seus domicílios, concentravam-se nas proximidades de templos religiosos ou em locais públicos, acendendo velas ou rezando. Entretanto, a expectativa às hecatombes produzia um tipo de reação em cadeia nas mentes de milhões. O pavor ao imaginarem-se as piores possibilidade mostrava-se nas fisionomias alteradas. O resultado dessa comoção trazia à tona explosões emocionais. Crises de choros misturavam-se a convulsivo histerismo coletivo. Um sem número de desesperados rolava ao chão, ajoelhava-se ou gritava em total descontrole; outros, mais ainda impressionados, proporcionavam cenas de incríveis desatinos. E imploravam por clemência ao Todo-Poderoso. O rumor de que o fim do mundo estava próximo, ganhava corpo e espaço!   

  Três vulcões haviam dado sinais de que a qualquer instante poderiam entrar em erupção. Curiosamente, distavam muitos quilômetros uns dos outros, ficando em continentes diferentes. Populações das aldeias, vilas e cidades vizinhas, antes resistindo à idéia de deixar as suas casas, agora se movimentavam em tentativas de fuga. Eram milhares em pânico; as tempestades tornavam as escapadas praticamente impossíveis.

  Vinte e sete dias tinham decorrido desde que a Terra começara a sofrer o duro castigo das forças contrárias. Em muitos pontos do planeta a nuvem escura abrira-se; a atmosfera aquecera demasiadamente. Uma das consequências desse fenômeno, fora a subida de muitas espécies de insetos e bichos para a superfície, e uma migração às tontas, como se tivessem perdido o sentido de orientação grupal e instintiva. Estradas, ruas, lares, cidades, viram-se subitamente invadidas por um exército desses migradores – muitos venenosos e perigosos – tais como cobras, lagartos, escorpiões, aranhas e muitos outros. Os voadores infestavam a todos os ambientes.

  Os animais ficaram nervosos e viviam às turras; os carnívoros ferozes começavam a sair de seu habitat e por onde passavam atacavam rebanhos, criações e seres humanos. Outra consequência dessa virada da natureza, relacionada diretamente com as atitudes da fauna, era a falta d’água. Rios, lagos e reservatórios rapidamente secavam; as plantações não resistiam, os alimentos escasseavam. Doenças advieram em decorrência de todas essas calamidades.

  Noutros quadrantes da Terra situações simultaneamente inversas se repetiam; tormentas, vendavais e enchentes, causadoras de mortes e destruição, cessavam os seus furores de um momento para outro. Os homens então saíam dos seus abrigos tentando retomar o controle de suas vidas, buscando por desaparecidos, resgatando sobreviventes ou corpos sem vida, e visando reconstruir o que sofrera danos. Mas em determinados lugares o Sol vinha logo escaldar e o calor insuportável atrapalhava-lhes os serviços. A rápida elevação de altíssimas temperaturas alterava-lhes os humores; eles se irritavam, se desentendiam, brigavam. As falanges negras, atuando sub-repticiamente nos planos invisíveis, sustentavam esta gama de energia inferior – exsudada dos maus humores –  provocando novos conflitos. Inúteis as tentativas dos homens de mover-se com agilidade para rescaldar valores ou salvar vidas, pois os malignos se incumbiam de a tudo obstruir e quase sempre conseguiam o seu intento.

  Não se passavam dois ou três dias, a situação novamente mudava. As organizações governamentais de defesa civil, engrossadas por voluntários do povo, viam-se abruptamente diante da necessidade de parar com os trabalhos a fim de se preparar para se defender a si próprias de novas investidas da nuvem escura. Ela retornava com força às vezes redobrada, trazendo consigo, novamente, os violentos açoites dos elementos açulados à fúria.

  A alternância de presenças era, sobretudo, singular. As estações, nos seus respectivos ciclos anuais dos hemisférios, ficavam completamente descontroladas e descaracterizadas. Até a ação da neve cedia lugar a um assolamento diferente, passando a alternar-se com tempestades de vento e chuvas torrenciais. Esses fatos intempestivos geravam também um rolamento de águas a níveis catastróficos. O degelo prematuro não só ocorria pela insólita torrente pluvial, mas, principalmente, por súbita elevação da temperatura em função do aquecimento descomunal da Terra. E de alguma forma, o excessivo e anormal calor subterrâneo, ao aproximar-se das regiões geladas, proporcionava condições propícias ao degelo.

  Embora essas anomalias não permanecessem por muito tempo, era difícil resistir aos extremos contrastes, tornando-se assim impossível apagar um rastro de destruição recente sem que, em poucas horas, os fenômenos viessem repetir-se ou novos acontecessem, causando mais uma vez ondas de destruição e mortes.

  Inúmeras cidades apresentavam quadros gravíssimos quanto às necessidades mínimas. Os serviços essenciais de muitas maneiras descontinuavam. Registravam-se absoluta falência de recursos humanos e o rompimento das malhas funcionais. Em diversos casos, o pessoal responsável pela manutenção das malhas abandonara os seus postos. A sobrevivência impunha-se como a principal preocupação e corriam para junto de seus familiares. Saques a mercados, lojas e depósitos de víveres já não tinham a participação única de ladrões ou desordeiros: a população, ansiosa, acorria àqueles locais de suprimento proporcionando cenas de tumulto, desespero e violento instinto tribal. As forças organizadas oficiais haviam desaparecido das ruas.                  

  - Levantai-vos e vinde! A imperativa voz fez Sorman estremecer. Ele não esboçou a menor reação por que se sentiu dominado. A última imagem a permanecer-lhe na memória fora de uma vela acesa sobre o camiseiro, aos pés da cama.

  Sem saber quem o conduzia, mergulhou por cavernas, despenhadeiros, rios e lagos – todos subterrâneos. Após um tempo nessa incrível viagem, estancou diante de um mar ardente. Olhou para cima e viu que se encontrava no interior de um vulcão, a cujo ápice extraordinariamente alto não conseguia enxergar.

  A massa líquida e avermelhada borbulhava. O cheiro de gases misturado a enxofre impregnava a atmosfera; havia uma fumaça negra se desprendendo. Sorman sentiu súbito e insuportável calor. Temeroso, quis recuar.
  - Não temais, estais protegido, concentrai-vos! – determinou-lhe a mesma e autoritária voz. Ele fechou os olhos, concentrando-se em seu íntimo; o calor passou e o cheiro esvaiu-se.
  “Por que me trouxe aqui?” Sorman pensou e a voz respondeu-lhe:
  “Para que testemunheis o trabalho que realizamos em oposição às energias invasoras. Concentrai-vos agora no interior do magma!”

  Sorman obedeceu e sentiu uma vertigem. Sua mente girava como num redemoinho à medida que ia penetrando o interior da substância fervente, derretida a milhares de graus centígrados. Então presenciou cenas extraordinárias. A energia primária se precipitava para o interior do vulcão, mergulhando no caldeirão. Ele a percebia numa cor excessivamente vermelha, e, embora descesse continuamente num facho, vinha aos borbotões. Ao tocar as profundezas, produzia erupções também de modo contínuo. Em decorrência disto o magma, na sua totalidade, se revolvia. Seres ígneos, fantasmagóricos, grandes e longos, também se revolviam em meio à massa líquida, agitando-a. Lançavam-se para cima, sem sustentação, ou subiam pelas paredes, levando nesses saltos, ondas do magma que alcançavam muitos metros de altura.

   De repente ocorriam explosões; o magma se abria deixando passar de seu interior blocos de rochas incandescentes partindo como pequenos meteoros, atingindo grandes alturas. Ao entrarem em contato com o ar atmosférico do interior do vulcão incineravam-se parcialmente, muitos se fragmentavam soltando uma fumaça negra que desaparecia mais acima. Os pedaços dessas rochas, ao caírem de volta no caldeirão, eram absorvidos pela altíssima temperatura, derretendo no próprio magma, desprendendo outro tanto da fumaça negra. Sorman assustou-se ao verificar a quantidade do magma que crescia, vendo que todo o seu volume provinha de um rio fervente. Este rio navegava desde um redemoinho mais afastado e mais subterrâneo, formado da mesma substância. Outros rios iguais percorriam novos leitos, indo depositar-se em diferentes vulcões a muitos quilômetros dali. Súbito ele viu-se de volta ao interior do vulcão. A fumaça negra, o enxofre e os gases tinham aumentado consideravelmente. A energia invasora dividia-se nesse momento entre o vulcão e o redemoinho, distribuindo o magma.

  “Como a energia primária, especificamente, invade locais estratégicos debaixo das camadas e placas tectônicas do planeta?” – inquiriu-se de novo Sorman. Então um quadro descerrou-se diante de seus olhos, materializando-se. A Grande Face Negra, sorrindo diabolicamente, produzia a invasão. No meio de sua testa formava-se um enorme orifício; dentro dele reproduziam-se cenas de locais no interior do orbe terrestre. Sorrindo sempre, ela exercitava o seu maligno poder interferindo nas funções vitais da natureza, provocando reações como aqui, já delineando uma culminância catastrófica.
  “Realizemos agora a nossa parte!” – disse a voz interrompendo aquela visão. Nova visão veio ocupar-lhe a atenção. Sorman percebeu a aproximação de pequena nave oblonga, tendo à volta do bojo um anel completo, como estreita plataforma. Possuía a cor prateada, parecendo toda de aço. A nave pairou no interior do vulcão, a poucos metros do caldeirão, passando a emitir fortíssimo e indescritível som. O som possuía incrível penetração, alcançando grande distância, atingindo com exata intensidade a todos os canais ou rios que partiam do redemoinho do magma.

  O efeito foi imediato. Todos os rios ferventes e o caldeirão do vulcão diminuíram aquela agitação; o nível do magma parou de subir, estabilizando-se. Desse modo, a energia invasora passou a exercer maior intensidade na sua ação, querendo retomar o crescimento da massa líquida, mas à medida que ela se intensificava, a nave, em contrapartida, emitia variações do som, ampliando sempre a frequência. O duelo continuou por certo tempo até que a energia intrusa cedeu e se retirou.
  “A Grande Face Negra tentará outras manobras no interior do orbe terrestre, mas aqui estaremos para lutar em favor da Terra.”


                                                               CAPÍTULO  XVIII

                                                               A VIDA CONTINUA

  Tendo feito a varredura dos assuntos que chegavam todas as manhãs, a secretária depositou sobre a mesa de Sorman a correspondência. Um envelope branco permanecera intacto. Havia nele a recomendação de pessoal e confidencial em letras grandes e destacadas. Sorman tomou-o em primeiro lugar, verificando que o remetente era Javan. Curioso, apressou-se em abri-lo, vendo tratar-se de uma carta feita em computador, com o seguinte conteúdo:

“Caríssimo Sorman:

  Sei que se surpreenderá com essa carta posto que, ao restabelecermos contato, temos falado muitas vezes pessoalmente ou por telefone. Entretanto, em todas as nossas conversas, conduzi-me com extremo egoísmo por desejar sempre sua ajuda aos meus pessoais problemas, em detrimento de qualquer outro assunto. Pouco o inquiri a respeito de suas dificuldades, mas você, com habitual elegância, jamais deixou escapar em todos os momentos, qualquer lamento, desânimo ou sequer transpareceu a necessidade de fazer um desabafo. Ao contrário, absteve-se de si, permanecendo durante todo o tempo perfeitamente atento às minhas palavras, mas de forma alguma adestradamente, como na maioria das vezes fazem as pessoas superficiais e pueris, naturalmente falsas, em nome de uma ética artificial e sem consistência.

  Fui cansativo no meu egocentrismo, na exposição de minhas fraquezas ou na inabilidade de atrair uma solução para meus próprios dilemas. Abri-lhe o meu íntimo até a última de minhas fímbrias, como jamais antes houvera feito a alguém, nem mesmo à Vera, minha querida esposa, a quem amei com sinceridade e em quem irrestritamente confiava. Mas não houve qualquer demonstração de aborrecimento ou irritação de sua parte mesmo quando, repetidamente, pretendi não tê-lo entendido naquilo que me externou como visão, alento ou até mesmo admoestação às minhas atitudes.

     Queira perdoar-me inestimável amigo, por ter abusado de sua sincera amizade e paciência. Tive pena de mim, estive sem autoestima, sem a mínima confiança; permaneci, por escolha, num mundo onde só infelizes e derrotados habitam. Nesse ponto conheci a sua severidade e dirigida energia. Você buscou sacudir-me, tirar-me daquele estado letárgico, tentou despertar-me novamente a esperança e a vida. E tudo isso realizou não como os arrogantes e pretensiosos que julgam conhecer a todos os meandros ou enredados caminhos encravados na alma humana. Eles usam a sedução de nossa pobre psicologia, cuja vida acadêmica vai há pouco mais de cem anos sem realmente curar alguém. Nem demonstrou, caro irmão, (permita-me assim chamá-lo), aquela pieguice de tantos que, embora muitas vezes sincera, é de cunho e empirismo popular, evidenciando-se pela falta de imaginação criativa, não vinculada a uma energia renovadora, moderna ou atual. Essa forma de transferência, somente os santos foram capazes de realizar, pois haviam incorporado da alma algo maior e desconhecido às suas próprias personalidades. Porém, hoje não há mais santos como outrora e a “pieguice milagreira” não realiza como antes, ao contrário, por sua forma populista afasta cada vez mais os buscadores necessitados.

  Não você, Sorman, isso sempre repetirei como a um lema; suas atitudes e palavras são e foram autênticas, veiculadas ao seu precioso dom de ter conquistado o alinhamento quase perfeito de sua inteligente e brilhante personalidade com a sabedoria da alma. Vejo-o assim, amigo, pelo menos nessa instância em que você existe e se manifesta, e que para mim é extraordinária.

  É claro que em você não se revela a santidade dos castos que o mundo de hoje ardentemente desejaria conhecer em alguém, para depois, a esse, muito provavelmente sacrificar e de novo crucificar. E nem precisa acontecer semelhante identidade com a alma, quer parcial ou completamente, em mesmo padrão ou linha de evolução dos santos, a fim de que, somente tocando-o com as mãos, possam os homens acreditar estar diante de um espécime raro da raça humana, alguém de talento desmedido que consegue falar com Deus. Isso creio, para os homens de visão, ficou e morreu com o passado.

  A alma é santa e casta justamente por ser a alma, mas o santo não se tornou santo somente por abjurar ao mundo para depois vir servi-lo com adoração. Aquela crença já passou, quer tivessem acontecido milagres verdadeiros através de homens de grande estatura espiritual, quer fossem eles lendários. O que hoje sinto é que o vendo, amigo Sorman, estou diante do homem do futuro, quem por sua inteligência tornou-se sensível à sua elevada alma e não o oposto, e isso vem reforçar a meus olhos que a inteligência iluminada é totalmente abrangente, quer racional ou sensorial, não se prendendo somente a alguns atributos expoentes da cultura humana. Essa incondicionada inteligência é prática e transparente quando, através da própria alma, revela possíveis atributos acima da concepção vulgar. Todavia, para nela poder realizar-se plenamente, em sua perfeição e legitimidade, é necessário sacrificar a personalidade. Isso não é novidade, os religiosos também assim tentaram e a julgar pelos milhares de devotos que por todo o mundo inicialmente se lançaram nessa empresa, cheios de esperança e fé, poucos, senão raros, puderam em todo o passado usufruir dessa superior condição. Eis, aqui, senão o engano, o sentido de contramão. Não é se negando ao mundo que a personalidade se sacrificará para a alma, mas sim se doando a ele que seu sacrifício será válido. Pois é forçoso sofrer para melhor aprender, tanto quanto sejamos conscientes desse irrefutável processo. É aprendendo que o homem se transformará num religioso (por favor, desejo destacar a exata noção do termo “religião” como “religar”.), mas não é se tornando religioso que impreterivelmente aprenderá.

  Contudo, não posso ainda percorrer os idênticos e magníficos passos corajosamente percorridos por você por que sou refém de mim mesmo. Meditei das palavras da velha mulher naquele nosso primeiro encontro no restaurante. Tremi ao lançar-me no universo de minha própria imaginação; acovardei-me mediante a possibilidade de sofrer uma punição caso tergiversasse do alerta do maior a querer guiar o menor. Passei noites mal dormidas, outras em claro. Ponderei sobre a minha incapacidade de suportar novos sofrimentos, talvez pungentes como esses atualmente suportados. Meditei também de suas palavras e pensamentos, caro amigo, e finalmente concluí. Concluí que realmente não estou pronto nem preparado para seguir essa viagem sob um determinismo imposto, ou solicitado por um maior, supostamente a alma.

  Trago em mim profundas e vivas cicatrizes de minhas frustradas realizações e desejo de felicidade humana. Não aprendi o suficiente do mundo para dizer-me saciado de suas tentaculares ilusões. E esse pensamento vem somente trazer-me inquietações, fazendo desdobrarem-se ante minhas reflexões mil outras conjeturas. A memória aviva-se e relembro de muitos princípios apregoados pelos mestres orientais, principalmente de uma velha afirmação budista dizendo mais ou menos assim: o desejo renasce sempre no ser não perfeitamente remido, por isso é necessário matar o desejo na raiz.

  Houve um tempo, pouco além de nossa adolescência – você certamente relembrará, até evocará dele as imagens – quando recentemente nos conhecíamos, que eu ainda procurava no espírito as respostas de que necessitava. Porém não as encontrando – talvez não as tivesse mesmo buscado com suficiente vontade e determinação – permaneci à margem. Ou talvez, permita-me julgá-lo pelo que depreendia de suas palavras, eu não fosse suficientemente infeliz ou inadaptado ao mundo quanto era você. Provavelmente tivesse eu insistido e encontrado o mesmo caminho encontrado por você, ainda assim diante dele permanecesse vacilante pela dúvida ou relutante pelo medo; pois não conseguiria de qualquer maneira desapegar-me de meu desejo de vida emocional. A morte que transmuta e regenera, trazendo outra vida, causava-me uma espécie de aversão, apesar de eu proclamar o contrário. Como e por que morrer se é assim que eu sei viver e amar a vida? Perguntava-me. Ao mesmo tempo o admirava por sua decisão, embora temesse profundamente por sua sorte. Várias vezes você me falou sobre a loucura e a morte. Isso não me era completamente estranho; sempre li compêndios, ouvi palestras de orientadores, mas você era um exemplo vivo e latente diante de meus olhos, alguém realmente inadaptado ao qual somente restaria um caminho, o seu caminho, quer fosse vencedor ou vencido. E venceu, até agora tem sido sempre um vencedor; a morte e as agonias de seus estertores, julgo, jamais o desanimaram nem o acovardaram. É preciso morrer cada dia um pouco, dizia-nos São Francisco de Assis, mas nem todos têm a capacidade disso realizar e ainda doar-se à crucificação, o Gólgota de todos os loucos de Deus!

  Cabe-me ainda outra autoanálise. Parece-me a mim desejar ser um menino mimado que, sabendo de seu mundo íntimo, ainda assim reluta decididamente em aceitá-lo, teimando em ser conduzido. Um menino que não deseja perder a condição da ingenuidade, apesar de não ser mais ingênuo, mas também não desejar ser adulto.

  Surpreende-me a ousadia de a tudo isso relatar-lhe. Escrevo-lhe por que não conseguiria de todas as formas dizer-lhe pessoalmente; minha voz embargaria, e não teria a necessária coragem para enfrentá-lo, olhando-o nos olhos. Isso pode mostrar-se com um subterfúgio; sempre que estive diante de você pude constatar-lhe a vocação de compreender com profundidade os problemas da alma; você atuou durante todo este tempo como meu mestre! A energia dimanada de seu íntimo não foi uma exceção à minha pessoa – no fundo desejaria que fosse – ela é sempre a mesma, magnânima para a vida, para todos, disto jamais duvidei. Acredito que, principalmente por isso, pude retirar do fundo de meu ser meus próprios pensamentos, pois mesmo à distância sinto-me, como agora, atingido por sua aura amiga. E ela abriga-me, compreende-me, e me fortalece!

  Poderá negar tal fato, Sorman, não pelo real não visto, não obstante perfeitamente plausível, porém por sua humildade verdadeira inclinada a admitir sempre que um maior e significativo valor habita outra pessoa. E nesse caso, alenta-me o possível fato de não ser tão timorato quanto imagino porquanto resolvi tomar fundamental decisão em minha vida, contrariando, talvez, o alerta superior. Ou teria sua alma clareado minha decisão, segundo o que o maior, ainda assim, estaria me guiando para aquilo que ademais necessito aprender do mundo, para mais tarde conseguir palmilhar o  caminho  da síntese, como você agora o palmilha? Não sei realmente como se esboça o meu futuro, ou se há em mim um determinismo tão rígido e oculto, unicamente desvendável no tempo, e nisso deva acreditar.

