terça-feira, 11 de agosto de 2015

A Face Negra da Terra - Parte I






            A FACE NEGRA

                DA TERRA



                                                                RAYOM RA


                                                 [ Direitos Reservados No 315.455 ]
                                   
                                                       
  Resolvi colocar no Arca de Ouro, tema após tema, embora numa ordem não exatamente sequenciada, assuntos relacionados que digam sobre a conjuntura ego-alma, e alguns de seus aspectos ocultos que os estudiosos que avançam  no autoconhecimento conhecem ou necessitam conhecer.

  Nos artigos do blog: o Antakarana (26-04-2015 [O Antakarana] A Descontrução do Ego (15-07-2015),[A Desconstrução do Ego], Enigma Eu (25-07-15)  [Enigma Eu] e por último A Face Negra da Terra, é possível encontrar quadros e relatos virtuais de inevitáveis provas a que um candidato pesquisador, estudioso e obreiro precisará passar

  Nesse critério, Enigma Eu insere um personagem peculiar cujas encarnações foram ricas em posições e contraposições, e ele agora volta a defrontar-se com seu carma de iniciado numa organização que, para alguns leitores, será somente fictícia. Quem leu o livro com certeza percebeu que a saga do personagem não terminaria simplesmente no capítulo final. Haveria muito mais a contar devido às situações por ele vividas estarem a sugerir uma continuação.

  A Face Negra da Terra é essa continuação, e penetra mais profundamente no âmbito da Fraternidade a que ele novamente passa a pertencer aqui na Terra, vindo conduzi-lo a um cenário ainda mais intrincado, tanto no conhecimento das estruturas atuais da Fraternidade quanto no seu processo histórico-iniciático.

   Certa vez li num artigo científico que os astrônomos descobriram uma nuvem escura, de uma energia extraordinariamente forte e desconhecida, que viajava em direção ao nosso sistema solar. E caso sua rota fosse confirmada poderia alcançar a Terra, provocando inúmeras desordens na vida planetária como provocaria desordens naquilo que encontrasse em sua trajetória, o que incluiria outros planetas. Portanto, os acontecimentos relatados nesse livro, embora possam também parecer excessivamente imaginativos, obtém das observações científicas algum respaldo numa possível ação destrutiva.

  Claro que a ciência não trabalha com a visão esotérica e nem com o conhecimento de mundos paralelos habitados. Muito menos acredita em forças invisíveis do bem e do mal. A ciência é basicamente instrumental, excessivamente objetiva, e não fora a moderna física vir projetar através do quantismo uma nova janela para uma visão mais subjetiva dos enigmas que permeiam a existência, sequer se falaria em dimensões como possibilidades mais do que prováveis.

  Enfim, ao místico, ao esotérico, ao estudioso das ciências ocultas, nada é de estranhar em termos de passado, presente e futuro, muito menos nos ciclos evolucionários que se cruzam em pontos estratégicos em diversas dimensões dentro ou fora do espaço-tempo, em que catástrofes são previsíveis apesar de toda a lida das avançadíssimas hierarquias regentes dos universos.

                                                                                                             Rayom Ra 

                                                                     CAPÍTULO I

                                                                   REVELAÇÕES

  Longe detrás de montanhas a claridade se anunciava. A face de todas as coisas coloria-se de esplendoroso rosa. A cada segundo a luz invadia; somente laivos em faixas arroxeadas insistiam em permanecer. Mas já ganhavam transparência e desapareciam. A alma do mundo não despertara ainda nesse lado do planeta. Forte energismo apagava das entranhas da atmosfera o aroma suave e quase imperceptível da madrugada. A mãe negra não deixara substância alguma; a hipnótica noite e o misterioso nada haviam partido como sempre. Rastro algum denotava agora a sempiterna presença de quem ou quê nascera antes mesmo da própria luz. Ela se consumira em si mesma, desaparecera, mas voltaria depois como sempre.

  O que existira naquelas vencidas horas: quantos fantasmas haviam saído de seus refúgios e livres tinham perambulado sobre a Terra; rituais malignos e sacrifícios sangrentos tivessem acontecido; gritos fossem ouvidos; intermináveis pesadelos torturassem – ninguém saberia dizer exatamente. Também de que maneira os semeadores das trevas - arquétipos invertidos, geniais inteligências com investiduras autoritárias, modeladores do pensamento noturno, das formas luciféricas, dos arremedos; prosélitos da involução, opositores da unidade, potestades dos mundos abissais -  houvessem passado de um meridiano a outro, continuando soturna e perenemente a opor-se e sustentar: homem algum conheceria!

  O sol já se debruçava. Neste momento o azul celeste era o único matiz que o céu mostrava. O vigor da tonificante essência das energias temperadas nos rarefeitos gases e substâncias etéricas, descia e penetrava a alma do mundo, retirando-a definitivamente da quase inércia. Ela se sacudia, se espreguiçava e de novo, à luz do dia, tomava seres e reinos: partes de si que lhe cabia mandar.

  Ao alto, na janela completamente aberta, a luz matinal vinha encontrar o corpo semi despido de Sorman. O ar fresco saturava; a madrugada fora mal dormida, e à medida que inspirava com ritmo, absorvendo a benfazeja energia, expulsando os espectrais demônios da noite, uma presença mais dinâmica outra vez entrava em seu corpo e alma. Com mãos apoiadas no peitoril, braços levemente dobrados, sustentando parte de seu peso, ele punha a cabeça para fora olhando o jardim, onde os holofotes espalhados pelos cantos do gramado e na parte frontal da casa, em meio às folhagens, permaneciam nessa hora acesos.

  Muito antes de o sol nascer o jovem já se sentara na beira da cama, tentando entender as imagens de seus sonhos. Havia muita coisa fechada em sua mente como concha sob águas. E não podendo abri-la, procurava convencer-se de que seria melhor assim; a concha podia ser uma caixa de pandora; então, aberta, o exporia aos maus agouros. Tratava-se de um subterfúgio, sabia perfeitamente disto, não conseguindo enganar-se!

  Ainda no curso do exercício respiratório, pousou o olhar inicialmente sobre as heras que escalavam o alto muro da propriedade, depois além, vendo alguns eucaliptos, mangueiras na casa vizinha e nada mais. Como se estivesse ao reconhecimento de um lugar jamais visto virou o rosto para a direita, vindo encontrar o alongamento do jardim, rente ao muro, em direção ao pátio do fundo. Pequenas arbústeas árvores, roseiras, buganvília, outras plantas e pés de flores se encarreiravam. Após a casa e o jardim, um amplo gramado envolvia a piscina, o poço artesiano, um cajueiro, um pé de mangueira, um alpendre e algumas palmeiras de média altura. Pelo meio da área, se destacava uma trilha de amplas lajotas de pedra sobre a qual pneus rolavam. Ao final de tudo ficava a outra casa e a garagem.

  Da janela ele não conseguia divisar o fundo, mas assim mesmo deitava os olhos como se nada conhecesse ou não soubesse o que existiria por lá. Na realidade, esses movimentos de olhos e cabeça eram parte de seu exercício matinal: a concentração estava atrelada ao ritmo respiratório; o olhar se distendia relaxadamente, vendo sem verdadeiramente ver. Dava à treinada mente a paz que ela necessitava possuir naquele instante.

  Voltando-se totalmente para a esquerda, ainda em estado mental adernado ao mundo, alçou olhar por dentre as folhagens de um pé de alfazema, e por sobre as telhas abauladas do alto muro frontal, alcançando o outro lado da rua. Nessa direção, somente partes dos telhados de casas nos arredores podiam ser vistas. A real intenção de alargamento visual e o rápido pranayama, que amiúde costumava fazer, ele os encerrou, segundos após, com sonoro bocejo. Então, com prolongado espreguiçar, levantou as mãos de sobre o parapeito, trazendo os braços para trás completamente abertos, a ponto de encostá-los nas aduelas da janela, voltando-se para o interior do quarto e vindo de novo sentar-se na cama. Mas logo se levantou e foi arcar-se sobre a mesa de cabeceira, tomando dali o cordão e o medalhão colocando-os no pescoço, indo até o armário de onde lançou mão de toalha azul, felpuda, dobrada sobre pequena pilha, abrindo-a, jogando-a num dos ombros e descendo.
     
  À agradável maciez da grama sob os pés descalços e o sol a banhar seu alto corpo, somava-se uma aragem com aroma de caju em meio ao rocio que desmaiava. Seriam pouco mais de seis horas nessa manhã de sexta feira, o dia raiava e ele já começava cedo a se movimentar.

  Largando a toalha sobre a borda azulejada da piscina, correu alguns passos, parou de súbito, contorceu o corpo e mergulhou ao melhor estilo de um malabarista, fechando n’água com estardalhaço. Após rápidas braçadas, chegava submerso junto aos degraus da escada, emergindo. Colocou então os pés num degrau, segurando-se nos corrimões, e elevou o tórax arremessando-se para trás, virando-se e nadando de um extremo ao outro da piscina. Voltando aos degraus, subiu-os e enquanto se dirigia à espreguiçadeira próximo dali, enxugava os negros cabelos, o rosto e o tórax, mas um fio da toalha emaranhara-se no elo que atava a jóia ao cordão e ele retirou o cordão por sobre a cabeça, sentando-se e ocupando-se em desembaraçar. Tendo terminado, largou a toalha em dobras sobre as coxas, recostando-se no espaldar da cadeira, pondo-se a examinar a belíssima peça de ouro. O medalhão mostrava intrincados e enigmáticos símbolos em ambas as faces. Quando nele se concentrava, estranhas energias se desencadeavam. Haveria manancial enorme de poderes sob a aura deste objeto - tinha esta premonição -  mas não ousaria testá-lo por mera curiosidade, muito menos por dúvida.

  Ao relembrar a cena passada na casa de Germano, numa dimensão distante deste ruidoso e proscênio mundo, seus olhos foram tomados por especial brilho. Agraciara-o com este presente, por certo imerecido, pois nada de mais fizera. Procurara unicamente vencer os obstáculos e liberar-se das provas – ou desafios – como ele gostava de dizer. Sem qualquer dúvida, mestre Germano fora bondoso e generoso!

  O calor daquela hora estava agradável; ele recolocou o cordão no pescoço, apoiou a cabeça, fechou os olhos e relaxou. Imagens ascenderam. Um belo e moreno rosto sorriu-lhe magnificamente, mostrando alvíssimos dentes. Era Lucéa.
  - Tão cedo e já de pé, que houve? ­­­­­­Sorman estremeceu. Vestindo camisola, Olga rapidamente se aproximava. Ao parar junto a ele, abaixou-se apoiando os joelhos na grama.  Em ato contínuo, elevou a mão sobre a cabeça molhada do filho e acariciou-a em suave gesto. - Teve insônia?  - a voz denotava carinho.
  - Dormi razoavelmente - respondeu amuado, virando ligeiramente o rosto para ela.
  - A água está fria? - ela disfarçou.
  - Mais ou menos - ele de novo fechou os olhos, voltando o rosto para a posição anterior. Olga admirou-o, retirando a mão de sua cabeça.  -  Estive pensando – ele recomeçou após segundos – vou descansar neste final de semana em nossa casa ao pé da serra.
  - Há algo de errado? - ela mostrava agora certa preocupação.
  - Nada que eu conscientemente saiba. Sinto vontade de sair da cidade, isolar-me um pouco. 
  Isolar-se era o que ele mais gostava, pensou Olga, olhando o medalhão, sobrevindo-lhe certa aversão. Por que usa esta coisa que lhe deram? O medalhão rebrilhava. Ela começou a sentir uma sensação de torpor: abria e fechava os olhos. Súbito tudo cessou. Sorman inconscientemente cobrira-o com a mão. Olga pôde então reagir.                                                                                                                           
    - Sorman, este medalhão, o que ele tem?
  - O medalhão? – ele viu-lhe a palidez do rosto.
  - Causou-me algo estranho ao observá-lo! Sorman retirou o cordão do pescoço, escondendo-o dentro da mão, sentando-se e sorrindo, como Olga gostava de vê-lo.
  - Esqueça o medalhão. O café já está pronto? 
  - Ainda não, vou começar a prepará-lo. É cedo, a empregada nem ao menos acordou! – respondeu entre confusa e meio atordoada.
  - Não tem importância, perguntei somente por perguntar. Meu pai já acordou?
  - Deixei-o dormindo, não creio que se tenha levantado. Olga não estava à vontade, pressentia que alguma coisa novamente aconteceria com Sorman. Sobre as loucuras do passado não mais cogitava; não acreditava que ele buscasse novas aventuras como aquela em que vivera por três anos num ashram. 
  - Tem certeza de que deseja ir só? - perguntou após essas reflexões, voltando ao assunto da viagem.
  - Ao pé da serra? Oh, sim, naturalmente, eu preciso! – ele sentiu-lhe a inquietação – não se preocupe, não é nada de grave, a atmosfera do lugar me é benfazeja, lá me inspiro, compreende?
      
  Não, evidentemente. Olga não o compreendia; nesses momentos ele era-lhe completamente estranho. Sorman levantou-se, jogando a toalha às costas.  Ela o acompanhou levantando-se também. Com gesto carinhoso ele pousou o braço sobre seus ombros, levando-a em direção da casa, conversando assuntos triviais.

  Naquele dia não fora o rosto de Lucéa que em si permanecera. Deixara-a na piscina. O que lhe vinha insistentemente era a figura de Anita. Entre uma e outra ocupação ela surgia-lhe. Em duas ocasiões, Anita esteve ligada a outras imagens e viu-se junto a ela, em lugar distante, falando-lhe. Era tudo estranho, fugidio, sem consistência, e nada podia definir ou discernir objetivamente.

                                                                         o     o     o

  A velha casa em nada mudara. O bairro inteiro continuava o mesmo. O tempo ali quase estancara. Sorman desceu do carro atravessando a rua. Na medida em que andava sentia um aperto no coração e recordações voltavam. A beleza de Anita: a alta estatura, a pele clara, o olhar inteligente de percepção intuitiva, o ashram! Estas coisas envolviam-no, pretendiam arrastá-lo de volta ao passado, despertar emoções adormecidas. Ele não permitiu: senhor de si, ordenou-lhes cessar, e como um mar que sossega e as ondas perdem a força, venceu-as. Sobrara-lhe, no entanto, o sentimento, a memória! Anita amara-o verdadeiramente. Não pudera seguir com ela, sabia muito bem disto. A insólita vida, a identidade que buscava, o sofrimento incomum incompreendido pelo mundo - tudo isto o impedira de amá-la livremente, como ela merecia. Fora escravo de si próprio, e Anita entendeu. A dor é duas vezes cruel: apunhala o imo e torna a alma enredada em si mesma. O mundo inteiro é infeliz; a alma dilacerada não enxerga a vida subjetiva; a beleza não a seduz, ela está anestesiada. Aos homens o que é humano: o egoísmo da dor!

  Chegando ao portão, hesitou. Olhou novamente para a casa. O que lhe diria? Voltara para pedir-lhe perdão, reatar o que se tornara impossível? Na verdade, nem mesmo sabia por que estava aqui. Por seis anos suas vidas haviam tomado diferentes rumos. Decidido, enfim, apertou a campainha. A porta se abriu, a figura de uma mulher clara apareceu. Sorman a reconheceu. Ela saiu à varanda mirando-o surpresa.
  - Boa tarde, senhora, como está?
  - O que deseja? - ela perguntou secamente, parando na soleira de mármore diante do degrau.
  - Sou Sorman, lembra-se de mim?
  - Lembro perfeitamente.
  - Eu... - ele hesitou ante a indiferença da mulher – gostaria de falar com Anita.
  - Ela não voltou do trabalho, deve chegar tarde.
  Sorman olhou-a com mais atenção, notando-lhe a mesma antipatia que lhe endereçara noutros tempos. Ela nunca o aceitara, não aprovara seu relacionamento com Anita, muito menos a fuga da filha com ele para o ashram. Na verdade, sempre o detestara. 
  - Vovó, quem está ai?
  Surge à porta um menino loiro, de olhos verdes, que teria quatro anos de idade. Ao ver Sorman corre para detrás da avó. Ela segura-o pelo braço, o conduz de volta para a porta, mandando-o aguardar dentro da casa. Fecha a porta e retorna ao mesmo lugar.
  - É o filho de Anita - diz com sabor cáustico, mostrando malicioso brilho nos olhos.
  A porta se entreabre, o menino de novo aparece a princípio se espremendo, tímido, depois se enfiando por inteiro, e corre para a avó. Ela não se incomoda desta vez; segura-lhe a mão estendida, voltando a mirar Sorman. O rosto estampa mistura de ironia, sadismo e ar de vitória: um sorriso imperceptível se desenha nos seus lábios.
  Sorman trouxe a mão suavemente em direção ao queixo, alisando-o, mirando o chão. Na verdade surpreendia-se por não experimentar qualquer reação pela notícia. Foi rápida a reflexão, logo retomando:
  - Bem, uma vez que Anita não está devo ir-me. Talvez a veja oportunamente. Boa tarde!
  O silêncio seguiu-se às palavras; ele girou nos calcanhares e atravessou a rua. Ao abrir a porta do carro lançou rápido olhar para a casa, mas não os viu mais.
                                          
            o     o     o

   O carro deslizava no asfalto. O panorama rapidamente mudava. De vez em quando uma fazendola: animais pastavam; um pontilhão unia margens; morros entrecortavam o horizonte. Adiante, o céu mais amplo. A atmosfera refrescava; o cheiro do mato começava impregnar. Sorman recomeçava a sentir a natureza que o crescimento das cidades destruíra, mas só parcialmente. Seu ego se dividia: parte da mente comandava os mecânicos e instintivos movimentos e principais reflexos; outra parte trazia-lhe considerações e análises. Sobrava pouco para a alma alargar sua ação inclusiva – natural e orgânica –  e sintonizar-se livremente com os elementos de vida universal!

  A luz declinava. A mescla de cores dos efeitos físicos da refração dos raios no pôr do sol mostrava-se ao longe, acima do horizonte. Uma perceptível preguiça se arrastava impregnando todas as coisas que já empalideciam. O fino ar era também veículo de pré-mensagem, a dizer que dentro em pouco a sonolência abraçaria. No céu, pássaros se lançavam em derradeiros vôos, rumando para os ninhos ou refúgios. A terra abria o seio para receber o pouso do orvalho, exalando ao odor do mato e dos percevejos.

  Uma ponta de tristeza veio tocar a alma e um desânimo roçou-lhe as emoções, oprimindo-o diante do agonizante quadro do entardecer. Era algo como um gosto de morte: um choro calado, uma sensação indefinível que retornava matando um pouco todas as tardes – um punhal que enterravam vagarosamente, mas sempre! Ele suspirou. Imediatamente a explosão de forte buzina assustou-o. Pelo retrovisor, viu um carro negro anunciando a ultrapassagem. Aprumando seu carro deixou o outro prosseguir. O susto fizera-o reagir, tornando-o a partir dali mais presente, afastando aquela nuvem melancólica e desanimadora.

  “Quando parcialmente abre-se o leque, a visão unilateral entrevê um arco. Isto vem demonstrar aos olhos, que por detrás de uma forma estática escondem-se outros vislumbres antes não percebidos. Sucessivas impressões vêm trazer à mente nuances que virão se afirmar à medida que nelas se fixe a atenção. Um arco pode ter dez, doze, noventa raios; isto dependerá das circunstâncias da própria vida. Não queira o iniciado percorrê-los com os olhos sem deles compreender.  É sensato e sábio conhecer a sua real expressão. Um raio somente e a cada vez é suficiente ao iniciado para dele poder aprender e realizar. Depois passará ao outro, mais tarde ao outro, até completar o conhecimento daquele arco. Então o leque novamente se fecha, volta a visão unilateral da forma estática; unicamente a solitária sombra se dobrará ante a luz do astro rei, como se deita a sombra de um mastro inerte. Neste momento, não há nada a fazer senão aguardar: a primeira parte do caminho foi trilhada.  Esteja atento, andarilho, quando o leque se mostrar, vendo nele o caminho real!”

 Estas palavras soavam-lhe na mente ao abrir os olhos. O dia mal clareava, ele se levantou sonolento. Após lavar o rosto, andou até a sala, sentando-se no sofá; uma sensação de irrealidade o acompanhava e decidiu sair. Ao abrir a porta, passando à varanda em direção ao fundo, o ar fresco tocou-o, causando-lhe arrepios, mas nada mudara em si: olhava o céu e pisava a umedecida grama, sem saber exatamente por que fazia isto.
    
Neste momento, a coloração dos raios solares tingia o espaço ao qual mirava; as formas de luzes conformavam uma espécie de leque. Com o olhar um tanto perdido no vazio, tentava fixar-se naquela aparência: mal conseguia, estava ébrio, e palavras novamente vieram-lhe: 

  “Veja como o arco deste leque aparenta ser efêmero. Mas ele vive momentos reais, embora breves e derradeiros. Nasce  para  logo morrer  e  se você não o observar neste instante não mais o verá. Eis como se definem os momentos de glória de um iniciado. O sol é perene, o leque é passageiro; conheça-o antes dele morrer, e quando ele morrer viva-o mil vezes dentro de você. Somente assim ele terá vida eterna. O sol amanhã esplenderá novamente, como sempre, porém o leque de seus efeitos será outro e para outros!"
                                                                       o     o   o   

   -Sorman, que bom revê-lo!
  Lucéa sabia do indescritível fascínio de seu sorriso. Vestia longo e leve tecido estampado de minúsculas flores; tinha os cabelos soltos tocando os ombros; sua figura realçava-se justamente por esta simplicidade. Estava encantadora.
  - Irmão Sorman, que prazer!

  Sorman, à porta, voltou o rosto para o lado da varanda em cujo ângulo surgia Bruno, trazendo às mãos jornal entreaberto, olhando-o por cima dos pequenos óculos sem aros. Sorrindo, largou o jornal, estreitando-o num forte abraço. Diante dessa recepção, o jovem, tímido, não sabia o que dizer; tateava as palavras, olhando ora para a moça ora para seu pai. 
  - Tudo bem com vocês? Como vão todos?
  - Bem – respondeu Lucéa com meio sorriso – já estávamos achando que nos esquecera.
  - Imagine - disse ainda tímido.
  - Vamos entrar! - falou de súbito Bruno com voz grave, mas bem modulada, enquanto retirava os óculos de sobre o nariz, enfiava-os no bolso da camisa, e jogava um braço suavemente aos ombros de Sorman, pisando a soleira da porta, após Lucéa ter-se afastado. Nem bem haviam se sentado nas poltronas de centro, surge na sala Lucen, dirigindo ao visitante palavras semelhantes de há pouco, ditas por sua irmã. Levantando-se ele a cumprimentou, beijando-a nas faces. Bruno não se tomou de delongas, logo começando enfaticamente, como lhe era peculiar:



  - Sorman, caro irmão, está chegando a hora de aprofundar-se em nossa organização. Diria melhor: assumir o seu posto!

  - Como assim? - indagou surpreso.

  - Suas faculdades psíquicas já lhe mostraram que acima da vida terrena de nossa organização existe um mundo interligado com aquilo que aqui realizamos, ou pretendemos ainda mais realizar, não é assim? – Sorman, curioso, acenou afirmativamente. Bruno prosseguiu – muitas coisas que você experimentou nas dimensões superiores permanecem apagadas em sua memória terrena. Porém, dependendo de sua trajetória na irmandade, esses registros aos poucos poderão ser acordados. Então, imagens inteiras, em sequências, se mostrarão na tela de sua mente física, ativando-lhe o mecanismo da memória consciente.


  A finalidade principal delas chegarem à essa percepção, será de que melhor aproveite os ensinamentos em função do que estiver realizando nos inevitáveis confrontos com o mundo, quando os mais diversos choques de forças redundarão sempre em novas lutas. Mas não serão, evidentemente, as mesmas situações já acontecidas até aqui. Principalmente por que, ao nível evolutivo em que nos encontramos nesse momento cíclico planetário e do próprio sistema solar, a vida aqui embaixo para nossos egos é mais rica em oposições. A todo o momento nossas estruturas ego-alma se vêem provadas. A vontade e a determinação de cada um já devem estar muito bem alicerçadas, do contrário o edifício ruirá: não há como escapar disto. Paralelamente, as obras realizadas na Terra precisarão crescer a fim de proporcionar ao semeador a boa e abundante colheita, justificando em si as verdades contidas em sua própria mente. É necessário pôr em movimento as forças descendentes, condensá-las, apropriá-las e distribuí-las.

    Nesse caminho, no curso dessas orientações, o obreiro terá os seus experimentos, dando o seu toque pessoal, fazendo-se às vezes artesão para retirar a canga e lapidar a forma densa. Conquanto no labor, atestará que as forças não sublimáveis – das asas do sentido inverso, que antes mesmo dos primórdios da criação de nossa humanidade já se organizavam em permanente redemoinho, tragando o que nelas se precipitava, lançando tudo nas profundidades de sua larga e negra dimensão – são forças muitas vezes chamadas satânicas. 

    Em realidade, nada mais são senão um ponto referencial do cosmos na sua polaridade negativa, onde o Criador teve de ancorar-se para Sua explosão criativa e não mais além. Essa imensa faixa negra envolvendo o círculo da grande e permeável capa de todas as coisas criadas, como o exemplo de nosso sistema solar, resiste à pressão para fora criando campos de forças e esferas chamadas planetas, ali sedimentando base operativa, fazendo surgir condições ambíguas. Em outras palavras: as mesmas leis permeantes da grande expansão do universo, que provocam o aparecimento de abismos monumentais e campos de forças de altíssimas e inimagináveis voltagens, podendo dizimar qualquer matéria condensada ou mesmo vir a destruir tudo o que anteriormente fora construído, se materializam parcialmente em torno de um campo magnético de energia condensada na forma de planeta e ali permanecem atuando. Essas forças satânicas das religiões, por atração simples e pura, abrangem unidades afins, as personalizam segundo o próprio alento ou Fiat Criador – mas inversamente à Sua Imagem – expandem-se e se propagam. Dessa maneira, por meio da afinidade direta embora inversa, surgem os espíritos naturais revestidos de inteligências na polaridade negativa.

  - Pelo que você me diz, concluo que terei de me defrontar, sempre, com o Grande Negativo? - inferiu Sorman, aproveitando-se de pausa feita por Bruno.
  - O Grande Negativo! – repetiu seu anfitrião, exalando ar como a suspirar – na verdade, todas as coisas deste mundo estão voltadas para ele, tendo em si metade de sua essência. O enigma está em como detê-lo na sua integral ação, mantendo-o à distância, e ainda assim conservar o equilíbrio das polaridades. A esse equilíbrio, o reverendíssimo Buda se referia como ao trilhar mentalmente o “caminho do meio”. Entretanto, a cada um o seu destino, a sua missão. Se pouco ou nada exigirmos de nossos opositores, teremos certa tranquilidade na caminhada e essa será relativamente improdutiva e mais longa. Não obstante, se os aborrecermos com incursões aos seus domínios, e ainda ajudarmos a libertar de seu jugo escravizadas mentes, então despertaremos sua perene ira e eles decretarão contra nós incansável guerra, sem tréguas, que somente terminará quando nos jogar por terra, se assim conseguirem. Mas convenhamos, na maioria das vezes eles vencem. Por isso, o procedente alerta do iluminado pregador: “cingi vossos rins com a verdade!”, por que perenemente ali, nesses sensíveis centros, em torno dos quais se enfeixam plexos condutores de energias de ambas as polaridades, eles nos golpearão.

  As palavras daquele inteligente homem eram verdadeiras, Sorman olhava o negro rosto com atenção; ele continuou:
  - Muitos tentam tomadas de posição investindo contra os poderes luciféricos. Mas não tendo arregimentado suficiente força de imprescindível qualidade, invariavelmente veem-se arrastados por “suas” artimanhas nas lutas contra os apegos e ilusões do mundo.  É necessário saber-se como lutar contra esses ferrenhos adversários, quais armas brandir, como escudar-se. Muitas seitas imaginam vencer batalhas, entretanto, o que se comprova, em realidade, é justamente estar sedimentando cada vez mais elementos negativos, assim fortalecendo-os. A mente é díspar, dual; é vida e morte. Alguém pode decretar-lhe a morte espiritual, mas, em contrapartida, nela viver realizando obras para o mundo, ainda que infrutíferas e áridas para o espírito. E o negativo estará se deleitando com estes enganos: ele mesmo induz mentes para isto realizar! É preciso, pois, saber discernir a mente terrena como instrumento de vida condicionante ou como forma de vida redentora. É espírito x matéria, positivo x negativo. Mesmo grandes filósofos, segundo o mundo, ou homens dotados de conhecimentos mágicos, poderão estar inflexivelmente dominados pela ilusão, pensando realizar obras de libertação

O deleite do conhecimento por loquazes retóricos, ou o encantamento de espíritos elementais por magistas e magos, exemplificando, os estarão induzindo para mais próximo de serem manietados e aprisionados do que libertos. E por quê? Volto, pois, a Buda, e da necessidade de se libertar dos apegos, quaisquer que sejam. Acaso todo o teórico intelectualmente preparado, terá humildade diante daquilo que ensina? Viverá os ensinamentos em si com a mesma determinação que utiliza para esquadrinhar os parágrafos das obras pesquisadas, a fim de estar se equipando com argumentos com que esgrimirá elegantemente em seus filosóficos debates? E desprezará intimamente as homenagens feitas à sua personalidade por admiradores ou seguidores? Diga alguém a um homem desses que aquilo por ele ensinado não tem valor algum, e por sua imediata reação, ou mesmo através do seu silêncio, saber-se-á de sua ira ou benevolência, de sua compreensão ou autoestima, a menos que esconda as reações por algum código ético.

  Por outro lado, o praticante de artes mágicas, profundo conhecedor de rituais ou causador de fenômenos de encantamentos naturais – a par de saber também manipular com as diversas tendências da magia – será, este,  senhor e dono de seus atos? Saberá, exatamente, a conseqüência do que realiza? Terá aprendido a desapegar-se, a viver perfeitamente alheio aos resultados de seu trabalho, sem orgulho? Muitos trazem suas contexturas espirituais amplamente mergulhadas em átomos saturados da energia elemental. Estruturalmente respondem a todo instante aos estímulos das paixões astrais. Envolvidos estão por correntes diversas de teor mágico, vivendo e respirando minuto a minuto do que construíram ou atraíram para suas personalidades.

  Porém, quem consegue difíceis vitórias sobre si próprio é o grande vencedor – de novo cito outra máxima do venerável Buda – por que o vencedor a quem Ele se referiu, este, na realidade, foi quem viveu, deslindou e venceu aos enigmas da verdadeira vida. Mas essas vitórias arrancam lágrimas, às vezes sangue de seu postulante. Há ocasiões em que um sábio das ciências ocultas precisa vir ao mundo despojado de sua sabedoria, adaptando-se a humildes situações a fim de trabalhar uma única qualidade o tempo todo, até detê-la e dominá-la perfeitamente. É desalentador, alguns acharão, por que após tantos séculos adquirindo maestria naquelas ciências, não poderá uma alma, numa determinada vida, ou noutras vidas mais, dispor delas. Porém, este fato não é visto assim negativamente pelo espírito, ao contrário, sendo sempre para si alentador. É a senda da libertação, a partir desse ponto, nesse hipotético caso, começando ou continuando a ser trilhada. E o homem não deve ter perturbada sua atenção ao objetivo. Pois uma vida decorrente na Terra por algumas dezenas de anos, sob os olhos do espírito, representa somente uma página a mais do seu Livro do Destino.