  Estou de partida. Viajo para a América do Norte onde permanecerei definitivamente. Desejaria vê-lo uma vez mais e abraçá-lo fortemente, porém temo nesse momento que esse último encontro muito me abalaria. No futuro desejaria que nos víssemos novamente. De qualquer maneira informarei meu endereço tão logo fixe residência no país. Perdoe-me uma vez mais por essa outra manifestação egocêntrica de minha personalidade algo conturbada.

  Nada mais posso desejar-lhe senão que todas as glórias e conquistas sejam derramadas sobre sua cabeça, pois certamente você saberá compreender melhor do que ninguém a relatividade ou profundidade destas coisas.

                                                       Adeus eterno amigo,

                                                                  Javan. “

  Terminada a leitura, Sorman largou a carta sobre a mesa, soltando-se de encontro à poltrona. As palavras e ideias de Javan não lhe provocavam qualquer reação. A poltrona, ao dobrar-se suavemente para trás, afastou-o da mesa, advindo-lhe a sensação de que a carta estaria fisicamente tão afastada de suas mãos quanto mentalmente estaria ele, Sorman, das convicções do seu autor.

  Rápido e fugidio tremor permeou-lhe o íntimo, mas nada tão ponderável a ponto de provocar qualquer tipo de tensão emocional, por menor que fosse. E nem daria tempo porque aquilo partiu tão depressa quanto chegou, deixando unicamente um fino rastro, configurado no pensamento de que teria falhado na tentativa de ajuda ao amigo. Mas a este pensamento negativo, ele contrapôs de si mesmo com as seguintes palavras, como a desejar confortar-se:
  - Seus tormentos e dilemas, a partir de agora, estarão bem mais próximos de uma solução.

                                                                        o     o     o

  Durante sessenta e sete dias a nuvem escura e energia primária provocaram abalos no mundo, levando os elementos da natureza às raias do inimaginável. Mas a vida continuava; a atmosfera ao redor do globo voltara à normalidade: todas as ameaças de irremediáveis catástrofes tinham desaparecido. Não havia mais sintomas fisiográficos de possíveis hecatombes por decorrência de abalos sísmicos ou explosões vulcânicas. Da mesma forma, tinham se acalmado as mentes terrificadas pelo medo de um fim do mundo ter chegado. Todavia, a alma planetária ficara ferida. E os ferimentos abertos demonstravam que um grande perigo ainda rondava o mundo se os acordos internacionais de paz fossem violados.
                                                                 
  Os países afetados pelas borrascas buscavam reconstruir o que lhes fora parcial ou totalmente destruído. A mútua ajuda dos povos mostrava-se em primeiro plano, naquilo em que cada um podia dispor como recursos em favor do outro. No entanto, alguns países fragilizados pelas ocorrências vinham sendo alvos de observações externas de outra ordem. Etnias semelhantes, portadoras em suas almas do ódio guardado por ultrajes do passado, viam nesses desastres a oportunidade de tirar a desforra e aniquilar com seus antigos inimigos. Por estranha coincidência, esses povos arrogados ao ódio, fortemente militarizados, pouco ou nada tinham sofrido com os acontecimentos assoladores de quase todo o planeta. Assim, desde logo iniciaram mobilizações, visando realizar exercícios de guerra e treinar consistentes táticas de abordagem ou invasão. Seus líderes passaram a estimular no povo um fanatizado patriotismo e absurdo orgulho racial, relembrando-lhes seguidamente de antigas e humilhantes infâmias já suportadas.

  Dois países lideravam estes pensamentos de desforra e guerra, já despertando simpatias de outros povos e possíveis promessas de apoio militar. Os povos registram em suas memórias raciais muitos engajamentos de lutas com vitórias ou derrotas, vexames, ódio e desprezo pelos inimigos, mas se apoiam mutuamente quando lhes interessam.
 
  O fato gerou reação mundial. Todos os organismos internacionais operantes pela paz começaram a procurar os caminhos da não agressão, trazendo a atenção dos líderes para o indesejável rompimento dos acordos. Aliados a esse desejo dos pacifistas – mas nem tanto – os países considerados de primeira linha e potências planetárias, sob tantas alegações, trataram também de armar-se e discutir sobre as consequências da guerra e seus impactos sobre a economia mundial. Com o passar dos dias, essa grande ameaça veio trazer à atmosfera invisível da Terra, outra nuvem escura a pairar sobre todos.
       
  - As trevas trabalham sistematicamente para isso acontecer, dizia o Superior Mestre Terra sem disfarçar o sotaque espanhol, a Grande Face Negra fortaleceu suas alianças nos submundos da Terra.                
  - Eles de fato estão mais fortes, isso os leva a imaginarem-se livres para realizar os seus planos de destruição da maneira como desejarem. A Grande Face Negra veio também com o escopo de proporcionar às inteligências cósmicas do mal, condições mais favoráveis de se lançar no éter terrestre, e, assim, poder melhor se infiltrar no pensamento humano. E acho mesmo que foi bem sucedida – aduziu Sorman, logo prosseguindo – e se esta luta nos trás desgaste, é para eles sem tréguas, pois não está sendo-lhes tão fácil como pensavam inicialmente.
                             
  O Irmão Supremo sorriu mediante as últimas e ardentes palavras do Ministro Extraordinário. Sorman pareceu-lhe nesse momento entusiasta adolescente. Mas sob certo ângulo ele tinha razão. As lutas desses três últimos meses seriam, de certa forma, proporcionalmente tão angustiantes quanto foram os embates dos quatro dias em que haviam se posicionado diretamente contra as incursões da energia primária e nuvem escura. Nesse momento, milhares de criaturas horrendas, seres subumanos e almas atribuladas pelo pensamento em trevas, pululavam nos submundos invisíveis, estimulando torpeza nas mentes dos homens. Essa tenebrosa prática gerava nos países de todos os continentes clima de violência e agressões, a par de ainda subsistir tensões e desespero pelas recentes perdas. Tudo isso minava-lhes constantemente suas energias, produzindo-se  permanente e pesada atmosfera por todo o globo.

  A ação calculada dos mentores das trevas – principalmente de seus mestres cósmicos fora do planeta Terra – era de estimular insistentemente a simples tática de acercamento aos líderes de todas as categorias de classe, sugerindo-lhes o inconformismo. Com isso, propiciavam-se a implantação do vírus do anarquismo. Essa tática vinha ser complementada pela propaganda pessoal e ideológica de alguns líderes, a maioria anacrônica, de puro oportunismo ou de contextura megalômana, que eles procuravam a todo instante espalhar pelos ambientes onde se infiltravam. Invariável e consecutivamente, se manifestavam pela derrubada dos regimes governamentais em vigência, e mudanças de suas políticas internas e externas. Embora eles mesmos estivessem fartamente comprometidos com inescrupulosos interesses em vários segmentos da economia, indústria ou comércio, apoiavam-se, esses impiedosos adversários dos governos, na atual exploração política da fome e da miséria, no enriquecimento infinito de poderosos homens de empresas monopolistas, cujos negócios eram respaldados por leis privilegiadas e injustas – elaboradas para seus favorecimentos – e na corrupção desmedida e comprovada de pessoas de todas as classes. Melhor para eles se essas aberrações demonstrassem alarmantes índices de crescimento.

  Além disso, instalava-se uma sucessão de acontecimentos perniciosos à sociedade em todo o planeta – insuflada pelas falanges negras – fazendo campear cada vez mais os assaltos, roubos, crimes de morte, tráfico de entorpecentes, prostituição, perseguições, racismo e tantos outros atos a promover a dissolução dos costumes e direitos. O controle psicológico dos elementos germinais da complexa rede mente-emoções, mantido sob vigilância consciente do ego, vinha assim sofrer processo de detonação pelas inteligências operosas ao mal – invisíveis ou personificadas – afetando seguida e negativamente as reações condicionadas ou inconscientes das massas.

  Essa geração mundial de conturbadas e envolventes sugestões, pelas sucessivas pressões da energia negativa sobre a psique coletiva, justamente reforçava os parasitários interesses das trevas em exercer domínio da vontade humana a fim de materializar os seus ideais, com objetivos cada vez mais hediondos.

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  O grupo completava-se neste momento com a chegada de Michel ao Salão de Conferências. Em verdade, ele aqui estivera desde o alvorecer, pois sua residência era justamente a casa no plano superior do terreno. Michel com Verônica haviam como sempre providenciado todo o material necessário à reunião, realizado a limpeza, verificado as instalações elétricas e dos equipamentos eletrônicos, bem como tinham tomado todas as demais e atinentes providências. Os treze membros da hierarquia estavam, portanto, reunidos e o Supremo a todos se dirigiu:
  - Irmãos, organizemo-nos para adentrar o Templo do Sol Nascente.

  Os rituais no Templo do Sol Nascente invariavelmente incorporavam energias para serem trabalhadas em eletivas situações. Havia quatro datas no ano em que estes rituais eram ordinariamente realizados. Poderia acontecer mais de uma convocação urgente no ano, porém a média mais frequente era de dois rituais extras, perfazendo assim seis rituais anuais. O Supremo convocara extraordinariamente o corpo hierárquico para o ritual em virtude dos últimos acontecimentos. Tanto neste ritual extraordinário como nos agendados segundo o calendário, todos os membros hierárquicos precisariam estar presentes sem qualquer exceção. Unicamente por motivos imperiosos, impossíveis de serem contornados naquelas datas, se admitiria a ausência de qualquer um deles. Os resultados dos rituais no Templo do Sol Nascente produziam rápidas implicações na vida da célula, daí a exigir a presença de todos os Mestres Terra e Ministros, até com sacrifícios físicos. Aos dois Ministros assessores, o motivo de suas presenças e responsabilidade prendia-se mais à concepção cabalística numeral das Ordens Superiores, que necessitavam ancoragem às forças análogas inferiores, do que propriamente a uma atuação posterior deles, direta e autônoma, aos assuntos e problemas concernentes à vida da célula. Há pássaros que mergulham vertiginosamente enquanto outros, inversamente, se lançam para cima. Mas há os que planam e somente fazem isto, e justamente por isto, são também úteis às suas espécies.

  Após o ritual, eles voltaram ao Salão de Conferências. Fantástica energia ainda os tomava. Verônica somente aqui participava da reunião secretariando aos hierárquicos. Nesse momento, tinha um gravador em punho e registrava os assuntos para depois firmá-los no computador, sob o formato de atas. Bruno retomou a palavra:
  - Irmãos, a energia hoje a nós concedida pelo Pai, virá suplementar-se às forças já constituídas para que melhor atuemos contra os ferozes inimigos da luz. Não lutamos por lutar, nem nos lançamos sobre eles por prazer. Mas é vital para a dignidade do homem e objetivos da própria civilização, que continuemos a combater. A energia aqui recebida precisará ser repassada em quantidades e proporções específicas aos nossos subordinados. Esta novíssima presença em nossas mentes e corpos virá restaurar-nos dos dispêndios acontecidos nas pugnas em que nos envolvemos, bem como aos nossos exércitos. É algo fantástico do Pai Solar, proporcionando-nos novas condições. A energia é pura inteligência direcionada para a matéria. É, sobretudo, uma grande glória alcançada por nossa célula.

  A utilização dessa nova energia começou a produzir rápidos resultados. Os Mestres Terra ficavam próximos de seus principais ordenanças nos locais onde as lutas aconteciam, ou, nos setores em que as forças contrárias se infiltravam. No primeiro caso, os Mestres Terra endereçavam a energia diretamente aos seus generais com a determinação de que essa fosse retransmitida a todos os escalões. Bastava um toque com os dedos indicador e médio unidos sobre a testa do receptor e na altura de seu plexo solar, para ele sentir imediato torvelinho. Suas forças mentais e astrais, então, aumentavam sobremaneira, multiplicando-lhe o número de movimentos e rápidos reflexos, tornando-o extraordinariamente ativo e consciente. Como resultado, uma percepção mais aguda vinha estimulá-lo; inúmeras vezes antecipava-se aos movimentos dos inimigos, por mais velozes que fossem.

  A nova energia compartilhada pelos homens da FIA, era recebida momentos antes dos combates ou mesmo já na decorrência deles. Tudo dependeria das circunstâncias e decisão do Mestre Terra. Esse, por sinal, ao passá-la aos seus imediatos, não mais deveria se expor. Normalmente, ficava à parte, afastado da arena das lutas em concentração, embora pelas cercanias. Cercava-se de soldados que o escudavam. Essa era uma providência determinada por Bruno, talvez desnecessária, mas indicada por cautela, porquanto em torno do Mestre Terra, tão logo ele invocasse a poderosa energia e a transmitisse, vinha cercá-lo um anel magnético branco.
  - Vá lá que eles percebam nossos homens incorporados da nova energia e busquem o motivo disto, encontrando o Mestre Terra desguarnecido de proteção. Não sabemos que artifícios poderão utilizar para distraí-lo, fazendo decair a sua concentração. Não esqueçam de que eles são extremamente hábeis e já nos mostraram do que são capazes. As palavras de Bruno soaram como uma sentença.

  A concentração do Mestre Terra era de fundamental importância ao que pretendiam, pois a nova energia somente permaneceria fluindo enquanto ele a mantivesse ativada. Terminada a concentração, a corrente por ele estabelecida se quebraria e os homens se haveriam com suas próprias reservas de forças, embora bastante implementadas.

  Noutras operações, o processo de transmissão da nova energia não se prendia tão somente às batalhas campais ou aos enfrentamentos acontecidos em quaisquer ambientes. Poderia ser utilizada, por exemplo, nos encontros ou reuniões em que emanassem médias ou grandes decisões de autoridades legalmente constituídas, que viessem afetar diretamente a vida dos povos. Os Mestres Terra, e seus principais comandados, percorriam esses ambientes, procurando antes cercar as autoridades com suas naturais energias. Entretanto, mediante propositais e dirigidas ações das trevas, quer por ondas mentais, por presenças obsessoras ou mesmo devido a algum participante das reuniões já estar dominado pela energia negativa, os irmãos da FIA tomariam então novas posições. Nesses casos, o Mestre Terra transmitiria a nova energia a sua equipe – homens e mulheres – mantendo-se à parte no trabalho de sustentação. Os irmãos, a partir daí, atuariam diretamente sobre os participantes, usando especialmente a nova energia em proporções administradas.

  Cada situação requeria uma especial forma de ação. Algumas vezes, eles simplesmente isolavam o veículo da força negativa, não lhe permitindo contagiar os outros. Noutras, construíam uma redoma com a nova energia, ou mesmo atuavam sobre cada um individualmente, reforçando os seus campos áuricos a fim de que permanecessem incólumes às correntes, sugestões ou formas pensamentos arremetidas pelos malignos. Porém, se as forças negativas revoltadas com a intervenção dos trabalhadores da FIA se insurgissem contra eles, outra batalha poderia ter início e lutariam corpo a corpo.

  Mesmo nas ruas, praças públicas, ou diversos outros logradouros, onde grupos ou multidões se concentrassem, e os trabalhadores da FIA verificassem haver uma ameaça pela presença dos trevosos, ou nuvens negras se aproximassem sobre as pessoas, o alerta era dado, logo surgindo um Mestre Terra ou Mestre Menor, incorporado da nova energia a fim de que se posicionassem contra aquela investida.

  Em linha com esse fato, e como as lutas se sucedessem de muitas maneiras e crescesse o número dos confrontos, o Irmão Supremo decidiu enviar novas instruções por seus Ministros Assessores no sentido de que os Mestres Terra delegassem especialmente poderes aos Mestres Menores ou ordenanças. Com essas providências, ele estabelecia a estratégia segundo a qual os Mestres Terra não precisariam mais sair para pessoalmente transmitir a nova energia. Sendo muitos os confrontos, não poderiam de todas as maneiras atendê-los simultaneamente, permanecendo assim abrigados em seus núcleos e concentrados. Da mesma forma, em emergências, os Mestres Menores ou ordenanças, que respectivamente tivessem recebido a energia, segundo a nova orientação, permaneceriam afastados dos locais dos embates, porém atentos ao trabalho de sustentação mental da corrente, enquanto seus homens eram comandados em campo de batalha por um líder adrede escolhido

  A tal ponto as lutas se sucederam que todos os departamentos e setores da hierarquia viram-se, em pouco tempo, envoltos por esta suplementar energia. Algumas células, antes tendo feito parte da aliança mundial contra a Grande Face Negra, foram contatadas pelo Irmão Supremo para saber se desejavam participar das lutas, incorporadas da nova energia, segundo as estratégias elaboradas. Duas células somente aceitaram a ideia, as demais não acreditaram na nova energia e na eficiência de sua situação, preferindo assim os seus próprios métodos.
  
  Sorman, nesse tempo, resolveu atuar ao lado de Michel, misturando-se com seus homens, saindo a combater em todos os setores onde fosse necessário. Verônica recebia constantemente a energia por Michel e agia principalmente em ambientes fechados. O Superior Mestre Terra foi inicialmente para os Andes onde organizou os irmãos para atuarem segundo a recente estratégia do Supremo; depois viajou para o Oriente Médio a fim de se entrevistar com Magashi. Em seguida, foi para a Ásia onde a irmandade possuía poucos núcleos; mas assim mesmo buscou expandir a nova energia de que era portador.

  Mais difícil era a posição do Irmão Supremo. Sendo ele o grande pilar da hierarquia, teria de permanecer em constante concentração e meditação para suster a nova energia provinda do Pai. Apesar dos corpos mentais e astrais dos Mestres Terra em todo o mundo, estarem permanentemente incorporados da nova energia, eles precisariam de suplementação aos gastos. Em termos e dimensão da célula, esse trabalho era grandioso e imprescindível para o sucesso da empresa em que se envolviam, e poucos eram os momentos de descanso do Supremo, ocasiões em que estabelecia artifícios a fim de que os fluxos da nova energia não sofressem interrupções. Representava algo diferente em relação aos ciclos e subciclos. Aqui, nesse momento, não havia a necessidade de modificar fluxos “in natura”, passando-os ao Superior Mestre Terra. Neste caso, a nova energia já descia praticamente pronta; a tarefa do Supremo, no entanto, era domá-la, sustê-la em padrões vibratórios compatíveis à ação a desenvolver, e após enviá-la aos Mestres Terra. Isso o deixava em permanente e incrível tensão. Difícil explicar a forma como seu mecanismo cerebral tratava dos ajustes vibratórios e como ele percebia os momentos solicitados para os envios na quantidade e qualidade requeridos.

  A par de suas lutas, chegavam-lhes constantes notícias de que os Mestres Maiores, mercê de seus grandes recursos e avançada tecnologia, realizavam o aprisionamento de falanges negras, levando-as em naves para lugares secretos e seguros no astral, de onde não poderiam fugir nem ser libertadas. De pouco em pouco resultados favoráveis à Terra começaram a aparecer. O fato levava os núcleos da Loja Negra a realizar constantes reuniões e rituais escabrosos na tentativa de recuperar energias e forças perdidas. Houve apelos e invocações à Grande Face Negra para que, de alguma forma, ela interviesse nas lutas. A Grande Face Negra enviou-lhes, então, fortes emanações de energia, sugestões de como extrair e obter novas forças na Terra, além de ter destacado um grande representante de sua hierarquia cósmica para vir aqui chefiá-los.

  As energias e sugestões chegaram-lhes com certa facilidade pelo éter e luz astral, todavia seu representante não conseguiu aportar no planeta. Houve intensa luta na atmosfera terrestre com a participação direta dos Mestres Maiores, sendo o representante da Grande Face Negra arrojado para longe, desistindo de tentar outra vez.

  Seguidamente, hordas de seres subumanos eram derrotadas pelos defensores da Terra, aprisionadas em campos de isolamento e detidos por anéis de força magnética que os impediam de sair. Grande número de repelentes elementais propositadamente criados com forma humana, em rituais sangrentos de magia negra, fortalecidos pelas emanações que absorviam pelo mundo – principalmente de situações provocadas em que o plasma sanguíneo e o terror estivessem presentes – eram da mesma forma dominados e levados a lugares especiais, próprios, onde os trabalhadores afeitos ao conhecimento prático da magia os destruíam. Os combates pendiam ao equilíbrio, porém a energia cósmica negativa continuava seguidamente a fluir e atuar pelo lado negro da natureza. Seu direcionado fluxo sempre encontrava os pontos de atração das lojas malignas onde mestres e discípulos da via da mão esquerda realizavam rituais. Daí, com o auxílio de grandes formas elementais, que sabiam muito bem manipular, fortaleciam asseclas e dirigiam a energia ao mundo, às mentes voltadas ao mal.