  Eis porque, caro irmão, não podemos aceitar em nossa organização qualquer pessoa. Mesmo aos irmãos já iniciados no passado é necessário submetê-los a muitos testes. Os mais determinados galgam rapidamente postos: assumem novas posições. O mundo tem inúmeras seduções e pode um irmão graduado não se ter ainda moldado completamente ao sofrimento ou não haver desprezado nesta vida, tanto quanto necessário, aos apelos da ilusão. Assim não poderá ocupar ainda cargo de maior responsabilidade.
  - Quantos contam atualmente aqui na organização? - atalhou Sorman.
  - Duzentos e noventa e nove, exatamente.
  - É todo o corpo!?  - exclamou interrogativamente com visível decepção.
  - Evidentemente, não. Contamos muitos milhares, ou seja, um milhão, trezentos e sessenta irmãos viventes nos dois planos de vida planetária. Fisicamente, sobre a Terra, somos quinhentos e cinquenta e oito mil!
  - Oh, são muitos! - exclamou desta vez com real surpresa. Bruno sorriu, continuando:
  - Destes, duzentos e noventa e nove mil novecentos e noventa e nove – cifra esta curiosa pelo último levantamento – trabalham conscientes de pertencer à Fraternidade Irmãos Atlantes, estando espalhados em vários continentes do planeta. Alguns são adeptos de religiões ou seitas; a par disto, reúnem-se periodicamente em pequenos núcleos ou templos, nos seus respectivos países, em locais a salvo de especulações fanáticas. Ali prestam contas dos serviços recebendo novas ordens ou tarefas, ou participam de rituais. Os duzentos e cinquenta e oito mil e um restantes estão pelo mundo, vivendo inconscientes de pertencer a esta grande irmandade. São, porém, vigiados de perto, segundo a importância de seus cargos entre os homens. Alguns desempenham papéis políticos nos seus países, tendo destaque no cenário internacional. Os irmãos cujas consciências acham-se nos planos superiores, desligadas, portanto, das injunções do mundo físico, contam, pois, oitocentos e dois mil, e por lá trabalham intensamente.

  - Pelo visto poderei ser de número trezentos neste núcleo? - observou Sorman sorrindo.
  - Mais do que isto. Esse fato traduz uma dupla acepção no fator matemático da organização; é na verdade cifra premonitória. De acordo com nossas revelações, um grande iniciado assumiria posição estratégica na irmandade, cujo número viria repercutir pelos quatro cantos do mundo: esse número é exatamente trezentos! - informou Bruno com a mesma característica ênfase, olhando-o nos olhos.

  - Trezentos aqui, trezentos mil no planeta - confirmou Sorman, desta vez olhando Lucéa sentada à sua direita, calada e atenta, tanto quanto a irmã ao seu lado.
  -  É verdade, Sorman - retomou Bruno. Sorman levantou ligeiramente o olhar para a esquerda, pousando-o novamente no rosto negro. 
  - Eis por que estou aqui a exortá-lo a conhecer melhor nossa organização e assumir desde logo importrante posto, deixando de ser um a mais dos irmãos inconscientes de suas ligações com a irmandade.

  - Estarei realmente preparado? - havia evidente hesitação nestas palavras.

  - Você já provou ao que veio. Suas extraordinárias passagens pelos planos foram por demais concludentes a todos nós. Já nos deixou confiantes da capacidade e lealdade ao espírito. Resta tão somente começar a agir, apropriar-se do conhecimento estratégico da irmandade, dominá-lo e realizar. Sem medo de errar posso afirmar que sua presença aqui, traz o início de nova fase na vida terrena e espiritual da irmandade. 

  Sorman olhou para o assoalho visivelmente embaraçado; eram muitos os elogios que sinceramente os julgava imerecidos. Pretendeu avaliar a responsabilidade. Pensava em como dividir o tempo e conciliar o trabalho na empresa com a desconhecida atividade proposta nesta organização. Bruno percebendo a dimensão desta luta retomou:
  - Não creia, irmão Sorman, que seus interesses materiais estarão permanentemente relegados a plano secundário. Em ocasiões, sim. Mas logo adiante verá que aquilo subordinado aos interesses prioritários da irmandade não sofrerá dano algum no seu andamento, nem qualquer prejuízo. Ao contrário, após a atenção dispensada à organização, os negócios fluirão melhor, mais insuflados. Até mesmo os problemas pessoais ou familiares tomarão inesperados e mais favoráveis rumos!  Sorman sorriu aliviado. Era mais do que esperava ouvir. Seu rosto denotava agora ar confiante.
  - Não há mais nada a pensar face as suas últimas palavras, Bruno. Pelo que sinto intimamente por sua pessoa, aceito integrar a irmandade como proposto. Serei o número trezentos, também o trezentos mil!
  - Bravos! - Bruno riu largamente, mostrando os alvíssimos e fortes dentes; levantou-se e estendeu-lhe a mão. Sorman pôs-se imediatamente de pé recebendo o cumprimento. Lucéa, em seguida, abraçou-o fortemente, colando seu corpo contra o dele, beijando-o nas faces, o mesmo fazendo Lucen. Sorman ficou feliz!


                                                                     o     o     o
                                                               
  - Onde vamos? - inquiriu o jovem.
  - À Casa Rosa - respondeu Bruno, enquanto subia no jipe estacionado junto a casa, na via de paralelepípedos.

   A conversa, de mais de uma hora, fora algo fantástico. Sorman sentia-se um tanto irreal, parecia não pisar verdadeiramente o chão, entretanto, não digerira ainda as informações passadas por Bruno. Decorridos os momentos alegres, de certa maneira emotivos, começava agora ter breves reflexões acerca da responsabilidade assumida. Daqui para adiante, sem dúvida, sua vida seria outra, mas isto não significaria perder a liberdade e o livre-arbítrio que tanto prezava, do qual jamais antes abrira mão?  Esta possibilidade vinha causar-lhe pequena tensão, não desejando admitir o imperativo. Ademais, faria solene juramento de lealdade e serviço, dissera Bruno nos efusivos momentos logo após os cumprimentos. Esse fato vinha trazer-lhe também outro tipo de preocupação; talvez implicasse em jamais poder se desligar da irmandade, se dela resolvesse sair. Lembrava não ter conseguido ficar no ashram por mais de três anos; algo trabalhara seu íntimo e não desejava nesta fraternidade ter crises semelhantes.  Mas se não gostasse?

  Enquanto o jipe fazia o trajeto, Bruno falava superficialmente de alguns planos que desejava concretizar na organização. Esses planos, não só abrangeriam o país como também o mundo. Sorman ouvia tudo silenciosamente, preferindo nada comentar enquanto não houvesse desanuviado as sombras que pairavam sobre seus pensamentos e não conhecesse alguma coisa concreta da organização.  Na realidade, detinha agora muitas dúvidas.
  Em determinado instante do percurso, veio-lhes ao encontro Deucalião, correndo e latindo. O belo cão parou adiante do jipe, obrigando Bruno a frear. Tão logo freou, Deucalião pulou para trás do veículo, agitadamente, pousando as patas nos ombros do dono, lambendo-lhe a cabeça.

- Eia, está bem, Deucalião, sossegue! - Bruno ria enquanto ralhava; o cão o soltou procurando aninhar-se no banco.
  Em chegando à Casa Rosa adentraram. Bruno abriu as janelas e se encaminharam para a biblioteca. Uma vez lá, Bruno entrou em pequena sala contígua, cuja porta aberta tinha cortinas estampadas, logo voltando com alguns compridos rolos de papel, depositando-os sobre o grosso vidro da bela mesa. Sorman aproximou-se curioso; Bruno começou a desenrolar um deles.

  - O que você aqui vê é o organograma da organização no mundo, ou seja, em quais países temos representantes. Observe. No centro está nosso país, representado neste retângulo por uma serpente naja branca. Os números existentes na primeira linha de cada uma destas casas, sob os nomes dos países, referem-se aos irmãos iniciados em atividade. Em segunda referência, em parêntesis, estão cifras identificando irmãos inconscientes da existência da irmandade, porém vigiados nas suas atividades.

  Sorman observava o documento com todo o cuidado enquanto Bruno abria outro, imenso.
  - Este enorme organograma dá os nomes de cada um dos irmãos a quem foi delegado poderes representativos na organização em todo o mundo. São os chamados Mestres Terra. Sob seus comandos, centenas de trabalhadores movimentam a organização dia e noite. É fácil notar que em seus países os Mestres Terra têm sob suas responsabilidades outros mestres menores. Há dentre os últimos, e nos seus respectivos escalões, autoridades governamentais, científicas e religiosas de diversas denominações.
  - E eles todos se conhecem?
  - Há reuniões locais, regionais, continentais e mundiais. As ordinárias locais e regionais, de maneira geral, são organizadas nos diversos e respectivos núcleos pelos mestres menores, ordenanças ou auxiliares diretos destes. As convocações de reuniões extraordinárias, de âmbito internacional, de escalões de mestres, são feitas do alto comando, diretamente por mim. Há uma combinação de códigos estabelecidos entre os delegados identificando locais, datas, horários e assuntos a tratar, passando de uns para outros dos participantes, a fim de que as devidas providências sejam tomadas nas urgências requeridas.

  Sorman desviou os olhos do documento mirando Bruno com admiração. Este fingiu nada perceber, pondo de lado aquele documento, tomando o terceiro e último deles.
  - Este é o principal organograma geral da organização. Nele você tem a visão global da hierarquia da irmandade respeitante aos cargos e suas abrangências.

  Sorman então o examinou admirando-se. Esse último documento estabelecia um comando principal sob a denominação de Irmão Supremo. Assessorando-o havia dois cargos ocupados por um Primeiro Ministro e um Segundo Ministro. Em comunicação direta com o comando principal, mas subordinado a esse, havia um Superior Mestre Terra, comandando oito departamentos, ocupados respectivamente por oito Mestres Terra, ou seja, Primeiro Mestre Terra, Segundo Mestre Terra, Terceiro Mestre Terra, etc. Cada um desses Mestres Terra cuidava de países nos diversos continentes, distribuídos sob administração de seus respectivos departamentos. O primeiro desses departamentos, o do Primeiro Mestre Terra, por exemplo, sob as ordens do Primeiro Mestre Menor do Primeiro Mestre Terra, cuidaria de país ou países que estavam sob a supervisão de diversos ordenanças, tais como: l. Primeiro Ordenança do Primeiro Mestre Menor do Primeiro Mestre Terra. 2. Segundo Ordenança do Primeiro Mestre Menor do Primeiro Mestre Terra. 3. Terceiro Ordenança do Primeiro Mestre Menor do Primeiro Mestre, etc, realizando, esses ordenanças, funções as mais diversas, tendo tantos auxiliares quantos fossem necessários.

     O segundo departamento do Primeiro Mestre Terra era ocupado por um Segundo Mestre Menor do Primeiro Mestre Terra, cuidando de país ou países sob a supervisão dos vários ordenanças chamados: 1. Primeiro Ordenança do Segundo Mestre Menor do Primeiro Mestre Terra.  2. Segundo Ordenança do Segundo Mestre Menor do Primeiro Mestre Terra. 3. Terceiro Ordenança do Segundo Mestre Menor do Primeiro Mestre Terra, etc., realizando, esses ordenanças, funções as mais diversas, tendo tantos auxiliares quantos fossem necessários. E assim se seguia até o último departamento do Primeiro Mestre Terra.

     Em linha com o Primeiro Mestre Terra, estava o Segundo Mestre Terra, com idênticas atribuições, tendo também sob suas ordens departamentos. O primeiro desses departamentos era ocupado pelo Primeiro Mestre Menor do Segundo Mestre Terra, cuidando de país ou países supervisionados pelos ordenanças: 1.Primeiro Ordenança do Primeiro Mestre Menor do Segundo Mestre Terra. 2.Segundo Ordenança do Primeiro Mestre Menor do Segundo Mestre Terra. 3.Terceiro Ordenança do Primeiro Mestre Menor do Segundo Mestre Terra etc., realizando, esses ordenanças, funções as mais diversas, tendo tantos auxiliares quantos fossem necessários. O segundo desses departamentos era ocupado pelo Segundo Mestre Menor do Segundo Mestre Terra, cuidando de países supervisionados por ordenanças: 1.Primeiro Ordenança do Segundo Mestre Menor do Segundo Mestre Terra. 2.Segundo Ordenança do Segundo Mestre Menor do Segundo Mestre Terra. 3. Terceiro Ordenança do Segundo Mestre Menor do Segundo Mestre Terra, etc., realizando, esses ordenanças, funções as mais diversas, tendo tantos auxiliares quantos fossem necessários. E assim se seguiam as funções dentro desse organograma amplo da hierarquia Irmãos Atlantes.

  No trajeto de retorno Sorman permanecia taciturno. Ainda refletia acerca dos acontecimentos dessa manhã. Tal era o seu estado mental que somente foi se aperceber do mundo exterior quando Bruno estacionou o jipe à margem da estrada, sobre área gramada limítrofe à cerrada vegetação. Apearam. Deucalião pulou atravessando a folhagem miúda de uma trepadeira espalhada como cortina. Dentro da mata latiu, provocou o ruído de galhos e espantou os pássaros.
  Sorman, pela primeira vez, reparou na presença do Sol e na resposta da natureza. O chão, por onde vinham cursando, pareceu-lhe mais vivo sob a luz clara; notava nele qualquer coisa como um movimento respiratório – sutil, mas perceptível. O ar era fino, embora proporcionasse uma sensação de vigor e um frescor se transmitisse pela atmosfera. As folhas de todas as plantas, e as próprias plantas, também oscilavam cheias de vida. Algo passou diante de seus olhos como um corisco, deixando-lhe na retina uma imagem branca, indefinida: ele teve ligeiro estremecimento. Em seguida, aconteceu novamente e uma terceira vez. Ele procurou acompanhar a direção daquilo; tentou seguir o seu rastro, mas deu em nada; esbarrou o olhar nos galhos de uma árvore, ali ficando. O chão começara a tremer – ou o seu corpo tremia – não sabia ao certo, e olhou na direção de Bruno como a tentar questioná-lo.
  - Estamos nas proximidades de um local importante, sob o ângulo de polaridades de forças planetárias e cósmicas –começou Bruno tranquilamente, ignorando a possível aflição de Sorman – aqui já se podem perceber reflexos de energias etéreo-físicas projetando-se num ponto focal não visto deste lado. Cortando a mata por aquele caminho – ele apontou para adiante, onde estreita trilha iniciava – iremos chegar ao pé de pequena montanha, cuja aparência é comum. Todavia, no seu interior, sob a terra, há minerais que reagem e vibram ao serem atravessados pelos raios enfeixados e que penetram para a profundidade, atraídos para o centro do planeta. Dessa reação, espraiam fragmentos da energia em derredor, ocasionando o surgimento de um campo de forças. Outros raios partem o tempo todo do interior do planeta para o cosmos. A dimensão e os efeitos deste campo de força têm, respectivamente, um determinado comprimento e qualidade no mundo físico. Nos impactos sobre as formas da natureza do plano etérico, os efeitos apresentam outra qualidade de um teor comumente não imaginado.
  - Então devido a isso tive a sensação de um abalo ao observar certo movimento rítmico na natureza, a par de ver formas passarem diante de meus olhos com incrível velocidade! - Sorman concluía isto com certo alívio.
  - Exatamente. Nada absolutamente enigmático ou misterioso para o iniciado. Claro que a natureza terrena pulsa em consonância com a vida universal. Claro também que a existência destes raios, chamados cósmicos, afetam a natureza astral e mental. Mas aqui, esta pluralidade de efeitos é praticamente secundária. A polarização destes raios é basicamente física, provavelmente pela característica dos seus emissores num determinado período vibratório, para nós compreendendo alguns milhares de anos. Outros fenômenos físicos acontecem nas imediações da montanha, pela refração deste pequeno delta de raios. Gostaria de incursionar na mata e sentir um pouco mais a aura deste fenômeno?
  - Naturalmente, estou curioso!

  À medida que a penetravam Sorman acusava diversas formas da energia a percorrer o seu corpo, mas não se abalava. O envolvente mundo verde parecia senti-las mais, produzindo maior resposta, expressando grande vigor. À base da montanha Sorman obteve outra diferente sensação: uma corrente mais forte subiu-lhe dos pés à cabeça, e ele, por segundos, sentiu fugir-lhe a plenitude da consciência terrena. Começou então a ver iridescentes raios, vivos e cintilantes, que se projetavam do alto para o interior da montanha, descendo incessantemente numa continuada projeção. Em contrapartida, viu múltiplos raios brotando da montanha, repartindo-se em refrações. Saiam através das paredes, produzindo oscilações e camadas com diversos comprimentos de ondas, a irradiar sempre.
  - A energia por aqui é realmente extraordinária. A voz de Bruno causou-lhe um estremecimento, fazendo-o voltar à consciência física. Deu então três passos, arcou-se e tomou uma pedra arredondada, semelhante a um pequeno disco, segurando-a com certa dificuldade. A pedra cabia-lhe numa das mãos; ele a limpou e a esfregou.
  - Vou levá-la, está bastante energizada. Reiniciaram os passos interiorizando-se um pouco mais pela mata, chegando à margem de um riacho.  Bruno apontou para pequenas cachoeiras formadas por patamares de pedras, próximo dali.
  - Aqui é um lugar especial para elas - disse Bruno com naturalidade.
  - Quem?
  - Olhe para qualquer das quedas e se concentre suavemente. Sorman fez o indicado, relaxando os músculos dos olhos, vendo imediatamente formas a deslizar sobre as águas. Eram ninfas de diversos matizes que dançavam. Viu também a aura da montanha e mais além um interessante reservatório de energia, constituído por outra aura colorida subindo das águas em concha aberta, tocando as bordas da mata.
  - Que beleza! - admirou-se.

                                                                         o     o     o

       As irmãs insistiram em que ele ficasse para o almoço, o que foi reforçado por Bruno.  Não tendo como se negar, deu-se por vencido.
  - Você é comprometido? - Lucéa diante dele pegou-o de guarda baixa.
  - Na verdade não encontrei ainda a companheira - disfarçou, enquanto trazia o cálice de vinho aos lábios.
  - Posso insistir no assunto? – a moça indagou com acentuada delicadeza. Os grandes e negros olhos de Sorman varreram o moreno rosto e súbita imagem voltou-lhe à percepção, revendo-a à mesa do restaurante, a dirigir-lhe palavras premonitórias. A imagem sumiu; ele buscou perceber-lhe a mesma estranha expressão daquele dia. Porém, nada acusou de especial, exceto jovial sorriso.
  - Naturalmente - esboçou, por sua vez, medido sorriso.
  - Quem é a moça alta e clara?  Sorman surpreendeu-se.
  - Você a conhece? - insistiu com o sorriso.
  - Eu a vejo ao seu lado.
  - Não existe mais nada entre nós há alguns anos. Ela já tem um filho com outro homem.
  - Creio que você está enganado – ela agora sorria enigmaticamente.
  - Creio que não – assegurou-lhe, lembrando-se do desagradável diálogo com a mãe de Anita na tarde anterior.

    Ao término do almoço Bruno conduziu-o à varanda, sentando-se ambos em cadeiras de treliça. As irmãs, neste momento, tiravam à mesa e lavavam a louça.
   - Foi um almoço agradável - disse a Bruno que se espreguiçava.
  - Você é nosso convidado permanente. É só dizer: vim para almoçar! - ele riu descontraidamente.
  - Obrigado. Espero poder um dia retribuir toda esta gentileza.
  - Ora, não se preocupe. A propósito, o encontro de amanhã na Casa Rosa será ao meio dia. Seria bom chegarmos com antecedência para eu apresentá-lo a todos os participantes. As coisas parecem coincidir, pois amanhã é dia de ritual e estará tudo pronto!
  - Sim, está bem - assentiu maquinalmente, sem atentar na importância e aparente precipitação dos acontecimentos, recolhendo-se em reflexões. Na realidade, permanecia nele a incerteza.  Não demorou, as irmãs se reintegraram à conversa.

  Mais tarde, Lucéa o levava ao portão, tomando-lhe a mão e acariciando-lhe os cabelos. Ela voltava a transformar-se. Os olhos da moça lançavam centelhas; a fisionomia deixava transparecer outro ar, não tão jovial, porém não menos belo.
  - Você foi firme e decidido nas provas. Recorda do que juntos passamos?
  Ele perscrutou-lhe o olhar. Queria lembrar-se, porém algo bloqueava-lhe a memória. Entretanto, um rumor vibrou-lhe das profundezas da alma e um longínquo desejo produziu-lhe pequeno tremor. Ele apertou a mão da moça assim permanecendo por segundos, fechando os olhos. Surpreendia-se com a atitude de Lucéa e com esta forma de desejo. Nessa sucessão de pensamentos e reações, conseguiu responder um “não!”, abrindo imediatamente os olhos.
  - Não tem importância - ela desviou o olhar rompendo o encanto - irá lembrar-se um dia. Em seguida, ficou nas pontas dos pés e ele arcou-se. Então beijou-lhe as faces soltando-lhe a mão -  até amanhã! - sorriu largamente.
                                            
                                                                         CAPÍTULO II
       
                                                              A CERIMÔNIA
     
  Ao acordar domingo imagens povoavam-lhe a mente: sonhara ou viajara? Estava, não obstante, leve. Idéias começaram a fluir, curiosamente todas ligadas à irmandade. As imagens desapareceram; as idéias ganharam especial consistência. Ele se levantou, estava acalorado, indo se enfiar sob o chuveiro. Barbeou-se, escovou os dentes e veio para o desjejum. Tomava-o um tipo de fortaleza; nada oscilava em seu ser, mas as idéias não o deixavam e uma certeza o envolvia. Um pensamento veio cortejá-lo; ele era a pessoa certa - a irmandade necessitava de sua inteligência e talento; por que então recusá-la? Estranhamente não conseguia reprovar-se.

  Chovera pela madrugada, porém as nuvens nesse momento começavam a abrir-se. Luz e sombra disputavam os espaços palmo a palmo, provocando nuances claro-escuro, minuto a minuto. Já era possível ver o azul do céu; os raios solares procuravam firmar-se sobre os montes, pela terra, por todas as coisas. O Sol finalmente irrompeu. As sombras deslizaram com enorme rapidez e desapareceram. As cigarras irromperam também, vibrando como pequenas serras que devassam cernes na dura madeira. Quase em seguida, nova e espessa nuvem veio obstruir. De novo luz e sombra disputaram a terra. As cigarras silenciaram.

  `A mesa, ao repasto, Sorman olhava através da janela totalmente aberta. O parcial panorama serviria para distender-lhe a visão, provocando alargamento do córtex cerebral. Automaticamente levantava o rosto e baixava-o, enquanto saboreava o café com leite e biscoitos. Submergia num estado mental em meio a elucubrações, conseguindo, ao olhar a janela, notar qualquer coisa a mais - o que fazia nebulosa e inconscientemente, acentuando de leve outro rápido momento de observação - que era, justamente, aquela contrastante dança quando sombras desciam ou o Sol ressurgia. Em realidade, não via: estava atrelado às idéias e aos pensamentos; sentia-os como à própria pele e isso ocupava-lhe o centro da atenção!

                                                                       o     o     o

  O ar e o espaço pareciam outros. Os movimentos de Sorman estavam, de certa maneira, mais fáceis; ao respirar não era somente a combinação perfeita dos elementos atmosféricos: os gases nobres e o prâna que lhe penetravam os pulmões. Era também outra coisa mais abrangente - uma energia delicada, ao mesmo tempo consistente. Esta energia vinha transcender os limites do corpo físico, liberar o ego dos domínios do emocional, produzir ao próprio ego, por acréscimo, outro estado mental. Com o que lhe era inefável, vinha-lhe, ademais, outra sensação a dizer-lhe em linguagem imperfeita e pouco inteligível ainda à sensibilidade, que ele fora, seria ou estaria sendo invisivelmente ungido. Uma expectativa, no entanto, em si subsistia a roçar-lhe o intelecto, a desejar lançar-se no emocional. Ele não conseguia ignorá-la, mas não poderia, em hipótese alguma, deixá-la ocupar desnecessariamente a atenção, causando rebaixamento de seu padrão vibratório, agora em elevada exaltação!                                                              

  Poderosa aura de energia e força ultrapassava os limites físicos da Casa Rosa. Em derredor, a natureza regozijava-se com a vida ali ancorada. Tudo transpirava reverência e respeito; isso percorria de uma forma à outra, de um para outro reino e pelo ar. Esta vida áurica milenar, não seria de maneira alguma energia concentrada de natureza estática no tempo; que tivesse atravessado as idades e as eras cristalizando tradições. Pelo contrário, embora as tradições ali estivessem intrinsecamente estabelecidas, a energia dimanada inspirava fluente pensamento progressista, irreverência ao tempo percorrido, liberdade e renovação!

  O Sol brilhava naquela hora. Sorman apeou do jipe aguardando por Bruno. Nesses breves instantes, ele volveu os olhos para a Casa Rosa. A par de tudo, via-a maior, mais ampla; grande majestade a permeava, e pela primeira vez nesses últimos tempos se sentiu apequenar. Aquela fantástica autossuficiência com que hoje acordara e que o conduzira até aqui, repentinamente cedera, abandonando-o. Mas não teve tempo para avaliar ou conjeturar sobre a nova situação: como se houvesse perdido o controle dos próprios atos, incontida e irresistivelmente viu-se lançar-se ao solo, caindo de joelhos. Genuflexo, assim permaneceu, ereto da cintura para cima, apoiado sobre as pernas com mãos suavemente pousadas sobre as coxas. O rosto adquiria expressão de ausência; os olhos passaram a emitir brilho de transe e percebeu-se no passado, estirado ao chão, a reverenciar ao Venerável. Sentia nesse momento - onde aqui estava - o mesmo que sentira naquele passado tempo; vertia lágrimas que lhe umedeciam a face, como naquele dia lágrimas ele vertera, e vozes de novo ecoavam em coro: “ Buda! Buda!”

  Passado instante se levantou, lançando olhar em derredor, tentando entender onde exatamente se encontrava, e examinou as vestes. Nada mudara exteriormente, mas o seu íntimo, sim. Nobre sentimento de humildade e respeito viera habitar em si: sentia-se ainda menor, tão pequeno como um grão de areia numa vasta praia, diante de imensas vagas a bramir. Olhou novamente para a Casa Rosa..., e acovardou-se. Outra cena então lhe perpassou a consciência, vendo-se ante o temível espectro do Guardião Negro do Umbral, e tremeu. Rindo, o Guardião repetiu as palavras antes já ouvidas: “Sou aquele que esteve sempre à sombra dos mistérios do passado, desde o mais remoto. Destruí sempre, sorri dos falsos, prevariquei da sabedoria. Templo algum foi construído para sua própria glória, sem que eu ali não estivesse. Fui, sou e serei a porta pela qual os após libertos foram obrigados a cruzar!”

  Aquilo desapareceu; ele voltou a olhar a Casa Rosa. Entretanto, cerrou os olhos em atitude de não mais desejar vê-la, e viu-se diante da própria alma a mirá-lo silenciosamente, reconhecendo-a de imediato. Após breve momento ela deslizou as mãos diante do peito, começando a desenrolar um largo pergaminho, mostrando-lhe um texto cujo título era: “Juramento do Iniciando.”
  “Faça-o ou desista!” - a alma disse-lhe imperativamente. Ele relutou, e mediante a vacilação a alma desapareceu sob um manto de luz. O pergaminho, aberto, ficou suspenso no ar; ele, abalado, sentiu-se sozinho e abandonado. Uma angústia que antes conhecera invadiu-o, tomando-o novamente.
  - Deus, ajude-me! - apelou. O apelo em nada adiantou; a luz da alma decresceu; o pergaminho moveu-se começando a fechar-se: o tempo escoava-se!

  A solidão o envolvia. Nenhum sentimento é comparável ao sentir-se só ou desprezado. Abatido, ele fechou os olhos e uma cogitação trouxe-lhe uma revelação negativa: ele não era mais um ser humano gregário, nem potencialmente um Deus! Nisso, num lampejo, tênue fio de luz produziu-se em sua mente; ele conseguiu nele prender-se se concentrando na frágil forma. A luz cresceu, encorpou: ele cresceu intimamente com ela. O percurso desse crescimento foi rápido e mensurado, logo estancando. Excitado, ele abriu os olhos, vendo o pergaminho quase completamente fechar-se, e uma rápida seqüência de imagens a desdobrar-se ante sua percepção. Num relance lutava com um crocodilo, tendo à mão uma tocha.
  - Luz é Vida, Lux Est Supremus! Eu juro, eu juro! - gritou.

  O pergaminho começou então a abrir-se novamente, movendo-se para mais perto de seu rosto. Ele passou a lê-lo; à medida que o lia, a voz tornava-se mais forte, e ecoava. Em torno, o espaço se abria, a luz se espalhava: ele se sentia fortalecer. Súbito, o pergaminho desapareceu diante de seus olhos e reviu com surpresa a Casa Rosa. Ele pisava a mesma grama, estava no mesmo lugar e a natureza inalteravelmente o rodeava. No entanto, as palavras do juramento continuavam a fluir-lhe dos lábios: dizia-as sem conseguir parar.

    De novo, sem que tivesse qualquer participação consciente ou interferido com a vontade, viu-se, como antes, diante do pergaminho e da alma, até, finalmente, terminar de ler. Notou, então, pela primeira vez, muitos homens e mulheres magnificamente paramentados, circundando-o detrás de um anel de larga e reverberante pedra branca polida. Ele se encontrava mais abaixo, no exato centro do anel, e palmas eclodiram no ambiente. Todos sorriam com aprovação; as fisionomias denotavam austeridade, os paramentos revelavam autoridade. A alma também sorria.
  “Vitória!” - a alma afirmou e desapareceu.

  Num piscar de olhos Sorman voltou a ficar novamente diante da Casa Rosa; as palmas ainda ecoavam aos ouvidos. Mas com tantas e quase simultâneas referências, ele, de imediato, não conseguia obter o controle da mente na sua objetiva totalidade. Não pudera ainda, de uma só vez, reunir os  extraordinários fatos para analisá-los. Achava-se um tanto atordoado e sob esse estado procurou reagir, virando-se para Bruno ao seu lado, perguntando-lhe:
  - Quem eram aqueles?
  - Os Mestres!

  Como permanecesse ainda sem atinar, Bruno o socorreu, colocando-lhe a mão no ombro, dizendo:
  - Irmão Sorman, poucas vezes na irmandade alguém obteve tantas e consecutivas vitórias. Porém, o acontecido neste momento e lugar, somente você poderá avaliar. Conseguiria fazê-lo?
  Sorman reagira. A energia de Bruno atraíra-lhe a mente para a objetividade; ele já conseguia raciocinar, habilitando-se a incursionar no próprio pensamento.

  - A cada tempo novas surpresas - ele riu sem mesmo saber por que  - sempre que venho a esta região, acabo descobrindo outros valores. Pareço estar em constante cheque por aqui, sob a cuidadosa mira de muitas mentes. Os acontecimentos, em suas decorrências, por si só seriam fascinantes, mas sendo eu coparticipe de todos, se tornam mais extraordinários ainda, até inverossímeis em certo julgamento. O que teria acontecido e minha avaliação sobre tudo, você pergunta-me - seus olhos transmitiram excedente brilho; ele foi se aprumando suavemente da postura um pouco relaxada, até ficar completamente empertigado. Um ar dogmático tomou-o quando desviou o rosto para a Casa Rosa; algo misterioso passou-se em si. Logo assumiu outro ar de interessante nobreza, evidenciado mais ainda nos gestos a seguir realizados, como estudada coreografia que animava as palavras. Levando antes a mão à cabeça, alisou os negros cabelos, trazendo-a após ao queixo, fixando o olhar na verde relva. Depois continuou: - “como” e “por que”, seriam as duas proposições a me bastar. “Como”, parece-me aparentemente mais fácil explicar por ser eu participativo em associado, mas deveras não é, embora assim mesmo deva tentar.

  Sendo eu uma consciência, guardo em minha memória física e espiritual, se assim posso me referir, a natureza. Entenda-se por natureza, o somatório de todas as formas e a energia-vida que a tudo permeia, que nos seus registros é anterior ainda aos próprios arquétipos que dão conformação aos mundos. Mas sua quantificação, concernente a mim, é correlata exclusivamente aos fatores perceptíveis, objetivos e subjetivos, que habitam ao meu ego, visto e analisado na totalidade pela soma das experiências aquilatadas com a sequência de personalidades por ele encarnadas. Sucessos e insucessos, em sua relatividade, acham-se assim arquivados no ego, estando, não obstante, em valores, separados por uma tênue e simbólica linha que poderá ser transposta a qualquer instante por uma ação causal. Ação causal, diria, é também o fator instinto, onde o inconsciente vem encontrar o ego,  sendo o inconsciente o móvel propulsor em diversos níveis. Porém, os registros de todas as vidas jamais se apagam no ego, por menores e insignificantes que possam parecer, e o censor, ou Guardião do Umbral dessa linha divisória, sendo a personificação representada pelos valores do eu maior consciência, por um lado, adicionados, mas não amalgamados aos valores do eu menor desta mesma consciência, por outro lado, faz ele, numa só figura, o duplo papel de anjo e demônio, juiz e carrasco, bem e mau, etc. Quem ganha ou quem perde, dependerá sempre da escolha do ego personal ao manifestar suas tendências pela menor resistência.

  Isso em tese, não convoca ordinariamente os valores especiais, psicológicos e idiossincráticos do ego na sua profundidade, porque são vastos, complexos, impossíveis tabular, a não ser por um processo endógeno no ego, num extraordinário momento de manipulação por mentes superiores e habilitadas - significando dizer, quando em provas iniciáticas. Assim, afora essa especial condição no dia a dia, as reações comuns da personalidade se darão superficialmente aos registros evos, com leves incursões para ambos os lados da linha divisória, ou em muitas ocasiões, instintivamente, através dos reflexos condicionados.

   “Por que”, é mais difícil sobre ela discorrer, devido à condição exógeno, ou seja, considerada a partir de uma conjetura consensual regente, adstrita a um corpo hierárquico fora e independente, que ali está para aferir do desempenho do ego nas incursões aos seus profundos labirintos. A hierarquia não interfere na qualidade dos valores acumulados no ego, porém chama-os à superfície, manipula-os, faz com eles interessante jogo, criando situações e personagens a partir do formulador de imagens do próprio ego. Essa encenação tem regras não impostas, mas aceitas de acordo com a cultura, sensibilidade e inteligência reveladas pelo próprio ego, passando-se os dramáticos momentos num campo versatilizado de provas adrede preparado. Há, por assim dizer, formas e personagens exteriores aparentando existências reais, na medida em que o real exista, que contracenam com as criações daquilo que para o ego é verdadeiro. Por exemplo: o crocodilo existe? Sim, no campo de provas ele existe como existem todos os outros personagens. Poderá comer ao candidato? Verdadeiramente, não, mas lhe causará a sensação da dor de estar sendo comido. Eu sei disto agora, com a mente desligada das turbulências emocionais que no momento das provas envolvem ao candidato. Naquele exato instante é quase impossível ao candidato abstrair-se desse fato, e deixar-se morder e sofrer a dor, somente para provar que o crocodilo não o comerá. O instinto de sobrevivência estará com ele; como candidato, é seu dever utilizar-se de todos os recursos, conhecimentos e sabedoria ao seu alcance para vencer - isto inclui a fé e o auto-sacrifício, caso se requeiram.

  A regra básica, na qual pode e deve o ego estribar-se em momentos conflituosos, superpõe-se a todas as demais como fator único, fundamental, irrecorrível de qualquer argumento, traduzido por sua própria e original vida, que é a investidura de uma unidade imortal, uma consciência monádica indissociada da Consciência Cósmica ou Princípio Superior Único. Essa condição, imutável e perfeita, não pode ser dele subtraída por ninguém. Assim, se estiver atento e desperto, tornar-se-á invencível em qualquer situação de prova, aleatoriamente aos valores culturais, morais ou até mesmo emocionais de que seja portador. Mas há que se preparar convenientemente para este salto.

  Voltando a mim, obtive hoje aqui a reafirmação, em termos objetivos, daquilo que longe do campo físico já obtivera. Concluo ser isto necessário porque uma coisa óbvia é estarmos presentes, num dado momento vibratório, com todas as nossas limitações físicas, emocionais e mentais, sob o jugo constante de nossas fraquezas e mazelas. Outra coisa é estarmos libertos, em parte e temporariamente, da carne e daquilo que a cada minuto a ela seduz. Assim, é justo e lógico ser submetido aos testes nestes dois lados de uma mesma vida.

  Entretanto, do que já discorri do candidato ao passar por provas, poderia ainda ser perguntado se temi, se já teria desvendado este enigma. Temi, de fato, mas quem como eu não temeria? Conforme expliquei antes ao abordar a existência do crocodilo, não é o bastante conhecer tecnicamente alguns mecanismos estruturais do ego, e falar deles doutoralmente. Esse conhecimento é teórico e o momento das provas é completamente outro por que a Hierarquia conhece a fundo os labirintos da mente do candidato. Ela o confundirá, o colocará frente a frente com a pessoal realidade, sem dele conseguir subtrair, como disse alhures, a consciência de sua própria e inalienável divindade. Mas ali ele estará despido de qualquer artifício mental no qual socorrer-se, exceto de ingressar nas pistas propositalmente deixadas. Sobrar-lhe-á, pois, um mínimo de lucidez, manifestada num único e rápido instante, às vezes como num flash e o ego, então submerso e envolto por formas ilusórias e sensações diversas, precisará não vacilar, tomando decididamente para si este instante. Então, ancorado, será puxado para fora do poço onde lhe mostrarão a verdade que com ele sempre estivera.

  Em simples e repetidas palavras: fizeram-me repassar trechos importantes de minhas pregressas provas, obrigando-me a reconfirmar objetivamente a intenção de prosseguir no caminho. Se não fui brilhante, pelo menos acredito não ter de todo decepcionado.

  Extravasando emoção, Bruno abraçou-o fortemente, mas contendo-se falou:
  - Irmão Sorman, decididamente não me enganei sobre sua natureza de iniciado, repito isto uma vez mais. É um membro digno da maior admiração. Permita-me defini-lo assim, pelo que impropriamente agora me ocorre: Sorman possui a mente ágil do esquilo, a alma alada do condor, o coração manso da pomba e a vontade férrea do leão. Sua maestria torna-se evidente ao combinar estas cristalinas qualidades!
     
  Sorman nem pode absorver o conteúdo dessas palavras por que tocados por outra realidade, ambos, simultaneamente, voltaram-se para a Casa Rosa. O verdadeiro compasso do tempo não houvera mudado em seu curso natural, mas os poucos minutos que ali permaneciam pareceram horas. Somente agora se davam conta de estar se preparando para adentrar a Casa Rosa, que no seu interior havia pessoas os aguardando e o dia era especial também para eles!

Fina espiral de fumaça, como se os estivesse procurando, os envolveu, e sentiram pela primeira vez o gostoso aroma do incenso. Isso identificava aqui fora o caráter esotérico e mágico do encontro que lá dentro se realizaria, e pareciam tê-lo esquecido. Sorman recuperara o superior estado mental antes ostentado, em considerável vantagem: a incômoda expectativa que há pouco o lancetara se esvaíra. Em seu lugar, a certeza vinha acentuar-se; sábia humildade se representava, e ambas, como duas faces de um mesmo prisma haviam em si incorporado. Não havia mais dúvidas ou arroubos, tudo estava claro: o alto posto na irmandade era seu, jurara intimamente dignificá-lo, não se arrependeria nem reclamaria do que viesse a enfrentar!

  Adentraram a Casa Rosa. No salão que Sorman conhecia, as cadeiras estavam todas ocupadas. A irmandade ali presente compunha-se de homens e mulheres, todos em postura ereta; envergavam alvos balandraus; achando-se mergulhados em tênue nuvem de fumaça de incenso. Recostavam-se nos espaldares dos assentos, mantendo os olhos fechados e pousavam suavemente as mãos sobre as coxas. Faziam círculos com os dedos polegar e indicador unidos, conservando joelhos e pés em posição paralela. Lucen andava de um lado a outro segurando um turíbulo que incensava.  Lateralmente à mesa, na cabeceira do salão, Lucéa de pé aguardava.

  Quando Bruno pisou a soleira da porta, Lucéa estendeu a mão sobre a mesa tomando a sineta de ouro, fazendo-a timbrar algumas vezes, suavemente. Imediatamente todos foram despertando, pondo-se de pé. Lucen caminhou em direção à mesa, colocando o turíbulo sobre uma base a um canto, posicionando-se junto à irmã. Bruno foi até lá, seguido de Sorman, postando-se detrás da mesa, saudando a todos com o gesto sagrado da irmandade - no que foi respondido - e falou:
  - Irmãos, quero apresentar-lhes aquele a quem hoje renderemos homenagem e que será empossado de cargo na irmandade, para cuja finalidade obteve a necessária aprovação. Como sabem, a hierarquia de nossa irmandade dispõe, no uso de suas atribuições, muitos títulos. Mas ao Irmão Supremo é outorgada a primazia de transcender a esta sucessiva ordem hierárquica, sempre que pertinente,  para dignificar a um irmão em Ministro Extraordinário, ou seja, para permiti-lo atuar com perfeita autoridade e autonomia em qualquer departamento, representando ao Irmão Supremo quando por este solicitado. Devo também declarar que com nosso irmão Sorman cumpre-se o rompimento do selo da 30ª revelação da centúria 16, acerca do número 300. É Sorman assim o número 300 desta revelação, e com tal registro irá atuar na irmandade confirmando-se o fato através do Primado do Frater Supremus, também relatado na 30ª revelação.
  Muito teria ainda para falar-lhes, mas abster-me-ei de outras palavras pela importância do momento no íntimo de cada um e Sorman, tenho certeza, não aprovaria que dele mais eu falasse.

  Uma salva de palmas ecoou pelo salão; de imediato eles se moveram em fila passando diante de Sorman, cumprimentando-o com apertos de mãos. Sorman achava-se tranquilo. Noutra oportunidade as palavras de Bruno provavelmente lhe causariam emoção, e por certo estaria inibido. Mas neste momento nada disto se passava em seu íntimo. A postura altiva, naturalmente assumida diante daquelas pessoas estranhas olhando-o com interesse, revelava-se da disposição que diante da Casa Rosa em si incorporara, e não se abalava. O orgulho e superioridade mundanos, numa personalidade comum, se mostrariam venturosos diante de grande exaltação, isto é certo e óbvio. Paradoxalmente, poderia ocorrer o mesmo com candidatos aprovados em condições especiais, ao nível de uma irmandade de abrangência esotérica como esta. Mas em Sorman, não. A fluidez dos sentimentos mais comuns não vinha encontrar âncoras em seu cérebro e coração. O que o tomava, permeando-o, isto sim, era algo impessoal, mais elevado, extraordinariamente digno de todos e por todos. Era uma alma em abrangente expansão, uma tangível presença comungante em silencioso júbilo.
     
  Ao receber o cumprimento de um irmão, parte dele ficava em si; em contrapartida, esta magnânima presença penetrava a alma do irmão. Nada neste instante mágico permanecia guardado para seu conforto ou glória pessoal. Tudo antes conquistado, pelo que titanicamente lutara, não lhe pertencia agora; não interessava mais a si próprio como aquisição ou troféu: fizera-o para todos, ao contrário do que em princípio pensara. Essa compreensão, emergindo de uma inconsciência, viera trazer-lhe também a identidade, o verdadeiro anelo com a irmandade. Estava tudo muito nítido: a partir deste instante ele e a irmandade não seriam mais estranhos, o passado voltava ao presente; de novo conviveriam em comum e seriam exatamente irmãos!

  Ao término dos cumprimentos Bruno trouxe Sorman para o vestíbulo, entregando-lhe o balandrau, tomando um para si. Enquanto vestiam-se, ouviram começar um cântico. Ao saírem, Sorman viu surpreso os irmãos ainda cantando, a descer em fila por uma escada sob um portal antes oculto numa das paredes. Bruno indicou-lhe o final da fila, posicionando-se atrás para o descenso. O irmão guardião veio por último trancando a porta por dentro. Ao término dos degraus, banhados por suave luz azul lançada de lanternas nas paredes, encontraram-se diante de outra porta aberta, adentrando o átrio de um templo. O irmão guardião, sempre por último, trancou também esta porta e Sorman parou a observar.

  Adiante existiam duas colunas, uma preta e outra branca, sustentando uma viga horizontal. A viga era a base de um triângulo perfeito, azul, que se elevava sem tocar o teto. O interior do triângulo destacava o símbolo secreto da irmandade, totalmente em ouro. O símbolo rebrilhava pela ação das luzes de dois candelabros presos às paredes laterais. Aquela construção, por cujo espaço interno os irmãos passavam, evocou em Sorman a memória de suas provas iniciais, quando ao galgar uma escada e abrir um portão se deparara com um portal. Em ambos os lados, diante das colunas, havia uma pira; a da direita era em ouro, a da esquerda em prata. Elas ardiam, lançando no ambiente grossas espirais de incenso. As espirais produziam uma nuvem que pairava acima e adiante do portal. Essa real visão provocou em Sorman estranha sensação, remetendo-o a um passado distante. Lágrimas começaram a rolar por sua face, ele teve de secá-las porque lhe embaçavam as vistas.

  Bruno tocou-o suavemente às costas, despertando-o daquela submersão; ele caminhou cruzando o umbral, chegando ao interior do belo e reverberante templo. As paredes e o altar eram revestidos de ouro e prata; ao pousar o olhar sobre o altar, ele foi possuído de extraordinária vibração que quase fê-lo cambalear. Todos já ocupavam os assentos. Lucen e Lucéa, a direita e a esquerda do altar, iniciaram a invocação de um mantra, acompanhado pelos demais. Em seguida se fez silêncio.

  Bruno determinou que Sorman permanecesse em pé defronte ao altar e subiu os três degraus, revestidos por aveludado tapete púrpura. As irmãs sacerdotisas se retiraram do templo; dois acólitos portando longas lanças vieram ocupar aquelas posições deixadas por elas. O ritual teve início; após a abertura e o acendimento de algumas velas e luzes, Sorman foi convidado a também sentar-se. Então se aproximaram dois outros acólitos, e despiram o balandrau de Bruno, trocando-o por uma túnica azul ornada em ouro e prata. Mais adiante, na decorrência do ritual, vieram os acólitos e depositaram sobre a túnica uma peça branca estolada, também ornada em fios de ouro e prata, terminada pouco abaixo de seu coração com um círculo inscrevendo o símbolo secreto e sagrado da irmandade. Noutro momento do ritual, colocaram-lhe um anel de ouro no dedo indicador da mão direita e um de prata no mesmo dedo da mão esquerda, cada um com uma grande pedra rara. Por último, foi-lhe entregue belíssimo cetro em ouro incrustado de cintilantes pedras, sendo sua coroa um grande diamante, e colocada sobre sua cabeça, não menos bela mitra ostentando na face frontal também preciosíssimo diamante. A mitra era tecida à volta com fios de ouro e prata, adornada com pedras raras e menores desenhando símbolos.

  A certa altura Sorman foi chamado a subir os três degraus e diante de Bruno consagrado num rito invocatório dos quatro elementos. Dois altos membros da irmandade, já envergando vestimentas oficiais da ocasião, postaram-se a direita e a esquerda do iniciando, dando suporte às energias precipitadas. Ele então pressentiu que os membros ao seu lado faziam um trabalho em conjunto com duas outras presenças invisíveis em dimensão superior, e aquelas presenças, verdadeiramente, controlavam o fluxo das energias. Finalmente prestou o juramento, que não foi o mesmo prestado diante dos Mestres, recebendo a comenda de ouro simbolizando sua autoridade no alto cargo.

  Leveza e alegria o tomavam. O que antes experimentara no salão da Casa Rosa ampliara-se. A força do ritual, o poder da iniciação, as fortíssimas energias permeando-o, essas coisas transcendentes e inefáveis, tornaram-no extremamente fortalecido. Todos os seus átomos pareciam estar vibrando sob uma só nota. Nesse momento, detinha a sensação de estar incorporado de um fator mágico, um dom especial, uma autoridade. A par disto, reinava-lhe absoluta paz; parecia não possuir corpo. Sobremodo, desejava ardentemente compartilhar das inefáveis vibrações com todos os irmãos ali presentes, de forma mais intensa ainda.

  Cumprimentos, abraços e votos de boas vindas encerraram aquele solene encontro no templo. Ao subirem, dirigiram-se para uma das alas da Casa, ao ar livre, onde tábuas e cavaletes a guisa de longa mesa foram armados para acomodar a todos num fraternal almoço. Mulheres e homens participavam de tudo; os ruídos comuns da ocasião enchiam o ar; o cheiro dos alimentos e a fumaça dos assados já flutuavam, trazidos e levados pelo suave e circulante vento que dobrava frágeis galhos e flácidas copas do arvoredo nas imediações. Eles agora agiam com desenvoltura, descontraíam-se; davam palpites, recebiam e transmitiam ordens e começavam a servir alguma bebida e aperitivos salgados.

  A tarde caia, as sombras já grassavam. Sorman, ao volante, viajava pensativo. De tudo acontecido naquele inesquecível dia – intenso como poucos em sua vida – uma imagem ficara-lhe indelevelmente gravada na memória. Essa imagem, vez por outra, ganhava vida anímica e revia Lucéa aproximar-se e beijar-lhe os lábios. Não fora um beijo ardente ou apaixonado, porém suave, finalizado com um “até breve” e amplo sorriso.
                                                                        
  Olga e Eduardo vieram recebê-lo junto à porta externa da cozinha. A viçosa grama iluminava-se com pompa pelos holofotes no chão e pequenos postes de lanternas. Sorman largou a pequena mala, abraçou-os e beijou-os. A suavidade da fisionomia, o breve, mas descontraído sorriso, e a luz dos olhos foram de imediato percebidos por Olga, que exclamou num imperceptível murmúrio:
  - Meu filho!  Eduardo nada disto notou, exceto que Sorman estava bem e disposto, e estas coisas o encheram de alegria.

  Enquanto Sorman tomava banho, Olga preparava-lhe uma refeição, ouvindo as palavras esperançosas de Eduardo acerca do projeto que pai e filho continuariam a elaborar no dia seguinte. Durante a refeição, e nos momentos seguintes reunidos na sala, conversaram animadamente. Os assuntos fluíram com naturalidade. Descontraídos, chegaram a irradiar incomum alegria. Olga esqueceu-se completamente das habituais preocupações com o filho, nada lhe perguntando. Próximo das vinte e três horas Sorman resolveu subir para dormir. Os pais o acompanharam recolhendo-se também, e a casa foi invadida pelo silêncio.

                                                                    CAPÍTULO III

                                                             O IRMÃO SUPERIOR                                                       

  Pelas quinze horas dessa segunda-feira, a secretária trouxe-lhe um envelope fechado, endereçado pessoalmente, com a indicação FIA no verso. Perguntada sobre o portador, ela somente respondeu que não fora notado ao deixar o envelope na portaria do prédio.  Sorman abriu-o reconhecendo de imediato o símbolo da irmandade impresso ao alto da folha, no meio, lendo a sucinta mensagem: “Irmão Sorman, hoje às 19h30min o pegaremos à porta da empresa para importante reunião. Fraternais Saudações. FIA.” Pouco abaixo da mensagem havia a advertência: “Queime!”.  Surpreso, meio arcado sobre a mesa, ele releu tudo, recostando-se depois na poltrona, prendendo-se a reflexões. Girava nas mãos a dourada e pequena adaga com que rasgara a borda do envelope, achando aquilo estranho e misterioso. Logo abriu a gaveta, buscando no fundo uma caixa de fósforos, colocando-a no bolso conjuntamente ao envelope e a mensagem, indo ao banheiro.
 
  Efetivamente um carro azul veio buscá-lo no horário marcado. Um homem magro, de bigode, aparentando trinta e cinco anos, abriu-lhe a porta dianteira sem sair do veículo, saudando-o com o sinal da irmandade, que Sorman respondeu.
  - Como vai, Michel? – Sorman apertou-lhe a mão. Eles haviam sido apresentados no dia anterior, durante o almoço.
  - Você deve ter estranhado a maneira como fizemos o contato - disse-lhe Michel, já no carro - eu mesmo trouxe a mensagem; é um procedimento formal da irmandade. O Superior sempre age assim com os novos iniciados; raramente utiliza telefone ou outro qualquer meio de comunicação.
  - O Superior?!
  - Desculpe, trata-se do Superior Mestre Terra. Ele chegou hoje pela manhã de Londres e insiste em recebê-lo - informou com delicadeza, pausadamente.
  - Superior Mestre Terra! – repetiu Sorman, mergulhando em pensamentos, relembrando os documentos da irmandade mostrados por Bruno na biblioteca da Casa Rosa. 

A maior parte do trajeto foi feita em silêncio. Afastaram-se do centro, cruzaram a ponte e quarenta e cinco minutos depois chegavam a uma casa na orla litorânea. Michel abriu o portão com o controle eletrônico bem como a porta da garagem, estacionando o carro. Apearam do veículo adentrando pela porta principal da casa. No interior da sala bem mobiliada e pouco iluminada, viram um homem levantar-se da poltrona e caminhar para eles.  Chegando próximo fez o sinal da irmandade que ambos responderam. O homem sorriu, deu mais dois passos e estendeu a mão para Sorman.

  - Muito prazer, Sorman, sou o Superior Mestre Terra - falou com sotaque espanhol. Sorman surpreendeu-se por já conhecer aquele homem sem, todavia, lembrar-se de onde. Emocionou-se e ficou calado, mas se sentiu deslocar em direção ao passado em busca de recordações.

  O homem era alto como ele, tinha os cabelos negros, cheios e lisos, penteados para trás. Possuía forte compleição; a pele era amorenada como os descendentes dos povos Incas, embora o rosto não trouxesse, exatamente, os mesmos caracteres do modelo racial. A idade era impossível precisar. Vestia elegante terno azul marinho.
  - Venham, sentemo-nos - ofereceu apontando para as poltronas; o convidado permanecia absorto em pensamentos. Sentaram-se formando um triângulo. Sorman finalmente emergiu e volveu os olhos em redor, vendo os apliques a lançar suave luz na sala, observando as janelas fechadas e a porta dando acesso ao corredor. Havia um aparelho de ar condicionado ligado, tornando a temperatura ambiente agradável. Mas não pôde prender-se a outros detalhes por que seu interlocutor reiniciou:
  - Assisti domingo, de Londres, à cerimônia de sua iniciação e pude fazer algumas observações a mais sobre sua presença na irmandade. Você evoluiu bastante desde o primeiro contato com o Irmão Supremo. Evidentemente não falo em termos de consciência, pois o seu padrão vibratório é o mesmo, desde a posse do novo veículo físico, mas, sim, da personalidade que já quase se amolda ao que se irá requerer na irmandade. Neste pouco tempo de reencontro, os seus arquivos de memória, etéricos ou astrais se revelam, a meu ver, rapidamente.

  A voz do Superior Mestre Terra caia-lhe nesse instante como uma indução letárgica, quase hipnótica. Sorman lutava por manter os sentidos acordados. Porém, foi obrigado a fechar os olhos; súbitas imagens perpassaram-lhe a consciência, e via-se numa planície da extinta Atlântida, onde muitos homens de tez morena o encurralavam de encontro a um barranco. Da testa corria-lhe sangue, banhando-lhe a face e peito; havia outros ferimentos pelo corpo a também minar-lhe a resistência. Todos os companheiros jaziam estirados naquele campo de batalha: estava só, era o último sobrevivente!
  - Vai morrer, príncipe! - dizia o guerreiro, trazendo uma tira de couro pintada com símbolos de magia negra que lhe contornava cabeça e testa. Seu tronco e membros, bem como de seus homens, portavam desenhos em faixas retas e pequenas, ou longas e curvas, desenhadas com sangue animal imolado em ritual maligno. Sorria com crueldade: apontava a lança para Sorman, manipulando-a acima do ombro num vai-e-vem torturante e sádico, no que era imitado pelos guerreiros. Extenuado, Sorman apoiava-se na lança fincada no chão, lutando orgulhosamente consigo próprio para não cair. As pernas, entretanto, ameaçavam dobrar-se; o queixo quase lhe tocava o peito, mas tanto quanto possível ele reagia, resistia, buscava empertigar-se, e levantava a cabeça. Ofegante, com a visão turva, não queria tombar: era honroso morrer de pé.
      
  Uma saraivada de flechas pôs fim àquela angústia de morte, e viu os inimigos caírem varados nas costas, sem chances de reagir.
  - Varun! Varun! - gritava o homem alto e forte, moreno como ele, de negros cabelos longos. Adornava-lhe a testa uma tiara prateada, terminada com pequena e sinuosa serpente que lhe subia a fronte. Ele e seus homens, vestidos com calças apertadas em couro flácido, calçando mocassins, portavam arco nas mãos guardando as flechas em aljavas presas às costas. Cingiam-nos cintas ao abdome que depois lhes subiam verticalmente pelos troncos nus aos ombros, volteando-os, descendo às costas atando-se às aljavas. Corriam e pulavam sobre os cadáveres amontoados naquela terra tingida de vermelho, e desfechavam golpes de misericórdia com facões, nos que ainda se mexiam ou gemiam.
  - Rei, meu pai! - dizia Varun, dobrando-se, vendo-o em turvação a aproximar-se.
  Sorman estremeceu e abriu os olhos. O moreno rosto, cuja fisionomia era como do rei, sorria-lhe. Indizível emoção o tomava, talvez semelhante àquela que sentira ao rever o pai que lhe chegara ao socorro. Após segundos conseguiu perguntar:
  - Você foi meu pai?
  - Sim, algumas vezes - respondeu o Superior ainda sorrindo.

  Uma sensação de bem estar o invadiu; a emoção já perdia do impacto inicial: estava em família, como nunca estivera antes.
  - Gostaria de saber mais sobre minhas vidas passadas - disse rompendo com  sentimentos e emoções.
  - Talvez com o tempo. Estas coisas somente são importantes quando atreladas a valores úteis e práticos. No mais, devem ser deixadas como estão. O momento em que a sequência do tempo viverá em nossas mentes como única realidade, ainda está para chegar. Passado, presente e futuro, hoje, continuam limites do relativo. Sorman entendeu e aduziu interrogativamente:
  - O motivo, então, Superior, de me ter chamado aqui, não se prende unicamente a esta revelação do passado?

  - Evidentemente, não. O processo evolutivo para nós, almas, prevê e compreende estas interações. As interações de vidas nas relações da família humana têm grande importância por que estreitam cada vez mais os laços entre egos. Isto facilita ao carma de um grupo ou grande família – que costumamos denominar célula – a fim de que se ajudem mutuamente com melhor conhecimento de seus problemas. Faz parte dos planos dos mentores atravessarmos eras e raças em constantes interpolações. Você sabe, o processo reencarnatório, depois de alguns estágios na evolução de uma célula não é compulsório da maneira como ensinam algumas correntes espiritualistas e espíritas. Isso acontece somente com almas primárias e também quando suas células estejam no enfoque do plano físico. Nesse caso, no período de manifestação física de suas famílias, essas almas primitivas não têm grandes opções, ficando no plano espiritual poucos pares de anos, sendo obrigadas a logo reencarnar. Com outras células, já possuindo melhor cabedal de experiências no trato dos valores humanos, a questão da reencarnação é trabalhada sob outro prisma, e de acordo com a sensibilidade de seus egos.

  No nosso caso, com os milhares de egos de nossa célula, estamos novamente no período cíclico de manifestação no plano físico, que irá perdurar por dezesseis séculos. Por cinco séculos estivemos absolutamente ausentes da vida física do planeta; por um século nos preparamos para a reentrada neste plano de vida material, e um século a mais nos foi necessário para um mínimo de organização, já na vida física. Assim, no decorrer de doze séculos, teremos o tempo útil de vida progressiva para a nossa grande família, pois haverá um século para sairmos deste cenário. E se tudo ocorrer conforme aspiramos, um século a mais nos será necessário, já fora da vida física, a fim de nos reorganizarmos para a entrada num plano acima, superior àquele onde a quase totalidade de nossa célula havia estado antes desta atual migração para a matéria densa. Cem anos de vida útil já se foram; urge, portanto, trabalharmos com rapidez e diligência com o intuito de acelerarmos o nosso progresso nos mil e cem anos restantes para uma efetiva produtividade. Para este mister, necessitamos lançar mão de todos os recursos disponíveis, fruto do conhecimento e sabedoria acumulados desde um passado distante.

  Mas você sabe tão bem quanto eu que devemos deixar obras no mundo, auxiliando unidades de consciência não somente de nossa célula, mas também de outras. E não devemos misturar o nosso carma com o deles, pois isto, quando eventualmente acontecido, representa para nós a heresia de uma descendência. Então o resgate se faz necessário, às vezes dolorosamente e de forma urgente porquanto não podemos perder demasiado tempo com as soluções.

  Outro dos motivos justificados para esta pequena reunião reside no fato da conscientização objetiva para o desenvolvimento de seu pensamento na irmandade, ao tratar das interações raciais de egos de nossa célula. Muitos repassam necessárias experiências em corpos de diversas nacionalidades, ou mesmo etnias. São situações que devem ser rápidas, sem carmas profundos com irmãos de outras raças, a fim de que, livres e desimpedidos, logo possamos direcionar nossos esforços para os objetivos traçados por nossos superiores – os Mestres Raciais.
  - Dentre os objetivos estaria o de desenvolvermos um novo modelo racial para nosso povo, ou célula, como você se refere? – Sorman atalhou-o com ar pensativo.
  - Relativamente. Não teremos esse tempo disponível para um trabalho racial mais aprofundado e não seremos tão diferentes do modelo racial futuro que o Manu já há alguns séculos vem preparando e desenvolvendo para a sexta raça raiz de nosso planeta. Nessas etapas de iniciais experimentos, deveremos tentar a semeadura de acordo com as características atuais de nossas próprias idiossincrasias, a fim de alcançarmos a meta coletivamente como almas, sem solução de continuidade, e não simplesmente como corpos biológicos. Muitos corpos de que lançaremos mão nos próximos onze séculos, notadamente nos dois últimos de nosso tempo útil aqui na Terra, sofrerão evidentes modificações para estarem o mais possível adequados às nossas necessidades. Precisam esses corpos propiciar aos irmãos de nossa célula, principalmente aos iniciados de escalões maiores, a fácil fluidez das energias astrais e mentais que manuseamos.