  O momento do planeta era sem dúvida atípico. Quando normalmente os contrários se digladiavam, os motivos eram quase sempre os mesmos, ou seja, pelas intenções das forças negativas de escamotear as bases da inteligência iluminada. Se possível, jogariam por terra os nobres princípios esposados pela alma e infiltrariam sua incompreensível sanha, a fim de que a degradação substituísse a razão pela loucura. E quando coordenavam ataques para essas finalidades, tornava-se imprescindível os defensores da luz tomar das armas e sair a lutar. A filosofia de consagrar-se ao consistente bem, não tolhia a célula em acusar a ação do mal, prestando-lhe assim a devida atenção. Agir de maneira contrária seria afrouxar a vigilância ao próprio bem. Portanto, era um dever o permanente alerta.

  As recentes manobras das trevas os tinham levado a enormes tensões e lutas intestinas, mas, no plano externo da vida humana, o barril não explodira ainda, muito embora o palito estivesse aceso junto ao rastilho da pólvora. Não havia mesmo a menor esperança de que essas oposições estivessem próximas de acabar no atual estágio evolutivo das raças, pois as trevas continuariam a habitar a matéria enquanto o homem se sentisse atraído pela massa do barro do qual era feito. A vida continuava.

  Sorman voltara a empreender os melhores esforços no sentido de recuperar o tempo perdido nos negócios da empresa. Por sinal, a empresa houvera feito desdobramentos, criando duas subsidiarias com capital próprio a fim de gerir os diversos assuntos e atender com maior eficiência tanto ao mercado nacional quanto ao internacional. A guinada administrativa aliviava a empresa mater e seus departamentos de uma carga excessiva de responsabilidade, determinando o fim de algumas incômodas limitações. A recente ampliação envolveria uma metodologia administrativa – mais específica e direcionada – trazendo novos implementos tecnológicos e vigorosos lançamentos de marketing, que se esperava, fossem fruto de hábeis estratégias. A idéia veio a ser formulada tão logo a vida planetária se livrara das tempestades provocadas pela energia primária e nuvem escura. Entretanto, somente agora, quatro meses depois, o fato se materializava.

  Em virtude dos acontecimentos mundiais e de certas medidas defensivas tomadas pelos países afetados pela ameaça de guerra e terrorismo internacional, alguns compromissos de entrega não tinham sido honrados. Com os seguidos colapsos no fornecimento da energia elétrica, houve muitos dias de total abandono das tarefas diárias com drástica redução nos horários dos turnos de trabalho. Tudo era realizado precariamente. Os geradores das empresas eram acionados para a produção mais imediata, preferencialmente para clientes domésticos de endereços mais próximos. Seria temerário embarcar lotes de mercadorias para destinatários longínquos, pela possibilidade de não chegarem. Muito menos foram feitas entregas ao exterior naquele período de sessenta e sete dias, pelos fatos já conhecidos, nem a produção conseguiria aprontá-las pelos consequentes problemas. Além de tudo, para a maioria dos contratos de frete, já majorados, as companhias seguradoras vinham cobrando altíssimos e estarrecedores valores nas apólices, ou simplesmente recusavam-se a dar cobertura. Todos esses envolvimentos e muitos outros decorrentes de tantas causas principais inviabilizaram as entregas, produzindo interrupções na produção e provocando a estagnação do fluxograma dos departamentos.

  Em compensação, sobrara mais tempo para que Sorman e Anita tivessem encontros, aliado ao fato de que poucas reuniões da FIA eram marcadas no plano terra. A maioria das decisões coordenava-se na Grande Casa dos Estúdios e Câmaras da Hierarquia, no plano interno e superior. Com isso, pôde Sorman conduzir Anita à casa de Bruno.

  Anita levou um susto ao ver aquele homem negro, alto e forte, muito conservado apesar de seus cinquenta e tantos anos. Era a mesma pessoa que lhe aparecera em sonho, antes dos violentos acontecimentos se precipitarem na atmosfera do planeta. Ele sorriu-lhe mostrando os alvíssimos dentes e como a perceber o porquê de sua reação, tomou-lhe a mão beijando-a, ato raro em se tratando do Irmão Supremo.
  - Como vai, Iana? – perguntou-lhe olhando-a nos verdes olhos. Anita sentiu-se rodopiar. Iana! Iana! Aquele nome repetiu-se em eco; ela viu-se transportada a um passado longínquo, à entrada de majestoso templo, cujo corredor principal detinha às margens altíssimas e grossas colunas. No outro extremo desse corredor, sete degraus se dispunham ante um patamar circular. A negra parede de fundo era antecedida por gigantesca estátua de um deus da natureza, a julgar pelas representações que o cercavam. Enorme pira prateada, emergindo do solo, ardia no centro do círculo, rodeada por sacerdotes simplesmente vestidos e sacerdotisas envoltas por coloridos véus e guirlandas de flores nas cabeças. Adiante de todos, ladeado por dois outros sacerdotes, estava esse homem com uma longa veste negra, mostrando no peito uma serpente naja dourada, ligeiramente sinuosa, que subia desde abaixo da cintura, até acima do coração. Iana caminhou solitariamente sob a vocalização de um tipo de mantra emitido pelos sacerdotes, ao som de instrumentos metálicos e chocalhos. Enquanto Iana caminhava, Anita via as imagens irem se enfraquecendo até desaparecerem completamente.
  - Fui Iana, disse um tanto hesitante, você...
  - Seu iniciador - completou Bruno. Silêncio. Após segundos ele reiniciou – foi-lhe necessária esta vidência da Atlântida a fim de que a alma terrena novamente começasse a despertar para a realidade espiritual. Outras mais ainda virão desde que retorne à irmandade. Ela olhou para Sorman que nada disse.
  - Pode explicar-me a respeito da existência da irmandade, suas exigências e objetivos?
  - Sim, claro, em certa medida, por enquanto. Mas entremos! – convidou-os, afastando-se da porta, permitindo-lhes adentrar.

  Lucéa veio conhecê-la, seguida de Lucen. Por instantes Sorman ficou embaraçado, mas Lucéa a beijou deixando-a a vontade:
  - Então você é a escolhida de Sorman. Por isto a escondeu por tanto tempo. Pudera, é tão bonita!
  - Obrigada, você também é. Sorman não exagerou ao descrevê-la. Lucéa olhou-o, endereçando-lhe o maravilhoso sorriso. Lucen fez coro com a irmã nos elogios, dizendo ao final:
  - Vou preparar um chá. E retirou-se em companhia de Lucéa. Após o chá Bruno convidou-a:
  - Gostaria que conhecesse um local e lá pudéssemos continuar nossa conversa.
  - Para mim está bem – aceitou Anita.

  Saíram. Chegando à casa de Manoel tomaram o jipe. Anita saboreou a pequena viagem, lembrando-se do sítio onde passava férias na infância. A Casa Rosa pareceu-lhe extremamente familiar.
  - O que existe detrás desta parede? – perguntou Anita olhando-a com extrema atenção, trazendo o indicador aos lábios como se pensasse.
  - Que lhe parece? – redarguiu Bruno, enquanto abria uma janela, devolvendo-lhe a inquirição. Anita fechou os olhos, concentrando-se por segundos.
  - Não sei, exatamente..., uma escada, talvez um corredor, qualquer coisa nesse sentido. – disse hesitante
  - E depois? – insistiu Bruno.
  - Uma porta! – respondeu com segurança.    
  - E após a porta?
  - Uma cortina de sombra!
  - Excelente vidência, irmã, mas finalmente obstada por nossas energias.
  - Desculpe, não pretendia...
       - Não se preocupe, foi ótimo. Venham! – convidou-os, logo adentrando pelo corredor, chegando à biblioteca. Anita olhava tudo com espanto, como se já ali tivesse estado. Tendo os três se instalado à longa mesa, Bruno explicou:
  - As exigências iniciais da irmandade em relação à mulher são diferentes. A mulher, até certo ponto, deixa fluir mais facilmente qualidades espirituais. Com o homem a situação se revela de outra maneira, mas, para ambos, sob o labor individual a que submetem suas personalidades no caminho esotérico, evidentemente há um determinado momento em que precisam unir suas forças. Os iniciados bem sabem da curva ascendente da espiral evolutiva onde em certo ponto há que existir a comunhão de corpos e almas a fim de que um casal se realize mais amplamente. Nada disto assemelha-se a uma união religiosa em matrimônio ou mesmo à vida natural a dois. A especial união a que me refiro, necessita possuir outros ingredientes, somente hoje experimentados por praticantes dos ensinamentos ocultos. Entretanto, antes de acontecer a união as experiências individuais tendem a enriquecer o ego. Neste particular, desejaria saber, agora, se você pretende realmente solicitar admissão à irmandade?
  - Penso nesta possibilidade, mas não tenho ainda suficientes informações para afirmar convictamente.
  - Claro, e voltamos ao mesmo impedimento de nossa conversa anterior – ele inspirou profundamente – desejo passar-lhe um livro que certamente virá trazer-lhe suficientes esclarecimentos. Antes de qualquer coisa, você precisará assinar um documento, se assim desejar, naturalmente.

  Bruno levantou-se em direção à dependência contígua, afastando as cortinas. Voltou pouco depois trazendo uma pasta de arquivo que abriu sobre o tampo vítreo da mesa. Retirando um documento, estendeu-o à moça que o leu rapidamente. O documento, na realidade, era um juramento sob o qual, no primeiro parágrafo, o abaixo assinado colocava-se ante a exigência de jamais revelar a alguém qualquer informação recebida de viva voz, visualmente ou em textos, durante seu período de pré-ingresso à irmandade. O segundo parágrafo exigia também seu compromisso de, mesmo não sendo aceito na irmandade, respeitar o silêncio. O terceiro e último parágrafo, vinha estabelecer ao candidato a total liberdade em abandonar o estágio e a irmandade a qualquer momento, se assim desejasse ou necessitasse, quer temporária ou definitivamente, mas atendo-se ao irrestrito compromisso de honrar o silêncio por toda a vida.

  Anita pediu a caneta a Sorman, assinando o documento. Bruno se levantou, alcançando um livro num dos escaninhos da estante, relativamente grosso, de encadernação azul marinho, estendendo-o à moça com elegante gesto.
  - Leve-o em caráter de exceção, sob minha total responsabilidade  -  disse após sentar-se  -  leia-o com a máxima atenção. Terá trinta dias para devolvê-lo.

  Anita leu avidamente o livro em quinze dias. A cada página seu interesse aumentava, vindo a saber da origem da Fraternidade Irmãos Atlantes e alguns de seus atuais propósitos – respondendo em parte ao que a si mesma arguira – bem como, de uma forma geral, do trabalho objetivo desenvolvido no mundo. Apêndices inseridos entre as narrativas, contavam momentos da história universal em que a participação da irmandade fora efetiva. Nesses fragmentos, inúmeras correções eram feitas e alguns fatos importantes realinhados em relação ao que a história oficial e acadêmica falsamente contava, restabeleciam as verdades.

  Concomitante ao livro, certos envolvimentos pessoais com ela acontecidos, vieram trazer-lhe elementos para profundas reflexões. Numa dessas ocasiões, ao dormir, sentiu-se transportada a um edifício grande, de arquitetura antiga, esplendidamente conservado, por cujo interior foi conduzida a uma espécie de anfiteatro moderno, onde ocorria uma reunião. Tratava-se da Grande Casa dos Estúdios e Câmaras da Hierarquia. Num lugar semicircular, muitas outras pessoas ocupavam poltronas nas arquibancadas, aguardando o início dos encontros. Viu então frequentadores de diferentes países e raças. Mas tão logo os diretores entraram, ocupando os seus lugares, todas as imagens repentinamente desapareceram.

  E quando desperta, no exercício da vida profissional, via-se, vez por outra, envolta por um campo de forças que lhe alterava o estado vibratório, deixando-a com a mente mais perceptiva. Ela comentou estas situações com Sorman, que nada pôde esclarecê-la.

  Anita decidiu-se: solicitaria admissão à irmandade. Sorman, ao ser comunicado, unicamente esboçou um sorriso, pois jamais duvidara de que ela tomaria esta decisão. De volta à casa de Bruno, recebeu todas as informações adicionais ao que pretendia; mais tarde foi-lhe apresentada uma irmã fraternal que por algum tempo viria ser sua mestra instrutora. Acertaram todos os detalhes relacionados a esses contatos. A mestra a instruiria e a treinaria pessoalmente, em aulas ministradas num pequeno apartamento pertencente a FIA, no centro da cidade.

  Meses se passaram. Os relatórios da mestra foram altamente recomendáveis; com isso Anita estaria definitivamente habilitada a ingressar na irmandade. Foi marcada uma data para a cerimonia de consagração; na mesma ocasião, três outros aspirantes estariam também passando a membros-neófitos, podendo a partir daí participar de reuniões e rituais na Casa Rosa.                                       

                                                                  CAPÍTULO XIX

                                                               NOVAS DECISÕES

  O desarme ao inimigo continuava. No entanto, as lutas tinham se tornado muito menos frequentes, não havendo mais aquela atenção e concentração como de início, quando da passagem pela Terra da Grande Face Negra. Muitas falanges malignas pegas de surpresa em ofensivas dos defensores da Terra foram dissolvidas. Devido a estratégia, a resistência deles diminuíra, parecendo às células empenhadas nos combates, que os inimigos teriam realizado um recuo intencional a fim de avaliar suas perdas. De todas as formas, pareceu-lhes também, a essa altura, que não teriam mesmo condições de produzir ataques maciços e simultâneos a diversos pontos do planeta como os até então realizados.

  Sorman e Anita resolveram casar-se. A notícia não veio causar significativa comoção à Olga porque Sorman já vinha trazendo Anita a casa. Assim preparou terreno e deu tempo para Olga aceitar a situação. Ela se lembrava perfeitamente da moça. No passado, julgara que Anita seria somente mais uma das namoradas do filho, mas a odiara profundamente quando ambos foram viver juntos por três longos anos naquele ashram. Esquecera-a com a volta de Sorman ao lar, posto que desde então ele não mais fizesse qualquer menção à moça. Com imenso sacrifício esforçou-se por tratá-la bem; o sacrifício prolongou-se em muitas ocasiões e visitas dela. Eduardo adorou a decisão de ambos. Sempre simpatizara com Anita; jamais lhe atribuindo, ao contrário de Olga, qualquer peso ou culpa na decisão de Sorman em trocar o lar pelo ashram.

  Pelo lado de Anita, houve pequeno rebuliço. Sua mãe, avessa à Sorman, de início posicionara-se contrária à reaproximação, chegando a ficar amuada por vários dias. Fazia pequenas birras para a filha e emudecia. Mais tarde, ao saber que tinham a intenção de casar-se, mudou o comportamento, voltando a agir com normalidade, até a cantar. Afinal, Sorman era rico; um casamento assim não se despreza por bobagens.

  O casamento em cartório teve poucas testemunhas. Essa simplicidade foi contrastada naquele mesmo dia pela grande festa em casa, organizada por Olga, com a presença de parentes e amigos. O casal foi morar num apartamento não longe dali; Olga chorou inconsolavelmente com a partida do filho.

  Outra solenidade viria acontecer na irmandade. O Supremo oficiou o casamento em ritual no templo da Casa Rosa, em presença de muitos membros irmãos. A comemoração veio após a cerimônia com tradicional almoço ao ar livre.

                                                                         o     o     o

  Conforme houvera prometido a Garcia, no estúdio do Supremo, Sorman tomou para si a tarefa de um estudo mais acurado acerca, principalmente, das etnias das Américas, em cujos ramos existissem egos pertencentes à célula da FIA. Mandou chamar Garcia, com a devida permissão do Superior, com ele se reunindo algumas vezes no Salão de Conferências, em companhia de Verônica e Michel. Garcia, além de parte interessada nesse estudo, seria valioso companheiro, pensou Sorman, pois detinha enorme experiência no trato com problemas étnicos dos milhares de irmãos a quem missionariamente se dedicava. O ramo racial que de certa forma era responsável, tinha em suas famílias o maior número de egos da irmandade, a par de viver em áreas muito amplas e diversificadas. Vários mapas e relatórios da história dos povos americanos foram estudados, objetivando um aprofundamento mais amplo do processo evolutivo dos egos nesses povos. Alguns livros rescritos por irmãos da fraternidade no atual ciclo planetário, retratando fatos antropológicos das diversas etnias ou comentários pessoais, foram encontrados por Verônica no acervo da irmandade, e pesquisados. Em certa ocasião, Sorman pediu permissão a Bruno para também pesquisar na biblioteca da Casa Rosa, trazendo de lá dois excelentes volumes, que os abriu sobre a mesa de mogno do Salão de Conferências, diante da pequena equipe. Do computador puderam também obter interessantes dados.

  Entretanto, na Grande Casa dos Estúdios e Câmaras da Hierarquia puderam ir mais longe. Reunidos ora no estúdio de Sorman, ou, principalmente, numa das câmaras especiais – uma das mais importantes e significativas da FIA – entraram propriamente na história dos milhares de egos da célula encarnados nas Américas. A manobra foi fundamental para montar um quadro abarcante, em seções e segmentos, em relação às etnias, que os conduziu a definições finais de seu momento evolutivo.

  Garcia jamais estivera em qualquer das câmaras. Foi necessário o Supremo autorizar sua participação, após mandar submetê-lo a um ritual de purificação com vapores aromáticos, tendo prescrito jejum de quarenta e oito horas e orientado que, por certo tempo, se ocupasse de um painel na visualização de ícones esotéricos em quarta dimensão, que predispunham a atrair determinadas e específicas energias mentais.

  Ele aceitou com entusiasmo a todas as disciplinas, bem como a ter de submeter-se, ao final deste intrincado trabalho, a uma seção de letargia com o Supremo. Durante a seção, as experiências vivenciadas por Garcia, seriam trazidas para uma das áreas de seu mental, permanecendo inativas, sem o risco de serem absorvidas pelo cérebro físico. Desse modo, estaria assegurado ao ego não entrar em conflito com aquilo que não saberia definir, por não dispor claramente daqueles elementos em seus mecanismos de raciocínio objetivo.

  Passado o período de preparação de Garcia, os quatro adentraram a Câmara Branca, denominada também de Berçário. Era imensa, não propriamente pela sala, de dimensões relativas e confortáveis, porém pelo anexo. A Câmara era de fato branca, possuindo paredes e teto acolchoados. A porta de entrada detinha um dispositivo eletrônico de segurança; uma caixa pequena, transparente, embutida sem qualquer ressalto, a qual seria preciso palmeá-la a fim de identificar-se e em seguida soletrar próximo a ela uma palavra em três sílabas. Então ela abriria. No interior da Câmara, existia outra porta com idêntico dispositivo. Qualquer dos dispositivos ao ser acionado enviaria sinais a uma central, instalada numa outra câmara devidamente equipada, que rapidamente os captaria, gravando instantaneamente as imagens de quem acionasse a porta. Caso acontecesse algum erro na emissão da senha à viva voz, aquele dispositivo emitiria um sinal de alerta, que era uma luz azul a piscar rápida e intermitentemente. Pessoas não classificadas com impressões de energia corpórea, não conseguiriam sequer provocar qualquer contato com o sistema; portanto, a porta permaneceria selada e a Câmara hermeticamente fechada.
      
  Entrando no Berçário, foram tomados de suave energia. Sorman encaminhou-se para a segunda porta, abrindo-a da mesma maneira que à primeira, convidando-os a adentrar. A intenção principal era mostrar a Garcia o que mais além existiria. Após a porta, vinha um curto corredor, terminando numa pequena divisão, como antessala. As paredes do corredor e divisão eram também brancas, mas comuns, sem acolchoamento. Na parede frontal ao corredor havia um vão em arco e, após, nova e pequeníssima divisão – minúsculo átrio – encerrando unicamente um patamar branco semelhante ao mármore, de onde partiam degraus de uma escada em descenso. Do patamar era somente possível ver alguns degraus e a parede, sob cujo corte a escada fora construída, entretanto, à medida que iam descendo, viam enorme caverna com luzes, onde dezenas de urnas transparentes se dispunham em duas carreiras iguais. Ao atingirem o solo, Garcia admirou-se quase extasiando. Cada urna continha uma réplica humana de um modelo racial, masculino ou feminino, de habitantes do planeta, de diversos troncos, raízes e ramos étnicos. Eram perfeitos, parecendo vivos, ou somente imóveis por algum transe hipnótico.
  - São modelos das diversas raças que povoaram e ainda povoam nossa Terra desde tempos imemoriais – explicou Sorman.
  - Todos? – inquiriu Garcia, visivelmente excitado.
  - Todos e suas importantes variações – reconfirmou Sorman.
  - Este é um contemporâneo primitivo da Austrália – apontou Garcia para a urna ocupante da primeira posição, falando em seu peculiar espanhol.
  - Nova Zelândia, é um maori! – corrigiu-o Verônica. Garcia olhou-a desconfiado; ela convidou-o a aproximar-se da urna. Passou então a mão sobre um pequeno retângulo desenhado sobre um canto desta, sem tocá-lo, cujas linhas douradas eram quase invisíveis, e várias luzes se acenderam dentro da urna, projetando-se sobre o modelo. As luzes deram-lhe uma coloração apropriada a um habitante da Terra, emanando de camadas do material transparente dentro da urna, cuja contextura não era vidro conforme parecera de início, mas de partes superpostas em estreitíssimos encaixes impossíveis serem distinguidos. As urnas eram arredondadas em cima, abrindo-se e alargando-se para baixo, terminando em base convexa hexagonal. As luzes se projetavam sobre o replicado sem fachos ou dispersões, dando-lhe exata coloração à pele, olhos, cabelos e unhas. Só faltava começar a falar e andar pensou Garcia.