  Sorman acompanhava atentamente as palavras do Superior. Embora nunca lhe houvessem falado do tema com esta profundidade, nada o surpreendia; tinha a nítida sensação de estar ouvindo o que já sabia, mas evitava perder-se em reflexões.
  - Um terceiro motivo incluído neste encontro, continuava o Superior, vem do fato de eu necessitar avaliar suas faculdades psicométricas, o que de certa maneira já o fiz ao constatar o seu bom grau de auscultação de algumas cenas de um passado distante, onde estivemos inseridos na Atlântida. Em consonância com isto, há duas outras faculdades psíquicas que terei de avaliar: uma para o presente, ou melhor, para fatos e acontecimentos do momento atual gerados propositalmente por agentes humanos, chamada telepatia, e outra para fatos e acontecimentos do futuro, chamada cognição premonitória. Essas três faculdades resumem, para as nossas intenções e visão humana, o tempo na sua abstração de passado, presente e futuro.

  A telepatia, é bem verdade, necessita de agentes para funcionar: sendo um emissor e outro receptor. A psicometria e a cognição premonitória, por outro lado, são respectivamente possibilidades de leituras psíquicas nos registros do éter, daquilo que já existiu ou virá a existir. O presente, em realidade, é rápido e fugidio; em última análise, não existe, pois se trata de uma linha tão tênue, inserida entre os acontecimentos de dois arquétipos constituídos pela geração de fatos passados e futuros, que não tem dimensão, tornando-se impossível retê-la ou detê-la um milionésimo de segundo após o fato ter acontecido. O presente, diria ainda em outras palavras, é a interação ou resultado do imediato futuro do fato acontecendo neste exato momento, simultaneamente ao passado imediato do mesmo fato que neste exato momento já aconteceu. Portanto, aquele que consegue ler fatos já registrados no tempo, no planeta ou cosmos, ou que ainda acontecerão, leu ou lerá também o presente.

  Fora deste desdobramento, a telepatia trata de mensagens presentes, muito embora a mente mais poderosa e desenvolvida possa vir transmitir à outra, sequências de imagens de fatos, passados, presentes ou futuros e auto formulados: falsos ou ilusórios. Exemplifico: O transmissor A envia ondas mentais sintonizadas com o receptor B. A mente A é de um psicômetro e premonitor. Ele capta registros no éter de tais e tais acontecimentos, retendo na memória as possibilidades de imagens futuras ou de fatos concretamente existidos, resolvendo transferir algumas dessas impressões à mente B. Se a mente B estiver psiquicamente bem desenvolvida para captar aqueles registros, os absorverá perfeitamente e os guardará. Observo ainda que essas imagens enviadas à distância, mesmo de qualquer quadrante do planeta, podem ser armazenadas no subconsciente da mente B, na vigília ou sono, e depois virem a surgir em sonhos ou no próprio pensamento. Ainda, o transmissor A pode criar uma imagem, modelando-a a sua vontade, e enviá-la ao receptor B, o que caracterizaria uma autoformulação, sendo assim falsa ou ilusória, sob o caráter ou comparação de impressões exaradas de fatos fenomenais de um porvir ou então verdadeiramente já acontecidos.

  Assim, estas e outras probabilidades de manipulação mental da técnica telepática virão a ser, a grosso modo, acontecimentos presentes, adstritos unicamente às personalidades humanas. Não representam e nem abarcam o condicionamento de uma fase da sequência natural do fenômeno  tempo, dentro das implicações de passado, presente e futuro já comentados, por que isto se tornaria impossível apropriar, exceto por conjeturas, pelo fato dessas abordagens teóricas se passarem nos interstícios da mente concreta e de seu psiquismo inferior. A mente concreta, como sabemos, apoia-se numa de suas expansões, no intelecto, mas ela por si mesma é produto de vários condicionamentos, não servindo para exemplificar o tempo contido na incondicionada Mente Universal. 

   Ele sorriu balançando suavemente a cabeça em reprovação: - queira desculpar-me, caro Sorman, por aborrecê-lo com esse tema. Você já deve saber disto, mas é força do hábito. Esqueci-me de que não estou diante de irmãos ansiosos por ensinamentos em reuniões que participo.
  - De forma alguma, Superior, permaneci atento à sua explanação e aprendi dela – Sorman redargüiu com sinceridade, logo retomando: -  a propósito, pretende o Superior trabalhar minha mente com estas faculdades, e para qual finalidade?
  - Sim, de fato planejo uma avaliação, com sua aquiescência. A psicometria e a premonição são faculdades desenvolvidas na alma, em seu psiquismo superior, estando, portanto, acima das conjeturas do intelecto. Acredito ser mais fácil abordá-las em você pelo fato de sua natureza sensível às linhas de ascensão da própria alma. Quanto à telepatia, podemos trabalhar com ela em dois níveis: diretamente no cérebro ou na mente sem a interferência do cérebro, o que, nesse último caso, significaria também na alma. Mas necessitaria avaliar essa possibilidade segundo um ritmo de treinamento. 

  A finalidade disso tudo é bem clara para nós. Seria de termos o irmão Sorman, em Ministro Extraordinário, excelentemente preparado para responder a qualquer momento onde estivesse, às perguntas pertinentes à irmandade, bem como manter contatos permanentes e conscientes com a hierarquia através da mente. Por outro lado, requer-se de um Mestre, senão o conhecimento pleno dos fatos acontecidos no planeta, também alguns nítidos vislumbres do passado ou futuro. Eventualmente, possuirá ainda a capacidade de levantar véus que cerram arquétipos já construídos para o futuro do Grande Plano do Criador. Mas como disse no inicio desta nossa conversa, somente devemos abordar acontecimentos desse teor e amplitude, quando justificarem-se os esforços por motivos relevantes e procedentes na vida humana. Entretanto, gostaria de iniciar com a telepatia.
  - Comigo está bem, pode iniciar quando desejar -  respondeu Sorman sem alterar a postura.
  - Ótimo, então relaxe e visualize uma tela branca.  O Superior fechou os olhos, o mesmo fazendo Sorman. Passados segundos ele voltou a falar brandamente - você está vendo uma imagem, diga-me o que é.
  - Vejo uma espada -  respondeu após ter ficado imóvel por vários segundos.
  - Descreva-a em detalhes, se possível. Ambos permaneciam de olhos fechados.
  - Ela tem a lâmina longa e perfeita. O punho em cruz possui duas pedras numa das faces. Uma das pedras é azul, a outra é amarela; a haste do punho é toda trabalhada com anéis, três ao todo.
  - Você agora vai escutar uma frase, preste atenção e a repita palavra por palavra. O Superior pensou na frase: “Deus, a primeira e única realidade!” Sorman esforçou-se sem conseguir o intento. O Superior tentou uma vez mais e aguardou.
  - Deus! A única palavra que pressenti - exclamou três minutos depois, um tanto decepcionado.
  - Excelente, excelente! - falou o Superior com efusão - este começo foi bastante promissor. Irei elaborar um pequeno esquema de trabalho para continuarmos estas práticas noutra oportunidade.

  Os momentos seguintes foram de completo relaxamento. Sorman foi informado pelo Superior acerca do cargo ocupado por Michel, que por sinal morava nessa mesma casa. Ele era o Terceiro Mestre Terra e comandava nos escalões da hierarquia importante departamento, pois detinha o controle de países da América do Sul no tocante à vida da irmandade. Curiosamente, o Superior cuidava pessoalmente de países da América Central, embora vivesse a maior parte do tempo nos Andes. Sorman lembrou-se do organograma chave da organização examinado na presença de Bruno.

  Decorrida mais de uma hora, levantaram-se por sugestão do Superior, vindo Sorman conhecer a casa. Entrando pelo corredor, chegaram a uma pequena sala, descendo pela escada externa até um pavimento inferior sob a casa, alguns metros abaixo do nível da rua. Tratava-se de um espaço retangular, numa área de serviço, onde funcionavam a lavanderia, a dispensa e o banheiro. O outro lado era um grande salão, interrompido ao seu final por um portal em arco que dava acesso a um pátio descoberto, no fundo da propriedade. O pátio teria oitocentos metros quadrados; tinha piso em placas de cerâmica, e era cercado de altos muros. No exato centro deste pátio, existia um poço encimado por uma casinhola no formato de uma capela, em cujo interior brilhava uma luz amarela. Havia neste local ampla iluminação provinda de lanternas dependuradas em três altos postes.

  Sorman observou o pátio com interesse, em seguida adentraram o salão. Era relativamente grande, com três largas janelas. O interior fora construído com dois patamares revestidos por compridos e claros tacos de madeira de lei. O primeiro patamar abrigava unicamente longa mesa de mogno, cercada de várias cadeiras almofadadas, ao estilo colonial. Após caminharem lateralmente à mesa, subiram dois degraus alcançando o segundo patamar, chegando a uma biblioteca. No centro desse patamar encarreiravam-se quatro cadeiras semelhantes às anteriores. A um canto, sob um vão livre das prateleiras, existiam dois computadores e uma tela de televisão sobre um console. Em derredor, ocupando as paredes, três enormes estantes tocavam o teto. Os escaninhos não estavam lotados; na verdade vários deles achavam-se vazios, mas ainda assim havia muitas obras da literatura nacional e mundial.
  - Chamamos este lugar de Salão de Conferências, aonde membros de nossa hierarquia vêm se reunir para deliberar sobre diversos assuntos - informou Michel.
  - Há reuniões regulares?
  - Depende da época e dos acontecimentos - adiantou-se o Superior acentuando o sotaque espanhol. O visitante deslizou o olhar para os livros e comentou:
  - Não vejo nada relacionado à irmandade. Inicialmente pensei existir obras à semelhança da Casa Rosa.

  Michel afastou-se alguns passos em direção a um painel eletrônico instalado numa das paredes, anterior a biblioteca, abrindo a portinhola.
  - Dois interruptores funcionam estrategicamente na posição de desligados. – ele virou o rosto para trás, após mexer em três das dezenas de teclas e acessar o código. Sorman, a princípio não entendera o que Michel fizera, mas viu surpreso uma seção da estante mover-se e girar, surgindo a outra face dela com os escaninhos abarrotados de obras encadernadas e codificadas. - Eis como funciona a biblioteca da irmandade! - Michel apontou com a mão aberta e sorriso nos lábios.

  Sorman tomou um dos livros a fim de examiná-lo, mas ao contrário do que imaginara não era manuscrito. Tratava-se da ata de uma assembléia acontecida em 27 de dezembro de 1953. Não desejando ser deselegante fechou-o imediatamente, recolocando-o no lugar.
  - Todas as estantes são construídas em seções, bastando selecionar de acordo com os códigos  - explicou o Superior.

  Súbito som eletrônico vibrou dentro do salão. Uma lâmpada vermelha acendeu na parede, começando a piscar. Michel e o Superior auscultaram o ar e seus rostos ganharam expressões de ausência.
  - É Verônica! - disse finalmente Michel, saindo.

  O Superior foi até a porta do salão seguido de Sorman. Poucos minutos depois surge na escada Michel, acompanhado de uma jovem clara e loura. Ao se aproximarem ela fez o sinal da irmandade para o Superior, falando com ternura:
  - Senhor Mendez, não sabia que estava aqui!
  - Desta vez não comuniquei a ninguém. Cheguei poucos minutos depois de você ter saído para o trabalho. Sorte minha ter encontrado Michel ainda em casa. Voltando-se para Sorman ela de novo fez o sinal, sendo respondida.
  - Sorman, como vai? - perguntou com a mesma ternura.
  - Bem, obrigado.
  - Verônica também esteve na sua iniciação - informou Michel.
  - Eu lembro!  Verônica lembrara-lhe Anita. O Superior retomou:
  - Sorman, por algum tempo voc~e precisará frequentar esta casa a fim de inteirar-se tanto quanto possível de assuntos patrimoniais, administrativos, financeiros e contábeis da irmandade. No princípio, aqui estarei para o exercício de suas faculdades psíquicas das quais há pouco falamos. Para os assuntos, você terá a assessoria de Michel e na ausência dele, Verônica. Não creio vir necessitar de muito tempo para este conhecimento. Poderemos nos reunir amanhã, após o expediente de seu trabalho?
  - Está bem, Superior, gostaria mesmo de inteirar-me de tudo o mais rápido possível.
  - Ótimo. Michel virá com você para, definitivamente, ensinar-lhe o caminho.

  Subiram. Verônica preparou-lhes algo para comer e lá permaneceram. Algum tempo depois Sorman despediu-se, tendo Michel o levado até local seguro onde pudesse tomar um taxi.
                                                                   CAPÍTULO IV
                                                                 A ASSEMBLÉIA

  Alguém ao seu lado, vestido de branco como ele, apontou para as amplas e altas portas indicando-lhe que as abrisse. O símbolo secreto da irmandade abriu-se também em dois e Sorman viu que eles se reuniam ante a mesa onde à cabeceira encontrava-se Bruno. Todos se levantaram aplaudindo-o. A salva ecoou pelos quatro cantos daquele salão de teto e paredes absolutamente brancos.

  - Caro Sorman, começou Bruno, esta é a primeira assembléia ordinária de que você participa depois de iniciado. Aproxime-se a fim de eu apresentá-lo a todos - ele apontou para o extremo oposto da mesa onde havia uma cadeira vaga, e em seguida procedeu às apresentações.  Sorman conheceu então aos sete outros Mestres Terra e aos dois Ministros, surpreendendo-se ao constatar dentre eles duas mulheres. Após, Bruno sinalizou que sentassem, prosseguindo:

  - A pauta principal desta assembléia virá tratar do entrosamento que o Ministro Extraordinário precisará ter com todos os Mestres Terra. Desejo inicialmente solicitar a todos os Mestres o fornecimento ao Ministro Extraordinário dos relatórios de seus territórios para avaliação dele de nossa situação mundial neste instante. Mas isto precisará ser feito com previsão, em dias distintos, no estúdio que o Ministro ocupará.

  Todos vestiam branco num só uniforme. No peito, ao alto e à direita, ostentavam o símbolo secreto da irmandade, chamado o símbolo interno. O outro, constante de formulários, papéis-cartas, livros e uniformes de ofícios ou de reuniões dos escalões menores, era chamado o símbolo externo. Um ruído desviou-lhe a atenção e viu uma jovem loura sentada próximo da mesa, diante de um computador completamente diferente de todos que conhecia. A um lado do computador, havia um aparelho de vídeo verde que, apesar de aceso, nada mostrava. No lado oposto, uma impressora de modelo também desconhecido, destacava folhas de um setor de suprimentos, as imprimia e as empilhava. A moça era Verônica e achava-se totalmente absorta na tarefa.

  - Com relação à Sorman, reiniciou Bruno, o senhor Mendez o estará treinando para dispor dos recursos da telepatia - como dispõem todos os Mestres aqui presentes - a fim de realizar contatos rápidos e precisos quando necessários. Entretanto, a cada período devidamente agendado, paralelamente às informações que estarão passando ao Ministro Extraordinário, ele precisará também conhecer de perto o trabalho de todos na irmandade - Bruno calou-se examinando rapidamente as fisionomias dos presentes, logo decretando: - vejamos agora como planejar tudo isto!

  Imediatamente se iniciaram os movimentos. Todos se integraram naquele assunto, conversando, fazendo anotações e se consultando. Falavam ora em espanhol ora em português, com sotaques bastante carregados. Enquanto confabulavam, Sorman reparou que o vídeo verde registrava muitos sinais à semelhança dos aparelhos médicos de geração eletrônica. Os sinais surgiam segundo a voz de cada um dos participantes da reunião, e quando fosse o caso, por ação de Verônica, entrariam depois no computador sem que houvesse a conexão de cabos entre os aparelhos, vindo a ser decodificados. Em seguida, apareceriam na tela do computador em forma de texto. Reparando melhor em Verônica, ele viu no lóbulo de uma de suas orelhas um minúsculo transmissor -  segundo supôs com acerto, pois mais tarde o examinaria de perto - e este transmissor tinha pequena e fina antena no desenho de suave espiral de duas voltas, moldado perfeitamente ao pavilhão do ouvido externo. Na extremidade da espiral havia pequena esfera transparente - violeta e cintilante - deixando entrever algo líquido ou gelatinoso no seu interior.

  Sorman concluiu ser um tradutor instantâneo dos sinais que o vídeo verde registrava, operando simultaneamente à decodificação no computador. Esse pequeno transmissor enviava as vibrações da voz de cada um dos participantes da assembléia ao ouvido de Verônica, e ela podia então reconhecer quem e o quê exatamente falava. Dessa maneira, trabalhava o texto compacto na tela do computador, fruto da decodificação automática, e de forma inteligente dava a sua redação final. Após esses necessários arranjos, o texto ia à impressora que fazia o restante do trabalho.

  O cruzamento das energias com os companheiros de mesa vinha trazer-lhe sensações diversas, ao mesmo tempo em que lhe despertava familiaridades. A postura formal do início da assembléia, embora quebrada pela pequena homenagem que lhe haviam prestado, desaparecia. Talvez nunca houvesse mesmo existido como ele teria imaginado à priori: agora acontecia total descontração. Após algum tempo de conversa, em que um ou outro dos componentes da assembléia chegava a se deslocar para onde Sorman estava, tinham elaborado um pequeno esquema de trabalho com o qual pretendiam suprir de informações ao Ministro Extraordinário.

  Bruno aprovou aquele primeiro esboço rapidamente elaborado, não sem antes fazer algumas anotações, inserir algo e inverter a ordem de dois itens. Ao passá-lo a Mendez, este o leu não fazendo qualquer comentário, endossando-o. Trataram então de outros assuntos e, tendo esgotado toda a pauta, o Irmão Supremo fez o encerramento. Ao se despedirem, trocaram sinais e se tocaram mutuamente em transferências de energias. Nesse momento, Sorman obteve de todos a exata idéia de seus relacionamentos no passado. Aquela sensação de familiaridade, que em principio no seu íntimo acordara, fora substancialmente reforçada de maneira a fazê-lo sentir-se reintegrado à hierarquia, não importando qual posto houvera anteriormente ocupado. Antes de deixar o salão de reuniões, falou-lhe particularmente o Superior, em meio ao suave burburinho de todos que saiam:

  - Sorman, neste dia que daqui a pouco amanhece, nos reuniremos novamente lá embaixo. Não sei quanto desta assembléia ficará em sua memória consciente. Mas não importa, por que tenho certeza de que com o tempo você conseguirá resgatar todos os registros dos acontecimentos deste plano. Portanto, não se sinta atrapalhado caso algumas imagens ou sons aqui produzidos venham cruzar-se instantaneamente com os registros de seu cérebro físico, em qualquer momento de suas atividades na Terra. Depois de certo tempo você aprenderá a conviver com fatos simultâneos.

  - Está bem, Superior – ele falou com tranquilidade – de certa maneira coisas assim já me são cada dia mais frequentes.

  - Certo, então até amanhã!
                                                                                
  Ao início da noite Michel encontrou-se novamente com Sorman, que desta feita dirigia seu próprio carro. Antes de deixarem o centro da cidade, Michel solicitou-lhe passar no endereço onde Verônica trabalhava, não muito distante dali. Sorman aquiesceu prazerosamente. Verônica já os esperava e após as saudações habituais, entrou e sentou-se no banco traseiro.
  - Prazer em revê-la mais cedo - disse Sorman, virando ligeiramente o rosto para trás.
  - O prazer é meu, irmão - respondeu ao mesmo tempo em que enlaçava Michel, à frente, acariciando seu rosto e beijando-lhe os cabelos.

  Em chegando a casa encontraram o Superior na sala, assistindo televisão.
  - Senhor Mendez, espero que o dia não lhe tenha sido por demais aborrecido – falou-lhe Verônica da porta, fazendo o sinal.
  - Absolutamente, jovem, acabo de chegar. Tive um dia deveras complicado e nada aborrecido – respondeu-lhe com naturalidade, levantando-se, respondendo o sinal a todos.
  - Então mudou os seus planos de aqui permanecer? - inferiu Michel.
  - Fui forçado a fazê-lo - disse simplesmente.

  Os homens sentaram-se. Verônica foi tratar das coisas da casa. Após meia hora, o Superior pediu licença a Michel, indo com Sorman para o Salão de Conferências, onde iniciaram os exercícios de telepatia. Mais tarde, Michel se juntaria aos dois para começar a instruir Sorman acerca dos assuntos administrativos e contábeis da irmandade, tendo o Superior se retirado. Às vinte e três horas, após ouvir as badaladas do pequeno carrilhão em ouro, Michel falou-lhe:
  - Por hoje basta, foram duas horas de trabalho. Foi ótimo termos chegado mais cedo; oxalá prossigamos amanhã com a mesma produtividade. Sorman concordou se espreguiçando. Logo subiram e Sorman os deixava.
  Aquela semana transcorreu extremamente operosa. Na empresa, Sorman viu-se envolto pelos problemas do projeto que sua equipe elaborava, consistindo na implantação de uma nova linha de produtos. A matéria prima, em parte adquirida do exterior com alguma estrutura já montada, mais tarde seria beneficiada. Outra parte do produto seria totalmente fabricada na própria empresa, com material adquirido de fornecedores nacionais e com o emprego de matéria prima obtida aqui no país. Antes de tudo, para levantar os necessários fundos, precisavam dar garantias, formalizar oficialmente o projeto aos bancos e entidades financiadoras, estimar a produção mensal, semestral e anual, considerando, principalmente, custos, despesas, valor final, margens de lucro, comercialização, fluidez do produto em diferentes mercados, marketing, etc.
 Depois desta etapa discutida e aprovada, conseguido capital e incentivos suficientes, tratariam de contratar pessoal para montar a fábrica. O processamento técnico de montagem da maquinaria se constituiria numa das mais trabalhosas etapas. Antes de tudo, iriam se deparar com outra batalha de inevitável desgaste – grande em atenções –  em que já se engalfinhavam e que se acercava de exigências e preocupações por interesses políticos e pessoais. Tratavam-se dos trâmites legais do projeto através da lenta e corporativista burocracia arrastada nas delegacias e divisões setoriais dos ministérios. As várias reuniões para os acertos técnicos da construção e montagem e a celebração dos contratos e compromissos diversos, se configuravam, desde logo, em tamanha e esdrúxula operação, que a exigida meticulosidade empregada nos meandros do planejamento, a nada de caricato se comparava. Concomitantemente, o projeto previa a reorganização do departamento de importação e exportação, visto que, para o mercado exterior – muito mais atrativo – pretendiam fazer escoar a maior parte da produção. O trabalho estava somente em seu começo, mas já vinha trazendo suficiente desgaste e irritação.
  As noites, Sorman cumpria rigorosamente o compromisso assumido com o Superior Mestre Terra, não faltando a nenhum dos encontros, sem mesmo saber de onde retirava tanta energia para realizar todas as coisas. Nessa sexta-feira, Michel não se encontrava em casa. Ao encerrarem-se as práticas com o Superior, Verônica ocupou o lugar do marido na assessoria requerida a Sorman.
  Foi surpreendente. Verônica tinha pleno conhecimento de todos os assuntos, fornecendo dados com precisão, ao mesmo tempo em que lançava mão com intensa  rapidez do imenso acervo da biblioteca a fim de consultar decretos, atas, normativas ou fatos contábeis de que tratavam. As respostas e conclusões às abordagens fluíam-lhe com tal velocidade, que provocavam em Sorman seguidas reflexões acerca de sua inteligência. Na realidade, pareceu-lhe que todas as coisas externadas por seus gestos, pensamentos ou palavras, provinham de um extraordinário móvel psíquico. Ela sorria, parecia brincar com os assuntos, e isto, a par das reflexões, impressionavam-no profundamente. Em determinado instante, num lampejo de visão, um quadro descerrou-se ante a percepção espiritual de Sorman e viu-a à assembleia, a trabalhar com desenvoltura diante dos aparelhos eletrônicos.
  Esse fato não o surpreendeu verdadeiramente; o Superior já o alertara naquele encontro de que interações mente x cérebro físico poderiam ocorrer ao longo da semana, embora não se lembrasse conscientemente disso. Ele já tivera ao longo destes dias alguns cruzamentos de imagens sem se impressionar, mas a versatilidade de Verônica veio aguçar o seu íntimo. Ela seria, segundo suspeitava, altamente psíquica e capacitada a evocar com precisão registros de uma memória superior que detivesse o conhecimento dos assuntos. Essa memória, concluía, podia ser de seu ego num plano acima, ou mesmo de outro ego, em qualquer dimensão, que com ela sintonizasse mentalmente. De qualquer forma, era algo como um fenômeno e pode avaliar que nada na irmandade, num processo mental como esse, poderia perder-se: tudo se controlava.
                                                                               
  Neste sábado Sorman estaria livre. A semana de tempo brusco e pancadas de chuva terminava com bela manhã ensolarada. O calor voltara forte; ele resolvera não ir à empresa, ficando à beira da piscina. Desta feita, não somente Olga o assediara com perguntas sobre suas saídas após os expedientes, mas também Eduardo mostrara preocupações. Não se importava com o que estaria fazendo: ele era livre e independente, porém por que fazia neste exato instante? Era importante para os negócios que descansasse, dormisse o suficiente e se alimentasse bem. Mas ele não respondia, fechando-se em silêncio. Entretanto, para alegria de Olga, hoje o filho estaria em casa; ela lhe prepararia um bom almoço; ele dormiria à tarde e talvez a convidasse para sair e jantar.

  O Sol obrigara-o a procurar refúgio sob o alpendre onde fizera o desjejum com sanduíches e suco de laranja, servidos pela empregada. Eram quase dez e trinta; ele se encontrava num estado mental intermediário entre o sono vagante e o limite da vigília. Os sons mais próximos não se apagavam de sua percepção; às vezes imagens indefinidas ou pensamentos aparentemente sem nexo, pululavam do subconsciente para a semi-consciência; ele não comandava, nem interferia: deixava-os transcorrer. “Hoje às 16 horas, no Salão de Conferências. Mendez. Confirme!” A voz nítida do Superior pareceu-lhe brotar do próprio cérebro. Ele despertou sentando-se; apoiou os pés na grama, sentindo o encosto da cadeira subir-lhe às costas. Teria imaginado?  Permaneceu pensativo mirando o verde gramado banhado do sol. Depois pervagou o olhar em derredor: todas as coisas pareceram-lhe absolutamente normais; então apurou a audição tentando perceber qualquer coisa a mais. Com efeito, passou a ouvir todos os sons externos. Mas não era exatamente isto o que buscava neste instante.



  Levantou-se indo à beira da piscina. A borda estava quente: ele estava descalço; voltou para a grama e de novo para a sombra, permanecendo em pé sob a barraca. “Confirme!”. Como imperativo, a última palavra ecoava-lhe solitária e buscou concentrar-se no Superior, enviando-lhe a resposta. Mas não teve a convicção de ter feito corretamente. Então a imagem de Verônica surgiu-lhe na tela mental e teve a idéia de transmitir-lhe as palavras: “Hoje, no Salão de Conferências às 16 horas. Sorman. Confirme!”. Aguardou, e quase imediatamente veio a resposta: “Confirmado!”.
  - Já sei, deve ser sua nova namorada? – Olga, surpreendida pela notícia, procurava disfarçar a decepção forçando meio sorriso.
  - Talvez - ele respondeu tentando brincar.
  - Você volta hoje? - ela agora falava sem reservas ou disfarces.
  - É provável. Caso não aconteça telefono para deixá-la sossegada. Ela se manteve séria. Eduardo nada dizia; comia macarrão. Mas ao término do almoço, quando o rapaz se levantava, o pai não resistiu:
  - Sorman, faça o que fizer, descanse à noite pelo menos.
  - Não se preocupe - respondeu deixando-os.

  As quinze e quarenta e cinco Sorman tocou a campainha. Verônica acionou o dispositivo desarmando a trava eletrônica. Algo estalou. O portão afastou-se e ele o empurrou definitivamente. Verônica o recebeu na sala com o carinho de sempre, fazendo antes o sinal da irmandade.
  - Vamos descer, o Sr. Mendez e Michel já estão lá. – informou, conduzindo-o à escada externa.

  Ambos conversavam na biblioteca. Após a transmissão do sinal, o Superior ofereceu-lhe assento. Ele estava alegre e jovial:
  - Meu filho, o seu progresso em todos os assuntos da irmandade bem como na prática mental tem sido acentuado. O teste de hoje foi bastante conclusivo.
  - Mas não consegui retornar-lhe a mensagem. Foi necessário fazer a ponte com Verônica - discordou em parte.
  - Não tem importância, o diálogo direto entre nós é questão de treino. Em pouco tempo, acredito, estará apto. Michel contou-me acerca de seu interesse e da rápida assimilação. É animador!
  - Tive a sorte de ter excelentes professores.
  - Ótimo que pense assim – seu semblante expressou, uma vez mais, jovialidade; depois reiniciou: -  gostaria de informá-lo que hoje me despeço de vocês. Estarei ausente por algum tempo. Volto aos Andes; é algo mais ou menos urgente. Por isto chamei-o aqui, retirando-o de seu descanso. Nesta oportunidade quero passar-lhe às mãos um livro documentando alguma coisa que você precisará ler neste salão para depois novamente ser arquivado - ele apontou para o livro encadernado nas mãos de Michel -  trata-se de assunto a ser confirmado em reunião neste mesmo salão. Michel estendeu-o ao Superior. Leia-o! – comandou o Superior, entregando-o, por sua vez, a Sorman.

  Desapontado por precisar ler tantas páginas que lhe consumiriam muito tempo, Sorman o abriu. Dizia o título: “Ata da Assembléia Ordinária realizada no Salão Branco em __/__/__. Ele virou a página começando a leitura. Mas não precisou ler muito por que percebia o ambiente onde a assembléia se realizara, ouvindo tudo o que se discutira.
  - Incrível, pareço ter participando da assembléia, consigo saber de tudo!
  - E participou, mas somente agora você é capaz de recordar-se daquela noite. Poderia deixar o livro de lado por um momento e continuar concentrado nos registros de seu cérebro? – Sorman entregou o livro à Verônica e fechou os olhos – diga-me do que a assembleia tratou? Ele passou a relatar-lhe em detalhes o que se discutira. Logo o Superior o atalhou – Sorman pare um pouco o relato linear, e tente fazer um resumo global da abordagem de toda a agenda. Ele ficou por quase um minuto em silêncio; depois recomeçou como lhe pedira o Superior. Ao cabo de cinco minutos havia terminado. O Superior não conseguia disfarçar o contentamento.
  - Ótimo Sorman! Numa só entrevista você deu mostras de alguns aspectos de seu alcance psicométrico. É novamente animador! Sorman sorriu, estava surpreso com tudo; não sabia ser possuidor destas raras faculdades, porém perguntou:
  - Acerca de nossos exercícios, Superior, quando novamente os retomaremos?
  - Não haverá qualquer interrupção, fique tranquilo. Daqui para frente desenvolveremos uma nova etapa, segundo um planejamento. De variadas distâncias e diferentes latitudes faremos as abordagens  -  ele enfiou a mão no bolso interno do paletó, retirando um envelope pardo  - leve isto e siga a todas as recomendações.

                                                                       CAPÍTULO V

                                                                         O ATAQUE

  Eram quase vinte horas quando Sorman os deixou. A pequena reunião houvera sido agradável. O Superior o esclarecera sobre alguns propósitos da irmandade, revelando-lhe também aspectos do trabalho em que estariam envolvidos nos próximos anos.

  Ao despedir-se do grande mentor com um aperto de mão, uma incontida emoção veio-lhe à tona, e lamentou aquela separação. Mais tarde, enquanto dirigia, admitiria que a cada encontro laços de mútua admiração e confiança se estreitavam entre ambos. A convivência com o Superior, embora por poucas horas durante uma semana, demonstrava-lhe uma simplicidade de pensamento em torno de alguma coisa em comum. O reconhecimento desse fato, certamente adviria de um sentimento mútuo, aberto e sincero, que os ligara por descendências, e que ainda o conduzia a pensar no Superior como seu pai.


Nessa série de acontecimentos, o que de melhor podia avaliar e mensurar concretamente ou não, era a conquista de uma iniciação e a condução a um alto posto de uma hierarquia de que pouco ou quase nada sabia. Mas pela falta de reais parâmetros, segundo supunha, talvez não conseguisse aquilatar ainda a perfeita dimensão de seus valores. Mesmo aqueles momentos de desprendimento e alargamento de consciência – alguma coisa parecida a um êxtase experimentado na Casa Rosa – seriam, contudo, insuficientes para determinar-lhe inabalável solidez, se é que estas coisas funcionavam desse modo.

  Impossível deixar de refletir sobre os acontecimentos que rapidamente se precipitaram e em pouco tempo determinaram novos rumos a sua vida. Por outro lado, não podia também deixar de considerar-se mergulhado num mar de fenômenos naturais e super físicos, apesar de tudo. Não tivera tempo suficiente para alimentar o ego com pensamentos definitivamente seus e solidamente estruturar-se em ambos os planos de existência. Não se sentia perdido no vazio, era verdade, pois pressentia um sentido superior a guiá-lo, mas reconhecia a atuação do oposto a esse sentido, e essa oposição resistia a tudo quanto de maior julgara ter conquistado. 

  Essa cogitação não tencionada, brotando naturalmente em seus pensamentos, despertou-lhe outras súbitas lembranças e viu-se novamente arremetido ao ashram. Como resultado, as mesmas dúvidas quanto ao valor de sua existência, que quando mais jovem o lancetaram, vieram de novo formar desfile – os vrittis que estudara – atraindo sensações antigas. A incerteza dos caminhos, a inadaptabilidade de outrora, a voz de Anita - tudo isso se ampliou em seu psiquismo, o envolveu e o perturbou, e ele estremeceu!

  Sufocado, veio-lhe a necessidade de caminhar e resolveu estacionar nas cercanias de uma praia. As pessoas passeavam despreocupadas na larga calçada; jovens enamorados trocavam carícias; grupos se reuniam para conversar; vendedores em barracas ou tabuleiros trabalhavam. Luzes e sons nesse lugar ajudavam a modelar a noturna fisionomia do sábado. Sob o céu estrelado, ele pulou do raso cais para os meandros da areia umedecida. O rumor de águas era suave e os ruídos dos homens subsistiam. 

  Superação! A palavra construiu-se dentre seus pensamentos e dominou. Ele viu o rosto de Bruno, ouvindo de novo as palavras a soar-lhe como irrefutável axioma: “O Grande Negativo! Na verdade, todas as coisas deste mundo estão voltadas para ele, tendo em si metade de sua essência.” 

  Em seguida, um rumor de águas e vento: ele era uma nau, a tempestade açoitava; vento, águas, nau, ele –  todas essas presenças se misturavam na visão mental. Havia turbulência, temor; as águas ficaram negras, o céu estremecera – socorro! Sua própria voz gritava em sua mente! Estaria enlouquecendo? Vozes e mais vozes começaram a ser ouvidas, também gritos, escárnio. “Quem és tu, homem pequeno?” Risos. “Vê o que não desejas admitir.”  Um negro braço então se moveu de baixo para cima, descortinando grande massa de seres humanos amontoados, pisando uns sobre os outros, querendo chegar, mas onde? Viu a seguir todos daquela massa mostrando ares de loucura e dentre a massa de rostos desconhecidos, estava o seu próprio rosto. “O teu destino é também o deles, hoje os reencontrará.” Súbita vertigem o tomou; os pensamentos se confundiram; não sabia se ria ou se chorava. “Sou eu quem te chama, sou eu quem te quer, és tão meu quanto sou teu.” A voz desta vez, como um ribombo, quase lhe explodiu o cérebro. Ele trouxe as mãos à cabeça e caiu de joelhos. “És um louco a mais, outro demente no mundo!” A voz de novo eclodiu. Inconscientemente ele tateou sobre o peito, tocando em alguma coisa que trazia.
  - O medalhão! – quase gritou, abrindo os botões da camisa, puxando-o e o colando à testa. As imagens começaram a se recolher num desfile invertido, escoando rapidamente como água que adentra um ralo. Uma gargalhada sinistra, provinda do ar, sobrelevou-se a tudo e desapareceu.

  Eram mais de dez horas na manhã de domingo quando se levantou, causando surpresa aos pais. Chegara a casa à beira da exaustão. Apesar das horas dormidas sentia muito cansaço. À tarde, ao novamente se recolher ao quarto, lembrou-se do envelope que o Superior lhe entregara, retirando-o do bolso das calças dependuradas no cabide. O envelope continha uma folha de papel manuscrita delineando um conteúdo de práticas de telepatia. Mas nada tendo hoje a fazer com relação a essas práticas, recolocou a folha no envelope e o condicionou à gaveta do armário.

  Dois estímulos começaram a competir em sua mente como impulsos. Um deles, o convidava a sair pelas ruas sem determinar-lhe destino ou direção. O outro, o chamava a aquietar-se e relaxar. Ele optou pelo segundo, sentando-se na cadeira, apoiando os braços nos descansos.  Logo os sentidos se apagaram e viu-se diante de Bruno, em pé, numa pequena sala.

  Ocupando metade do ambiente havia estreita mesa com objetos usuais, tendo atrás uma cadeira estofada – tipo poltrona  -  de especial espaldar de cabeça, e noutro lado duas outras cadeiras comuns, também estofadas. Numa das paredes, uma acanhada estante continha livros, pastas com arquivos e um computador com impressora, vindo totalizarem-se todos móveis e objetos ali existentes. Sorman deixara atrás de si a porta aberta e, Bruno, delicadamente, a fechou, logo falando:

  - Caro Sorman, o assédio começou muito antes do esperado. Descuidei-me no chamamento de sua atenção e não tive a exata noção de que seu rápido avanço desde logo atrairia ataques contra o seu mental. Foi um erro imperdoável. –  Bruno tinha a fisionomia abatida, parecendo embaraçado ao lançar o olhar ao chão. Ao cabo de alguns segundos novamente mirou os olhos de Sorman, prosseguindo – não posso pedir-lhe para que não recue. A retomada desta posição na irmandade foi-lhe difícil, não podendo ser diferente, mas a visão do futuro, permeada numa certeza, é somente sua. Nada ou ninguém, a despeito do que lhe digam ou mostrem em qualquer nível ou dimensão, virá convencê-lo intimamente. A liberdade de pensar e agir são um direito inalienável de uma consciência que haja adquirido o seu próprio dharma. O que se passou, devo enfim confessar, poderia ter-lhe causado dois definitivos resultados. Um seria a morte imediata; o outro, a alienação completa. O momento de um ataque como este, que de todas as formas deve ser evitado, deu-se de maneira envolvente. Quando isso se processa, em poucos minutos se interrompem as comunicações com os escalões da hierarquia e com a própria alma e nada se pode fazer senão aguardar que o ego vitimado detenha pessoais recursos para tentar escapar. Mas você conseguiu anular o ataque.

  Sorman que ainda não avaliara a exata amplitude do acontecido e do perigo enfrentado, mediante aquelas palavras sentiu um calafrio a percorrer-lhe a espinha.
  - Felizmente trazia comigo o medalhão dado por Germano.
  - Felizmente, mais ainda, você teve forças para não se deixar abater. Sorman procurou demonstrar tranqüilidade:
  - Admito que o ataque me causasse extra dispêndio de energia mental e psíquica, haja visto eu precisar descansar muitas horas. No entanto, este acontecimento serviu-me para reforçar a idéia de o Grande Negativo ser parte indissociada da natureza e do próprio ego, conforme você mesmo já me houvera revelado Não que eu duvidasse disto, mas nunca me detive a analisar. Porém, concluí definitivamente que o negativo, em essência, não pode ser considerado algo mau, aparte do Criador, pois não é a inteligência oposta a Ele, e você, Bruno, já houvera abordado e discorrido sobre esta razão em sua casa quando naquele dia conversáramos. E me permita também discorrer um pouco sobre o assunto, considerando mais ao fato de o Grande Negativo não causar oposição desmedida.

  Ele é perfeito no equilíbrio das leis cósmicas. A ação nefasta de sua polaridade – quando ocorre – não provém mecanicamente de sua natureza, mas sim, da incorporação de seus poderes pelas inteligências maléficas. Diria, objetivamente, existir de permeio no universo, até os seus confins, o reflexo do Grande Negativo num infinito rebatimento. Esse reflexo vem conformar nas dimensões ou planos cósmicos, os fenômenos invertidos da Matriz dos mundos, como na criação de um sistema solar, fazendo oposição ao reflexo da “revelação” da própria Matriz. Esta mesma “revelação” é, em essência, a contraparte positiva do universo. O outro, em oposta simetria, é a sua contraparte negativa.  Assim temos ambos os reflexos de ambos os produtos da Mente do Criador – da Matriz e de sua “revelação” – em oposição entre si, nos desdobramentos da matéria-raiz que originou o nosso sistema solar. Sob essa inerência, as inteligências invertidas vêm provocar choques ou destruições, quando naturalmente existir oposições, ao incorporarem as forças em projeção para baixo do reflexo da Matriz do Grande Negativo, ou seja, das forças involutivas de polaridade negativa que atuam para consolidar a própria matéria cósmica dos mundos, segundo a ideação do Aspecto Forma do Criador. 

  Esta maneira de ser e agir evoca a presença de uma Alma Negra Universal, existente nos interstícios de todos os mundos ou dimensões, que pelos motivos díspares já expostos é oposta a uma Alma Branca, boa e acolhedora, em mesmas proporções e medidas cósmicas da primeira, a quem, essa segunda, recorremos para todas as nossas necessidades naturais e aflições humanas. O negativo em si não pode ser impedido na sua permanente ação; entretanto, a cada giro do tempo, ele se reforça com melhor apuro da inteligência, produto da própria Mente Universal. Diria, nesse caso, que o mundo avança sempre para novos e mais definidos patamares. Esta citação vem encontrar o que realizamos nesse momento aqui no plano físico. O processo mental traz, de modo intrínseco, duas vertentes com os sentidos respectivos das projeções diametralmente opostos.

  Mas o mental é um só e quando nos posicionamos abaixo da geração e vórtices dos arquétipos, sem dúvida percebemos estas duas vertentes de ação conjunta a se equivaler em sentidos opostos, sendo uma de fuga para cima e a outra de fuga para baixo. A de fuga para cima, apesar da falsa noção de altura, vem ao próprio nadir unida ao seu oposto, e se lança naturalmente ao alto, a fim de encontrar a síntese numa única forma: a unidade. Sua qualidade principal é a fusão de todas as formas em seu plano de existência. A de fuga para baixo vem lançar-se para encontrar a pluralidade das formas. Sua principal qualidade é reconhecer-se em sucessivas experiências na matéria. Na realidade, ambos os sentidos têm a mesma origem, nasceram no mesmo lugar, sendo diferenciados nesses nossos mundos de fenômenos não pela essência, mas pela qualidade de suas ações.

  O ego humano, por outro lado, é dotado de mecanismos com suficiente capacidade para absorver a ambas as correntes e buscar, ele mesmo, a sua própria síntese mental. E realmente precisa fazer isto. O caminho do meio, muitas vezes citado por Buda, vai, nesse caso, além do conceito comumente entendido de que existe a necessidade da dupla pendência entre austeridade e prazeres, em modos alternados de compensações, para se alcançar o equilíbrio. Essa dupla condição existirá, reconheço, quanto mais literal for o envolvimento do ego nos laços de Maia, nas redes da ilusão; a opção é de cada um! Mas não é esse o exemplo daquilo que agora falo.

  O que entendo como realidade oculta nessa relação, é a síntese final necessária ao ego realizar. Num estágio muito longo da existência terrena, os discos fazem o trabalho do sentido de fuga para baixo, pelo fato da necessidade do ego precisar expandir-se horizontalmente na pluralidade das formas. A parte mais interessante nesse processo é a ação mental sobre todos os demais veículos que estruturam o ego. O processo há milênios vem sendo conduzido e aperfeiçoado na humanidade, porém quando tratamos de egos já no consciente curso do autoconhecimento, algo mais criterioso precisa ser considerado. Assim, nesses casos, as projeções naturais das correntes de energia nos veículos do ego, revertem o seu sentido, provocando nos discos unicamente o movimento de propiciar o refluxo para cima. Em consequência, as correntes virão aos poucos alcançar resultantes na mente, produto da ação conjunta positivo-negativo. Nesse momento é preciso ao ego realizar a aplicação de um permanente dinamismo, atraído da vontade do espírito, sendo esse imprescindível fator inerentemente sublimatório. Os discos são naturalmente os conhecidos chackras e as correntes revertidas para cima, neste processo final de uma grande síntese, atingirão de volta ao mental após milênios, com extraordinária voltagem. Daí, o reverendíssimo Buda citar com maestria a necessidade de se trilhar o caminho do meio, por que somente esse canal conduzirá a luz interior do ego para uma explosão ulterior. Ele parou os seus argumentos e mediante aquele inesperado silêncio, Bruno estimulou-o:
  - Prossiga, Sorman, não se incomode com o que eu tenha a falar.

  - Pois bem, os ataques negativos dirigidos ao mental, não se limitam às forças externas personificadas, criadas sob o reflexo da imagem invertida do Criador, que, por natural e contrária atração, vivem a atormentar o homem. Estas forças sempre existirão e é necessário lutar-se com denodo para não se deixar atingir, evitando-se deste modo danos aos nossos veículos ou mesmo divisões das forças com as quais trabalhamos para os nossos superiores objetivos. Trata-se de outra forma de ação. É inteligência coordenada pelo “pai de todos” os que se opõem. São ações sucessivas provocando ilusões mentais, interagindo com as energias plasmadoras das imagens criadas no ego. É algo instintivo a mover-se rápida e sub-repticiamente nas estruturas do próprio ego, a fim de tomar as rédeas dos seus mais íntimos pensamentos e guiá-los para fora, buscando neutralizar as forças coadunantes com a vontade, e, dessa maneira, abatê-las, anulando-as. Sugestões acerca das sensações na matéria física são veiculadas as imagens, fortalecendo-as externamente. Em dimensão cósmica, essa realidade intrínseca mental vem personificar-se no papel de gigantesco e imensurável ícone a mover-se pelos mundos, arrastando consigo correntes opositoras destrutivas, conhecidas por nós como o mal. Em sua ação, essa infinita inteligência opositora liga-se instantaneamente com todos os seus afins, mas vem provocar lutas íntimas naqueles que dividem e separam essas duas polaridades, ajustadas por qualidades, a uma idéia global de equilibrada existência.

  O ego voando para a liberdade é uma criatura que se encontra aparte dos seus criadores. O Divino ainda não o quer, e Maia o está perdendo. Num determinado estágio, ele é de certa maneira um indesejável que incomoda. Ao romper véus deixa rastros atrás de si; isso significa tentativa de escamotear as forças opressoras da natureza, por que, além de tudo, podem também estimular outros egos para intentarem os mesmos passos, o que lhe vale fortes represálias. Por outro lado, ele vem incessantemente requerer a luz, mas isto ainda não é possível possuí-la, pois é somente apanágio dos deuses.

  O Grande Negativo, numa relação de escala cósmica reduzida para um ser humano, está sempre vivo e pulsante na intimidade do ego. Está ao mesmo tempo nas formas exteriores da natureza planetária e na fluência dos arquétipos invisíveis que a tudo permeiam. Impossível, portanto, escapar de sua ação, mas em qualquer estágio do despertar do ego não é completamente impossível permanecer-se parcialmente fora de seu controle. O grande desafio para a sabedoria e determinação do iniciado, é descobrir o segredo do perfeito domínio de ambas as forças que a ele mesmo sustém. Você, Bruno, já mencionara este fato em nossa conversa, mas naquela oportunidade eu não reunia condições de compreender o real valor de suas palavras por não ter tido a experiência pela qual há pouco passei.

  Sei que não lhe falo novidade alguma e a intenção principal de todas essas palavras é de fazê-lo sentir que você não teve culpa alguma no acontecido. Sempre soube destas relações duais; por toda a minha vida venho convivendo com elas. Algumas vezes sou obrigado a mergulhar sob obscuros véus para realmente sentir, e isso ainda está longe de terminar em minha caminhada.

  Olhando esses acontecimentos sob um determinado ângulo, vejo-me até favorecido por agora saber como um ataque dessa amplitude pode ser desfechado. A minha consciência é livre e liberta de qualquer sentimento de acusação; nada que venha me acontecer poderá ser tributado por conta e responsabilidade de outra pessoa, seja quem for: tudo me diz respeito!
  - Espanta-me a sua coragem, caro amigo –  falou Bruno após um breve silêncio de Sorman – e sinto-me um tanto aliviado, embora não totalmente despreocupado, por suas atitudes intimoratas. 

   - Não há por que se preocupar, pois não pretendo provocar deliberadamente aos meus opositores. Essas situações acontecerão pela própria inerência das polaridades. Ademais, como você já disse, não há mesmo como escapar das lutas e é mister resistir às investidas ao nível em que elas aconteçam. Mas a luta não é somente minha. A sua própria deve dar-se, provavelmente, em proporções ainda maiores, motivo também de idênticas preocupações. – Bruno subitamente começou a rir, deixando Sorman atônito. – De que ri, Bruno, terei dito algo hilariante? – sua expressão era um tanto desenxabida. Bruno pôs-lhe a mão no ombro.
  - Não, Sorman, não! Estou rindo de uma situação de quase infantilidade, criada em minha imaginação.
  - Como assim?
  - Estamos ambos falando de ações negativas, resguardados sob as paredes de um estúdio. Isto me fez imaginar a posição de dois inexperientes neófitos, tentando apoiar um ao outro, ao mesmo tempo em que buscam, eles próprios, por autoafirmação. Pareceu-me querermos passar mútua coragem e um pouco de estratégia a fim de nos sentirmos reconfortados.
  - Tem razão! – concordou Sorman e Bruno gargalhou largando-se no assento da cadeira.

  Sorman voltou à consciência abrindo os olhos. Por alguns segundos ficou-lhe na percepção a distante cena de Bruno sentado e rindo, que logo desapareceu por completo. Ele então se levantou e foi tomar banho. Após se vestir, informou aos pais que sairia. 

   Sem que resistisse à idéia, trinta minutos depois entrava pela rua onde Anita morava, passando lentamente diante de sua casa. Alguns metros à frente ajeitava o retrovisor do carro para melhor observar. Perguntava-se, não obstante, se teria esse direito. Segundo soubera, ela tinha um filho, possivelmente viveria com o companheiro. Por que então imiscuir-se na sua vida, talvez abrir-lhe antiga chaga, fazendo-a novamente sofrer? Esse provável fato inquietou-o. Como a provocá-lo, o mágico sorriso de Lucéa vestiu-lhe os pensamentos e seu beijo foi outra vez sentido. Foi somente uma despedida: desejou convencer-se! A inquietação perdurou por uns poucos minutos até ele dar-lhe um fim, desistindo da idéia de ali permanecer. Sentia-se ridículo e arrancou do lugar indo para o outro lado da cidade.

                                                                     CAPÍTULO VI

                                      ENTREVISTA COM O QUINTO MESTRE TERRA

  O Quinto Mestre Terra era Stefany, jovial senhora eslava, que realizava o seu trabalho no país de origem. Como os demais Mestres Terra, ela detinha sob a sua administração alguns países. Stefany vinha colaborando com a hierarquia por quase três décadas, tendo antes exercido a função de Mestre Menor de seu falecido antecessor. Seu ótimo desempenho sob governos socialistas, a recomendou para ocupar a principal posição desse departamento. Cuidara de centenas de famílias da célula e ao viver fisicamente entre eles, contribuira para constituir unidade maior entre os irmãos, avivando-lhes nas almas as lembranças do por que estarem ali encarnados neste momento. Criou grupos que se reuniam secretamente para se fortalecer mental e espiritualmente, desenvolvendo com eles mecanismos de contato com escalões da hierarquia, bem como trabalhos de cura. Cada grupo tinha senhas e sinais próprios que identificavam os seus respectivos membros. Possuíam um serviço de espionagem para salvaguarda de seus interesses. Nos grupos, havia militares conscientizados de seus papéis externos e internos relativos aos verdadeiros ideais de vida da célula.

 A grande decepção vivida por Stefany, fora a traição de um membro pertencente a um de seus grupos. Ignorando a todos os alertas acerca das forças malignas, o irmão deixou-se envolver e seduzir, desejando posição e dinheiro. Sendo funcionário do governo planejou delatar a todos os membros de seu grupo com a denúncia de que conspiravam. Já houvera feito contatos com o serviço secreto do país, e recebera a promessa de um pagamento inicial em espécie quando entregasse a relação com os nomes e endereços. E tão logo o grupo fosse surpreendido em reunião e levado para interrogatório, a isso se seguiria a indicação para um cargo superior. O governo proibia reuniões secretas por suspeitar sempre de conspirações. Sindicatos, mesmo assim, mediante muita luta e ações, haviam conquistado o direito de se reunir, opor-se e reivindicar. O governo promovera umas poucas aberturas econômicas com outras nações, contrariando o comando soviético. Mas a repressão e o terrorismo contra o povo e pequenas organizações que lutavam pelos direitos humanos ainda continuava. Torturas, mortes e desaparecimentos se sucediam na calada da noite.

  Entretanto, na manhã em que o traidor se dirigia à sede do serviço secreto, levando a relação, sofreu infarto fulminante ao volante de seu carro, morrendo instantaneamente. Chamada por populares, uma ambulância levou o corpo para o pronto socorro mais próximo. Quando os agentes do serviço secreto foram avisados do acontecido e para lá se dirigiram, nada encontraram com os seus pertences: a relação incriminadora, avidamente procurada, houvera desaparecido da pasta do funcionário morto.

Após a queda das barreiras soviéticas e a transição do antigo regime, as coisas haviam melhorado bastante com relação ao trabalho da hierarquia. O terrorismo do governo terminara e os grupos podiam reunir-se sem temor.


  Stefany tinha em torno de 1m65cm de altura, seus cabelos se mesclavam de ruivos e brancos; ela era magra, tinha a pele bem clara e o rosto extremamente simpático. Sorria muito, repuxando os olhos castanhos, com isso trazendo à fisionomia um pouco da aparência oriental. Isso, sem dúvida, se devia a sua ascendência por que o avô nascera numa região entre a Mongólia e Sibéria, embora o pai fosse do Cáucaso. A mãe era eslava. Ela adentrou o estúdio de Sorman acompanhada de dois ordenanças, que, `a sua ordem, deixaram as pastas de arquivo a um canto, e se retiraram.



  O Quinto Mestre Terra começou imediatamente a passar ao Ministro Extraordinário as informações, dando-lhe desde logo sugestões ou adiantando futuros procedimentos. Havia a projeção de um trabalho para os próximos dez anos, outra para os trinta seguintes. No primeiro planejamento de dez anos, estava prevista a introdução de novos métodos de desenvolvimento mental devido às grandes mudanças já acontecidas na natureza psíquica da humanidade. Stefany já preparava o seu pessoal para esta nova ordem de trabalhos. Todos os Mestres Terra haviam também recebido as mesmas instruções e recomendações para isso realizar. Dependiam, na prática, de adaptar os métodos às raças ou etnias, nas quais a célula tinha membros encarnados na vida física. Caberia, ainda, uma série de considerações acerca dos futuros corpos destinados aos membros viventes nas Américas e em locais da Ásia, como instrumentos válidos. Mas isso fazia parte da segunda fase deste mesmo cronograma, apresentado pelo Irmão Supremo aos Mestres Terra, em reunião ocorrida há cinco anos. O que agora começavam efetivamente a pôr em prática era a primeira fase.

  O planejamento para o trabalho dos próximos trinta anos previa, igualmente, duas fases. A primeira dizia respeito aos irmãos encarnados, na idade infantil. A segunda respeitava às almas que nesse momento se preparavam para reentrar no mundo físico. Estas últimas, já vinham recebendo treinamento e elucidações de professores, que buscavam atualizá-los com as correntes do pensamento mundial. Isto facilitaria sua adaptação aos problemas humanos. Contudo, essas almas, em quem depositavam esperanças e confiança, estavam imbuídas de um papel ainda mais importante, que era de ser portadoras de um tipo específico de energia mental que as colocaria na vanguarda do mundo. Não se tratava propriamente de formar intelectuais, cientistas ou filósofos. Alguns expoentes até poderiam desenvolver pensamento crítico ou científico. E já existiam no mundo muitos representantes dos povos com liderança política, científica, filosófica, religiosa e artística, sendo almas da célula. Mas o que se esperava dos possuidores dessa energia mental, seria maior facilidade em se adaptarem aos novos tempos, desdobrando melhor visão dos problemas globais humanos de todas as nações e vislumbrando com maior nitidez alguma coisa da realidade oculta do Criador. 

  Seriam, na sua quase totalidade, pessoas do povo, vivendo nas classes sociais de média aquisição econômica, mas tendo fácil acesso a todas as classes onde marcariam a sua influência. Esse segundo cronograma para estar ajustado, dependia em muitos pontos dos resultados práticos do primeiro, de dez anos, visto necessitarem, sobretudo, das avaliações dos testes e implementos aos equipamentos cerebrais disponíveis. Mesmo que o primeiro cronograma não produzisse os resultados esperados, o segundo o seguiria, podendo ser aditado no seu curso, por atuações e experimentos específicos dos cientistas da célula. Consoante ao pensamento da hierarquia, os corpos que a irmandade utilizaria para as finalidades previstas, necessitariam estar aparelhados com cérebros adequados ao máximo. 
Nesse processo, as potentes arremetidas dos fluxos da radiação dessa nova era continuariam a ser especialmente trabalhadas nos equipamentos mentais utilizados pelos irmãos. Isso, sem dúvida, aconteceria num primeiro segmento planejado conjuntamente ao trabalho mundial com todas as raças. Outras implicações viriam mais tarde se desdobrar com os membros da célula, após a bem sucedida experiência desses próximos trinta anos. E para essa execução, os ajustes seriam considerados na medida do andamento dos fatos da vida física, no tocante a evolução da própria humanidade. Era o que os membros da hierarquia contavam com redobrado otimismo, embora soubessem que tudo estava somente começando.

  Stefany levantou-se. Em meio às pastas depositadas a um canto no tapete, alcançou uma maleta que a apoiou sobre as pernas ao de novo sentar-se diante da mesa. Abriu-a e retirou dali um único e grosso livro de largas folhas. Disse tratar-se de um esboço do cronograma de projeção dos diferentes projetos elaborados para a evolução das raças, a ser colocado em prática possivelmente na segunda década do novo milênio. Esse cronograma para o mundo, infinitamente mais amplo do que os dois anteriores, ainda que sem uma base totalmente segura, vinha prever expansões das variadas áreas das atividades humanas em todo o planeta, cujas execuções objetivariam um único ideal: proporcionar os meios de as almas conseguirem trabalhar melhor as suas dificuldades a fim de alcançar, nessa era, a meta inicial prevista nos desdobramentos do Plano do Criador. Esse objetivo consistia de a humanidade, aos milhões, atingir conscientemente o átrio de entrada do caminho evolutivo. E se milhões entendessem de fato a importância desse objetivo, e sem perda de tempo deixassem de lado os apelos das ilusões, chegando ao átrio, e seguissem em frente,  a meta final desse trabalho como um todo, seria atingido com rapidez nos próximos séculos. Algumas folhas do livro abriam-se em mapas, fluxogramas e pequenos organogramas de administração ideal para as situações que certamente se apresentariam. Levavam em conta conquistas obtidas por outras hierarquias nas suas experiências em sistema solar precedente, muito embora os objetivos passados fossem outros. A ação dos mentores espirituais do sistema solar anterior – há trilhões de anos terrenos –   acontecera sob a ótica da expressão material do próprio Sol.

  Ao mostrar-lhe o quadro geral da distribuição populacional do planeta, Sorman notou quão diferente os continentes apareciam em relação ao mapa mundi atual. À medida que Stefany virava páginas, descrevendo as intenções dos estudos, ele verificava que a hierarquia realmente se preparava para conviver com uma nova época. E essa nova época vinha sendo planejada para trazer a verdadeira integração das ciências, com o objetivo em comum de atender a humanidade sem interesses pessoais. Estariam eliminados os privilégios de raças, países, ou grupos econômicos. Nada a ninguém pertenceria senão a todos. Os esforços se integrariam para pôr um fim nas diferenças sociais quanto aos direitos básicos de cada cidadão. Haveria, pois, o aniquilamento de todas as carências humanas; os organismos de assistência social, modernamente equipados, seriam fortalecidos nos seus serviços. 

  Mais adiante, Stefany apresentou o que se esperava dos frutos da atividade inicial de saneamento e erradicação dos males que atrelavam a vida humana a um trabalho escravo de sobrevivência. Não se viveria mais unicamente para o trabalho. Índices cromatizados, quadros sinópticos, curvas e outras expressões estatísticas, vinham caracterizar a seriedade do projeto, fantasticamente abarcante. Outros mapas envolviam outras sequências de dados e índices, mostrando, de início, o atlas atual e com especial destaque, certas áreas de assentamentos populacionais. Os detalhes dessas áreas especiais eram mais precisos, melhor delineados, e Sorman notou tratar-se do trabalho da irmandade em prol de sua célula. Daí em diante, o livro dos projetos abordaria unicamente esse assunto.
 
  - Veja bem, Sorman – ela recostou-se no espaldar almofadado da cadeira, desligando-se momentaneamente dos fatos e projeções apresentados no livro. Tinha o sotaque carregado como os eslavos ao falar português – não somos de maneira alguma um organismo independente, especialmente destacado do corpo mundial por um tipo qualquer de grandeza. Todas as raças e nações nos preocupam; temos as nossas responsabilidades para ajudar a esse corpo mundial. Todavia, dentre todas as células que o compõe, encontra-se a nossa própria célula e somente a nós compete dela cuidarmos. E quanto melhor estiver o meio ambiente saneado e purificado, digno, portanto, de se poder desenvolver um trabalho constante e ideal, melhores serão os resultados. A integração dos organismos que estruturam a esse corpo é uma necessidade primordial, devendo ser a principal atenção de todos os povos. As diferenças existem entre as células, não podemos a isto negar, porque é uma realidade até necessária. Mas a preocupação e os esforços mais específicos por nós desenvolvidos deverão ser carreados sem perda de tempo para o projeto pertencente a nossa célula, porque ela é a nossa casa. Ninguém pode conservar e melhorar o ambiente de seu próprio lar se a sua ocupação principal de todos os momentos for unicamente ajudar o seu vizinho.
 