  Verônica passou novamente a mão como antes sobre o quase invisível retângulo e uma voz vibrou suavemente, através de um pequeno e finíssimo instrumento, na forma de um arame dourado justaposto numa das arestas frontais da urna, começando a contar da genealogia da raça ali representada. O instrumento coloria-se de lilás e rosa à medida que as palavras eram reproduzidas. Vibrava em rápidas oscilações, parecendo medir o comprimento de onda de cada palavra.

  Ao término do histórico, Verônica repetiu os gestos anteriores, mas desta feita sobre um diminuto círculo azul na base da urna, acendendo-se uma luz alaranjada em projeção de faixa horizontal, em cujo interior passaram a percorrer palavras em tom esverdeado, reproduzindo a mesma genealogia contada há pouco pela voz.
  - Podemos ler este mesmo texto em diversos idiomas, bastando passar a mão mais vezes sobre este círculo – explicou a moça.
  - Fantástico! - admirou-se uma vez mais o visitante.

  Caminharam pelo corredor. Garcia desejou parar diversas vezes a fim de inteirar-se de outros históricos, mas Sorman não lhe consentiu, pois tinham muito ainda a fazer. A visita era rápida para Garcia, sendo unicamente para que conhecesse esse inimaginável acervo da FIA. Terminado aquele corredor, as carreiras de urnas continuaram noutro lado, em novo corredor perpendicular, depois noutro e noutros. As urnas possuíam diversos tamanhos, de acordo com as alturas dos modelos; ao chegarem aos setores das réplicas lemurianas e atlantes, se mostraram perto de quatro metros.

  De volta à sala da Câmara, os quatros se assentaram em confortáveis poltronas, excelentes para relaxar.
  - Irmãos, o trabalho mental a realizarmos agora, requer total concentração. Foi-nos permitido pelo Supremo, como sabem, fazermos abordagens às fichas cármicas de nossos irmãos encarnados nas etnias que estamos estudando. Tenho em meu poder as senhas que abrirão as portas permitindo-me acionar as fichas. Iniciemos as tarefas.

  Eles se concentraram. A energia ambiente tornou-se mais sutil, permeando-os. Paredes e teto ficaram transparentes. Uma luz branca produzia um efeito de translucidez e se sentiram numa nave. Sorman concentrou-se no teto, pronunciando mentalmente uma das senhas, sendo sugado para o interior do tubo, embora seu corpo permanecesse na sala da Câmara. Sua projeção atravessou o tubo, parando diante de uma cortina branca com frisos verticais, detendo no centro um terceiro símbolo da FIA, secretíssimo, jamais revelado fora da hierarquia dos treze.

  Ele se concentrou no símbolo, pronunciando mentalmente uma nova senha. A cortina e o símbolo abriram-se ao meio. Sorman deparou-se com um arquivo incrível, que já conhecia, mas que nunca acionara. Eram realmente fichas em compartimentos, agrupadas às centenas e aos milhares, flutuantes, brancas, reverberantes, contidas por símbolos em luz à superfície, cujas cores se espalhavam sobre os respectivos grupamentos, emprestando-lhes um pouco de suas tonalidades. Tudo era energia concentrada – as fichas e os símbolos – e Sorman aproximou-se de um daqueles grupamentos. Ante a proximidade, o símbolo de uma figura hexagonal irregular, com lados maiores longos e paralelos e tamanhos desiguais, fechou-se, condensando as fichas ainda mais, apertando-as. As cores do símbolo eram carmesim numa das pontas até o meio, e mistura de grená com amarelo, do meio para a outra ponta.

  Sorman então revelou a própria senha: seu número de iniciado e a nota sonora pessoal, e projetou a mente sobre o símbolo, que se abriu, soltando as fichas. Rapidamente as leu de uma só vez, atraindo as vibrações para a memória. Tendo terminado, lançou mentalmente os registros capturados para baixo, em direção da corrente estabelecida pelos irmãos, na sala da Câmara, e eles os absorveram também mentalmente.

  Em seguida, aproximou-se de outro grupamento de fichas, contido por um heptágono pontiagudo – a exemplo de uma estrela – de cores azul escuro sem brilho nas pontas dos raios, e de um vermelho alaranjado com algo de amarelo esmaecido, e tendo-o penetrado, absorveu seus registros da mesma maneira. A mesma ação ele realizou com outros dois grupamentos. Um deles era contido por um eneágono em segmentos desiguais verde musgo, com faixas estriadas irregulares, marrom e cinza na parte central; o outro era contido por um quadrado totalmente alaranjado. Nesta Super Câmara, outras repartições encerravam novos arquivos, cujas fichas, também contidas por símbolos poligonais, revelavam da mesma forma a vida cármica de egos da FIA noutras raças ou etnias, em todos os continentes.

   Havia, além de tudo –  somente agora ele pudera perceber, embora sem muita clareza – uma esfera bem ao alto dos compartimentos das fichas, parecendo pairar, como tudo ali, sem qualquer sustentação. Essa imagem introduzida em sua mente recuava seguidamente e desaparecia; era grande, a julgar pelo aparente volume, e desprendia energia em direção aos símbolos. Estaria além da Super Câmara, sob outro padrão vibratório, pois não tinha conteúdo dentro da Câmara. Possuía, na sua total contextura, centenas de pequenos hexágonos justapostos em colorações diversas por áreas específicas. Seriam muitas as tonalidades destacadas e Sorman deduziu que essa esfera mantinha ativas as várias figuras poligonais sobre os grupamentos de fichas. Essas, por correspondência de dupla ação e sentidos opostos, respondiam com informações. E nesse intercâmbio de energia magnética, os símbolos passavam a retratar os diversos padrões vibratórios dos grupamentos de egos, realizando sínteses por mutações de cores, sem o que se tornaria difícil tabulá-los para a leitura da esfera. A esfera, concluía, desempenhava o papel de um minúsculo planeta, catalogando diversos padrões vibratórios nas várias regiões de todos os continentes.

  Ao retornar em plena consciência à sala da Câmara, Sorman novamente ligou-se ao círculo, percebendo que haviam absorvido as informações por ele enviadas dos quatro grupamentos pesquisados. Terminado o trabalho, saíram do Berçário em direção da ala dos estúdios, através de um dos corredores. Ao passarem diante de outra câmara, algo despertou a curiosidade de Garcia, que parando perguntou:
  - Que existe aqui?
  - A Câmara Azul! – respondeu Michel.
  - O que ela guarda? Michel olhou para Sorman, que assentiu quase imperceptivelmente com a cabeça.
  - O replicário dos iniciados! – Garcia franziu a testa sem entender; Michel sorriu, logo explicando – a Super Câmara de onde Sorman retirou as informações que agora possuímos mentalmente, contém as fichas cármicas de todos os egos da FIA, encarnados pelo mundo. Os iniciados, porém, além das fichas, possuem cada um, uma réplica ou cópia fiel de seus corpos físicos, envoltos por uma aura de energia, configurando sua situação vibratória no momento.
  - Então, todos vocês têm aqui uma réplica? – voltou a perguntar Garcia, em total espanhol, com exagerada surpresa.
  - Nós e você também, amigo! – reafirmou Sorman. Garcia arregalou os olhos, engolindo em seco e nada mais desejou perguntar.
                                                                                                                                                 
  O material na Câmara Branca facilitara o trabalho da pequena equipe. Eles sabiam que tinham visitado o Berçário, pois atuavam agora, preponderantemente, com a intuição desperta. Refizeram alguns mapas, corrigiram posicionamentos e conceitos, estabeleceram novas comparações e realizaram projeções sobre um trabalho ideal a ser ainda começado.

  Este tipo de pesquisa, na Câmara Branca, não era usual. Nem mesmo Michel, o Terceiro Mestre Terra para a América do Sul, obtivera jamais autorização ou o convite do Supremo para a pesquisa “in loco” das fichas cármicas. Isso era por demais reservado; envolvia um teor de percepção e análise incomuns aos padrões mentais dos Mestres Terra. Até então unicamente o Supremo e o Superior tinham podido, em poucas ocasiões, realizar essa inserção mental sobre a aura dos arquivos, deles obtendo sínteses dos grupamentos. Em ocasiões, também, sempre em relação direta com as etnias de sua jurisdição, Michel participara na subalterna posição de coletar aquilo que os dois hierárquicos maiores tinham conseguido auscultar.

  Sorman temeu que seu pedido de investigação viesse trazer algum desconforto a Michel, talvez uma reação de indignação ou o sentimento de desprestígio diante da hierarquia a qual representava desde alguns anos, antes dele aqui aparecer. Surpreendia-se por ter ousado pensar na possibilidade de investigação, mais ainda, em poder realizá-la a contento. Relutou muito em ir conversar com Bruno e muito mais em submeter-se a uma avaliação que tal pedido exigiria, e que resultaria em deferimento ou não do Supremo. Correria o risco de ser julgado um arrogante ou pretensioso.

  Mas como ele – que certa vez a si mesmo julgara-se movido por instâncias – resolvesse finalmente externar a instância, foi procurar Michel. A seleção, proposital e inevitável, porquanto a intenção dependeria, talvez, total e completamente da reação do Terceiro Mestre Terra, não poderia ser outra em primeiro lugar. Bruno estivera excessivamente ocupado nas últimas semanas; depois viajara ao sul, lá permanecendo. Ele mesmo autorizara Sorman, a pedido do próprio Ministro Extraordinário, a realizar as pesquisas com Michel e Verônica no Salão de Conferências, bem como, por conta própria, o Supremo solicitara do Superior, mandar vir Garcia. Essa última providência coroava seu desejo de ter Garcia por perto e o Supremo, sem dúvida, lera-lhe o pensamento ao adiantar-se na solicitação.

  Michel teve reação entusiástica, não colocando o menor empecilho, ao contrário, vibrando positivamente com a possibilidade de vivenciar uma nova experiência na Câmara Branca com alguém como Sorman, que admirava. A espontânea adesão aliviou sobremaneira ao Ministro, e mais confiante foi conversar com Bruno no dia de sua partida.
  - Irmão Sorman, alegra-me profundamente a iniciativa. Não é necessário avaliá-lo, pois sua coragem é o retrato de uma serena autoconfiança, algo de difícil definição numa mente privilegiada. Sem dúvida uma intenção superior, segundo entendo, dirige-o a isto realizar. Autorizo-o, sim, sem o menor receio e quero de imediato instruí-lo em como realizar o trabalho, posto que comigo já estivesse na Super Câmara, em visita excepcional. Verônica, Michel e o próprio Garcia poderão participar como coletores. A propósito de Garcia, deixarei instruções em como se preparar para poder adentrar a Câmara, bem como usarei de todos os meus recursos, à distância, para realizar nele um trabalho inicial de letargia, tão logo a pesquisa da Super Câmara tenha terminado. Mais tarde, ao retornar, completarei este trabalho.

  Sorman não se lembrava, exatamente, dos detalhes de sua única visita ao Berçário, na Grande Casa, lugar das câmaras. Porém soubera ter gozado do privilégio de ser a terceira pessoa em toda a hierarquia a conhecer aqueles arquivos cármicos, muito embora somente os visse a certa distância. Bruno prosseguiu:
  - Dar-lhe-ei as chaves que acionarão em seu mental as senhas que precisará utilizar para entrar na Câmara Branca, Super Câmara e grupamentos de fichas. Somente lá as senhas virão à sua memória para depois, novamente, se apagarem. Feche os olhos e relaxe. Sorman assim fez e Bruno induziu-o a subir à Grande Casa dos Estúdios e Câmaras da Hierarquia, revelando-lhe as chaves ao que pretendia.

                                                                          o     o     o

- A que conclusão chegaram quanto a situação dos irmãos nas Américas? – perguntou Bruno em certo instante.

  A neblina descia rapidamente naquela manhã de domingo. O frescor agradável e o intenso odor da vegetação pervagavam como a robustecer a vida. Sorman houvera levado Anita a Casa Rosa a fim de que participasse do ritual quinzenal. Os ofícios, nesse estágio, eram conduzidos por sacerdotes de iniciações menores; assim ele subira a casa de Bruno para fazer-lhe uma visita.

  Sorman desviara o olhar em gesto automático, tentando encontrar o panorama lá embaixo, mas a cortina de névoa já cobria o verde anel em torno do sítio e dentro em pouco os alcançaria à varanda. A pergunta era esperada e ele retornou ao negro rosto respondendo:
  - A mesma conhecida. Nosso trabalho só veio confirmar a antiga preocupação da hierarquia. Penso nisto diariamente.
  - As informações levantadas tiveram o respaldo esperado quando da leitura de seus campos áuricos? – referiu-se ainda aos grupamentos.
  - Sim, definitivamente. A fase final de nossa pesquisa, como você sabe, estribou-se sobre este fundamental recurso. Tanto eu, como Michel e Verônica, ao cruzarmos os dados subjetivos, colhemos semelhantes conclusões. Dos grupamentos pesquisados, pudemos observar que os de números dois e três estão em situação pior. O de número um está confuso e o quatro se mostra somente razoável. As ramificações encontradas em nosso país, para as quais carrearam grandes quantidades de egos da FIA, caldearam-se rapidamente com outros ramos e raízes europeias ou africanas. Isso forçou-nos a estabelecer diferentes parâmetros para tentar reagrupá-los por conjuntos mais ou menos afins. Acho que conseguimos. Entretanto, a situação deles não difere absolutamente da dos irmãos noutros países.
  - De fato – concordou simplesmente Bruno.

                                                                    CAPÍTULO XX

                         DUELOS

  Um ano se passou. Anita abraçava as tarefas, estudos e disciplinas da irmandade com entusiasmo e dedicação. Avançava sempre. Esquecera-se do passado atlante, mas tivera vidências onde se via ao lado de Sorman noutras civilizações já extintas. As cenas trouxeram-lhe angústias – não sabia exatamente por que – e viveu dias de tristeza e enfado. De repente tudo se clareou, advindo-lhe um tipo de solidez interior e o retorno da alegria. Com isso, as lições e energia dos rituais voltaram a trazer-lhe substanciais resultados. A par de tudo, Sorman vinha ensinando-lhe determinadas posturas físicas e mentais bem como algumas invocações que, segundo ele, muito a ajudariam em situações de dificuldade.

  Com Sorman, no entanto, as coisas tomaram outro rumo. O estudo das etnias, levado a efeito com a pequena equipe, de nada lhes valeu em sentido prático. Tudo ficara para um posicionamento futuro. No momento, não dispunham de instrumentos adequados para uma tentativa de retomada das metas traçadas pela irmandade para aqueles grupamentos em atraso. Isto o aborreceu, e de todas as formas a Garcia em sua área de trabalhos.

  Outro estranho e paralelo processo íntimo viera invadir-lhe a alma. Durante o período em que Anita atravessara momentos de lutas pessoais, Sorman mantivera-se à parte com perfeito controle de pensamentos e emoções. Entretanto, bastou Anita emergir de seus revolvimentos, o estranho processo veio nele se instalar. Momentos de depressão começaram a alternar-se com imagens mentais confusas. Vez por outra uma dor atravessava-lhe o coração, anelada à sensação de impotência diante do desafio da vida. Mal isto passava, novas dúvidas e incertezas tomavam lugar em seus pensamentos. Todo este envolvimento o deixava cada vez mais taciturno. Em casa, sentava-se na poltrona do quarto, à meia luz, permanecendo em silêncio e reflexão.

  Anita, percebendo a luta, procurou ouvi-lo. Temeu que as situações da juventude de alguma forma estivessem voltando e ele de novo mergulhasse em crises quase intermináveis.
  - Não se preocupe, Anita, acredito que estes momentos serão breves; são, talvez, ajustes vibratórios – procurou tranquilizá-la. Entretanto continuaram. E quando a normalidade voltava ele buscava retomar as atividades com a energia habitual.

  Uma cruz branca apareceu diante das imagens captadas por seu cérebro. Era alva, nítida, muito bem delineada. Acompanhou-o por vários dias, de repente desapareceu. Ao reaparecer uma semana depois, a cruz era negra. Mais tarde a cruz negra mostrou-se imensamente grande.

  Novos duelos íntimos vieram ocupar-lhe a atenção por mais tempo. A alternância de momentos repetiu-se; depois tudo cessou por completo. As atividades profissionais foram definitivamente retomadas com afinco e logo precisou viajar ao exterior com seu gerente de produção. Anita o acompanhou. Por sinal, tão logo se casaram, Anita conseguira de Eduardo o contrato de prestação de serviços jurídicos de suas empresas para a firma onde advogava. Os serviços foram satisfatórios e como os processos há algum tempo viessem avolumando, Eduardo viu a necessidade de as empresas terem o seu próprio setor jurídico. Era preciso administrar a burocracia, coordenar toda a complexidade dos processos, bem como resolver alguns entraves sem precisar recorrer sempre à prestadora de serviços. Seria, principalmente, mais econômico. Consultada a respeito ela aceitou, entrando para as empresas e organizando o setor conforme Eduardo idealizara.

  O trabalho na Europa durou exatos sete dias. Resolvidas as pendências e realizados todos os contatos, cruzaram novamente o oceano, indo agora para a América do Norte. Lá mantiveram conversações cumprindo uma agenda de quatro dias. O gerente de produção viajou de volta, trazendo não só relatórios, como também pedidos para embarques de mercadorias. Sorman e Anita permaneceram na América do Norte, agendando com Mendez e Garcia um encontro na América Central, para onde viajariam na manhã seguinte.

  Na noite antecedente a viagem, enquanto dormia, Sorman foi visitado por um mensageiro de Mendez que o conduziu por uma dimensão superior até um templo.
  - Que lugar é este? – perguntou-lhe, vendo a antiga arquitetura do prédio. A fachada era um imenso bloco de pedra, semelhante a mármore branco, na qual duas largas colunas paralelas e retangulares, em perfeita simetria e apurada arte, tinham sido modeladas. Uma porta de madeira escura em arco gótico e côncavo, trabalhada com belos entalhes de uma grande flor ao meio, com ramos se derramando ao derredor, se encaixava entre as colunas. As colunas sobressaiam à compridíssima laje ao alto e ao telhado. O arquitetado bloco de pedra, constituindo a fachada do prédio, se inclinava para trás a um provável ângulo de cinco graus. Não se registrava qualquer signo ou escrita nas colunas ou no portal de madeira, estando os raios argênteos da lua cheia neste momento a rebrilhar sobre a pedra polida.
  - É o nosso templo e sede principal - respondeu em espanhol, levando a mão à aldrava, batendo-a a um determinado ritmo e proposital número de pancadas. Ao responderem do lado de dentro, o mensageiro bateu novamente com diferentes pancadas. A porta então se abriu. Um homem de hábito branco, encapuzado, recebeu-os de cabeça baixa, fazendo-lhes o sinal. O mensageiro respondeu conforme o procedimento formal, mas Sorman insistiu, inquirindo-o mais vezes através de outros sinais. Ao final, o homem arcou-se ligeiramente, com medida vênia, e o reverenciou apresentando-se:
  - Pedro! – informou com locução totalmente rouca, retomando o prumo da postura.
  - Sorman! – declarou o visitante.
  - Sim, senhor, já o esperava – confirmou em espanhol.

  Ao afastarem-se do átrio de entrada mergulhado na penumbra, e já sob a luz do salão, Sorman notou-lhe no peito, sobre a veste, um disco solar dourado superposto por uma cruz branca, limitada ao próprio disco. Adentraram o salão.  Seria uma igreja. Achava-se feericamente iluminada por luzes artificialmente douradas. Ao fundo, sob uma espécie de nave extremamente grande e ampla, destacava-se, ao alto, enorme cruz negra, enrodilhada no madeiro vertical por uma serpente dourada. Da base até o ápice, a serpente formava sete voltas, apontando a cabeça mais acima do madeiro onde subia. A outra face dessa mesma cruz era totalmente branca, e após a cruz, mais ainda ao alto, sobressaía solitário e largo disco solar dourado. Um jogo de luzes também dourado movimentava-se detrás do disco em revérberos para todos os lados.