  Talvez eu não precisasse exemplificar essas coisas; você é muito inteligente e perspicaz, certamente já terá observado. Entretanto, deve entender não se tratar de egoísmo ou orgulho racial, mesmo porque estamos longe ainda de abrigarmo-nos por completo numa raça própria ou etnia. Por enquanto estamos tomando corpos emprestados do que melhor existe nas diversas raças mundiais, por que é uma necessidade humana, e, principalmente, para a readaptação ao mundo físico do ser psíquico de nossas almas. Serão necessários outros períodos alternados de reencarnação nos séculos vindouros, para os irmãos estarem realmente aptos a trabalhar as qualidades mentais superiores na direção correta, conquistando-as definitivamente, segundo as necessidades da célula – ela cessou os argumentos como a dar oportunidade a Sorman de expor alguma coisa. Falara com boa fluência, às vezes entremeando palavras e expressões em espanhol. Sorman entendeu a pausa.
  - Não se preocupe com o meu julgamento, Stefany, pois creio ter compreendido o porquê da hierarquia esforçar-se com tanto afinco para os nossos. Ademais, vejo nessa concentração de energias e calculado dispêndio para nossa célula, algo altamente benéfico também para todas as demais células do planeta, exatamente como determinam as leis da natureza. Nossas aquisições e conquistas, sem dúvida, ajudarão a melhorar o mundo. Que cada hierarquia, portanto, cuide bem dos seus para o benefício mundial! Ela sorriu e continuou:
 
  - É bom saber que você já incorporou esse espírito sem perder a noção de espaço. A universalidade de pensamento não pode ser outra entre os membros da irmandade. Nisso reside a coesão de nossa unidade. E gostaria também de aduzir, a propósito de tudo, que atravessamos um momento mundial ímpar na história da evolução humana. Jamais antes um projeto tão grandioso e abarcante, com tantos recursos das ciências, foi colocado em prática para os servidores desenvolver. Nossa grande família vê-se, pela primeira vez, inserida de forma organizada num contexto amplo e minucioso como esse. No passado, nas interpolações da célula na vida humana, a dimensão de nossas ações foi outra; os objetivos adrede formulados foram alcançados por poucos a cada vez, e esses poucos atuaram como líderes dos que os seguiam mais atrás. Muitas metas determinadas para um período de atividades e evolução da célula foram, na realidade, atingidas pela maioria num ciclo posterior, quando a meta a ser alcançada já era outra. Entretanto, mediante cotas extras de esforços, sacrifícios e auto-entrega, conseguimos avançar bastante nos dois últimos ciclos de nossas vidas na Terra, a ponto de já aspiramos por uma ascensão coletiva a um plano mais alto, quando esse atual ciclo se consumar. As famílias que caminham na retaguarda, pertencentes à célula, se ainda avançarem o suficiente, permanecerão, no próximo interlúdio de ciclos, nos mundos internos, nos seus respectivos planos, mas estarão ainda longe dos que se adiantaram 

   - E caso os últimos não consigam atingir um mínimo possível de condições para a próxima manifestação física de nossa célula, nesse planeta de desafios cada vez maiores? E os que virão em seguida onde hoje a maioria de nós está? Como todos se situarão? – Sorman perguntou com vivo interesse.
  - Para os que nos seguem de perto, o nosso momento atual será o deles após o próximo interlúdio. Os que os seguem imediatamente atrás, logo terão o seu momento em idênticas condições aos deles, vindo por último os estagnados. Esses ramos estacionários da retaguarda, que fecham a situação da célula, serão o grande problema. Nesta fase atual de transição planetária, logo não haverá mais lugar para eles na Terra e precisarão ser transferidos para um novo lar. Esse novo lar lhes será um distante planeta em nosso sistema solar, em que viverão por um longo período e para onde precisaremos deslocar equipes a fim de auxiliá-los em suas evoluções.
  - Então estes membros missionários componentes de equipes estarão também retidos no seu caminho evolutivo, pelo menos temporariamente, devido a esta tarefa, imagino.

  - Exatamente, Sorman. Os voluntários deste grandioso trabalho são chamados “Chamas Ardentes em Sacrifício”, por que nada em nossa célula é comparável à sua entrega em benefício do próximo – Sorman fitou-a silenciosamente em reflexão. Stefany, percebendo os seus pensamentos, não se permitiu invadi-los. Passados instantes, ela retomou – bem, deixe-me entrar propriamente na minha particular área de ação. Esses assuntos de caráter geral da hierarquia couberam-me a mim passá-los a você por comum acordo entre os Mestres Terra. O livro do cronograma mundial é seu; todos os Mestres Terra possuem um exemplar igual. Os arquivos que trouxemos são para seu manuseio agora, porém todos os assuntos aqui concernentes de meu departamento estão armazenados no computador; você poderá acessá-los sempre que desejar.

                                                                      CAPÍTULO VII

                                                  VIAGEM E MISSÃO FANTÁSTICAS

  Sorman virou-se. As noturnas trevas resistiam, mas já era possível entrever pela janela os recortes irregulares dos galhos da mangueira. Ainda faltava para o dia raiar, e ele tentou dormir mais um pouco.

  Imagens se sucederam, Sorman pretendeu ignorá-las. Gigantesca face negra assomou. Era tão imensa que ele ficava reduzido ao tamanho de um alfinete. E crescia. Quando ela atingia um tamanho mais descomunal ainda, abriu os olhos lentamente, deixando transparecer irônico ar. Logo sorriu. Aquele sorriso da monstruosa boca causou pavor. Os lábios grossos começaram a se mover e a boca a falar. Moveram-se mais: ela falou e falou, porém Sorman nada ouvia.

  Os enormes olhos da extraordinariamente gigantesca face tornaram-se fixos em Sorman. Transmitiam indignação, ficaram mais abertos com expressão odienta. E a boca continuava a falar. Então ela abriu-se por completo, mostrando dentes como o ébano, e ele viu-se a contemplar a mais negra, profunda e assustadora garganta. A boca aproximou-se. Sorman recuou desejando fugir. Gritou desesperadamente enquanto a boca tentava sugá-lo!

  Nessa terça-feira Sorman trabalhou como nunca. O projeto na empresa continuava a exigir-lhe grande dispêndio de energia e muitas providências. Esquecera-se do terrível pesadelo e apagara da memória a figura de uma mulher clara e simpática que sorria muito. Os demais assuntos de sua vida haviam também ficado em segundo plano.

  No quarto, perseguia-o outra imagem. Era algo, a princípio, indefinido a lhe penetrar a mente, que saía e voltava. Como não conseguisse afastá-la ou isolar-se, posicionou-se então a fim de reconhecê-la. Tratava-se de uma taça de ouro, cravejada de muitas pedras, a insinuar-se com persistência e graça de uma bailarina. Após algumas evoluções, a taça aproximou-se, ficando perfeitamente estática. Era belíssima, reluzia, e Sorman ouviu: “O Irmão Superior envia saudações ao Ministro Extraordinário!” A voz provinha de dentro da taça; Sorman deu-se conta de não ter observado as instruções deixadas pelo Superior. Envergonhado, quis responder diretamente para a taça, porém sua tentativa foi superposta por novas palavras: “Amanhã, no mesmo horário, novo contato!” A taça oscilou, e, como um cometa sem cauda, deixou rapidamente o quarto. Ele imediatamente se levantou indo ao armário, retirando dali o envelope, lendo e relendo as instruções. Depois guardou novamente a folha no envelope, lançando-se à cama.
                                                                     
  - Rápido, Sorman, venha! - Bruno adentrara seu estúdio apressadamente. Ele mal teve tempo de desligar o computador, acompanhando-o ao Salão Branco.
  - De que se trata?
  - Vamos viajar, há perigo para alguns de nossos irmãos na Europa. Militantes de nossa irmandade já se encontram no local!  Bruno abriu uma porta lateral adentrando por um corredor, Sorman o seguiu. Ao final, abriu nova porta e penetraram numa máquina fantástica no formato de uma ogiva. Dois operadores, usando uniformes brancos parecendo plastificados, com capuz e óculos especiais, ligavam e desligavam instrumentos de um grande painel. Luzes se projetavam do painel; os operadores com luvas também brancas apressavam-se em busca de referências num imenso vídeo pouco acima de suas cabeças. À medida que pressionavam teclas e botões, o vídeo mostrava variações. Linhas em coordenadas, mapas de continentes ou países, condições atmosféricas, sons, indicações de trilhas: tudo era observado pelos operadores. A cada situação, o vídeo mostrava novas luzes e diferentes sons e eles imediatamente refaziam programações, utilizando-se dos instrumentos do painel.
  - Não se distraia agora com os instrumentos, siga-me – ordenou Bruno, empurrando uma porta de vidro azul opaco, entremeado com roxo e rosa, às costas dos operadores.

  Ao entrarem, Sorman notou outros passageiros nas poltronas. Vestiam algo como armaduras de guerra. Bruno fez deslizar suavemente uma porta ovalada na parede da ogiva e retirou de uma das prateleiras dois pequenos pacotes. Estendeu um para Sorman, tomando o outro para si.
  - Vista-a! – ordenou-lhe, enquanto desdobrava seu pacote revelando um tipo de macacão, e se enfiava nele. Após, fechou-o desde a cintura até o pescoço. As partes atraíram-se, ficando instantaneamente seladas. Em seguida, ajeitou o capuz, fixando-o perfeitamente à cabeça; fez ajustes nos pequenos discos adaptados aos ouvidos e levou as mãos à testa a fim de sentir se os óculos estavam ali perfeitamente colocados. Observou, depois, pela transparência de seu visor, os movimentos atrapalhados de Sorman.

  A veste tinha frisos e enchimentos almofadados, parecendo realmente uma armadura, como aquelas dos passageiros. Sorman ficou surpreso com a sua leveza porquanto não pesaria mais do que meio quilo. A cor aproximava-se ao chumbo, entretanto cambiava tons azulado e roxo. Conquanto Sorman não tivesse a mesma desenvoltura para vestir-se, Bruno ajudou-o com as mãos e instruiu-o, falando-lhe através de um minúsculo e imperceptível microfone instalado no visor, diante da boca. A voz, por seu turno, vibrava do peito e ombros, onde se achavam camufladas muitas outras minúsculas peças de percussão.
  - Não se preocupe com o ar, há suficiente oxigênio e energia prânica nesta nave, perfeitamente absorvidos pela veste. Sorman assentiu meneando a cabeça, encerrando o ritual de vestir-se. Sentaram-se vendo através da porta e parede vítreas diversas luzes que aos poucos se tornavam mais intensas. Suave movimento de decolagem impulsionou-os para trás, fazendo-os flutuar gostosamente.
  - Para qual cidade estamos indo? - ele baixou os olhos para o peito, depois virou o rosto para um dos ombros, estranhando a voz sair dali.
  - Não é cidade, estamos indo para uma vila num país do leste Europeu.
  - O que exatamente está acontecendo?
  - Forças malignas preparam um ataque para destruir os corpos de nossos irmãos, é grande o perigo.

  Pelo seu deslocamento, a aeronave já deveria ter decolado a altíssima velocidade, suspeitou Sorman. Ele tentou observar alguma coisa através da janela circular, próximo a poltrona de um passageiro. Mas junto a Bruno, da poltrona geminada no meio do salão, tinha unicamente a visão de sombras. Passado pouco tempo, Bruno fez deslizar uma pequena tampa metálica da extremidade de um dos braços de sua poltrona, deixando à mostra diminuto painel. Em seguida, pressionou o pino de um interruptor para a posição de ligar, arcando ligeiramente o tórax, ordenando:
  - Acender a tela de bordo! Um disco rosa surgiu imediatamente no interior da tela ovalada e côncava no meio da parede frontal, abrindo-se como um girassol, e num flash tomou a tela por inteiro. Bruno fechou a pequena tampa e baixou suavemente o braço da poltrona, apoiando-se nele, sem tirar os olhos da tela. Porém, nada de concreto apareceu, exceto formas de nuvens escuras penetradas pela aeronave na sua trajetória retilínea. Ele observava a tudo impassível e silenciosamente; mais adiante pareceu excitar-se ao ver outra situação. Já era possível visualizar casas e pequenos bosques. A aeronave finalmente sobrevoou um vilarejo, reduzindo sua incrível velocidade, fazendo um lento voo de reconhecimento. Todos os demais passageiros passaram a fixar-se na tela com maior atenção, percebendo enorme cogumelo que envolvia um largo perímetro do vilarejo, lançando tentáculos em direção das casas. Tratava-se, em realidade, de uma acinzentada e densa nuvem, carregada de eletromagnetismo, que de vez em quando troava ou produzia seguidos chiados, a exemplo de descargas elétricas.

  A aeronave fez novas manobras antes de aterrissar e eles puderam ver o cogumelo por baixo. Logo a porta da nave se abriu e todos desceram. Contavam doze passageiros, sendo logo cercados por vários outros homens vestindo quimonos pretos. Um deles, de cabelos cheios e negros a tocar-lhe os ombros, se apresentou a Bruno, com um dos sinais da irmandade, expressando-se num português sem sotaques:
  - Meu nome é Boris. Sou o Terceiro Ordenança do Segundo Mestre Menor do Quinto Mestre Terra. Encontro-me no comando deste grupo obedecendo ordens superiores. Bruno respondeu ao sinal e perguntou-lhe:
  - Como está a situação? 
  - Perigosa; a artilharia aguarda ordens do comando para começar a disparar os canhões.
  - O que vocês conseguiram até agora?
  - Aprisionamos uns cinquenta antes que alcançassem o acampamento da artilharia, mas breve estarão chegando mais deles.
  - E quanto aos moradores?
  - Não pudemos fazer contato, nossas ondas mentais não conseguem penetrar este campo de força; da mesma forma não podemos atravessá-lo com nossos corpos. Bruno olhou uma vez mais para o cogumelo, admitindo-o ameaçador. E como a suspeitar de alguma coisa, o cogumelo recomeçou a troar e a lançar pequenas faíscas.
  - Vocês fiquem aqui – ordenou aos de quimonos – meus homens e eu entraremos na vila! Boris imediatamente traduziu-lhes a ordem, falando num idioma eslavo. Bruno fez sinal com o braço, apontando com o dedo indicador, descrevendo um círculo horizontal no ar. Os homens da aeronave entenderam e se aproximaram, formando o círculo sugerido. - Sorman, permaneça aqui até voltarmos!
  - Não, Bruno, eu quero participar! –  redarguiu veemente – não vim a este lugar para ser um simples espectador. Bruno não argumentou, parecendo já esperar este oferecimento.
  - Está bem, faça então o que eu comandar, mesmo sem a perfeita consciência do que realiza. Sorman fez um breve meneio de cabeça e Bruno ordenou –  Energia gama! – ele colocou a mão direita no ombro esquerdo de Sorman e cochichou-lhe – concentre-se somente nisto.

  Imediatamente uma energia azul penetrou-lhes a mente, passando pelos doze homens. Sorman sentiu fugir-lhe a consciência, ficando por segundos fora dos seus domínios. Em seguida, teve a sensação de seu próprio corpo ampliar-se. Era algo como se tornar uma esfera e perder a noção do espaço. Mas logo voltou a dominar-se, estando, entretanto, completamente eletrizado. A energia que inicialmente os penetrara em forma de anel se alargara na sua ação, constituindo-se agora num tubo mais vibrante, descendo-os das cabeças aos pés. A seguir, a parte superior do tubo se transformou na figura de um cone invertido, cuja base começava à altura dos ombros dos homens, e o ápice alcançava alguns metros acima de suas cabeças. O cone e o tubo passaram então a rodopiar com incrível velocidade.
  - Em frente! - comandou Bruno, se movimentando e puxando os óculos de sobre a testa para sobre o visor. Os homens fizeram o mesmo com seus óculos e realizaram rápidas evoluções, conformando uma seta onde Bruno era a ponta inicial. Em dupla coluna o seguiram. A formação terminava com um último homem se constituindo solitariamente na ponta final. O tubo e cone acompanharam o sentido daquela formação, tornando-se numa única e oblonga figura. Sem qualquer dificuldade eles penetraram o cogumelo e caminharam para o interior da vila.

  Os habitantes do lugar, em grupos, já assustados com a presença do cogumelo, ao verem-nos com aquele tipo de armadura entraram em pânico. Bruno ordenou aos homens que tomassem posição unilateral, ficando todos de frente para os habitantes da vila, e levantassem os óculos para sobre as testas. Então lhes falou em voz perfeitamente modulada, embora em tom mais alto:
  - Calma, irmãos, não se assustem, viemos ajudá-los! – à sua ordem, os homens levantaram a mão direita espaldada e uma suave energia branca varreu a todas aquelas pessoas. Bruno retomou – permaneçam calmos. Uma grande falange de seres malignos estimula soldados a lhes causar mal. Se todos cooperarem poderemos ajudá-los, caso contrário haverá dificuldades – eles ficaram atentos.  Bruno sentindo que os dominara prosseguiu – uma artilharia está posicionada a poucos quilômetros daqui pronta para disparar os seus canhões. O alto comando do exército, já dominado pelas sombras, finge acreditar que guerrilheiros se escondem entre vocês, mas em realidade desejam exterminá-los pela crença de uma superioridade étnica. Acham-se possuídos de um perverso pensamento separatista, acreditando pelo seu próprio e limitado comando e pessoal decisão, que o fim de outras etnias, julgadas por eles inferiores, fará o país melhor. Antes de um bombardeio, precisaremos retirá-los da prisão deste campo de forças que os torna alvo fácil. Se fizermos o campo de forças caír, estejam preparados para correr e fugir. Não se detenham por nada, não carreguem nada, somente seus filhos e parentes. Se não tivermos sucesso nesta tentativa, voltaremos para outro tipo de ajuda. Fiquem atentos!

  Não houve qualquer reação; diante desta inércia Bruno tomou posição de retirada. Os homens moveram-se buscando a anterior formação, recolocando os óculos sobre o visor. O tubo e o cone tornaram-se de novo oblongos. Eles partiram do local, atravessando de volta o cogumelo. Uma vez fora do campo de forças, Bruno ordenou-lhes dissolver o tubo e o cone, e retirar os óculos de sobre o visor. Ao alcançar novamente as imediações da aeronave, já sob luzes, encontraram Nicolai, que fez o sinal a Bruno, adiantando-se e trazendo o punho contra o peito, arqueando levemente o tronco:
  - Saudações, Irmão Supremo! Em cumprimento às ordens de meu superior imediato, o Segundo Mestre Terra, venho apresentar-me com meus soldados para lutar. O Quinto Mestre Terra manda-me também transmitir-lhe que está neste momento seguindo as suas instruções no gabinete da cúpula do exército. Conforme o Irmão Supremo sabiamente ordenou, ele não deverá atuar no sentido de mudar o curso dos insensatos acontecimentos provocados pelos homens da Terra. Atuará juntamente com o Segundo Mestre e auxiliares, no chamamento de suas consciências a fim de que reflitam e decidam, eles mesmos, por não realizar o massacre fratricida.

  Nicolai era o Primeiro Ordenança do Segundo Mestre Menor do Quinto Mestre Terra, do país palco desse dramático momento. Falara com palavras cheias de entonações, carregadas nos “erres.”  Era forte, possuía alta estatura e cabelos louros. Vestia calças justas vermelhas, camisa de folgadas e compridas mangas, também vermelha, e botas pretas. Cingia-lhe a cintura uma larga faixa preta, caída elegantemente do quadril esquerdo até o meio da coxa, após cuidadoso nó de várias voltas. Acompanhavam-no soldados, como ele mesmo dissera, estando nesse momento à distância, protegidos pela penumbra. Eram muitos, inquietos, ouvindo-se deles rumores e estranhos grunhidos.

  Enquanto ele se dirigira a Bruno, como um tribuno ao supremo comando em campo de batalhas, Sorman atentara às suas palavras, não deixando de observá-lo com redobrada atenção. À primeira vista, apesar de não usar qualquer tipo de barrete e a larga camisa abrir-se ao peito, pareceu-lhe ali estar somente um cigano. Que faria aquele homem de vermelho, sem armas ou armadura, na luta que se desenhava? Traria montaria? Viajaria em algum tipo de veículo? Embora seu rosto irradiasse simpatia, em nenhum momento ele sorriu e Sorman teve a certeza de captar-lhe alguma tensão. Às curiosas indagações a que se entregara, outra veio-lhe adicionalmente: como seriam aqueles soldados que grunhiam?

  Bruno escutou-o pacientemente, ao término falou-lhe:
  - É bom vê-lo novamente, Nicolai. Mas não perca tempo, vá imediatamente com seus homens ao acampamento onde está a artilharia. Tomem posição e aguardem-me.

  Ele de novo arqueou-se, trazendo o punho ao peito em reverência e submissão, virou-se e correu em direção aos seus homens. Logo um tropel de cavalos foi ouvido. Em pouco tempo o ruído foi se perdendo no manto da noite. Bruno voltou-se a Boris e aos homens de quimonos que ali se acercavam, determinando:
  - Vamos bombardear o cogumelo, mande seus homens afastarem-se! - Boris imediatamente transferiu-lhes as palavras.  Eles então se posicionaram a alguns metros da aeronave e Bruno sinalizou para os tripulantes que o observavam pela porta aberta, vindo após juntar-se aos homens. A porta fechou-se e a aeronave subiu, estacionando pouco acima do solo diante do cogumelo, permanecendo em perfeita estática. Em seguida, disparou raios violeta e azul, abrindo rombos naquela forma de energia. O cogumelo parecia rugir como um animal ferido. Os raios continuaram a ser lançados e os rombos foram se abrindo cada vez mais, até o cogumelo desaparecer por completo. Os homens gritaram em comemoração enquanto a nave retornava ao solo.
   - Entrem, ajudem os habitantes da vila a sair. Irei com meus homens ao acampamento perto da artilharia! – ordenou-lhes Bruno. Os homens de quimonos se lançaram para dentro da vila; Bruno voltou-se aos seus, comandando-os para que entrassem novamente na aeronave, e foi com Sorman até a sala dos controles ordenando – localizem a artilharia, estabeleçam coordenadas, precisamos nos deslocar para lá imediatamente! Os operadores fizeram uma programação num pequeno painel com teclados e o vídeo azul mostrou uma varredura da região com velocidade espantosa, até fixar imagens que se assemelhavam a veículos e canhões. Um dos operadores pressionou uma tecla e o vídeo mostrou linhas em coordenadas. Em seguida, pressionou outra e as coordenadas se ampliaram delineando um quadro com as imagens da artilharia.
  - Posição localizada! – um dos operadores informou a Bruno.
  - Vamos para lá! – ordenou o Supremo, entrando no salão de passageiros acompanhado de Sorman.

  A aeronave partiu, em poucos minutos aterrissava na clareira de um escuro bosque, apagando as luzes. Os homens desceram e caminharam cautelosamente dentre as sombras. A artilharia se instalara mais afastada dali, sobre um grande e alto patamar de um terreno pouco acidentado da região. Caminhões cercavam a área militarizada; tanques encontravam-se posicionados no interior do imenso círculo, e canhões, em número de seis, alinhavam-se alternadamente dois a dois, apontados para a direção da vila.

  Enquanto este aparato de máquinas obedecia a uma estratégia fria e calculada, os soldados andavam nervosamente pelos arredores, entrando ou saindo das tendas pouco iluminadas, externando um clima tenso. Aguardavam ansiosamente a comunicação da criminosa ordem. Mas ao tácito testemunho da abóboda celeste, onde milhões de faiscantes astros pontilhavam ao infinito, o momento ainda não acontecia.

  O luar produzia certa luminosidade e podiam ver por onde andavam. Nessa meia penumbra, Bruno percebeu a alta figura de Nicolai a caminhar em sua direção, trazendo à mão um comprido e metálico bastão, e parou com seus homens junto a um pequeno arvoredo rodeado por arbustos. Mas o moço sequer dirigiu-se ao Supremo por que gritos de alerta o fizeram estancar os passos:
  - Atenção, inimigos avançando!  Mediante a emergente situação, Nicolai bradou:
  - Ataquem! Ataquem!

  Verdadeira horda de estranhas e animalizadas criaturas, algumas possuindo caudas e pequenos cornos, outras de caras afocinhadas, corpos peludos e unhas em garras, avançavam em direção ao acampamento. Os soldados escondidos no bosque saíram imediatamente a combatê-las, movimentando-se com extrema rapidez, grunhindo e lançando labaredas pelos dedos das mãos, formando aterrorizantes serpentinas lançadas sobre as surpreendidas criaturas. Muitas caiam às dezenas e as serpentinas ígneas se transformavam em aprisionantes e magnéticos cordões, atando-as ao solo. Ao verem-se manietadas, rugiam raivosamente tentando libertar-se expelindo uma energia escura pelas bocas e narizes. Era tudo muito rápido e elas não conseguiam ganhar terreno.

  A batalha se transformara em algo ao mesmo tempo avassalador e pirotécnico. As labaredas, as serpentinas e os pequenos círculos de fogo riscavam as sombras em sucessivos ou simultâneos instantes. Sorman, de sua posição de espectador, vibrava com este fantástico espetáculo, e não muito distante de onde se encontrava pôde perceber um soldado a dominar o inimigo. Apesar das sombras, divisara-lhe o tronco nu e as colantes calças pretas até os joelhos. A despeito da incomum massa muscular, o soldado possuía tamanha agilidade que parecia se deslocar sem tocar o solo. Impressionado, Sorman concluiu que Nicolai comandava guerreiros incorporados de forças e poderes dos elementos da natureza.

  Logo a batalha chegava ao final. Parte das criaturas fugira enquanto mais de duas centenas delas jaziam ao solo imobilizadas. Os soldados então iniciaram uma nova operação. Com grande facilidade agarravam as criaturas do solo, jogavam-nas às costas e as levavam para um local mais afastado. Nicolai, que durante o conflito se misturara aos seus comandados, gritando e dando-lhes ordens, por vezes golpeando uma ou outra das criaturas com o bastão, aproximou-se do grupo de Bruno, demonstrando alívio e tranqüilidade.
  - A batalha terminou, Supremo. As horrendas criaturas serão agora transportadas em carros-jaulas a fim de serem desmaterializadas. Meus soldados de vanguarda ainda permanecerão pelas proximidades do acampamento para o caso de novos ataques.
  - Minhas ordens são exatamente estas: permaneçam vigilantes enquanto realizamos a nossa parte!  Nicolai arcou-se em vênia, trazendo o punho direito sobre o peito, aquiescendo:
  - As ordens serão fielmente cumpridas, Supremo.

  Bruno então organizou seus homens em círculo, dirigindo-se a Sorman:
  - As criaturas impedidas de alcançar o acampamento, iriam transmitir aos homens que lá estão, ira e sanguinário desejo de destruição. São vampiros das grandes guerras e mortandade no mundo. Os homens, à espera de uma ordem final de seu comando principal, seriam envolvidos pelas terríveis vibrações das criaturas, e sob a distorcida orientação de seu comando local, abririam fogo sobre a vila, antecipando-se aos seus superiores. Como se sabe, em momentos assim, soldados se transformam em bestas, tornando-se crudelíssimos, capazes dos mais torpes e desumanos atos. Idéias absurdas de vingança os tomam; pensamentos de superioridade vestem-lhes a imaginação, obstruindo-lhes algo da clarividência mental e lógica humana. Perdem a proporção psicológica dos fatos; tornam-se mais ainda odientos, achando que os males da Terra, as provações e frustrações porque passam e sua incapacidade de realizar-se, são frutos dos atos e existência de seus pobres e acuados inimigos, debitando-lhes, enfim, todas as suas misérias. A insensatez exacerba-se no seu íntimo selvagem; rangem os dentes como animais feridos e ultrajados; desejam o sangue alheio e o extermínio dos irmãos sobre a Terra. 

  Estando assim tomados nos seus campos áuricos desses elementos psicológicos açulados, e potencialmente destrutivos, munidos de mortíferas armas, eles covardemente disparam contra indefesos habitantes de uma aldeia, vila ou cidade; depois saqueiam as casas, estupram mulheres e jovens, torturam e matam velhos e crianças. Tudo sob alegações as mais fúteis – cínicas e infundadas – principalmente, como nesse caso, sob o ódio alimentado por décadas, séculos ou milênios num elemental que os corrói sub-repticiamente, plasmando-lhes na memória as injustiças e discriminações étnicas dos avoengos, vitimas nos tempos de antanho. Mas há no fundo, o desejo da superioridade racial, movente, ignóbil, exalante ao suor, que nada mais é senão um sentimento frustrado e recalcado nas personalidades mal posicionadas ante os valores da vida. Assim, não sabendo sublimar no perdão e no esquecimento a esses elementos destrutivos, se revestem, essas personalidades, de uma face mascarada de pretensas virtudes e qualidades, que, aos insanos e destrutivos atos contra os pobres e acuados inimigos de carne e osso, os faz almejar um status de heróis e vir oferecer orgulhosamente ao seu clã, povo ou nação o resultado glorioso da mórbida carnificina. Nisso reside também incompreensível afã ou apetite narcísea de uma necessidade de aclamação, mas que somada aos tresloucados atos de selvajaria praticados contra o próximo – de fazer inveja a ferozes canibais e caçadores de cabeças – determinarão sempre novos acerbos e coletivos sofrimentos cármicos.

  As criaturas contra as quais combatemos, sendo manipuladas pelos mestres da Face Negra, são unicamente veículos estimuladores dessas mazelas pré-existentes no âmago dos homens. Estes senhores das trevas, conhecendo tão bem quanto nós os poderes destrutivos ocultos nas mentes dos homens não remidos à luz do espírito, fazem-nas, às criaturas, e aos próprios homens, sob um teor hipnótico, seus objetos e armas de destruição.
  Uma vez realizada a mortandade, criaturas e mestres, vampíricos, se locupletam com as emanações etéreas do plasma sangüíneo derramado, e com a terrificada energia desprendida pelos egos em pungentes dores, ante cruéis torturas ou submetidos a sádicos rituais de sexo pelos estupradores. A esses mestres, fomentadores dos horripilantes e repugnantes momentos de sadismos e mortes, justificam-se todos os seus brutais e nefandos esforços para a deflagração de guerras ou convulsões sociais, pois conquistaram o que queriam. Aos pobres homens, marionetes das forças negras e das criaturas por elas comandadas, o absurdo orgulho, repito, de se olhar vencedores e heróis, depois da devastação material e ceifar de preciosas vidas humanas que realizaram.

  O que iremos fazer agora, Sorman, é buscar induzir de vez aos homens para que, de moto próprio, não realizem o bombardeio, visto termos conseguido obstar a invasão das obsediantes criaturas – dizendo isto ele sorriu, e na noite algo de claridade se fez. Ele prosseguiu –  precisaremos trabalhar nos sombrios duplos dos homens que aqui vivem como se fora no mundo físico. Mas não podemos aparecer diante deles, pois nos veriam e teriam reações agressivas, por isto nos tornaremos invisíveis a eles. Já temos a vantagem de vestir armaduras que nos isolarão de qualquer energia maligna ou destrutiva a nossa volta.

  Ele elevou a mão direita e a circunvagou sobre as cabeças de todos. Fachos de uma luz de opacidade argêntea cobriram-nos; ele então abaixou o braço e ordenou:
  - Avante à missão!

  Profundamente impressionado com tudo o que ouvira e com o teor da missão, Sorman os acompanhou penetrando o acampamento. Os soldados se deslocavam de um lado para outro, mas não os viam, e se desviavam quando estavam próximos de se chocar. Entretanto, um ou outro vinha deter um tipo de repentina auscultação, parecendo farejar alguma coisa estranha nas proximidades. Mas como nada visse, prosseguia no cumprimento de suas tarefas.

  Bruno trouxe os homens para a maior das tendas ali instaladas, na intenção de que fosse a casa das ordens. E de fato era. Ao puxar a cortina, pôde observar que sob a projeção da luz de um lampião preso ao alto numa das barras de sustentação da tenda, no meio do ambiente, havia um oficial sentado diante de uma mesa a estudar um grande mapa. Ladeavam-no dois outros oficiais, em pé, trocando palavras e apontando para o mapa. A um canto, um quarto oficial com fones aos ouvidos, manipulava um equipamento de rádio-comunicação, tentando sintonizar-se com possíveis sinais ou ondas. A tensão era visível, decorrente da provável falta de notícias do comando superior quanto à definitiva ordem de iniciar o bombardeio.

  Bruno fez sinal com o indicador chamando Sorman para junto de si.
  - O que vê em torno dos homens? – perguntou-lhe em cochicho, abrindo a cortina um pouco mais. Sorman buscou observar com melhor atenção, porém nada viu além dos próprios homens uniformizados.
  - Nada! - respondeu com simplicidade.
  - Então se concentre em sua visão interior e projete-a sobre os homens. Sorman seguindo a recomendação fechou os olhos.
   - Estão envoltos por sombras, agora vejo! – exclamou admirado, segundos depois, também em cochicho.
  - Eis a nossa principal tarefa. Precisamos libertá-los daquelas sombras sobre os seus duplos que os impedem de ter boas reflexões.

  Sem delongas, Bruno abriu largamente a cortina adentrando a tenda, indo em direção dos oficiais de exército, seguido de seus homens. Todos os oficiais perceberam de imediato aquela invasão. O oficial comandante levantou-se da cadeira, acompanhado neste movimento pelo rádio-operador.
  - O que foi isto? - indagou assustado, olhando o vazio à sua frente.
  - Não sei –  falou um deles – algo estranho parece ter entrado, mas não consigo ver nada!
  - Serão espíritos em danação? - questionou nervosamente o rádio-operador.
  - Cale-se! – ordenou o comandante, contornando a mesa e dando dois passos adiante, ficando a procurar no ar algum indício. Essa assustada conversa entre os homens era realizada num idioma que Sorman não entendia, mas supunha estar compreendendo pela reação emocional deles.

  Aos sinais de Bruno, invisíveis pelos mantos que os envolviam, os homens se acercaram dos oficiais três a três, iniciando um trabalho de descolamento e dispersão das formas obscuras aderidas sobre eles. Sorman permaneceu com Bruno e outro da equipe, ficando de mãos espaldadas atento aos movimentos, procurando realizar o que mais além Bruno sinalizava. Em certo instante, Bruno passou a mão direita diante do rosto do comandante e a elevou sobre a cabeça do militar, trazendo-a novamente para a posição anterior. O oficial de imediato fechou os olhos, relaxando o corpo. Bruno moveu a mão para a direita e para a esquerda e o corpo do oficial oscilou como um pêndulo. Após cessar os movimentos, Bruno falou-lhe ao ouvido:
  - Permaneça firme sem cair – o oficial aprumou-se, Bruno girou em torno dele fazendo rápidos movimentos de mãos em sentido de dispersão. Em seguida, como se estivesse manipulando um instrumento cortante passou-o em torno do corpo do oficial, de cima abaixo, falando-lhe após – irmão, você agora está liberto da energia que cerceava o seu livre pensar e agir. Nada, neste momento, o impede de realizar atos de sua própria e livre consciência. Pense e reflita sobre o absurdo de massacrar pessoas inocentes sem a mínima chance de defesa. Medite sobre este crime perante as leis do Criador; não se invista do papel de juiz e carrasco: verdugo de si mesmo. Todo ato realizado ou pensamento emitido encerra causa e efeito; assim não é possível evitar-se a liberdade no bem ou a prisão no mal. Por que então decidir pelo sofrimento alheio, consequência dos seus arbitrários atos, e por um profundo drama de consciência que um dia este mal lhe será causador? Reflita, irmão, Deus existe em você! Bruno afastou-se, deixando-o parado em transe, indo averiguar o trabalho realizado pelos homens nos demais oficiais.
 
  - Deus existe em você! – após mencionar essas palavras, Bruno tocava-os suavemente na testa, despertando-os; voltou depois ao comandante e o despertou. Saíram da tenda. Ao atingirem o centro do acampamento, Bruno orientou-os a fim de formarem um círculo de mãos dadas e se posicionou no seu interior –  invocação mágica! – ordenou.

  Bruno abrira amplamente braços e pernas. Os homens vocalizaram um mantra concentrando-se inteiramente no seu comandante. Faiscantes raios azuis atingiram-no: ele ficou aceso e foi tomado por uma estrela pentagramática passando a emitir palavras ininteligíveis. A estrela se descolou de seu corpo e subiu, pairando acima do círculo. Magicamente começou a girar e ampliar sua luz, expandindo-a por todo o acampamento, atingindo a todos os soldados que lá se encontravam. Após a estrela ter desaparecido, Bruno desfez a posição de braços e pernas encerrando aquele pequeno ritual. Ao deixarem o acampamento reencontraram Boris e Nicolai.
  - Missão cumprida, a vila foi totalmente evacuada – informou Boris. Bruno agradeceu e afastou-se alguns passos, ficando a sós por minutos. Depois retornou para junto deles, falando-lhes:
  - O alto comando do exército vacila em dar a ordem final de bombardeio. Já não existe entre eles unanimidade para a operação. Por ora, o perigo está parcialmente afastado. Mas enquanto a artilharia não se retirar deste lugar permaneçam em alerta. Continuaremos a trabalhar até que a situação esteja completamente sob controle. Ele elevou as mãos para o alto e derramou bênçãos sobre todos, retirando-se depois com seus homens embarcando na aeronave.

  A aeronave decolou em viagem de volta chegando à Grande Casa. Enquanto despiam as vestes especiais, Sorman se surpreenderia ao ver como realmente eram os seus colegas de jornada. Morenos, de negros cabelos longos perfeitamente lisos, vestiam calças e camisas brancas. Na verdade, pareciam indígenas e acercaram-se sorridentes, saudando-o com reverência e apertos de mãos. Falavam espanhol: como entender tal mudança? Bruno ria com a expressão algo espantada do jovem, mas logo explicou-lhe:
  - Estes moços sabiam de sua primeira participação numa missão como esta e combinados comigo, como é norma da irmandade em casos assim, mantiveram-se calados, dando a entender de, no mínimo, serem arredios. Isso viria criar em você um clima de mistério e desconforto. A expectativa ante o desconhecido e a presença de possíveis perigos – como é natural acontecer em missões dessa natureza – poderiam de alguma forma atemorizá-lo, mas você não se sentiria à vontade para recorrer a qualquer um deles visando um possível apoio psicológico, pelo fato deles não se mostrarem amistosos ou sensíveis.
  - Estamos felizes por você ter se saído bem – disse Garcia, o líder do grupo.
  - Grato “hermanos” – arriscou Sorman com sorriso.
  - Sabemos que é o Ministro Extraordinário aceito na irmandade – continuou Garcia –  esperamos recebê-lo um dia nos Andes.
  - Certamente irei se houver oportunidade. Eles estavam com muita pressa: curvaram-se, acenaram em despedida e deixaram a aeronave.
  - Quem realmente são? - disparou de imediato.
  - São os chamados “Embaixadores” da irmandade. Não possuem qualquer vínculo hierárquico, muito embora atuem missionariamente.
  - Ouvi alguma coisa do Superior a este respeito, apesar dele não ter entrado em maiores detalhes. Disse-me, na oportunidade, que estes homens trabalham voluntariamente para ajudar a evoluir almas de nossa família, sem participar de qualquer dos escalões da hierarquia, mesmo os menores.
  - É exatamente este o caso. A etnia em que trabalham, reuniu há muitos séculos, noutros ciclos de manifestação de nossa célula, um grande grupo de almas rebeldes que se tornaram belicosas. Rechaçavam a todos os esforços da irmandade no sentido de tentar fazê-los ajustar-se ou se adestrar em sua natureza instintiva. Após muitas tentativas frustradas, um iniciado de certa graduação na hierarquia, aceitou voluntariamente encarnar-se naquela etnia para ajudá-los de perto. Com dedicação e muito esforço conseguiu, já no fim de seus dias, que entendessem quais eram as vias de saída de seus labirintos. Este mesmo iniciado voltou a encarnar-se entre eles, mas desta vez acompanhado de nove colaboradores não iniciados, porém avançados em relação àquelas almas. Algum tempo depois muitos ex-rebeldes, já possuídos de uma nova visão, ajudaram a trazer progressos para a etnia e isto lhes granjeou pular para raça mais adiantada na espiral evolutiva.  Mas sete, dentre os nove que haviam encarnado, não desejando abandonar a missão, nela permanecem neste atual ciclo de nossa célula.
  - Dentre estes está Garcia, com quem conversei ligeiramente, acredito.
  - Garcia, os seis outros e mais três que a eles se juntaram recentemente, que se adaptando rapidamente à tônica da equipe, formam os dez que você acaba de conhecer e com quem trabalhou na missão recém finda. Amam tanto a missão que com trato e competência aliviaram a irmandade destes difíceis encargos. Fizeram-nos o pedido de não desejar participar assiduamente de outros trabalhos na irmandade para não se desviar da missão abraçada. A irmandade estudou o pedido e permitiu-lhes continuar por mais algum tempo, entretanto sob a orientação do Superior Mestre Terra. Foi-lhes esclarecido não ser possível para ninguém permanecer numa mesma atividade além de um determinado ciclo, a fim de não bloquear as vias de acesso a outros habilitados no escalão. De forma alguma é desejável cristalizar-se num cargo ou serviço. Eles compreenderam e já trabalham para deixar sucessores admitidos na irmandade.

  Ambos permaneciam em pé no salão de passageiros da aeronave. As vestes dos homens de quem falavam, estavam sobre as poltronas. As dos dois, coincidentemente, estavam no chão, sobre o tapete azul. Sorman trouxe a mão ao queixo, roçando-o pensativamente. Bruno, enquanto isso tomava as vestes do tapete e as colocava  numa só poltrona.
  - Uma coisa intriga-me – Sorman virou-se para Bruno que voltava ao lugar de antes – como irmãos não iniciados puderam realizar tão bem aquele trabalho mental onde há pouco estivemos?
  - O trabalho realizado na etnia não os tolhe de evoluir conscientemente, mesmo sem passar por iniciações formais. O Superior os orienta no sentido de acrescentar poder mental às suas atividades. Além de tudo, embora a energia utilizada em nossa recente missão possuísse um quantum mental, esteve adicionada de uma qualidade astral somente possível nesse momento a esta equipe veicular e sustentar. E era o que mais se requeria para a ocasião.
  - Este assunto é muito interessante....  – recomeçou Sorman.
  - E antes que você insira outra pergunta, já vou adiantando alguns aspectos do trabalho por eles realizado – interrompeu Bruno, com sorriso, logo prosseguindo – estes valorosos irmãos vêm atuando na magia milenar em que a etnia se acha mergulhada. Na realidade, os princípios herméticos da magia iniciática dos antigos, encontram-se protegidos pelas práticas não tão precisas e nem tão poderosas da atualidade. A era dos sacerdotes magos acabou. É bem verdade que a tradição se encarregou de perpetuar muitos dos princípios universais da magia prática. Não obstante, necessitam de alguma habilidade para serem materializados. Mas as chaves que tornavam estes princípios totalmente efetivos, com imediatos resultados fenomenais no curso das leis da natureza, se foram com os magos sacerdotes e iniciados. Com isso, muitos praticantes que vieram depois ajudaram a desvirtuar a magia remanescente, ou utilizaram-na unicamente para fins egoístas ou malignos. Dessa maneira, esta mesma magia vem servindo para muitas finalidades, criando raízes nem sempre desejáveis. Em outras palavras, o que restou da magia branca antes praticada pelos sacerdotes iniciados, tornou-se também em grande parte magia negra. Isto não significa afirmar que o surgimento da magia negra se deu somente a partir dali. A magia negra remonta há muitos e recuados milênios, pois como sabemos se originou na Atlântida. Falamos de outros aspectos da magia que permaneceu na memória dos povos.

  A ação efetiva de nossa equipe, no seio da etnia, é de orientar dentro da magia branca ainda cultuada. E este esforço vem sendo acompanhado de perto pela hierarquia, com grande expectativa. Os ritos e rituais tradicionalmente realizados, vêm tendo hoje conotações muito mais racionais, obedecendo a um objetivo de elevação astral superior, numa dimensão de valores psicológicos melhor trabalhados. As demandas de forças antagônicas, de elementais criados para destruir, haverão de se modificar no planeta, como resultado da magia mental estimulada para os princípios edificantes. Aliada a isto, a magia invocativa e prática, de manuseio dos elementais presos às emanações dos alimentos especialmente preparados, irá gradativamente se alinhar para fins unicamente construtivos e curativos. Neste posicionamento, os sacrifícios de animais e a utilização de recursos sólidos encontrados nos reinos da natureza, veiculadores ou anexadores de forças mágicas, também sofrerão mudanças quanto à conceituação de outrora. 

  A magia negra é, evidentemente, praticada em grande escala, e com perfeita consciência de seus métodos e resultados desejados. Muitas pessoas são inconscientemente instadas a lançar mão de forças negativas, através de sugestões mentais enviadas por representantes do mal que pervagam invisivelmente entre os povos. Outras pessoas são seduzidas e enganadas por maléficos encarnados, que inventam situações e fingem estar trabalhando para o bem. Isto é assustador pelo volume de suas práticas, sendo necessário nos defendermos desta magia opositora e destrutiva. Por outro lado, almas libertas de vinganças e ressentimentos, desejosas de evoluir, não mais serão estimuladas tão somente às práticas da magia pela magia. Ao contrário, pois já mostram grande interesse pelas práticas mentais e pelo aprendizado esotérico orientado que as conduzam a despertar novas e realizadoras energias no plano evolutivo para a humanidade. E nisto, principalmente, reside a qualidade do trabalho dos irmãos missionários de quem falamos.                                                             

                                                                        o     o     o

  Sorman tivera boas notícias. O projeto para a construção da nova fábrica finalmente fora aprovado pelas câmaras do ministério, depois de cumpridas todas as exigências formais. Com isso, a empresa podia dar seguimento no pedido de financiamento ao banco credor. O projeto oficialmente aprovado provocaria agora aceleração nos seus trâmites, pois entraria nas etapas finais. Isso foi comemorado pela diretoria que se sentia ao mesmo tempo confiante e aliviada.
                    
  Desta feita, Sorman não se esqueceria de seu compromisso com o Superior Mestre Terra; às nove da noite estava pronto e preparado no seu quarto. Sentado, ele projetou mentalmente uma tela branca diante de si e aguardou. Quase de imediato, pode ler a seguinte mensagem: “Saudações, irmão. A solução de todos os nossos problemas está em como utilizamos os poderes de Deus. Os poderes de nossa mente, aliados à outra mente dirigida no mesmo sentido, formarão uma convergência de forças com determinado impulso. Tanto mais outras mentes estejam alinhadas, os resultados serão maiores e mais precisos. A mente que rompe com esta cadeia não a destrói, nem lhe causa o caos; pior para ela porque não conseguirá sozinha alcançar aquelas que avançam sempre unidas. Este é o princípio da união relativa por afinidade! Mendez.”

  Sorman ficou radiante por ter captado a mensagem na íntegra e modificou a polaridade de sua mente, de receptiva para ativa, enviando as palavras: “Saudações, Superior. A Mente é um princípio ativo universal. Quando quantificada numa unidade orgânica, provoca resultados, muitas vezes, unilaterais, que podem ser bons ou ruins. Mas não condicionada a Mente é sempre infinita. A mente do homem errante um dia mergulhará no Todo; assim também estará naquelas que saíram na frente. Este é o princípio do relativo no Absoluto! Sorman.”

  O contato com o Superior fora rápido, resumindo-se nestas duas mensagens. Contudo, ao preparar-se para dormir, vieram-lhe à percepção rápidas sequências de imagens nas quais ele se inseria, tornando-se familiares na medida em que desfilavam. Entendeu que estivera envolvido numa viagem com outras pessoas; tinha sensações diversas, encontrando-se em meio a combates. Ouvia a voz de Bruno a dizer-lhe:“O que iremos fazer agora, é buscar induzir de vez aos homens para que, de moto próprio, não realizem o bombardeio...”

  Estas palavras estimularam-lhe a memória e lembrou-se de uma notícia no jornal da manhã, revestida para si de incomum interesse. Dizia a notícia, sem qualquer sensacionalismo ou proposital realce, que em meio a uma revolução política e social num país marcado por conflitos e guerras, o governo posicionara uma artilharia para disparar sobre uma vila. Alegava o governo da existência de um exército de guerrilheiro pró independência baseado naquela região, escondido na vila. A região em questão ficava num país de etnia histórica, anexada à força a um governo central. Fontes haviam informado que o ataque estivera programado para a última madrugada, mas inexplicavelmente o alto comando do exército e o comando da artilharia, não haviam se entendido quanto à ordem do bombardeio. A indefinição propiciara a uma organização mundial se movimentar e propor ao governo uma trégua para novas negociações. A notícia terminava com a informação de que, estranhamente, os moradores da vila tinham se evadido do lugar naquela madrugada, suspeitando de que algo terrível estivesse prestes a lhes acontecer. Sem que soubessem, a artilharia teria se camuflado não muito longe da vila, tendo se deslocado cuidadosamente na noite anterior sem previamente anunciar qual direção ou alvo atacaria. Todo o exército de libertação se encontrava escondido nas montanhas, a mais de cem quilômetros dali.


  “As hordas do negativo sofreram grande revés para os nossos. Congratulações por sua cooperação! Mendez.” Sorman sorriu. Como teria ele conhecimento de seus pensamentos se não se concentrara a fim de transmitir-lhe? Mas apressou-se em responder: “Grato pelo que me atribui, realizado acima da consciência física! Sorman.”


                                                                  CAPÍTULO VIII

                                                                    OS FLUXOS

  Três meses se passaram. O financiamento para a execução do projeto fora liberado. As garantias oferecidas satisfizeram ao banco credor e a questão dos juros estava ajustada. A primeira parte do montante tinha sido transferida para a conta da empresa. De imediato iniciaram as obras de construção da fábrica, preparando ao mesmo tempo a importação do equipamento para a produção. Dois engenheiros haviam antes viajado ao exterior para conhecer a maquinaria. Assim que ela chegasse, aguardariam a vinda de um engenheiro da companhia fornecedora, a fim de orientar seus colegas na instalação e funcionamento. Esse comenos, mais de expectativa do que de ação, veio propiciar a Sorman respirar um pouco e dar um ritmo menos intenso às suas obrigações.

  Paralelamente a isso, sua vida no plano da irmandade passava por períodos de mudanças. Ao acordar de manhã sentia-se mais enriquecido e senhor de situações. Algumas lembranças das dimensões superiores eram-lhe nítidas, embora nem sempre completas, outras nem tanto. Esse último prisma, de percepção mais ou menos inconsciente, propiciava-lhe projetar o pensamento sobre um assunto relevante qualquer, que lhe assaltasse a mente, nele ingressando por vias de acesso antes desconhecidas e se aprofundando. O assunto passava então a rechear-se com preciosos detalhes. Tratava-se de um abrangente processo de conscientização mental que fluía do intuitivo ao fatual e no sentido inverso. Essa integração, não obstante, pouco ou quase nada permeava o concretismo de sua vida pessoal ou profissional. A bem dizer, a mente abria-se em certa medida e proporção ao espiritual, a níveis ligados aos assuntos ocultos da irmandade e ao plano evolutivo da célula ou grande família. Sua vida física, no entanto, era regulada por outros parâmetros e diferentes gerações de acontecimentos.

   Desse modo, perscrutando o invisível, veio descobrir as matrizes ou planos originais de administração da irmandade. Uma dessas matrizes – o organograma geral dos departamentos – conscientizou-o da complexa e abrangente estrutura sobre a qual se apoiava o trabalho da hierarquia, e que ultrapassava infinitamente o planejamento inicial de administração, um tanto simples,  mostrado por Bruno na biblioteca da Casa Rosa. E à medida que a examinava com olhos e mentes espirituais, absorvia-se na sua importância. O funcionamento dessa principal matriz, bem como alguns aspectos de sua execução, chegavam-lhe à consciência física com certa clareza. Por outro lado, quanto às derivações de suas fases nas abstrações de tempo, as idéias não lhe vinham perfeitamente difusas.

  Numa dessas ocasiões, ao concentrar-se no departamento de um dos Mestres Terra, percebeu linhas de acontecimentos cruzando-se em projeções, formando pontos sucessivos de contato. Passado, presente e futuro concorriam simultaneamente nesses pontos, imprimindo-se às linhas. Nessa forma de ação, todos os Mestres Terra obravam diretamente como ativas referências dos fluxos inteligentes da energia precipitada, que buscavam encontrar caminho livre para realizar. Cabia, assim, aos Mestres Terra, liberar, orientar e distribuir os fluxos a fim de não acontecerem obstruções.

  Antes deles, a ação desses fluxos vinha ao Superior Mestre Terra numa corrente “in totum.” Através de sua mente, esses fluxos separavam-se e se distinguiam segundo um tipo especial de identidade, e cada um seguia depois aos respectivos Mestres Terra. Acima dele, o Supremo recebia antes e prioritariamente a luminosa energia “in natura”, absorvendo-a e a caracterizando com as qualidades globais que desciam conduzidas através dos fluxos, para serem trabalhadas pelo Superior Mestre Terra e distinguidas.

  As linhas de ação dos Mestres Menores iam mais além do esboçado no organograma guardado na Casa Rosa. Havia nas suas funções algumas autonomias tomadas para criar ou recriar. Esses atos de pessoais esforços e dedicado labor, buscavam aportar a energia das pontas que havia chegado ao limiar da expansão dentro da célula. Mas por faltar veículos de escape começava um tipo de acúmulo, produzindo obstáculos na fusão espírito-matéria. Para evitar esse acontecimento de obstáculos, os Mestres Menores precisavam formar novos aspirantes a fim de irem suplementando os seus quadros, além de criar novas funções e promover antigos servidores para tarefas superiores e de melhor qualidade. Isso não era fácil. Quando não acontecesse por falta de material humano, e se outro departamento não pudesse tomar para si aquelas responsabilidades, o Mestre Terra via-se às voltas com o problema das forças revoluteantes da natureza. Os efeitos físicos dessas forças, proporcionais à quantidade e qualidade da energia represada, traziam desarmonias, retrocessos nas idéias e estagnação do momento evolutivo. Se esses efeitos fossem significativos para obstar desempenhos da hierarquia, e ameaçassem destruir ou prejudicar algum trabalho já realizado, o Irmão Supremo precisaria reabsorver esses fluxos inaproveitáveis, guardando a energia para o futuro. Mas isso vinha provocar tensões no campo arquétipo da irmandade, por que tanto a reabsorção da energia, colorida por qualidades, como o seu futuro reenvio, precisariam obedecer aos momentos astrológicos, quando as condições cósmicas permitissem manipulações dos fluxos. 

  Essa questão, a certa altura, pareceu a Sorman explicável quando buscou responder a si mesmo porque o fenômeno se comportava assim. Para tanto, considerou em cada ciclo de manifestação da célula – correlato com os fluxos energéticos – os subciclos que vinham justamente servir para especialmente trabalhar certas qualidades no mental dos irmãos. Do mesmo modo, serviriam também para realçar antigas qualidades já alcançadas ou recrudescer outras situações vitoriosas. Esses subciclos, por oportuno, alcançavam os programas adrede formulados pela hierarquia, sob a égide dos ciclos maiores, e, devido à pressão dos momentos cósmicos do sistema solar em nosso planeta, quando todos os reinos vinham sentir impulsos evolutivos, a célula, nessa mesma forma de ação, não poderia deles escapar, sob a pena de não os aproveitando, sofrer atrasos. Contudo, essas respostas encontradas mais pelo raciocínio do que pela intuição, não o convenceram plenamente e por várias noites, em horas que não conseguia conciliar o sono, sondou os ângulos desse conglomerado de situações, vindo finalmente concluir com as seguintes asserções:

   Primeira: A energia precipitada desde a cúpula da hierarquia até as suas pontas, aonde vem procurar níveis mentais afins, é uma necessidade para toda a hierarquia. Ela é a inteligência ativada conduzindo as visões mais amplas dos processos mentais que podem propulsionar a evolução da célula desde as suas camadas mais inferiores.

  Segunda: A propulsão para o progresso do corpo hierárquico depende da qualidade e quantidade que esse corpo vai acumular nas transformações gerais da energia no mundo.

  Terceira: Para que isso se realize, é fundamental a hierarquia ampliar-se e expandir-se no espaço-substância, de acordo com as exigências para a evolução de todo o sistema solar. Uma célula precisa de força retrátil e de força impulsão com suficientes qualidades a fim de que, através desses dois movimentos de força, consiga pular geometricamente para um status superior onde se requer corpo e qualidade ou matéria e substância. Lembrando que espaço é uma entidade semi-material, corpo é matéria, e substância é qualidade exarada da interação espírito x matéria, a célula – desse modo – incorporada de um padrão mais vibrante, virá rapidamente trabalhar para se adaptar às novas exigências das leis cósmicas. Assim, todas as unidades componentes de uma célula precisarão estar gradativamente adquirindo teor força, nos seus respectivos níveis, a fim de incorporar um mínimo exigido de qualidade para intentar esse pulo. E como a célula reuniria força retrátil e força propulsão?

  A força retrátil, supunha, seria a utilização de toda a capacidade qualitativa da célula num determinado momento de sua história evolutiva, num ciclo de sua manifestação, a fim de produzir um movimento de contração de seu meio para atrair as pontas superiores e inferiores a um nível de trocas sinergéticas. Tendo conseguido esse objetivo, por resultado da ação conjunta de sua contextura, e fortalecidas as suas estruturas, a célula poderia então intentar o movimento ou salto através de uma força impulsão. A força impulsão seria a capacidade da célula de movimentar-se ou pular para um padrão superior, utilizando-se de toda a energia de qualidade armazenada em ciclos e subciclos de manifestações e sinergizada com a força retrátil.

  Quarta: Quando uma célula realiza o que se requer –  num ou mais ciclos de sua manifestação  - mas unicamente nos seus níveis superiores, e ainda sem ter conseguido sucesso integral com a ação da força retrátil, poderá, se desejar, intentar o impulso para cima, deixando para mais tarde o trabalho de graduar os níveis inferiores. Tendo obtido sucesso na força impulsão, alcançando assim um padrão superior, necessitará despender considerável soma de energia dos seus reservatórios e usar técnica mais avançada para nele poder se manter, sob o risco de não conseguir resultados suficientes habilitadores para graduar os níveis inferiores. E não tendo sucesso nessa sua intenção de graduar os níveis inferiores para padrões possíveis com aquele em que agora se mantém, retrocederá no seu carma evolutivo, caindo para a posição anteriormente ocupada.

   Essas asserções vieram propiciar-lhe chegar às seguintes conclusões, da reabsorção da energia e de seu posterior reaproveitamento:

  I. Quando a energia não realizada finalmente voltar aos níveis superiores, manipulados diretamente pelo Irmão Supremo, tendo sido soerguida no período de repuxo astrológico, com ajuda dos Mestres Terra, irá permanecer por certo tempo Imanifesta no sentido exotérico. Para novamente descer, virá necessitar de um novo impulso através do fluxo energético inicial de um subciclo que se precipita. Isso acontecendo dentro de um mesmo período cíclico de manifestação da célula – obedecido a um fluxo cósmico periódico – essa energia virá na frente para ser reabsorvida pelas mentes dos irmãos. Durante o tempo em que a energia permanecer inativa, é de se esperar do trabalho da hierarquia, a frutificação no sentido de que mentes se tenham tornado receptivas e dessa maneira a qualidade intrínseca da energia poderá manifestar-se na forma e propiciar meios de progresso aos irmãos do mundo e à natureza.

  II. Outros fluxos descerão em seguida, produtos dos novos subciclos, com prováveis teores ainda maiores de qualidade do que os anteriores, necessitando também de mentes capacitadas para absorvê-los e realizá-los. E como isto aconteceria se a energia anterior não conseguisse novamente materializar suas qualidades? E conseguindo, haveria condições de ambas as energias serem aproveitadas simultaneamente? Estas questões fugiam-lhe de sua capacidade em colher respostas pelo fato de se precisar providências extemporâneas, reveladas somente pelo Irmão Supremo.

  III. Sorman entendia agora que o trabalho das pontas era tão importante quanto o trabalho da cúpula, tornando-se necessário para toda a hierarquia, no seu planejamento evolutivo, estimular o progresso das mentes não ligadas diretamente com a hierarquia. Se a qualidade de um fluxo se condensasse numa idéia e essa idéia, abortada da hierarquia, encontrasse receptividade nos homens de mundanas mentes, ela teria possibilidades de vingar, mesmo se no seu percurso de interesses materiais a idéia fosse desvirtuada. Com o tempo, e a história provava, teria as correções. Eis porque, concluía ainda, os homens não iniciados necessitavam também de mecanismos próprios para o desenvolvimento mental e espiritual. As ciências do mundo precisavam tornar-se cada vez mais aptas, seguindo imediatamente atrás dos avanços esotéricos em seus níveis inferiores. E isso era um tipo de clivagem avançando sempre na sua qualidade à medida que a mente humana, no seu conjunto, evoluía. 

                                                                           o    o    o
                                                                             
  - A questão dos fluxos – começou Bruno –  é um dos problemas vitais respeitantes a um momento evolutivo de nossa família. Verdadeiramente, não é possível qualidades frutificarem ou condições serem semeadas, sem ter havido antes a maturação. Isso é básico em qualquer atividade humana e faz parte também do ritmo dos ciclos de propagação da natureza em todos os seus reinos. Na realidade, é um processo contido nas pulsações cósmicas dos sistemas solares e nada pode ser modificado na natureza sem as compensações de suas leis. Assim sendo, a energia inaproveitada nas projeções dos fluxos poderá retornar à esfera dos arquétipos, mas não serão possíveis novas projeções dos fluxos de nova energia antes dessa energia atual, em expectativa de novamente descer para se manifestar, se ter finalmente transformado em tangibilidade no mundo fenomenal. Esse problema não é especial nem específico de nossa célula, porque somos partícipes de um processo global. Todavia, se abrirmos distância em relação a outros núcleos ou famílias, isto então, em tese, poderá trazer benefícios para a humanidade. Entretanto, o processo cumulativo tem os seus prazos para concentração improdutiva e se nossa célula tiver também estancado, não tendo conseguido preparar-se para a nova tentativa de entrada dos fluxos, então a energia será liberada para o mundo.