  Para atingir a cruz, era preciso antes galgar duas escadas. A primeira detinha inicialmente seis degraus, conduzindo a um largo patamar representando o sétimo degrau. Ali existiam um púlpito e uma longa pedra branca polida. A pedra colocada atrás do púlpito, sendo propriamente o altar, ficava um metro e meio acima do patamar, de uma ponta a outra, alongando-se num só segmento e apoiada perpendicularmente em distâncias regulares por três bases finas e retangulares. Tanto a pedra como as três bases, eram da mesma qualidade do bloco original da fachada. Sobre a pedra, encontravam-se devidamente ordenados vários implementos de ofícios esotéricos. A segunda escada, também de seis degraus terminava, como a outra, num patamar. Era um quadrilátero menor do que o anterior, também representando o sétimo degrau, onde ali a cruz fora enfincada. Para se atingir o sol, havia uma terceira escada com sete degraus e um patamar adicional menor do que os anteriores, e triangular, sobre o qual, acima de tudo, repousava o disco. Tinham-se, portanto, ao final de tudo, dezenove degraus e três patamares, indicando vinte e duas posições até o sol. Todos os lances das três escadas, inclusive os patamares, achavam-se revestidos por um único tapete púrpura. Apesar da iluminação, os bancos do salão encontravam-se vazios, não havendo assim o menor sinal de que aconteceria qualquer tipo de solenidade nessa noite.
  - Por que tanta iluminação? – perguntou Sorman. Pedro respondeu com a mesma rouquidão, no seu idioma:
  - Pela entrada da lua cheia. Durante os sete dias dessa lua, na primeira parte do seu percurso, acendemos todas as luzes. Depois as apagamos, ficando aceso somente o sol. É nossa contraparte no jogo das energias, ao mesmo tempo o simbolismo de um conúbio místico, entende?
  - Sim, sim – reafirmou Sorman  -  a supremacia é sempre solar, o Deus Maior!
  - Vejo que compreende perfeitamente, senhor - Pedro sorriu satisfeito. Ele possuía baixa estatura, era robusto e moreno.

  Sorman lançou olhar mais detido sobre a cruz e súbitas imagens fizeram-no submergir em lembranças. A cruz negra assemelhava-se àquela de suas visões, excetuando a serpente que não houvera visto. Essas reminiscências causaram-lhe certo desconforto e sentiu-se penetrado de um sentimento de angústia, que procurou afastar, desprendendo o olhar da cruz.

  Ultrapassaram lateralmente ao patamar do altar. Pedro abriu uma porta, surgindo ali uma pequena dependência com portas laterais e mais outra porta no fundo. Seguiram ao fundo, descendo uma escadaria bem iluminada que terminava numa laje. Pedro então olhou para o alto e chamou:
- Larime!

  A laje girou suavemente para a esquerda, descortinando um pequeno fosso como uma caixa retangular de não mais do que dois metros e meio de profundidade. Eles ingressaram pelos degraus e Pedro abriu uma última porta adentrando todos num auditório com muitas poltronas. Num tablado em plano superior, existiam uma mesa e duas cadeiras. Mendez e Garcia aguardavam sentados nas poltronas e se levantaram à aproximação dos três.
  - Como está, meu filho? – falou Mendez, adiantando-se e fazendo o sinal, após a resposta estreitando-o num fraternal abraço.
  - Bem, obrigado – respondeu Sorman com amplo sorriso. Depois foi a vez de Garcia saudar e abraçá-lo com igual fraternidade.

  Mendez olhou então para os acompanhantes de Sorman, meneando suavemente a cabeça; eles se inclinaram em pequena reverência e se retiraram. A seguir, Mendez apontou para uma das poltronas onde Sorman assentou-se, vindo acomodar-se a sua direita, permanecendo Garcia à esquerda.
  - Que templo diferente. Não o houvera visto em minhas duas anteriores viagens – disse-lhe Sorman.
  - É remanescente de um culto solar asteca, com influência da igreja – começou a explicar Mendez – os astecas, apesar da destruição de sua civilização pelos espanhóis, mantiveram na memória racial o culto solar, mais tarde realizado às escondidas por uns poucos sacerdotes. Eles sabiam que se os missionários católicos os descobrissem estariam perdidos. Assim, construíram capelas, que eram somente oratórios, mas realizavam os seus principais cultos nos porões ou subterrâneos. Aqui neste plano puderam melhorar o templo, unindo inteligentemente as duas tradições sob denominação esotérica.
  - O templo é todo de nossa organização?
  - Não de modo absoluto; é da tradição que abriga, instrui e prepara através dos séculos muitas almas de etnias incas. A FIA, a cada ciclo de manifestação de nossa célula, o retoma, readaptando-o segundo o interesse e a necessidade dos irmãos, em suas respectivas faixas vibratórias. No momento, o templo serve-nos para prestarmos exclusivos serviços e ofícios a nossa irmandade.
  Sorman volveu o rosto para Garcia:
  - Você está longe dos Andes. É agora um iniciado sem que eu tivesse sabido? Garcia respondeu sorrindo:
  - Sou sacerdote neste templo há algumas gerações, embora viva em corpo físico num país andino. Lá embaixo não tenho este vínculo e não desejo no momento iniciações devido ao meu trabalho com os irmãos. Acho que é melhor assim.
  Mendez inferiu com enigmática previsão:
  - Logo a posição deverá mudar. Garcia precisará galgar conscientemente os graus das iniciações menores da irmandade.  -  ambos olharam-no surpresos. -  Prevejo isto tão somente! – completou sorrindo. A conversa continuou.  Decorridos poucos minutos Mendez determinou:
  - Vamos agora sair!

  Eles se levantaram permanecendo a um passo das poltronas; Mendez trouxe as mãos diante dos olhos de Sorman e Garcia, fazendo suaves movimentos circulares e sugerindo:
  - Partamos mentalmente para um dos grupamentos!
  Logo se viram à entrada de uma cidade, nela penetrando. Havia nuvens escuras e sombria atmosfera nas ruas. A voz de Mendez fez-se novamente ouvir, desta feita dentro de suas mentes:
  - Vejam as auras de nossos irmãos!
  Imediatamente perceberam um desfile de muitas pessoas – a maioria de tez morena    em cujo redor viam auras opacas ou enegrecidas. Ocupavam-se no afã de assuntos diversos; alguns ingeriam bebidas alcoólicas, fumavam avidamente provocando espirais de fumaça pelas proximidades. Outros se entregavam aos jogos, divertiam-se com mulheres, metiam-se em acaloradas discussões e brigas, ou consumiam perigosas e destrutivas drogas. Rápidas cenas vieram mostrar-lhes homens e mulheres entregando-se a fanáticos cultos religiosos, ou a rituais de magia inferior.

  Sorman sentiu profundo pesar. Sem que pudesse evitar, seus olhos marejaram. Aquelas cenas não lhe eram novidade: existiam em todas as partes do mundo e os do mundo também eram seus irmãos: por que então reagia assim? A voz de Mendez fê-lo estremecer, tirando-o daquela reflexão:
  - Haverá esperança para esses irmãos de célula, se assim continuarem a agir? O processo evolutivo de suas almas estancou. Mas vejamos cenas de seu passado.

  Mendez passou novamente a mão diante do rosto de ambos, descrevendo um semicírculo, e novas imagens vieram-lhes à percepção. As imagens ganharam vida e movimento; formaram fileiras de guerreiros em posição de defesa de sua cidade. A alguns Sorman pareceu reconhecer, mais adiante viram pequenas multidões entrando silenciosamente em templos públicos para participar de cerimônias religiosas ou esotéricas. Mulheres e homens ostentavam vestes brancas especiais para os ofícios, notando-se irradiante alegria em suas faces. O transe passou; eles retornaram às consciências físicas. Sorman respirou profundamente, e depois perguntou:
  - Como puderam mudar tanto?
  - A evolução nos traz também intrincados problemas. A atual etapa planetária, em que novas e poderosas energias cósmicas mergulham no mundo, produz sensíveis estremecimentos nos egos provocando confusões mentais. O processo ocorre na estrutura dos egos, justamente pelo revolvimento da entrada das novas energias, em que valores recalcados são lançados de volta à superfície da psique coletiva. Então voltam a sintonizar-se com forças externas, muitas de qualidade inferior. É um processo mundial, repito, que não atinge somente essa etnia no país da América, onde alguns milhares de irmãos da célula acham-se encarnados. Os nossos não são diferentes dos bilhões de irmãos da Terra que passam pelo mesmo momento. Há os que se salvam no roldão de acontecimentos, mediante pessoais esforços e atitudes corretamente alinhadas. Infelizmente representam pequeno percentual em relação às faixas que se deixaram seduzir.
  - Tem razão, Superior, minha lucidez apagou-se pelo impacto dessas cenas, não me permitindo sequer refletir ou analisar segundo o conhecimento. Não sei como e nem por que o sentimento vem se aprofundando dessa maneira em mim, anelando-se cada dia mais aos meus pensamentos.

  O Superior olhou para adiante, porém seus olhos denotaram rápido transe; a mente foi invadida de outras imagens e uma grande cruz negra mostrou-se. Ele gemeu ao reconhecê-la, estremeceu e voltou aos sentidos. Fechou os olhos com a fisionomia contrita, permanecendo assim por vários segundos. Quando novamente os abriu, inspirou e lançou olhar para o chão, pronunciando estranhamente as palavras do Mestre da Galileia, como a desejar lembrar-se de um possível e doloroso sacrifício:
  - Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão!

                                                                               o   o   o

  Sorman e Anita foram recebidos no aeroporto por Garcia, que os levou diretamente ao hotel, onde se instalaram. No mesmo hotel hospedavam-se Mendez e o próprio Garcia. Mendez se ausentara, mandando pedir desculpas ao casal por não tê-lo podido receber. Avisara, no entanto, pretender voltar a tempo de juntos almoçarem.
  Com efeito, aconteceu e vieram encontrar-se no restaurante. O Superior tinha chegado cinco minutos atrasado, mas tentava justificar-se com a jovialidade de sempre:
  - Hoje o relógio tem largado sempre na minha frente, não consigo alcançá-lo!
  - Ora, Sr. Mendez, foi só um pequeno atraso! - desculpou-o Anita.
  - Felizmente, irmã, porque me atrasei em mais de quinze minutos em todos os meus compromissos da manhã. Eles riram. Garcia aproveitou-se para perguntar:
  - Posso ordenar os serviços? Ante a concordância de todos, ele sinalizou ao maître.

  No decorrer do almoço conversaram amenidades. Ao término, Mendez dirigiu-se à Anita:
  - Estou muito feliz com sua presença entre nós; gostaria que a visita se tornasse ainda mais agradável. Nós, homens, pretendemos tratar de problemas da irmandade, mas reservei-lhe uma tarde hospitaleira.
  - De que se trata? – perguntou curiosa.

  - De um passeio pela cidade. Convidei minha sobrinha para acompanhá-la. Ela nasceu aqui, conhece lugares interessantes e ótimas lojas para fazer compras. Anita olhou surpresa para Sorman que somente sorriu. Mal isto se deu, Mendez acenou para a porta onde uma jovem morena acabava de chegar. Ele se levantou à sua aproximação, beijando-a na testa.
  - Soledad, estes são Anita e Sorman, de quem lhe falei!

  Os três partiram para um bairro afastado do centro. O taxi os deixou diante de um prédio antigo com fachada em mármore branco. Uma imensa porta escurecida com verniz, enfiada sob um arco ovalado, gótico, encontrava-se fechada. Ostentava uma grande flor entalhada no centro, e ramos que se derramavam. Sorman não conhecia o prédio, era a primeira vez que vinha a esta cidade, mas ao vê-lo qualquer coisa retrocedeu em sua mente, despertando-lhe indefinidas e subconscientes lembranças. Garcia adiantou-se, acionando o interfone. Segundos depois, uma voz inquiria de dentro do aparelho.
  - Garcia! - respondeu o solicitante; a porta moveu-se abrindo um vão. O Superior a empurrou com suavidade e ela cedeu facilmente. Adentraram numa antessala. Adiante, uma porta de ferro, branca, detinha ao alto um disco com vitral dourado. Sete segmentos de ferro, todos também brancos, formavam raios que partiam do centro para a periferia do disco. O vitral foi puxado, logo surgindo no arco inferior do disco uma testa morena e um par de olhos. Seguiram-se estalidos da fechadura e a porta a abrir-se.
  - Señor Mendez, Garcia! Señor Sorman, supongo? Um homem de baixa estatura, robusto, vestindo calças e camisa brancas, assim os saudou com voz rouca. Sorman o reconheceu de imediato, mesmo sem saber quem era.. Ele fez o sinal, que todos responderam.
  - Sim, sou Sorman, muito prazer – respondeu o visitante.
  - Sou Pedro – estendeu-lhe a mão.

  Adentraram um salão branco, não muito longo nem muito largo. O chão começava plano, mas à medida que se prolongava, inclinava-se para cima, terminando num platô que tinha uma longa mesa e sete cadeiras em linha. No fundo, ao alto, a parede era um grande painel, onde imenso sol dourado surgia dentre névoa. Longas lâmpadas azuis e douradas, encaixadas nas bordas internas do painel lançavam luz, produzindo certo efeito e melhor claridade às pinturas. À esquerda, na extensão da parede, enormes basculantes semiabertos com vidros em diversos matizes, permitiam a entrada de ar e relativa claridade. À direita, três amplos e ovalados arcos comunicavam com um corredor.

  Pedro conduziu-os através daquele corredor, passando diante de salas onde funcionavam setores de atendimento. Ao final, acharam-se frente a outro corredor transverso, menor, e giraram à esquerda, chegando numa porta que Pedro imediatamente abriu. Desceram por uma curta escada, alcançando um piso de largas lajotas com motivos astecas. Um grande sol amarelo estava ali representado no centro de um zodíaco pleno de símbolos e signos coloridos. No extremo oposto, ampla porta de madeira pintada de ouro, encontrava-se fechada. Sobre ela se assentavam três discos concêntricos em relevo, superpostos sucessivamente. O mais interior era negro, o segundo era amarelo e o terceiro azul.

  Pedro, falante até então, procurava explicar a Sorman o que significativamente formava a história do lugar. Contou-lhe que o prédio fora reconstruído duas vezes, depois de alvo de bombardeios em sangrentas revoluções. Calou-se, porém, ao chegar a esse local e em silêncio fez reverência, baixando a cabeça, trazendo as mãos espaldadas sobre o coração, como a pedir permissão de aqui pôr os pés. No entanto, não conseguindo abrir a porta, gritou:
- Larime!

  Num abre-te-sésamo, a porta moveu-se, abrindo completamente, permitindo-lhes adentrar. Dois metros adiante havia uma negra cortina que descia do teto ao chão, alongando-se de uma parede a outra obstruindo completamente a visão. Uma única lâmpada de um pequeno plafonier preso à parede às costas, derramava tímida luz, somente suficiente para que pudessem orientar-se. Pedro deu três passos afastando um lance da cortina mantendo-a segura, e apontou com a outra mão indicando um vão de porta. Como estivesse completamente escuro após o vão, Pedro imediatamente acionou um comutador a um canto, acendendo duas lâmpadas que revelou uma sala circular com poltronas negras individuais em arquibancadas, formando três círculos sobrepostos.

  No centro, uma grande cruz enfincada sobre um pedestal alto e quadrado, alcançava altura superior ao terceiro círculo de poltronas. A cruz era negra na face voltada para a entrada e branca na face posterior. Tanto o circular piso como o pedestal da cruz eram igualmente negros. A parede e o teto eram ao todo brancos, inclusive as grades dos aparelhos de exaustão e passagem de ar quente ou frio, segundo a época do ano – Pedro explicaria depois. Ao teto, no centro, pendendo sobre a haste vertical da cruz, instalava-se uma grande roda parcialmente aberta, em aço coberto de dourado, que detinha em seu âmago um disco de ouro puro. Da periferia do disco partiam doze raios que ultrapassavam uma circunferência intermediária, indo terminar na última circunferência maior e externa, ante discos de vidro, menores e coloridos. Os discos cobriam espécies de estojos que condicionavam em seu interior uma lâmpada. Assim, doze lâmpadas, acionando diferentes matizes, direcionavam os focos para baixo.
  
  Ao deparar-se com a cruz, Sorman voltou a sentir comoção e tristeza. Curioso, entretanto, procurou ignorar essas sensações, contornando o pedestal, parando a observar a roda ao alto.
  - A roda zodiacal permanece acesa, em lento movimento, durante os rituais – informou Pedro, em espanhol, conforme falara até então, aproximando-se ao ver Sorman absorto na contemplação.
  - Interessante! – mencionou simplesmente o visitante sem despregar o olhar da roda.

  Pedro os deixou; o Superior Mestre Terra dirigiu-se a Sorman:
  - Causa-lhe estranheza esta sala?
  - Sim, ainda não houvera visto algo semelhante. Os contrastes e oposições são evidentes.
  - Sem dúvida, tudo aqui embaixo simboliza não só o início de tudo – a noite e o caos –  representados pela negra cortina à entrada e outras coisas, como também de modo geral, ao Manvantara dos indus, de um dia e uma noite cósmicas. O simbolismo pretende igualmente trazer uma idéia implícita de dias e noites planetários em ciclos solares menores, médios e maiores.
  - Negativo e positivo, as eternas oposições..., - murmurou Sorman, lançando vista em derredor, voltando a encarar Mendez – tudo provindo do Grande Negativo, a Matriz do Universo.
  - Com todas as implicações fenomenais de ciclos idos ou futuros –  confusos ao pobre raciocínio humano – completou Mendez com enigmático ar. Passados segundos, Mendez voltou a falar-lhe: - Um dos principais motivos de eu tê-lo convidado a vir a este lugar, Sorman, foi com o intuito de proporcionar ao seu cérebro indeléveis impressões sobre a situação de nossos irmãos nos grupamentos em atraso. Essa idéia e esse encontro já tinham sido projetados há poucos meses em nossa Grande Casa dos Estúdios e Câmaras, no espaço superior – Sorman olhava-o surpreso sem ainda atinar com o sentido de tudo. Mendez prosseguia. – Não houve coincidência desta sua viagem, tão pouco em seu desejo de nos encontrarmos aqui para conversar sobre as etnias. Há um trabalho maior previsto de acontecer no qual você começa a se inserir, mas não sabemos ainda de que maneira se desenvolverá ou que rumo tomará.

  Sorman continuava a mirá-lo, imaginando em rápidas reflexões, que conseguiriam finalmente reunirem-se em torno de um projeto no qual toda a hierarquia estaria empenhada. As pesquisas realizadas com sua pequena equipe de alguma forma teriam contribuído para este evento. Mendez prosseguiu:
  - Pretendo trazer-lhe agora as impressões já gravadas no seu campo mental, a fim de que sejam observadas e sentidas por seu cérebro físico como fatos verdadeiros e irrefutáveis.  Aproxime-se, meu filho.

  Sorman deu três passos, parando diante do Superior. Mendez sinalizou a Garcia que andou até a parede onde ficava o comutador, apagando as lâmpadas. Por segundos, ficaram mergulhados na mais completa escuridão. Logo Garcia acionou um dispositivo num pequeno painel elétrico e os focos da roda ao alto se acenderam, projetando luz ao ambiente. A roda passou a girar lentamente, conforme Pedro dissera; os diferentes matizes eram lançados pelos doze focos, produzindo um efeito calculado. O Superior colocou as pontas dos dedos indicador, polegar e médio na testa de Sorman, dizendo:
  - Noite passada, neste mesmo templo, em plano superior!

  De imediato Sorman reviveu conscientemente todas as imagens do que vira ou participara, detendo a exata idéia de como estavam os seus irmãos de célula nas etnias viventes nas Américas. O Superior retirou os dedos de suas testa, mas ele continuou letárgico, sem o domínio da vontade, porém consciente de onde se encontrava. Então foi projetado espiritualmente para a face negra da grande cruz nela desaparecendo. Preocupado com o inusitado acontecimento, tentou abrir os olhos para ver ou constatar algo tangível. Ao invés, viu sua projeção reaparecer dentro da cruz, nela abrir os braços, e a cruz reduzir-se ao tamanho de seu corpo, e nele se amalgamar. Quando isso se deu, ele soltou um gemido prolongado, grave e rouco, mas permaneceu imóvel na exata posição em que neste tempo estivera. Aquela imagem ficou-lhe nítida por alguns segundos: petrificada, inerte, em seguida moveu-se em sua direção, vindo parar diante dele, face a face, mostrando sofrimento e dor naquele rosto – o seu próprio rosto – entretanto, deixando entrever uma fugaz chama de esperança a brilhar através dos olhos.

  A forma crucificada deu mais um passo e mergulhou em si, em seu corpo imóvel. Mediante isto, ele deixou escapar outro gemido, mais forte, mais alto, perdendo a estabilidade, caindo de joelhos. Ao soltar os braços ao longo do corpo, tocando o chão com o dorso das mãos, as palmas permaneceram voltadas para cima e os dedos apontados para trás. A cabeça pendeu para frente, o tronco arqueou-se e ele assim permaneceu.

  Diante do quadro com que absolutamente não contava, Mendez empalideceu. Tomado de súbita emoção, ficou impossibilitado de realizar qualquer movimento de ajuda a Sorman, conseguindo unicamente murmurar: “Meu Deus!” Garcia acorreu a Sorman, segurando-o sob os braços, buscando levantá-lo. Somente então Mendez despertou, dando-se conta de que precisaria também socorrê-lo, e arcou-se, ajudando Garcia a ampará-lo, levando-o quase arrastado para uma das poltronas, procurando deixá-lo o mais confortável possível

                                                                  CAPÍTULO XXI

                                                                   AURA DE DOR

  Meses se passaram. A experiência suprafísica vivenciada por Sorman no templo jamais se apagara de sua memória. Amiúde revia imagens; algumas lembranças voltavam-lhe; sabia ter sido incorporado de outra consciência plasmada na cruz - o que, afinal, lhe estaria reservado?
 
  - Não há Cristo sem cruz, você sabe. Todos somos potencialmente um Cristo. Esta realidade torna-se cada vez mais tangível à medida que avançamos conscientemente em sua direção. Em você, irmão Sorman, o desafio de sua vida confere-lhe a aceitação de uma grande cruz.

  Bruno caminhava ao longo do jardim marginal à elevação onde, no topo, a casa fora construída. O gramado que envolvia esta pequena colina – como Bruno às vezes a denominava – encontrava-se muito bem aparado, mas os pés de roseiras e buganvílias, acima da carreira das hortênsias, teriam imperfeições que Manoel não conseguira retirar. Decidido a acertar os galhos e ramos que “faziam destoar de certa harmonia,” ele tomara a tesoura no galpão e pusera-se a jardinar. Não tinha a menor destreza que o ofício efetivamente recomendava: os movimentos eram lentos, quase sempre os mesmos; tesourava sem muita eficiência, depois se agachava mirando de um lado a outro; tirava medidas com lances de olhos, puxava os ramos com os dedos fazendo-os pender, como se pudesse fixá-los onde desejasse; finalmente se punha de pé ficando a admirar. Somente então voltava a conversar, retomando os passos em direção de outra roseira ou buganvília. Sorman o seguia.
  - Não se trata unicamente de uma presença interior, mas algo que avança com determinismo. Como admitir esta realidade para mim desconhecida?
  - Ledo engano, jovem, ou irrefletidas palavras! As razões que explicarão a escolha virão habitar seu consciente no devido tempo. O cérebro então passará a trabalhar sob duas vertentes: a principal, neste caso, trazida do coração!

  Embora sem desejar admitir, Sorman sabia que a presença da cruz prenunciava uma difícil missão. Julgara por toda a vida que missões extremas, expiativas e salvadoras, teriam cunho divino quando realizadas através de personalidades de grande estatura espiritual. Não importava a religião, tão pouco a crença; os propósitos, estes sim, precisariam ser claros e definidos: totalmente submissos ao amor. O esquecer-se de si em favor do próximo – esta máxima de poucas e fáceis palavras e difícil tradução – sempre que presente conduzira salvadores de homens à consagração da verdade. Que dizer de si?  Não professava fé alguma, era desprovido da magia da palavra – o magnetismo que arrebata plateias – sentindo-se, assim, em completo despreparo!

  Bruno ateve-se novamente a jardinar. Sorman começou a sentir certa impaciência. Ao retomar os passos, o Supremo retornou ao tema, parecendo ter percebido a disposição íntima e momentânea de seu Ministro:
  - A alma tudo vê, tudo ensina, tudo provê. Não obstante é necessário satisfazer-lhe as exigências para que possa atuar com perfeição. A personalidade não pode bastar-se, nem obstar à ação superior; ela precisa ser inclusiva, embora livre e fluente. A mensagem da alma é pessoal, ela a mantém em código exclusivo. O código, de autoria da alma, é o enigma que somente quedará a descoberto no momento da revelação. Ademais, ninguém conseguiria mesmo descobrir qual será a revelação até que aconteça. Portanto, caro irmão, haja o que houver, a realização dessa missão estará unicamente em suas mãos. Não se precipite. Por outro lado, não se desmereça. Suporte. Chegue ao limite da perseverança ou da fé; a obra é somente sua, os valores com que virá trabalhar – caso a graça o abençoe – terão exclusivamente a sua chancela, o inconfundível selo com que os grandes imprimem a pessoal energia na corrente da vida, que é uma especial condição de para aquilo ter existido. Adestrar anima mundi é viver para os homens! O sacrifício, entretanto, é inerente. Aceite-o ou renuncie antes de qualquer coisa!

                                                                       o     o     o

  Sorman inquietava-se. Mal dormira, remexera-se na cama, levantara-se. Da janela aberta via a claridade lunar; sombras e formas indefinidas mostravam-se à distância. Desejou ver o mar, ouvir o bramido da água, a rebentação nas rochas, observar as pequenas ondas terminarem em nada ou em espuma tragada pela areia.

  Largou-se à argentina noite; as sombras se apagaram ao angustioso olhar: viajou como um relâmpago sem que nada o detivesse! Pousou na areia à beira-mar, umedeceu os pés; o vento revolveu-lhe os cabelos esfriando-lhe o rosto: ele não se importava. Depois alçou-se novamente para distante rochedo no meio do oceano. De lá a visão era mais ampla; o luar sobrepunha-se, o mar se encapelava, fazia marolas, refletia!

  Por momentos foi tomado de paz: tudo lhe pareceu extremamente pequeno ao mesmo tempo significativo. O sistemático esboroar da água de encontro aos arrecifes chegava-lhe como um enérgico protesto – o mar lutava contra o obstáculo desejando transpô-lo ou destruí-lo. Aos poucos o estereótipo ficava mais longe: ele afrouxava a atenção. Os olhos procuravam o infinito, movia-os de um astro a outro, de uma para outra constelação: imaginava galáxias, adivinhava nebulosas, prometia visitar um dia desconhecidos sistemas solares!

  Vozes confusas vieram de longe, envolveram-no; a inquietação novamente manifestou-se em seu íntimo; a imagem da cruz assomou do interior da alma; sentiu-se preso, atrelado, enfincado na pedra! Passados instantes a rocha fendeu-se libertando-o; ele viajou, subiu e desceu. Foi tomado de sufocação; viu-se diante de uma porta de ferro encimada por um archote. Quis recuar, o calcanhar tocou numa pedra que rolou; ele voltou-se para trás, vendo-a desaparecer num abismo a dois passos. Olhou sobre o abismo não conseguindo divisar a outra borda mergulhada brumas.

  Aproximou-se da porta; havia um negro símbolo nela assente; ele lançou mão do archote para ver melhor, memorizando-o. Empurrou a porta que rangeu, descobrindo pequena gruta aberta, terminada adiante a poucos passos. Longa escadaria, com diversos patamares, mostrava-se dentre a névoa. Pequenos postes lançavam luz mortiça por todo o trajeto. Ele enfiou o archote numa base ao início da subida, principiando a escalada. Na medida em que subia, observava enorme construção que aos poucos vinha aparecendo. Ouvia vozes pelo ar, semelhante a gemidos; depois gargalhadas, cantos – tudo grotesco, por vezes interrompido. Estranhos pássaros cruzavam o espaço sobre a escadaria; proferiam agudos guinchos, alguns crocitavam. Ao chegar mais próximo viu-se diante de um edifício negro, enorme, amplo, quase tão grande quanto um castelo medieval, que, no entanto, transmitia-lhe algo familiar. Nuvens pairavam ao derredor; vez por outra as vozes recomeçavam acompanhadas de urros, grunhidos ou gritos abafados. Esdrúxula ave pelada no longo pescoço e nas longas pernas, semelhante à bizarra avestruz, sobrevoava de um lado a outro. Morcegos misturavam-se às outras aves, parecidas com corvos, depois se afastavam, voando rente ao casarão, desviando-se das varandas, desaparecendo sobre o telhado. Repulsivo odor de uma erva ou resina queimada permeava o ar.

  Considerou certa semelhança – embora às avessas – com a Grande Casa dos Estúdios e Câmaras da Hierarquia. Incontida vibração veio inesperadamente tocá-lo provocando-lhe forte reação, estimulando-o a possuir para autossatisfação. Distantes reminiscências lembraram-lhe sensações, ameaçando se manifestar. Um eco longínquo arremetia-o a um passado ainda não identificado.

  A vibração permanecia. Uma irrefreável vontade de conhecer o prédio dominou-o; desejava saber o que existiria no seu interior. Deu três passos em direção da porta empurrando-a, mas ela não abriu. Tentou novamente, procurou um batente ou uma aldrava a fim de anunciar-se, porém debalde. Lembrou-se então de que para adentrar a Grande Casa da hierarquia, necessitava vocalizar uma palavra e mentalmente pronunciar outra: eram “mantras de acesso.” Mas não poderia fazer o mesmo neste lugar.

  Súbita angústia invadiu-o; sombras cercaram-no: viu imagens; lutava contra um adversário invisível – ele grunhia, exigia-lhe hercúleo esforço, o torturava! Todo este embate, percebido nas imagens que desfilavam ante sua percepção, tinha acontecido em passadas provas iniciáticas. Continuou a reviver a luta, o opositor buscava apossar-se de seu corpo, das emoções, da mente! Faltou-lhe o ar, as imagens apagaram-se; ele trouxe a mão ao peito, nada via, era como se não estivesse em lugar algum. Impossibilitado de vislumbrar algo de concreto, achou-se perdido, mergulhado num vazio! Tomou-lhe a mente a sensação do desespero; uma figura negra então mergulhou assenhorando-se completamente de seu corpo.
 - Não!!  Tentou gritar. A voz sequer vibrou. A figura negra riu, grunhiu e falou-lhe: “Voltei, irmão, estamos juntos novamente!”

  Dominado pela surpresa e rápida ação do invasor, Sorman não conseguiu esboçar a mínima reação. Viu-se em seguida impelido a pronunciar desconhecidas palavras, sendo imediatamente transportado para o interior do prédio.

  Encontrou-se ante duas largas portas fechadas sobre as quais, no exato meio, sobressaia um símbolo. Embora desfigurado e invertido, instintivamente o reconheceu: era o símbolo secreto da irmandade pintado em vermelho. Assustou-se mediante a possibilidade dele estar a descoberto, mesmo ao oposto.
“A réplica como é, serve perfeitamente aos nossos propósitos, eh, eh!” O ser falou; a voz e o riso soaram-lhe na cabeça causando-lhe arrepios. Sorman tentou dizer algo, mas as palavras não saíram.

  Num outro impulso empurrou uma das portas. O símbolo partiu-se em dois e ele adentrou imenso salão todo negro. Seis altas colunas o sustentavam, havia somente uma mesa ao centro em torno da qual doze pessoas encapuzadas – dentre elas duas mulheres – vestidas com túnicas negras, reuniam-se. Traziam ao peito, em vermelho, o mesmo símbolo encontrado nas portas de entrada do salão. Sorman sentia-se impotente; o ser em si aprofundava-se cada vez mais, ao mesmo tempo o envolvia externamente.

  O repulsivo odor ali era mais intenso; aos cantos, duas pequenas piras expeliam filetes de fumaça negra formando espirais. A luz, insuficiente ao ambiente, lançava-se de duas fracas lâmpadas de distantes lanternas, dependuradas ao altíssimo teto.
  - Aproxime-se, irmão Ronsam, está como sempre atrasado! O ser principal falou-lhe da cabeceira, levantando ligeiramente o rosto. Era negro, de fisionomia a causar temor. Sua voz ribombou como trovão no enorme salão. Os demais permaneciam de cabeças baixas e mãos pousadas sobre a mesa.

  Novamente Sorman foi impelido a se lançar, indo sentar-se nas proximidades da cabeceira em lugar reservado, dando-se conta de estar vestido exatamente como todos. Mal se sentou, o principal iniciou a vocalização de um prolongado som e todos o acompanharam. Aquilo, em tempestade se espalhou pelo salão. A vocalização, em determinados instantes, alternava-se com espécie de uivos, depois sibilos e imitações guturais de certos animais; a seguir voltava à primeira sonorização. Sorman não se continha, vocalizava também, o ser em seu corpo comandava, causando-lhe torturante sensação. Ele pensou que morreria; a lucidez se apagava; o ser retomava o som mais intensamente, vibrava, recuperava o fôlego; imprimia nuances à vocalização!

  Terminado aquilo, o principal falou-lhes:
  - Irmãos, uma nova ameaça vem rondar-nos. Os inimigos desta feita preparam uma ação para libertar nossas “pessoas” na superfície. Os oficiais nos dizem que um tipo de salvador virá interferir nos domínios da irmandade. – indignados eles protestaram. O negro dirigente retomou. - Após a vinda à Terra do Mestre, obtivemos outras forças. A Grande Face Negra deu-nos novas condições. Apesar de sua partida, o poder permaneceu em nós, não importando as perdas que tivemos. O sacrifício dos que se foram não foi inútil: eles serviram à causa maior! O Mestre ensinou-nos a superar estas dificuldades. As naves vão e retornam; mensagens nos chegam; situações novas são criadas, não estamos sós! – todos assentiram emitindo grunhidos; alguns ainda menearam afirmativamente com a cabeça. Ele prosseguiu: - Os oficiais nos mandam agora descobrir quem é o salvador; tão logo o façamos, a irmandade receberá instruções de como desfechar ataques para destruí-lo. Morte ao salvador! A mesa urrou repetindo aquela sentença. Sorman tremeu, achando-se perdido.
“Não tema, irmão, eles não saberão que você está aqui!” Falou-lhe intimamente quem dele se apossara.

  O principal elevou as mãos abertas de palmas para adiante, à altura do rosto, e o silêncio novamente se instalou. Ele agora olhava para o alto; em seguida apoiou a cabeça no espaldar da cadeira, fechando os olhos, largando os braços sobre a mesa. Sua face mostrou rápido brilho como de uma superfície escurecida com verniz. Permaneceu nesta imobilidade por um punhado de segundos, voltando após a mirá-los um a um. A expectativa era grande; ele novamente fechou os olhos, recomeçando com voz grave e lenta, numa espécie de transe:
  - Irmãos, necessitamos de implementos para destruir o inimigo, As “pessoas” estão reunidas na Casa III da superfície; o animal está preparado para o sacrifício, devemos haurir forças de todo o ritual: é a ordem para esta noite. - Ele abriu os olhos, descolando a cabeça do respaldo da cadeira, sorrindo sinistramente; ordenando sem delongas: - Devemos ir logo!

  Deixaram o salão silenciosamente, ingressando por um corredor. Havia nas paredes cabeças de animais em troféus. Fracas piras dentro de lâmpadas vermelhas e amarelas alternavam-se ao longo do trajeto, proporcionando insuficiente claridade. Ao final, desceram por uma escada fracamente iluminada por tochas, chegando a um rio subterrâneo. Enorme barco negro os aguardava. Era todo fechado, movido a remos; tinha, à proa, horrível carranca em formato de uma cabeça cinzenta com olhos esbugalhados, boca aberta, cornos e orelhas pontudas.

  Ingressaram no convés. O barco zarpou. Eles se mantiveram em silêncio; unicamente ouviam-se ao fundo o ritmo da marcação dos martelos para os remadores e o ruído da água ao subir e descer dos remos. O principal recostou a cabeça no respaldo de escura madeira, fechando os olhos em descanso. Os demais olhavam estaticamente para adiante. Sob o bruxuleio da chama de um lampião, as acinzentadas fisionomias mostravam-se macilentas e fechadas. Não eram evidentemente subumanos, nem fantasmas de mortos que tivessem escapado pelo portal do Hades; tão pouco se tratavam de almas terráqueas desencarnadas. Seriam, decididamente, misteriosas duplicações negativas de egos que, em relação à vida, agiam como se esta lhes fosse a grande inimiga, à qual precisariam sempre opor-se.

  O ser afrouxara sua ação aprisionadora, permitindo a Sorman emergir livremente ao próprio pensamento. Olhava a todos, temeroso de que o descobrissem. Mas nem um deles suspeitava de que o inimigo estivesse exatamente ali.
  “Com que propósito mantém-me preso em segredo?
  “Não posso denunciá-lo, irmão!”
  “Por que não? Sou seu grande inimigo”.
  “Deles! Eu preciso de você como você de mim, não se lembra mais de suas próprias palavras? Ademais, qualquer um destes não mataria a si mesmo, mas a mim me matariam se o descobrissem!"
  “Eu o estarei destruindo se for o salvador, sou-lhe uma ameaça!”
  “Absolutamente, irmão, você é minha vida. Quanto mais alto se levantar, mais presente ao mundo estarei. Sou sua sombra, lembre-se sempre disto, não deve destruir-me. Mas ao contrário, medir-se por meu tamanho.”
  “Nunca!” Sorman gritou. O principal abriu os olhos.
  - Que disse, Ronsam?
  - Nada, mestre, estive calado. Foi possivelmente o estrídulo de alguma ave sobrevoando o rio.

  Por algum tempo navegaram; finalmente o barco atracou num cais de finos paus que se lançava ao leito do rio sobre estacas. O grupo deixou o transporte, andando sobre o cais, alcançando terra firme. A escuridão era intensa; havia nas proximidades uma casa de madeira. Archotes ardiam pela trilha que terminava naquela habitação. Um pequeno ser surgiu de dentro da casa, em correria, vindo encontrar o séquito. Vestia um hábito marrom com capuz e botas pretas. Ao estancar diante do principal, estendeu os braços à frente, dobrando-se em ligeira vênia, dizendo:
  - Mestre, que bom vê-lo novamente! O principal, sem dar-lhe atenção, somente meneou afirmativamente com a cabeça, prosseguindo em direção à casa. O desprezado anfitrião apressou-se a acompanhá-lo, vindo logo atrás os doze.

  Adentraram. O pequeno correu para o final do corredor. Os treze estancaram ante uma porta sem fechaduras nem ressaltos. O principal à frente de todos, investiu-se de ar sacerdotal, abriu ligeiramente as pernas voltando as palmas das mãos para fora, emitindo três curtos e esquisitos sons, semelhantes ao piar de uma coruja. A seguir, deu dois passos empurrando a porta, abrindo-a amplamente. Um escuro túnel apareceu. Ele tomou um archote preso a um orifício na rocha estendendo-o ao pequeno. Este o tomou e retirando rapidamente a lanterna da parede acendeu-a, entregando-a ao principal. O principal moveu a lanterna iluminando a entrada adiante; em seguida, desapareceu dentro do túnel com toda a sua comitiva.

  Durante a incursão, encontravam muitas outras entradas, penetrando por novos túneis. O principal conhecia perfeitamente o caminho; seguia-o resolutamente, sem erros, conduzindo o séquito até o largo de uma gruta. No seu interior, abaixo da trilha, acontecia uma reunião. Seres encapuzados, misturados a andrajosos, ouviam silenciosamente a outro que agitava rústico bastão incitando-os. Já próximos da saída ouviram gritos e urros provindos lá debaixo. Continuaram por locais íngremes, alcançando finalmente uma elevação rochosa aberta, fora dos subterrâneos, tendo ao alto o formato de enorme platô. Ao aproximarem-se mais, viram-se impedidos de prosseguir por enorme e horrendo animal alado que desceu rapidamente pousando adiante. Tratava-se de algo realmente gigantesco: meio ave, meio dragão. Da cabeça ao nariz tinha aspecto aquilino; a enorme boca era dragontina; o tronco e as asas assemelhavam-se aos de monstruoso e descomunal morcego. Não possuía penas. As patas eram gordas com unhas pontudas e encurvadas; a cauda era encurtada e grossa, tendo a extremidade em lança. A cabeça, as asas, a cauda e as patas eram verdes com estrias marrons, mas o tronco era negro. Algo viscoso rebrilhava e escorria por todo seu corpo. Neste momento, o animal-ave soltava uma fumaça escura pela boca e orifícios nasais.

  O principal pôs a lanterna no chão, ajoelhou-se e lançou as mãos adiante tocando o solo, e todos o imitaram; depois se levantou e falou:
  - Poderoso guardião desta coroa, autorize nossa entrada. Servidores do Mestre das Trevas buscaremos forças para nova missão.

  A horripilante criatura alçou-se desengonçada em redor do monte, ressurgindo às costas do grupo, aterrissando de asas abertas. À exceção do principal que se voltara para trás, os demais permaneciam genuflexos e de cabeças baixas. O monstro então lançou uma língua de fogo para o alto, emitindo tremendo e gutural rugido, parecendo querer demolir o mundo, e partiu. O principal virou-se para os seus, dizendo em comemoração:
  - Nossos propósitos são dignos!

  Muitos degraus separavam a caravana do alto. Archotes excessivamente afastados produziam fraca claridade sob uma névoa. Eles subiram lentamente com movimentos pesados, parecendo um exército estropiado, atingindo finalmente a coroa, conforme dissera o principal. A névoa aqui era mais intensa: o vento uivava em torno do rochedo. A coroa, na realidade, era um inóspito platô, onde as chamas de três outros archotes queimavam pela borda, dobrando-se aos açoites do vento. Uma grande cruz negra, no centro do platô, achava-se enfincada de cabeça para baixo. O principal aproximou-se da borda com o grupo.  Apesar da névoa, era possível ver além de um promontório, uma cidade lá embaixo, com pequenas e fracas luzes que pareciam pirilampos. Olhando-a fixamente, ele, majestático, abriu os braços e invocou:
  - Alma que habita as profundezas, eu lhe conjuro a nos tomar sob a proteção de seus braços, levando-nos alados ao nosso destino, nesta noite de sacrifício e sangue!
  Imensa e negra forma – muitas vezes maior do que a coroa daquele lugar – com inúmeros tentáculos semelhantes aos de um polvo, imediatamente subiu e lançou-se sobre todos, rapidamente os envolvendo e os arrebatando. Em ato contínuo, retraiu-se e os trouxe para o interior do corpo, mergulhando e desaparecendo na escuridão.
                                                                
  Sorman acordara repentinamente sem atinar com nada. Uma sucessão de formas e sons vieram-lhe à percepção. Via um grande boi negro amarrado a mugir de dor. O sangue escorria-lhe em borbotões na medida em que recebia novas estocadas por todo o corpo, através de um longo estilete. Vozes, cantos, gargalhadas, frenesi: homens e mulheres agarravam-se dançando seminus em redor do animal sacrificado. Forte cheiro de aguardente impregnava o ar, juntando-se ao odor de plantas afrodisíacas queimadas num grande braseiro, misturadas a perfumes exalados dos corpos suados. Via seres diabólicos descendo e se imiscuindo ao festim, envolvendo as pessoas, levando-as a atos lascivos, e a banharem-se com o sangue animal, ou a bebê-lo! Ele sentiu-se agoniar, revolvia-se dentro de uma prisão. Gritava, não desejava assistir àquilo, queria sair, fugir dali! Um riso irônico ecoou-lhe no cérebro, estrondou por certo tempo. Sorman mais ainda se desesperou; uma dor aguda e profunda partiu-lhe do peito, ele estremeceu, e o lúgubre cortejo de imagens e sons finalmente terminou.

  Tudo se calara. O silêncio absoluto impunha-se. Um rápido tremor o tomou; os joelhos ameaçaram dobrar-se. Ele se apoiou no parapeito da janela, inalou profundamente procurando recuperar-se da pequena fraqueza e olhou para fora. A luz argêntea continuava banhando. As sombras noturnas, os contornos e as aparências permaneciam inalteráveis. Externamente nada mudara, nem o tempo parecera avançar. Todas essas coisas nesse momento formavam um desfile irreal, inverossímil; traziam-lhe cenários distantes, não detinham um sentido verdadeiro. Representavam-lhe um conto sinistro de sua própria autoria que jamais escrevera. Vivera de fato ou sonhara?

                                                                        o     o     o

  O violento arreliar de um bando de periquitos rompeu subitamente com o silêncio do lugar. Os pequeninos amontoavam-se furiosamente pelos galhos e ramos de um pessegueiro, pulando aos punhados uns sobre os outros, esbravejando todos ao mesmo tempo. Talvez até comemorassem alguma coisa. A confusão aumentou com a chegada de um novo bando; eles voaram em seguida para um bambuzal mais ao longe, continuando em grande gritaria. Sorman acompanhara a agitação das aves; fora tirado de um estado mental contemplativo. Estava só na casa ao pé da serra.

  Um ano depois não decidira ainda o que fazer. Dúvidas, incertezas, pensamentos: toda uma inconstante corte de flutuantes elementos o cercavam indefinidamente, martirizando-o. Algo real, no entanto, acontecera, parecendo querer estabelecer uma ligação substancial. Recebera uma carta de um empresário da cidade onde estivera com Anita, manifestando a idéia da instalação de uma sucursal naquele país. O desconhecido via excelentes condições de competitividade no mercado se a produção fosse local. Os custos, ele garantia, cairiam em muito. Os produtos para lá exportados, dizia ainda a missiva, eram de primeira linha e sem dúvida de grande aceitação. Caso Sorman se inclinasse à idéia, ele pedia exclusividade para a representação e revenda para as cidades do interior, estando disposto a reunir-se e conversar sobre detalhes e circunstâncias da implantação, que poderia aconselhar.

  A idéia seria boa, Sorman considerou ao final da leitura da carta. Ademais, outros países das Américas, de excelentes mercados consumidores, estariam mais acessíveis para as exportações a partir dali: a ampliação da rede exportadora traria novos horizontes para crescentes expansões das empresas. Faltava fazer os cálculos.

  Levou a germinal idéia a Eduardo que também a considerou, aprovando um estudo mais criterioso e detalhado. Após relacionarem vários fatores importantes, como a situação sócio econômica do país, variações climáticas, material, capacidade de absorção do mercado interno, administração, mão de obra, custo-benefício, carga tributária, incentivos às exportações, etc., que justificassem um investimento de tal monta, admitiram ser perfeitamente viável um projeto de instalação. A avaliação veio ser corroborada por outra análise de uma fonte especializada no assunto, encomendada por Eduardo através da associação empresarial de que era diretor. A conclusão, ao final, foi satisfatória: valeria um esforço empreendedor para montar-se uma sucursal naquele país da América Central. Restava definir outro componente ao projeto, importante e vital, a equacionar-se desde os primeiros passos do trabalho, e que eram os meios de se obter o financiamento. Esse passo veio trazer a Anita enorme soma de trabalho extra, necessitando recorrer a contatos com empresas especialistas sobre trâmites legais da burocracia e celebrações contratuais. A idéia continuava a ser trabalhada. Afora isto, tudo mais parecia instável a Sorman e o solo em que pisava produzia-lhe inconsistência.
        
  Certa tarde de domingo, enquanto passeava com Anita pela orla de uma pequena cidade litorânea, Sorman observou grande nuvem rolando no horizonte sobre a maré. Apontou-a para Anita, mas ela nada viu. Entendeu então que somente ele a percebia. A nuvem se condensava cada vez mais e deslizava rapidamente em direção de onde se encontravam. Ao chegar, notou-a quase sólida. Uma fresta nela se abriu; o estrondar de muitas vozes em clamor de socorro partiu de seu interior. Aquilo causou-lhe grande angústia: ele soltou gemidos sentando-se no cais, preocupando Anita. Trouxe inutilmente as mãos aos ouvidos, buscando ensurdecer-se. A nuvem o enlaçou; uma aura obscura formou-se em redor de seu corpo transmitindo-lhe a dor daqueles que clamavam.
                                                                             
                                                                       o   o   o
  - Venha, Sorman!  
  Lucéa, linda, envolta num branco véu a esvoaçar, sorria-lhe. Sorman se levantou da cama estendendo-lhe a mão; ela o beijou nos lábios.
  - Onde vamos?
  - Siga-me e verá.

  Suave névoa azulada vinha encontrá-los em intervalos. Eles caminhavam de mãos dadas sobre um pátio de largas lajotas de pedra em tom róseo. Trepadeiras enlaçavam-se ao longo do trajeto formando alpendres; depois tudo se abria, parecendo o infinito submerso em clara luminosidade. Em pouco tempo chegaram a um largo e solitário portal de rústica pedra. Sorman associou-o a um monumento druida. Lucéa largou-lhe a mão, olhando-o no rosto.
  - Vá! – disse com suavidade.
  - Por quê?
  - Saberá – respondeu-lhe com semblante inalterado, afastando-se sob a névoa.

  Sorman cruzou o portal. À medida que caminhava ouvia rumores; depois ouviu sons de metais tinindo, vozes e espirros de animais. Viu-se dentre guerreiros com armaduras, comandava-os. Ouviu cânticos religiosos, sons mântricos; oficiava uma cerimônia mágica dentro de uma grande pirâmide. Em seguida, viu campos, cidades muito antigas, celebrações aos deuses, ofertas, oferendas. Continuava a caminhada. Logo se achou diante da grande estátua de Buda; chamas de lamparinas crepitavam; o aroma de ervas impregnava. Adorou o fogo, o sol; subiu muitos degraus ao ar livre sobre alta pirâmide; cantou para os deuses; tocou instrumentos. Testemunhou, horrorizado, de sobre uma alta montanha, a terra ao longe fender-se, tragar tudo o que lá existia e o mar desaparecer. O céu virou sobre sua cabeça, ouviu fenomenal e ensurdecedor estrondo: as estrelas mudaram de posição. Entrou numa cidade de ouro através de um magnífico e reverberante átrio. Perdeu-se com seus homens numa selva de altíssimas árvores, sob interminável emaranhado de galhos e folhas; lutou nesta selva contra ferozes e sanguinários inimigos. Gigantes mostraram-se; andou com eles, era um deles! Então tudo desapareceu e silenciou.

  Por um pequeno espaço de tempo nada mais aconteceu, mas logo novas imagens ocuparam-lhe a atenção. Um recém-nascido chorava; em seguida, uma criança corria; um jovem preocupado aparecia; um homem assomava. Todos eram ele, Sorman. Em poucos segundos a inteira trajetória de sua atual vida terrena saltou-lhe à memória. Viu uma pequena colina coberta de verde grama; homens e mulheres subiam-na para ouvir um mestre de longos cabelos que tocavam o chão; ele sentava-se na postura do lótus. Era Rama, reconhecia-o, mas não conseguia aproximar-se; muitas pessoas o encobriam. Rama começou a falar-lhes; Sorman ficou ali mesmo, à distância. O mestre penetrou-lhe a mente.
  “Discípulo, é chegado o momento, não deveis mais protelá-lo. Até aqui vossa missão tem sido um preparatório; precisareis, a partir de agora, doar-vos mais intensamente aos irmãos. A Fraternidade virá amparar-vos.”
  “Que fazer, mestre, quais ferramentas utilizar?”
  “Mente e coração serão vossas ferramentas. Com isso simplesmente atraireis uma legião de auxiliares. A missão é longa e árdua, não terminará definitivamente aqui. Os irmãos que partirem deste planeta irão reiniciar etapas não vencidas. Lá estareis até que todos os derradeiros esforços tenham sido envidados. Somente assim a lei se aplicará definitivamente sobre quem se nega a cumprir a meta evolutiva, podendo perder a individualidade. Sois um misericordioso, uma Chama Ardente em Sacrifício. Esta missão foi vossa própria escolha.”

  Sorman não conseguia acreditar no que lhe dizia Rama. Então se inseriu em nova sequência de imagens de um passado muito distante, num espaço onde o tempo não atuava. Estava num templo de pura luz diante de três pessoas vestidas com túnicas brancas iguais, superpostas por camadas de ouro em escamas. No peito, entre uma e outra escama, uma chama mais forte se mostrava absoluta. Eram duas belíssimas mulheres e um homem; tinham rostos jovens, resplandecentes. A eterna juventude ali vivia. O homem tocava-o com as pontas dos dedos no peito, sobre o coração; as mulheres apoiavam uma das mãos sobre seus ombros. Todos dimanavam auras de luz em incessantes ondas: o dourado e o branco ponteavam! Estavam eletrificados. Enquanto tocavam-no o homem dizia-lhe:

  “Consagro-vos guardião da Ardente Chama. Vossa existência é a alegria de doar-vos em sacrifício aos irmãos de criação.”
  “Sabeis agora quem sois?”  Rama voltou-lhe à mente.
  “Não tenho esse valor, mestre, é tudo ilusão mental!”

  Rama surgiu-lhe adiante expressando irônico sorriso, estendendo uma das mãos e o tocando com as pontas dos dedos sobre o coração em suave gesto. Quando isto se deu, Sorman sentiu uma dor imensa rasgar-lhe o imo. Soltou um gemido, voltando-lhe à mente a figura da cruz negra. Ele ajoelhou-se trazendo as mãos ao peito. Lágrimas rolaram-lhe pela face; ele chorava e gemia. Rama afastou-lhe as mãos tocando-o novamente no mesmo local em idêntico gesto. Uma chama dourada com voracidade santa ali irrompeu, envolvendo-o e à cruz que nele ainda permanecia aliviando-o da dor. A chama desapareceu, em seu lugar ficou-lhe uma profunda paz e um arder no peito que anelava inefáveis sentimentos de devoção e amor.

   Esta mesma ação podereis realizar nos irmãos ao longo da missão. Oxalá desejem receber, de pouco em pouco, os volteios desta chama que neles se extinguiu.”

  Sorman olhava agora para o vazio; Rama houvera desaparecido. Ele continuava a caminhar, não houvera mesmo parado desde que cruzara o portal. Todas aquelas situações vivera-as mentalmente, em movimento. Viu-se num caminho eivado de espinhos; depois sobre alva areia; em seguida num chão duro e irregular; os pés doíam-lhe sobre um inóspito e ressecado caminho. Andou e andou até vislumbrar ao longe diminuta e inconstante claridade. Ao aproximar-se ficou envolto por névoa; a claridade escondia-se e reaparecia. Finalmente parou diante do mesmo portal de onde iniciara a caminhada, e viu Lucéa do outro lado. Cruzou o portal e parou diante dela, estendendo-lhe a mão.
  - Encontrou o seu destino? – perguntou-lhe a moça com tristeza no semblante.
       - Sim, encontrei-o. Revi cenas de meu passado. Sou uma Chama Ardente em Sacrifício; devo doar-me para que outros corações possam reacender suas chamas.

                                                              CAPÍTULO XXII

                                                         A MISSÃO SE  INICIA

  As coisas começaram a correr muito depressa. O projeto de instalação da sucursal passou a ganhar inesperado vulto nas empresas. Falava-se desta perspectiva a todo instante. Eduardo, incorporado da idéia, tratava do assunto com renovado interesse e entusiasmo. Lançou-se em busca de novas informações diretamente no consulado. Obteve também atenção da câmara do comércio através do computador. Eles se disseram muito honrados pela possibilidade das empresas expandirem os negócios em seu país, da forma planejada. Aguardavam por um contato pessoal o mais breve possível, oportunidade em que tratariam de todos os aspectos do projeto com profundidade e interesse. Eduardo marcou viagem, embarcando poucos dias depois em companhia de Sorman.

  Entrevistaram-se com pessoal especializado da câmara do comércio e com assessorias de ministérios. A extensa pauta que os diretores e técnicos das empresas haviam necessariamente preparado, foi longa e criteriosamente discutida nas várias reuniões. Ao final do quinto dia, quando muitos dos propósitos já estavam colocados e negociações entabuladas, receberam boa notícia. O governo dispunha de lotes de terra na periferia da cidade, onde já funcionava um polo industrial. Ali, os empreendedores teriam todas as facilidades e garantias para se instalar, mediante contrato especial de locação por períodos renováveis, médios ou longos. A cessão dos terrenos fazia parte de um programa de incentivo às indústrias.

  Dia seguinte foram verificar o lugar em companhia de um funcionário do governo especialmente designado, tendo gostado do que viram. Na tarde daquele mesmo dia embarcaram de volta para casa. Durante os seis dias em que lá permaneceram Sorman não tratou de qualquer assunto da irmandade           

  Finalmente o projeto ficou pronto em todas as suas minúcias. Meses havia se passado desde que pela primeira vez a idéia fora aventada. A diretoria convocou reunião extraordinária com seus principais acionistas, mostrando-lhes o que pretendia através de filmes e tapes. Ao final, os acionistas manifestaram opiniões favoráveis, visto as ações no mercado tenderem a valorizar.

  As garantias foram acertadas com avais de bancos credores e instituições seguradoras; faltava somente dar a partida. Isso foi feito com Eduardo e um de seus técnicos, ao viajarem ao país, a fim de firmar o contrato de uso do terreno. Mais tarde, para lá viajariam engenheiros e técnicos em edificações, com vistas a contratar serviços de construtoras através de licitações. Assim iniciaram a execução da primeira etapa do projeto quanto à sua forma física; a segunda etapa consistiria propriamente no levantamento dos escritórios e galpões, incluindo-se todas as instalações de rede. Ao curso final da segunda etapa, viajaram para lá outro técnico e dois funcionários especializados com a incumbência de estruturar os departamentos da empresa, iniciando-se os trâmites de legalização e entrevistas com pessoal qualificado. Neste período, Sorman voltou à sucursal duas vezes.

  Sorman agora meditava seguidamente. Nessa segunda viagem, caminhava pelas ruas constatando como houvera mudado em relação a tudo. Familiarizava-se rapidamente com a vida da cidade; admirava sua arquitetura e locais públicos. Inspirava o ar citadino com certa satisfação; reparava no que as pessoas faziam. Gostava do idioma, do vozerio, da generosa hospitalidade a estrangeiros, da comida. Estas particularidades faziam-no evocar uma indefinível nostalgia, pois se moldava a tudo com incrível facilidade, encaixando-se perfeitamente ao “modus vivendi” da população. Nada o surpreendia! Não imaginava que teria qualquer dificuldade em aqui permanecer, sentia-se à vontade!

  Buscou contato telepático com o Superior Mestre Terra.  Ele estava em retiro numa pequena comunidade nos Andes, onde possuía pequeno sítio. Naquele momento não recebia ninguém, nem assumia qualquer compromisso – unicamente descansava e meditava! Procurou então Pedro, no templo. Ao lá chegar temeu passar por nova e difícil experiência: indesejável nesse momento de grandes responsabilidades com a instalação da sucursal. Necessitava poupar energias. Para alívio, nada aconteceu.

  Solicitou de Pedro que o levasse a local onde vivessem irmãos da célula em situações mais difíceis. Pedro não entendeu a razão de tal solicitação, mas concordou em passar por certo bairro, que, Mendez contara-lhe em certa ocasião, abrigava grande número de almas pertencentes à célula.

  Sorman pediu-lhe estacionar numa rua qualquer. Pedro temeu, alertando-o do perigo de andarem a sós por ali, mas Sorman não lhe deu ouvidos. O bairro era pobre; as pessoas pareciam não os ver, ocupando-se com seus afazeres ou simplesmente ficando ociosas em conversas. Sorman concentrou-se na energia-forma que os sustinha, recebendo de imediato um impacto, gemendo e trazendo a mão ao peito. Pedro acorreu a auxiliá-lo, pensando tratar-se de um infarto, mas Sorman logo o tranquilizou, fazendo sinal de que não deveria preocupar-se. Pouco depois retornavam ao templo.

  Em sua terceira viagem, não pôde novamente encontrar-se com o Superior, por que ele se encontrava no Oriente Médio. Comunicou-se unicamente com Garcia, mandando-o vir hospedar-se no mesmo hotel em que estaria. Garcia veio recebê-lo em seu quarto, troçando dele.
  - Caramba, irmão, pensei que me tinha esquecido!
  - Nada disto, homem, estou seguindo exatamente o que havíamos programado – Sorman abraçou-o fortemente. Após rápidos e formais assuntos, encaminharam-se à janela. Sorman falou-lhe:
  - Garcia, você é homem bravo e de confiança. Sempre admirei sua dedicação à causa de nossa célula. Daqui para diante necessitarei muito de sua ajuda.
  - De que se trata, irmão?
  - Dentro em pouco estarei me transferindo definitivamente para esta cidade. Como você sabe estou tratando da instalação de uma sucursal de nossas empresas nesta terra. Creio que aqui viverei talvez até o final de meus dias. Mas desde logo me empenho em buscar reacender em nossos irmãos suas chamas.
  - Oh!! – exclamou Garcia com profunda admiração.
  - Você talvez não tenha ainda despertado lembrança consciente daquela noite em que me visitou em meu estúdio na Grande Casa. Já conversamos sobre isto, mas permita-me uma vez mais repassar brevemente o episódio. Você procurou-me com o intuito de pedir auxilio a esses irmãos. Na ocasião, nada pude fazer. Depois realizamos estudos, você sabe também disto, pois participou de tudo. Porém, agora, será implantado um trabalho prático e objetivo de âmbito ainda maior, muito mais abarcante, que terá inicialmente duas fases principais. Uma terceira fase precisará ser mais tarde iniciada e dependerá dos resultados das duas primeiras. Na primeira fase, trataremos de fixar base aqui neste país. Após isto, implantaremos convenientemente a segunda fase, que é um plano de ação para as Américas. O plano, dando os resultados esperados nas Américas, será ampliado para os demais continentes. Pretendemos, com isso, alcançar todos os irmãos da célula em situação semelhante aos daqui.

  Garcia, não se contendo, ajoelhou-se diante de Sorman, tomando-lhe as mãos, tentando beijá-las. Mediante o inesperado, Sorman afastou-se visivelmente assustado.
  - Garcia, por favor, sou tão igual a você ou a qualquer outro irmão do mundo. Necessito dos seus serviços, bem como da colaboração de outros auxiliares para esta missão de soerguimento.
  - Você é grande, irmão, é uma Chama Ardente em Sacrifício. Pensei que jamais conheceria alguém tão digno. Tinha mesmo de ser você, como não percebi antes? – Garcia chorava enquanto falava.
  - Garcia, pare com isto! Garcia levantou-se puxando o lenço do bolso, enxugando as lágrimas.
  - Você conseguirá, Sorman, sei que conseguirá!
  - Oxalá esteja certo, farei tudo o que me for possível. Mas agora ouça-me: você é o primeiro a quem revelo minha missão, que agora também é sua, mas por enquanto não diga nada a ninguém. Durante muitos anos trabalharemos juntos. Desejo, desde logo, providenciar o seguinte... Dias depois, Sorman contaria a Anita de seu futuro na irmandade e da certeza em permanecer na América Central para sempre. Anita abraçou-o e o beijou, prometendo estar ao seu lado enquanto vivesse.
 
  Em seis meses a sucursal estava praticamente instalada; alguns setores já entravam em funcionamento. Eduardo, Sorman e dois diretores, tinham feito nova viagem durante este período a fim de adequar os departamentos segundo o organograma principal, bem como resolver diversos outros problemas concernentes ao empreendimento. Sorman se preparava para oficialmente assumir a presidência. Diretores e conselheiros haviam votado em maioria. Houvera somente uma abstenção e um voto contrário. Ele fazia as malas; acertara todos os detalhes antes da partida. Anunciara a venda do apartamento e de dois carros; pagara as dívidas, encerrara contas bancárias, transferira valores para o exterior e passara procurações a Eduardo.

  Olga chorava todos os dias; prometia ir visitá-lo duas vezes ao ano. Eduardo, ao contrário, era só felicidade: poderia telefonar-lhe diariamente, viajar à sucursal quando desejasse. Orgulhava-se de Sorman: o filho saíra ao pai –  tinha incomum habilidade e infalível instinto para realizar bons negócios!

  A bordo da aeronave Sorman relembrava de parentes e amigos, do longo e apertado abraço que lhe dera Bruno, dos beijos de Lucéa, das despedidas de Michel, Verônica e Lucen. Ele sabia, todos pareciam saber, não voltaria definitivamente para a terra natal, somente em poucas ou raras visitas. Devolvera a insígnia a Bruno – o cargo de Ministro Extraordinário voltava a ficar vago – agora seria um hierárquico com novas atribuições e autonomias: trabalharia somente para os decaídos!

  Anita, cansada, cochilava: a tensão das últimas semanas fora infinitamente desgastante. Sorman pensava em como ela seria importante nesta nova caminhada. Fora consagrada sacerdotisa. Voltava a ocupar posição de destaque na irmandade, acompanhava-o no plano interno em certas tarefas. Desenvolvia, a cada período, poderes psíquicos.

  Súbitas e nítidas imagens registraram-se e viu-se chegando ao Salão Branco para sua última reunião com os hierárquicos. Estavam todos presentes; o Superior mandou-o sentar-se à outra cabeceira da longa mesa.
  - Irmãos, começou Bruno visivelmente emocionado, a reunião desta noite, como sabem, vem tratar do desligamento do Ministro Extraordinário em nossa hierarquia. É um momento impar na história da irmandade. Jamais um irmão hierárquico foi investido de missão sacrificial como Sorman. O momento transitório do planeta Terra é deveras importante; a transição de nossa célula para outros superiores patamares também o é, para nós, em particular. Em assim sendo, este trabalho de resgate aos irmãos decaídos precisaria ser realizado por alguém de grande qualidade espiritual, disposto ao sacrifício. Tratam-se das derradeiras oportunidades de salvamento daqueles irmãos. Os que reagirem positivamente prosseguirão na jornada – embora nos últimos escalões – os demais, infelizmente, perderão todos os frutos de sua pregressa evolução, perdendo também a identidade com seus egos. 

  Todos sabemos disto, somente não sabíamos que a grande alma destinada a conduzir o maravilhoso trabalho de soerguimento – trabalho longo e árduo, consumindo alguns séculos neste planeta e provavelmente outros séculos no planeta de destino – esta grande alma, repito, não sabíamos, era Sorman. - Bruno fez uma pausa, chorava. Sorman baixara o olhar para a mesa; ouvia atentamente, não concordava com os elogios nem se emocionava. Intimamente desejava que Bruno encerrasse logo aquele discurso. Bruno prosseguiu – Sorman chegou-nos profeticamente. Sua participação na hierarquia viria já ressaltada em algumas de nossas centúrias. Chegaria para trazer novas soluções para a célula. Como Ministro Extraordinário agiu perfeitamente; como alma integrada abraçou grandes sacrifícios sem nunca lamentar-se. 

  Com inusitada capacidade lançou-se ao cosmos registrando para a irmandade e para o mundo a fantástica formação do vórtice gerador da energia primária, contra a qual lutaria o planeta. Esteve corajosamente frente a Grande Face Negra, por duas vezes, sob enorme risco de sua própria integridade mental. Foi ativo e importante nas lutas contra a ação malévola da própria Face Negra e de sua fraternidade de malignos. Incansável, inexaurível, Sorman heroicamente alcançou o objetivo final de sua vida na hierarquia com idade biológica ainda jovem, reacendendo a divina e perfeita Chama que o coloca diante da inestimável missão. Sorman é a própria encarnação da Chama Ardente em Sacrifício. É a cruz dual – negra e branca – que raros dentre os homens ousaram suportar.
  
 Manifestará na personalidade a luz crucificada; viverá entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas; precisará fazer isto a fim de poder mergulhar nos mundos obscuros das dimensões inferiores, de onde libertará irmãos prisioneiros das forças demoníacas. Sorman, como ficaremos devedores deste seu sacrifício, como somos ainda pequenos para dar-lhe em retribuição um sublime amor de que você é merecedor! Mas juntos ainda viveremos neste planeta de purificação até o dia da grande viagem para outro orbe. Irmão amado receba nossa profunda admiração e todo amor que podemos dar!


  Estrondosas palmas ressoaram por todo o salão. Bruno se levantou dirigindo-se a Sorman, emocionado, novamente em lágrimas, abraçando-o longamente. Os demais, um a um, vieram em seguida. As palmas perduraram por vários segundos.


  Sorman desligou-se das imagens. O estrondoso aplauso o incomodara. Virou ligeiramente o rosto observando o corredor. Lá adiante a aeromoça começava a servir os passageiros. Ele voltou para a posição anterior, fechando os olhos.
 
  Novas imagens galgaram do passado ressurgindo à sua percepção. Via-se com Bruno, Michel e Verônica no Salão de Conferências, sentado à grande mesa de mogno.
  - Fracassamos em nossa proposta – comentara Bruno com ar desolado, admitindo o revés.
  - Não totalmente. Conseguimos ainda assim produzir algo de substancial – inferiu Verônica diante dele, ladeada por Michel.
  - Mas não mantivemos nossa consistência. Quebramos a estrutura cuidadosamente montada e sucumbimos. A cadeia formada não suportou sequer quatro dias – insistiu Bruno.
  - Nada é definitivo – afirmou Sorman a seu lado.
  - Sim, nada é definitivo – admitiu Bruno enfaticamente, parando a pensar. Ele tinha o rosto emagrecido como os irmãos ali presentes e não disfarçava o desânimo. Passados poucos segundos, surpreendeu a todos ao vestir-se de outra expressão. Ele franzia a testa, concentrava-se em qualquer coisa invisível. Depois se voltou para Verônica:
  - Está tudo fechado e seguro na casa?
  - Sim – respondeu curiosa.
  - Então desative o alarme, feche a porta e janelas e mantenha ligados os aparelhos de ar condicionado. Michel levantou-se a fim de acompanhar a esposa nestas tarefas, indo rapidamente ao painel eletrônico na parede, ao passo que Verônica trancava a porta e janelas. Após as providências, Bruno novamente determinou: - Passemos para as cadeiras da biblioteca! - Todos se dirigiram imediatamente para aquele segundo patamar, lá se sentando nas exatas quatro cadeiras – concentremo-nos irmãos, vamos nos trasladar ao Salão Branco da Grande Casa!

  As grandes portas do Salão Branco encontravam-se abertas. Os quatro detiveram-se surpresos, constatando serem os últimos. A longa mesa estava tomada pelos Mestres Terra e os dois Ministros. Tão logo adentraram, as portas foram fechadas por um irmão que permaneceu no átrio externo. Concentravam-se recostados nos altos espaldares das cadeiras, conservando os olhos cerrados e mãos unidas sobre a mesa. Duas pequenas piras de prata, em cantos opostos, no chão, queimavam uma substância deliciosamente aromática, produzindo espirais de fumaça. Elas vagavam ao sabor de imperceptível brisa, se desmanchavam em pequenas nuvens, e subiam lentamente em direção aos vitrais. Os quatro se aproximaram tomando seus respectivos lugares. Verônica, por seu posto de especial assessoramento ao corpo hierárquico, deslocou-se para onde estavam os computadores, ligando-os e ali permanecendo. O Supremo, já à cabeceira, fez o sinal secreto; todos de pé responderam. Então, como sempre, avocou:
  - Luz e sabedoria jamais de nós venham apartar-se!
  - Assim seja! – responderam em coro, assentando-se.

  Bruno encarou-os sem saber como começar: estava embaraçado. Não via a pauta da reunião. Como teriam sido convocados? O silêncio persistia, Bruno hesitava. Ele inspirou profundamente; a expectativa se acentuava naqueles rostos cansados.

  Apesar do fracassado movimento da FIA e aliados, da decepção em terem sido alijados da luta, e da sensação de impotência que a todos permeava, um sentimento novo começava a se infiltrar em suas almas. Era sutil e tênue como um fio de aranha, mas perfeitamente perceptível. O sentimento os acompanhara desde o momento em que para cá se dirigiam, mas se definindo melhor aqui à grande mesa. Na realidade, o sentimento era de esperança. Mas ao quê?

  O Salão Branco possuía altíssimas paredes que produziam a impressão de se projetar em grande escalada. Seus muitos frisos aos pares, em pequenas e exatas distâncias, vindo terminar nas bordas de uma abóbada feita em vitrais, seriam as linhas de fuga ao infinito. As linhas pareciam querer invadir a abóbada e perder-se noutras alturas. Através dos vitrais, a luz diurna se lançava ao Salão onde, no exato meio, se dispunha a grande mesa. Seis colunas cilíndricas sustentavam a majestosa construção. À exceção da mesa e cadeiras em verniz natural, dos computadores e alguns poucos objetos, tudo mais no ambiente resplandecia o branco, inclusive o chão.

  O Irmão Supremo desejou pronunciar as palavras iniciais, mas se sentiu impedido. Uma força provinda de algum ponto o dominou e diante da admiração geral ele assentou-se. Mas durou pouco este espanto porque todos foram também forçados a fechar os olhos e recostar a cabeça no espaldar de suas cadeiras. Então registraram nas mentes a seguinte mensagem:

 “Valorosos irmãos terrenos. Falamos de uma dimensão além de vossas percepções conscientes ou extra-sensoriais. Fazemos uso de um artifício válido a fim de podermos sintonizar as ondas de frequência de nossas vontades às vossas mentes e cérebros. Inútil conjeturar acerca de nossa posição. Somos vossos Mestres; constituímo-nos numa Hierarquia, para vós, ainda desconhecida, que por todo o vasto período de vossas inúmeras vidas terrenas esteve a trabalhar pela evolução e progresso deste planeta. Nada nos escapa à percepção; nenhum fato nos advém sem que antes já não o houvéssemos entendido. Não há futuro para nós como admite vosso cérebro terreno. Sabeis muito bem que o tempo nas dimensões superiores não é controlado ou aprisionado por instrumentos. A nada nos submetemos que não possamos dominar. Dominar e realizar segundo a vontade, são nossos propósitos de vida inteligente de acordo com as leis da criação. O tempo é nosso Mestre! Tudo realizamos segundo a coloração de cada ciclo. Os ciclos não possuem passado; são permanentes projeções de sucessivos fatores que se cruzam numa grande rede, cujas malhas vão se comunicando incessantemente. O tempo é a rede eternamente presente; as malhas são os ciclos que se apresentam oportunamente.

  Irmãos, não falhastes diante do mal cósmico que neste instante vos assola. Vossa participação demonstrou, principalmente, o exercício destemido de vossa vontade em defender a vida do planeta, segundo sua própria natureza e valores humanos duramente conquistados. O mal cósmico realmente existe, sabeis agora mais do que nunca, sempre existiu nas passadas eras de vosso calendário terreno. Este mal já atuava antes mesmo de vosso atual sistema solar ter vindo à existência, e de outros há muito desaparecidos nas profundas gargantas de insondáveis dimensões que permeiam os mundos criados pela Soberana e Máxima Inteligência. A Grande Face Negra, como a denominais – projetada inversamente ao Grande Negativo numa escala cósmica – já a conhecíamos. Diante dela estivéramos diversas vezes, como vós, hoje, conscientemente também estais. Realmente avançais. Estais próximos de concluir uma etapa de vida de vossa célula e a uma nova etapa iniciardes. Os raios rompem sob a aurora de um novo dia! Agora já sois capazes de perceber o que antes vos foi misteriosamente oculto. Por isto sofreis repressões, assédios e revezes em escalas e proporções mais amplas do que antes. A bem dizer-vos, fostes agora apresentados às inteligências destrutivas, estando diante de uma de suas grandes articuladoras.
 
  O mal menor vos obrigou – e ainda vos obriga – a repartir-vos em porções do bem. Estas porções, exercitadas ao cabo de vários ciclos de vossa existência terrena, vos conduziram a edificardes um grande arcabouço, sob cuja proteção permanecestes nem sempre em paz. Agora o arcabouço veio fender-se em seu cimo, abrindo-se para valores mais absolutos e transcendentais. Irmãos aprendereis lições maiores –  sereis homens cósmicos!

  O que realizastes a nível de captação da energia negativa foi realmente pouco para a vastidão do planeta. E não poderíeis ter realizado mais. Superastes ainda assim marcas de passadas e vividas células. Vossa obediência aos Mestres Maiores vos conduziu a organização de vosso trabalho; o denodo e a consciência do dever a cumprir foram dignos de quem trabalha e busca sinceramente por uma realização. Mas esta realização é coletiva, bem sabeis, por isto vos lançais ao mundo, atrelando o corpo da célula ao vosso próprio corpo hierárquico, e trabalhais incansavelmente para todos. Sois dignos, ninguém na Terra é maior que vós!  

  Não vos preocupeis com o final destes acontecimentos, não temais. Dentro em pouco a guerra estará terminada. A destruição não se dará na escala que a Grande Face Negra contava. Na verdade, ela partirá da Terra decepcionada levando em sua bagagem o sentimento da derrota. Ainda assim, deixará uma nova herança de seu mal, o qual necessitou reimplantar no planeta para poder realizar futuras incursões. Trabalhareis contra as personificações deste mal; ajuntareis os pedaços destruídos por ele na expectativa de restaurardes o que foi rompido e de vós subtraído. Somente assim, no trato da reconstrução, que verdadeiramente ajudareis ao planeta, a vós próprios e a nossa Hierarquia que pela primeira vez convosco vem comunicar-se diretamente no mundo físico. Cumpri com dignidade vosso ciclo terreno nos séculos vindouros, assim colhereis maiores e mais significativos resultados rumo a vossa libertação. Adeus!”  

                                                                       EPÍLOGO

  Da janela do gabinete Sorman observava o pátio. Os escritórios tinham sido edificados ao redor. Estava calor, os termômetros acusavam quase quarenta graus. Ele via um de seus principais técnicos indo na direção oposta. Acompanhou-o durante alguns segundos, mas antes que desaparecesse sua atenção tornou-se volátil, deslizando para pensamentos administrativos.

  Dentro em pouco a sucursal completaria um ano de funcionamento. Muitos problemas advieram: mais do que verdadeiramente podiam esperar. Não tinham ainda conseguido colocar a produção nos trilhos; dificuldades existiam, principalmente nas organizações setoriais. O funcionamento da máquina era ainda limitado devido ao inadequado treinamento do pessoal. Era certa a reformulação de alguns planejamentos. Precisariam enviar funcionários e operários nativos a matriz a fim de realizarem cursos, corrigindo suas deficiências. Isto demandaria novos investimentos com o pessoal. Nenhuma das metas de produção e venda tinha sido alcançada. Pelo visto, não as alcançariam mesmo ao término dos doze meses. Precisavam saldar compromissos sérios e inadiáveis com bancos credores, órgãos financiadores e fornecedores. Havia impostos a recolher e uma série de outras despesas que não podiam deixar acumular. Não desejava pedir socorro a Eduardo. Pretendia sair-se bem da situação; afinal para cá viera justamente para isto. Deveria proporcionar às empresas mais do que a experiência, mas, principalmente, o triunfo!

  Neste ano de atividades paralelas – profissionais e espirituais – já tinha esboçado objetivamente planos de trabalho. Com Mendez e Garcia e mesmo Bruno, que aqui viera numa de suas viagens, discutira soluções de atendimento imediato às comunidades e bairros onde os irmãos viviam. Para esta concretização, necessitariam acionar certas fontes governamentais, alavancar poderes!  Via com nitidez a necessidade de formular um grande plano, onde os recursos modernos da vida material fossem aplicados nas áreas de moradia e atividades dos irmãos de célula, com sólidas realizações sócio-educativas e de saúde. Já pensara muitas vezes sobre isto. Faria parte deste extenso plano, ainda em germinal idéia, tornar inicialmente a sucursal produtiva, economicamente independente, desatrelada em pouco tempo dos empréstimos e onerosos financiamentos, livre das garantias patrimoniais dadas em vultosos contratos. A partir daí, liberto destas responsabilidades, criaria uma fundação assistencial com exclusivos recursos da empresa –  os quais se responsabilizaria em retornar –  sendo grande, abarcante, extensiva não somente aos irmãos de célula, mas a outros necessitados. Para isto trabalharia muito, duramente até. A fundação, administrada por ele, com o tempo teria autonomia, auto-suficiência. Asseguraria aos irmãos condições de alcançar meios condignos de vida; buscaria restaurar-lhes a perdida auto-estima, encaminhando-os para uma vida socialmente proveitosa.

  Este pensamento ia além; seria provavelmente ambicioso, cruzaria fronteiras. Conforme idealizara, a fundação possuiria ancoradouros noutros países onde a célula se ramificava. Teria unidades assistenciais – postos avançados – chefiados por irmãos iniciados, trabalhando sob instância superior única. Proveriam substancialmente as famílias: as amparariam como aqui!

  No tocante a alma, traria recursos sacerdotais da irmandade; estabeleceriam planejamentos extensivos a diversas correntes de cultos, com perfeito ecletismo e sem confusões. Este trabalho diria não ao sectarismo, sendo verdadeiramente liberto de ferrenhos dogmas, não violentando a vontade, mas, principalmente, ajudando a elevar almas, segundo características e tendências psicológicas da individualidade.

  Desta maneira o trabalho nos planos internos – que já comandava –  complementaria as bases erigidas no plano físico, na dura lida material, e vice-versa. Por alguns séculos ele e seus comandados se internariam nestes verdadeiros labirintos. Aqueles que tivessem alcançado níveis melhores nos últimos escalões e aqui permanecessem, não poderiam de forma alguma estancar a fim de não acontecer retroação. O trabalho na Terra precisaria continuar. Equipes mantenedoras do plano ficariam para acompanhar os irmãos.

  Ele e alguns abnegados partiriam em companhia dos estagnados. Sabia intuitivamente das condições extremamente difíceis e árduas, praticamente primitivas que noutro orbe encontrariam. Mas não se abalava, iria até o final, jamais desistiria da missão: séculos o aguardavam!


                                                                            - FIM -  

                                                                            Rayom Ra

Siga os links: Arca de Ouro: A Face Negra da Terra - Parte I
                          Arca de Ouro: A Face Negra da Terra - Parte II

Esse livro pode ser reproduzido, mas, por favor, anotem os créditos
          

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