  É claro que os referidos acontecimentos, de amplitude mundial, não poderão ser unicamente atribuídos ao mau desempenho de nossa célula. Ela é insignificante para esta totalidade planetária. Mas como o processo evolutivo alcança a todas as células em condições de realizarem as transformações requeridas para aquele período vibratório mundial, e tendo muitas delas falhado, a contribuição no conjunto terá sido negativa.
  - Imagino que acontecendo essas coisas, a humanidade, em seus estertores, buscará, ela mesma, finalmente, as soluções para a retomada do processo criativo natural.  
  - Sim, porque a trajetória da energia no mundo, destarte, não poderá ser contida. A energia provoca surtos construtivos quando alcançada por seletivas mentes inteligentes e capazes de suportar a pressão por ela exercida. Uma vez iniciado o processo construtivo, as mentes ocultas realizarão a sustentação e dosagem de sua amplitude desde o plano subjetivo, a fim de não haver atropelos no tempo nas etapas da manifestação objetiva da energia. Logo surgirá uma ilha no meio do oceano. Dentro em pouco novas ilhas estarão previstas para surgir; então o processo virá tornar-se cada vez mais abarcante. Por outro lado –  permita-me voltar um pouco para o outro aspecto do processo – se esta mesma energia for liberada compulsoriamente ao mundo, ou seja, se o prazo cumulativo improdutivo tiver expirado nas esferas arquetípicas, continuando a não existir condições de retê-la, nem maturá-la nas pontas para adequada manifestação, ela, estando livre e imatura, fatalmente será incorporada por mentes tomadas pelas paixões, sentimentos de vingança e despotismos, vindo, sem dúvida, tornar-se destrutiva. As consequências nefastas nas vidas das pessoas, conduzidas por essa infeliz apropriação, resultam da aceitação ao mal pelo inconsciente coletivo.
  É possível, em certa escala e medida, fugir da dor e sofrimento humanos pelo entendimento da idéia nativa virginal veiculada à energia, com a consecução de atos e atitudes compatíveis. Mas não é possível escapar de seu resultado negativo e destruidor quando acontece a tergiversação de sua principal mensagem.

  Sorman, diante de Bruno, refletia. Atrás do Irmão Supremo o lusco-fusco da aurora penetrava pela janela. Isso vinha aos poucos provocar no estúdio uma especial coloração de luz, pois o fenômeno da sombra noturna sendo rasgada somava-se às suaves vibrações de um pequeno e leitoso globo, colocado sobre negra e lisa pedra ajustada à parede, ao alto, à direita de Bruno. O interior do globo deixava transparecer somente um triângulo a dimanar uma luz azul, mas todos os espaços do ambiente ganhavam boa claridade.
  - Parece-me, Bruno – recomeçou Sorman, mirando primeiramente o anel do Supremo, cujas mãos se entrelaçavam sobre a mesa, pousando a seguir o olhar no seu tranquilo semblante –  e não seria justo se assim não acontecesse, que os segmentos da célula, imersos em ramos étnicos das diversas raças mundiais, pudessem tentar realizar algo de criativo segundo as orientações de nossos membros. E conseguindo, embora formando minorias em relação à massa populacional do planeta, escapariam dos trágicos acontecimentos desenhados por suas palavras.
  - Evidentemente, sim, e aconteceu há pouco ao intervirmos na vila onde um massacre contra a sua população era iminente. O carma de nossa célula não é o mesmo de outras, mas existem momentos em que carmas se cruzam e se entrelaçam, surgindo coincidências. Não obstante, se os nossos não merecerem passar certas provações, certamente serão poupados ou defendidos, e os efeitos dolorosos dos acontecimentos minimizados. Entretanto, este processo que provoca desnorteamento nos homens e tormentos na natureza, pode perdurar por muitos anos, verdadeiramente décadas. As reações violentas dos homens e as respostas da natureza a um tipo de revolvimento na ordem dos acontecimentos geram, num tempo relativamente curto, novos e intermitentes estremecimentos e novas convulsões. Diria que o emocional do homem é o espelho aonde a natureza vem mirar-se para condicionar suas reações. Atualmente, o emocional está fora do controle racional das massas, e isso acelera sempre os processos revoluteantes de causa e efeito. Assim, diante da impossibilidade de anima mundi imprimir idéias dinâmicas e libertadoras, os inevitáveis conflitos entre os organismos mundiais estarão se deflagrando constantemente. Então, nesse processo invertido de aproveitamento da energia criativa, ela finalmente esgotará a sua ação plasmática, abrindo espaços para a descida de novos fluxos desde os arquétipos, onde, por um processo extraordinariamente complexo ao entendimento humano, a nova energia virginal permanecia controlada. Ao atingir as pontas inferiores da célula através dos fluxos, as situações tendem a se repetir. Se por um lado, a nossa hierarquia conseguir administrar a ação dos fluxos da nova energia, trabalhando com eficácia no mundo para as suas realizações, e tiver recebido do mundo as contrapartidas, teremos não só cumprido a nossa parte como obtido sucesso. Caso contrário, teremos novamente falhado parcial ou totalmente e provavelmente estacionado nesse particular como tantas outras células espalhadas pelo planeta.
  - Vejo que de várias maneiras os nossos problemas resumem-se na dualidade. Primeiramente detemos o mandato – e precisamos de fato cumpri-lo – para fazer reagir os nossos escalões a fim de alcançar às médias progressistas. Por outro lado, as medidas exigidas para esse fim precisarão estar colocadas e intrinsecamente correspondidas com a exata idéia de um plano de evolução, onde a Inteligência Diretiva esteja presente exatamente naquilo que também fizermos além da célula. Não há como escaparmos dessa ideação. A nossa célula, de certa maneira, não nos pertence, porque sem um trabalho eficiente de dentro para fora, conforme determinam as leis da evolução no espaço-tempo, não obteremos as condições ideais de fora para dentro. O uno é plural. A célula está para o mundo como este para a célula.

  Bruno sorriu. Ao mover a mão direita, a grande e lisa pedra do anel, como ônix, lançou rápido rebrilho. Amanhecia rapidamente, o estúdio do Supremo tomava-se cada vez mais da luz natural. Ele se levantou e contornou a mesa, ficando mais próximo do amigo e discípulo. Sorman também se ergueu. O negro rosto nesse instante tomava-se de um ar grave, estranho ao que o Ministro Extraordinário conhecia daquele homem.
  - Sorman, há segmentos na célula parecendo cristalizados. Após tantos ciclos de lutas não vejo outra saída para os irmãos nessa situação, senão o surgimento de uma luz especial para fazê-los romper de uma vez, e para sempre, com o resistente véu da matéria que neles se aderiu. Essa tentativa última ainda não foi possível realizarmos por não termos entre nós alguém em condições de incorporar essa sublime luz e aceitar o sacrifício. E caso não aconteça uma reação positiva deles, com suficientes avanços nesse nosso atual ciclo de manifestação, os recalcitrantes serão enviados em grande número para outro orbe, de onde poucos voltarão.
  - O que isso significa em termos práticos?
  - Significa o que chamamos nesse estágio de a “morte definitiva”, por que para a maioria não há mais volta. Eles já terão esgotado todas as possibilidades de renascimento, perdendo as oportunidades de “acender a luz.” A natureza faz vigorar as suas leis com tempo de vigência. E tendo se tornado incapazes de evoluir, malgrado os esforços da célula, sem forças de se renovar, aqueles egos terrenos serão dissolvidos e suas energias retornadas para os reservatórios naturais. Terão perdido os milhões de anos de suas vidas na célula. A essência alma, em cada um, se recolherá para uma dimensão onde ficará à espera de um novo ciclo de manifestações de células em que possa reincorporar-se e recomeçar todas as experiências dos ciclos elementais, dos reinos não humanos e finalmente humano.
  - Mas não aconteceria um vácuo no espaço de nossa célula, antes ocupado por aquelas unidades que falharam?
  - Sim, a célula irá se contrair quanto a sua dimensão. Todavia, mais adiante, em ciclos futuros, conseguirá novamente se distender com a incorporação de outras unidades portadoras de padrões vibratórios possíveis de com ela sintonizar-se, embora aquelas unidades se tenham atrasado em relação aos avanços de suas células originais, mas estando adiantadas em relação a nossa. Assim, os possíveis vácuos de nossa célula de novo estarão preenchidos com padrões afins, ganhando melhor qualidade, e oferecendo também novas oportunidades àquelas unidades recentemente incorporadas de se reabilitarem.
                                                   
                  
                                                                 CAPÍTULO IX

                                          RITUAL NO TEMPLO DO SOL NASCENTE

  Dez meses se passaram. As práticas com o Superior tinham evoluído e Sorman experimentava outro momento de seu mental. Com frequência recebia mensagens e contatos. Isso em muitas ocasiões o atrapalhava nos afazeres, pois se via envolto por situações simultâneas. Entretanto, aos poucos foi desenvolvendo um tipo de discernimento que aprimorou em técnica para seu autocontrole. Quando os contatos eram feitos enquanto estivesse ocupado, e sem possibilidades de sustentar a sintonia, ele recebia as mensagens numa área da mente sem permitir que lhe chegassem ao cérebro, e após desocupar-se do que fazia concentrava-se neste objetivo. Caso lhe fosse necessário trabalhar uma determinada situação no mundo terreno, traria o conteúdo da mensagem e a registraria no cérebro físico. Foi assim que em reunião com o corpo diretor da empresa, veio sentir a presença telepática de Bruno, a quem não pôde responder de imediato. Mais tarde, verificou ter sido convocado para uma reunião na casa de Michel e Verônica, a se realizar em poucos dias. Ele não somente registrou a mensagem no cérebro, enviando a confirmação a Bruno, como a anotou na agenda de compromissos com as palavras: REUNIÃO FIA.

  A projetada produção da fábrica se iniciara. Um problema, entretanto, viera descontinuar o trabalho; uma fase da maquinaria importada entrara em pane e não tinham conseguido pô-la novamente a funcionar. Isso comprometeria os prazos de entrega, justamente ao início de tudo, e não seria nada bom. Outro engenheiro chegara do exterior para tentar solucionar esse problema. Sorman o fora receber no aeroporto, conduzindo-o ao hotel. Dia seguinte, após a apresentação aos diretores e técnicos, o engenheiro começou a vistoriar todo o equipamento nos seus mínimos detalhes. Num destes momentos em que o acompanhava, Sorman viu-se tocado por uma conhecida emoção há muito não sentida. Anita o envolvera transmitindo sua presença e isso lhe trouxe inquietações. E como nenhum acontecimento vem à luz por isolada existência, nessa mesma tarde, ainda sob estado reflexivo, ele atendeu a um chamado telefônico de Lucéa que chegara para fazer compras, e desejava saber notícias. Curioso, pois Lucéa nunca antes lhe houvera telefonado, saiu mais cedo para encontrá-la.

  O encontro foi agradável. Lucéa estava jovial e bela como sempre, e sentaram-se para um rápido lanche enquanto conversavam.
  - Tenho sonhado seguidamente com você – disse Lucéa em meio aos assuntos.
  - Bons sonhos, quero crer.
  - Enigmáticos na verdade, de certa forma antagônicos. Talvez você me ajude a decifrá-los.
  - Diga-os!
  - No primeiro sonho você me mostrava um espesso calendário, possivelmente programado para registrar anos vindouros. Noutra noite, o vi trazer uma enorme mala que a depositava num armário da irmandade, onde os paramentos de ofícios são guardados. Você estava completamente nu, mas feliz. Num terceiro sonho, algumas noites após, você veio vestido somente com uma túnica de fino linho branco. Sua expressão, entretanto, mostrava um misto de tristeza e esperança e me abraçou fortemente, beijando-me –  ela parou e baixou o olhar para o prato. Depois continuou – enquanto sentia o caloroso beijo, suas lágrimas desciam e molhavam-me o rosto, até que descolou os lábios dos meus afastando-se de costas, desaparecendo sob uma nuvem azulada –  ela buscou o lenço na bolsa e enxugou as lágrimas. Era outra essa Lucéa diante dele. Sorman, por seu turno, pálido, olhava-a petrificado. Passados segundos, ela pousou a mão sobre a dele –  Isso significa o que estou pensando, Sorman?
  - Sim, uma partida, naturalmente.

  Mais tarde Sorman a deixaria com Verônica no local combinado, para juntas fazerem as compras. Naquela madrugada, no estúdio, Sorman despertou para um fato e iniciou imediatamente uma pesquisa no computador, vindo encontrar o que desejava. Na relação de todos os nomes dos membros da irmandade encarnados pelo mundo, conscientes ou inconscientes da existência da FIA, estava o nome de Anita: como não pensara nisto antes? Ansioso, foi em busca dos dados pessoais dela, deparando-se com um breve histórico de sua vida e a árvore genealógica. Pôde também saber que em vidas passadas Anita fora consagrada num templo atlante como sacerdotisa, recebendo o nome iniciático de Iana. Entretanto, nada mais conseguiu descobrir por que novo arquivo mais completo achava-se bloqueado. Somente outra pessoa poderia ter acesso às informações; no entanto quem?

  A lembrança de Anita voltou-lhe com frequência no dia seguinte. Pensara muitas vezes em telefonar-lhe, mas esbarrava sempre no mesmo dilema: por que reatar o que se tornara impossível no passado? Iria novamente entrar em sua vida, atrapalhar o relacionamento dela com o companheiro. Então desistia de qualquer ação e buscava esquecê-la.

  Chegava o dia da reunião da FIA. Pouco antes das sete da noite, Sorman era recebido na casa de Michel e Verônica. Em chegando ao Salão de Conferências, foi recebido por Bruno e deparou-se com várias pessoas que lhe deram a sensação de já conhecê-las.
  - Irmão, Sorman, há quanto tempo não nos vemos neste mundo! – Bruno riu com grande satisfação, fez o sinal, sendo respondido, e apertou-lhe a mão. Virou-se para os outros disse – quero apresentar-lhes nosso Ministro Extraordinário a quem pessoalmente não conhecem    todos fizeram o sinal.
  - Estes são cinco dos Mestres Terra e os dois Ministros, falou a Sorman que lhes respondeu como de hábito. A seguir, mergulharam no burburinho dos apertos de mãos e apresentações. Havia uma senhora a quem ele beijou a face. Logo se aproximou do Superior, ladeado por Michel; esse último pousou-lhe a mão no ombro sorrindo.
  - Sorman, tenho sentido falta de sua inteligente presença.
  - Sorman, meu filho, que prazer revê-lo! – disse o Superior abraçando-o e esse abraço elevou-o de súbito, fazendo-o sentir-se mais leve.
  - Estou igualmente feliz com este reencontro. Sinto-me já integrado a todos, embora neste momento algo diferente esteja se passando comigo.
  - Hoje você viverá nova e extraordinária experiência na irmandade –  confiou-lhe o Superior. Sorman, surpreso com aquelas palavras, nem pôde questioná-lo porque Verônica entrava com dois outros Mestres Terra. Um deles era Stefany. Ao serem apresentados, e após os mútuos sinais, ela sorriu com imensa simpatia, beijando-o na face.
  - Sua vibração causa-me bem – falou-lhe com carinho. Ele agradeceu. Logo outro Mestre Terra, oriental, de nome Magashi, fez a própria apresentação em espanhol, com estranho sotaque e especial vênia.

  Estavam todos descontraídos. Perpassava-os um tipo de energia que os unia tanto informal quanto solenemente. Isso pareceu intensificar-se quando Sorman sentiu uma ligeira sensação de ausência, seguida de um estímulo como num salto para cima. A essa transformação, seguiu-se a condição de poder registrar no cérebro movimentos e ações diferentes daqueles ali realizados. Perguntava-se que tipo de reunião aconteceria naquele Salão, quando Bruno ordenou-lhes:
  - Irmãos, preparem-se! Michel imediatamente dirigiu-se ao painel eletrônico no fundo da biblioteca, pressionando uma tecla, provocando o fechamento automático da porta do salão e suave estalido na fechadura. Certificando-se, num rápido olhar, de que todas as janelas estariam também fechadas, ele pressionou três outras teclas em diferentes posições, dentre as dezenas nas carreiras do painel, e uma quarta para a posição de desligada. Logo uma seção da estante moveu-se, abrindo-se automaticamente. Sorman já vira algo parecido na estante ao lado, quando pela primeira vez aqui estivera. Esta seção, possuindo escaninhos completamente vazios no lado interno, era estreita, deixando à vista um pequeno hall, suavemente iluminado, terminado numa escada de mármore em descenso.

  Todos se posicionaram em fila e iniciaram os passos. Bruno retardou-se propositalmente apoiando a mão no ombro de Sorman que aguardou. Quando todos tinham adentrado, Michel acionou as teclas apagando as luzes e fechou o painel. Agora somente a luz provinda do hall os banhava. Finalmente adentraram. Havia uma porta contígua; ao passarem pelo vão, Michel parou e abriu um diminuto painel de eletricidade na parede, acionando duas teclas, provocando o fechamento simultâneo da estante e da porta contígua. Desceram pela escada, cuja iluminação era da mesma forma suave, ingressando por um estreito corredor comunicando a um vestíbulo separado por biombos.
  - A reunião será um ritual – começou a explicar-lhe Bruno –  relativo a uma data especial de nosso calendário oculto, antes do solstício de inverno. Do ritual somente participam os cabeças da hierarquia. Até aqui éramos doze participantes, mas hoje seremos o número perfeito de treze.

  Surpreso, o jovem meneou a cabeça afirmativamente. Bruno virou-se ordenando a Michel que trouxesse um paramento para Sorman, retirando-se em seguida, indo adentrar uma dependência ao fundo, fechando a porta. O paramento era exatamente igual ao dos demais. Tratava-se de uma túnica de linho negro, de mangas compridas bastante largas, leve e confortável, tendo adiante o desenho de uma serpente dourada, em pé, ligeiramente sinuosa, que subia ao peito desde abaixo do plexo solar, terminando junto à gola da túnica à garganta.   

  Sorman foi instruído a aguardar enquanto as duas mulheres abriam outra porta, adentrando uma segunda dependência. Logo saíram vestidas com as túnicas, de cabelos umedecidos, dirigindo-se a um dos biombos a fim de dependurar suas roupas. Em seguida, caminharam para o final do vestíbulo, passando pela porta por onde Bruno adentrara, fechando-a depois. Um perfume suave, desconhecido para Sorman, deixou no ar o seu rastro após as mulheres.

  Os homens imediatamente começaram a se despir detrás dos biombos e dependuraram as roupas. Vestidos unicamente com trajes menores, portando nos braços as túnicas dobradas, fizeram fila diante da primeira porta de onde as mulheres haviam saído. Sorman, como eles, dirigiu-se a um dos biombos, despiu-se e colocou-se no final da fila. Os homens rapidamente entravam um a um, pouco depois saiam vestidos com as túnicas, e cabelos umedecidos, exalando o mesmo perfume das mulheres. Como elas, dirigiam-se aos biombos, e, após, para a porta do fundo, adentrando a dependência. Tudo era feito em silêncio e concentração. Quando finalmente chegou sua vez, Sorman entrou com Michel. Esta dependência era um banheiro totalmente revestido de cerâmica branca. Michel indicou-lhe um pequeno móvel onde depositasse a túnica, e apontou-lhe o box para rápida ducha. Após a ducha, instruiu-o a abrir o chuveiro, e enquanto a água lhe tocasse a cabeça e o corpo, mencionasse certas palavras, agora reveladas, ligadas ao que seria um banho lustral.

  Isso feito estendeu-lhe pelo entremeio da cortina uma toalha branca, retirada de uma pilha do interior do móvel. O banho lustral, muito mais que perfumar, fizera-o sentir-se purificado. Depois de rapidamente se enxugar, Sorman vestiu o traje menor aqui recebido, estampado com seu nome, e a túnica, saindo em direção do biombo, ali depositando sua última peça de roupa.

  Ao abrir a porta do fundo deparou-se com todos os membros que o antecederam. Encontravam-se em pé, concentrados sob tênue luz azul dimanada do interior de translúcida pirâmide, pendida por um fio luminoso dourado e transparente. O lugar era uma tenda cônica, de seda lilás. Sorman vira recentemente essa figura em lampejo de visão, numa ocasião qualquer.  Ele permaneceu como todos, em mesma postura e silêncio, até a chegada de Michel. Segundos depois, algumas fracas luzes brancas foram acesas do lado de fora, e as duas mulheres afastaram um véu da tenda, saindo. Logo ouviram uma música mântrica e se encaminharam para fora da tenda. Sorman sentiu na mente algo vibrante, verificando encontrar-se no interior de um salão quadrangular cujas paredes eram, alternadamente, brancas e negras. O alto teto apresentava uma grande e escura abertura circular, que a fraca iluminação das lâmpadas, sob sancas, não conseguia penetrar. Um negro disco achava-se desenhado no chão; sua medida coincidia com a abertura do teto. Os pequenos espaços existentes após o disco, e ao perfeito alongamento do chão, eram revestidos por peças representando quadrados brancos ou pretos, com uma faixa diagonal bem no meio, opostamente branca ou preta. Nada mais no salão ele podia dali discernir, pelo menos sob a proposital penumbra, e os membros da irmandade pararam todos em derredor do disco. A música continuou por mais um minuto; as mulheres retornaram, colocando-se em posições diametralmente opostas. A voz de Bruno então ecoou pelo ar, provinda de algum ponto do salão:
  - Diante de Ti, Ó, Supremo, nos prosternaremos. Tua incognoscível consciência já antes habitara o desconhecido e das suas profundezas surgiste para o universo. Por Ti também existimos desejando conhecer-Te, Grande Enigma! 

  Todos mencionaram juntos um nome em voz alta por três vezes, e as luzes se apagaram. Mergulhados em total escuridão, permaneceram em completo silêncio por três minutos. Súbita fraca e tênue luz amarela espalhou-se sobre suas cabeças, dimanada das profundezas do buraco no teto. Nesse momento, Bruno já se encontrava no centro do negro disco, com igual túnica, elevando as mãos. Eles realizaram idêntico gesto, e novamente juntos pronunciaram por três vezes o mesmo nome. A luz amarela cresceu; já era possível ver que o buraco era uma coluna oca, negra, perfeitamente lisa e cilíndrica. Eles se deitaram no negro disco, com as cabeças voltadas para o centro, inclusive Bruno, olhando fixamente por alguns segundos para o ponto de luz amarela; depois fecharam os olhos. A negra coluna banhada de amarelo e o distante ponto de luz permaneceram-lhes nas retinas. Então ouviram um forte sibilo e perderam a consciência, sendo puxados dos corpos e levados para o interior da coluna em direção ao ponto de luz, a uma velocidade imensa, perdendo a consciência.  
   
  Pouco depois das vinte e duas horas o grupo se reunia no Salão de Conferências, em torno da bela mesa de mogno. Ainda sentiam a energia altamente psíquica a permeá-los. Era alguma coisa simultânea. Sorman surpreendia-se, pois se naquele momento desejasse se comunicar com qualquer dos irmãos, não precisaria dirigir palavras, olhares ou gestos: bastaria concentrar-se suavemente e o contato mental se daria instantaneamente. A par disso, movia-o o desejo de criar ou recriar; sentia o mundo como a extensão de seu pensamento, podendo penetrá-lo de qualquer distância ou profundidade. “Sou um Demiurgo!”; ele escutou essas palavras na própria mente.
  - Irmãos – começou Bruno, e todos procuraram emergir daquele estado de perfeita integração mental e registrar através de seus cérebros físicos – o propósito desta reunião todos conhecemos, exceto, Sorman na sua integral concepção. Ministro Extraordinário é um cargo jamais antes ocupado por alguém na Fraternidade Irmãos Atlantes, por isso ao seu ocupante tudo pode parecer de certa forma imprevisto. E não há mesmo tempo para prolongadas lições nos dias atuais. As experiências do círculo interno da irmandade, o Ministro Extraordinário as obtém in loco, com amplitude. E as adapta rápida e corretamente ao caminhar. Eis porque ocupa a posição: tem grande poder de síntese; sua inteligência é vívida e aguçada.

  Sorman não teve reações. A envolvente energia tirava-lhe a possibilidade de um protesto silencioso ou tímido: simplesmente aceitou aquelas palavras. – O ritual que acabamos de realizar – Bruno prosseguiu e Sorman acusou a intenção do Supremo de, especialmente, explicar-lhe – é o encontro com o Pai. Nada é comparável à hierarquia, em termos de comunhão, a esses momentos. Grandes segredos da criação nos são informados, e ainda assim, permanecem guardados e vigiados sem descer ao cérebro físico. Há uma senha para cada revelação a nós confiada, mas não nos é dado o seu conhecimento objetivo para que de moto próprio não venhamos nos apropriar delas. Um grande Ser permanece guardião das senhas durante todo o tempo de nossas existências terrenas, ou após. Para que então nos servirão as revelações, perguntarão, se não poderemos saber delas? Poderemos, sim, quando não mais houver a possibilidade de uma inconsciência transferi-las ao cérebro físico. Fragmentos das revelações, contudo, poderão chegar aos nossos pensamentos terrenos, de acordo com a vontade desse grande Ser, porém nada mais que isto. As forcas inimigas da Luz jamais saberão verdadeiramente o que o Pai guarda aos Seus, quando os faz custódios das verdades.

  Não obstante, somos portadores da inalienável certeza do conhecer, e isso nos transforma em incessantes geradores de energia para o mundo. A instantaneidade desse conhecimento – embora não trazido à forma-pensamento terreno – produz a qualidade intrínseca das energias que plasmaremos no mundo em produtiva criatividade, fazendo-nos, por outro lado, invencíveis em nossas próprias convicções ou realizações. A clareza das idéias produzidas e a perfeição dos ideais a perseguir, são também reflexos ou a vida externa desta sabedoria ocultamente guardada em nossos íntimos. E um dia, quando perfeitamente libertos estivermos das injunções do carma, esta sabedoria universal será de nosso consciente uso.  

  Silêncio. A energia ainda os possuía e não se moviam. Haviam escutado ao Supremo, mas as palavras já tinham deixado de soar perfeitamente em seus cérebros físicos. Nesse instante, encontravam-se em dimensão acima; os corpos físicos tinham ficado inertes em redor da mesa. Bruno, percebendo a elevação, uniu-se conscientemente a eles, prosseguindo: – o Pai nos revelou alguns acontecimentos futuros no planeta. Já estão em processo de descida e tomam forma; todos no momento podemos lê-los nos registros etéricos. Alguns lugares onde membros da célula vivem no mundo terreno serão afetados. Vamos, portanto, trabalhar na aura mental da célula a fim de evitar que os nossos venham sofrer desnecessariamente.

  Bruno sugeriu-lhes conformar um grande anel de energia mental, de imediato lançado ao espaço em magnífica irradiação, sendo acompanhado pela percepção desperta do grupo. O anel viajou a velocidade extraordinária, vindo encontrar um campo de fervilhante luz e energia, onde penetrou e se dissolveu provocando rápidos torvelinhos. Logo viram milhares de pessoas sentadas sobre imensa extensão de grama, rodeada de jardins magníficos. Elas se voltavam para um alvo templo sobre pilares. O templo possuía quatro altíssimas e pontiagudas torres semelhantes a obeliscos, formando um quadrilátero. No centro do quadrilátero, vários lances inclinados de telhas sobrepunham-se, envolvendo uma grande e reverberante ogiva, destacadamente mais alta. O Sol surgia por sobre o templo; os rostos das pessoas, com olhos fechados, denotavam profunda concentração.
  - Os irmãos absorvem a energia que lançamos e sua principal mensagem. Em pouco tempo esta mesma energia chegará a Terra para absorção de outros, ao respectivo nível dos grupos em que convivem –  disse Bruno mentalmente, em seguida ordenando-lhes: - Voltemos!
       Pouco depois reassumiam seus corpos físicos no Salão de Conferências. Não demorou, Verônica apareceu com imensa toalha dobrada, começando a estendê-la sobre a mesa com ajuda de Michel e dos Mestres femininos. Louças e talheres foram postos e uma refeição quente lhes foi servida.

                                                                  CAPÍTULO X

                                                                        ANITA
                                                                                                                                
  - Sorman! – ela gritou – Meu Deus é Sorman!  Anita murmurou estas últimas palavras, sem mesmo se dar conta da coragem de tê-lo chamado. Fora algo instintivo, irrefreável. O coração descompassava. Sorman parou em meio à onda de transeuntes e virou-se, vendo-a na calçada a acenar-lhe.
  - Anita! – exclamou incrédulo, procurando vê-la melhor por sobre a febril massa. Ele se aproximou; ela, imóvel, olhava-o enternecida e emocionada – Anita! – falou-lhe com brandura, vencendo todas as possíveis barreiras. Ela conseguiu sorrir e conter as lágrimas.
  - Sorman, como eu poderia imaginar?
  - Nem eu! - respondeu-lhe com meio sorriso. Ela olhou seus cabelos curtos, estudando-lhe o rosto.
  - Você mudou muito – disse após breve momento, sentindo ainda a emoção arder.
  - Você, não, continua bonita.  Ela sorriu e o sorriso dela entrou-lhe na alma como um bálsamo.
  - Não falo da aparência física, pois ela é quase a mesma de outros tempos. Vejo, sim, outra pessoa em você, sinto isso facilmente. Algo incomum o envolve – ela falava rapidamente.
  - Reencontrei-me e aos meus – ele sorriu. Ela não conseguiu conter agora uma pequena lágrima. Tentou ignorá-la, mas a lágrima sobrevivera de um passado que permanecia vivo, e matou-a com a extremidade do dedo.
  - Talvez não devesse tê-lo chamado, deveríamos evitar o encontro. Sorman foi subitamente esbarrado por um homem apressado que corria para atravessar a rua; a pasta quase caiu ao chão; ele agarrou-a desajeitado.
  - Vamos sair daqui – disse após aprumar-se.
  - Sim, preciso ir trabalhar! – as palavras saíram-lhe como a protegê-la.
  - O que você faz?
  - Trabalho num escritório de advocacia; sou advogada também – Sorman calou-se. Anita abriu a bolsa e retirou um cartão – telefone-me quando puder –ela esforçou-se para dominar a emotividade; os olhos impregnaram-se de forte brilho. Sorman tomou o cartão um tanto desanimado. – Vamos atravessar a rua, eu ia mesmo para o outro lado! – ela comandou.

  Anita desapareceria pouco depois. “Até logo, Sorman!”, foram as suas últimas palavras. Ele ainda permanecera acompanhando-a com o olhar, vendo-a misturar-se à multidão sem se voltar uma única vez.
    
                                                                     o     o     o

 - Depois de todos estes anos o que o anima a vir conversar comigo? A pouca luz transformava o reservado num cenário sem atrativos. O claro rosto de Anita demonstrava tensão; os verdes olhos piscavam intensamente. Sorman, apesar do inicial desconforto, desligara-se por segundos admirando-a, mas logo procurou responder-lhe:
  - Bem, se você ainda me conhece sabe que sou movido por instâncias; assim, não saberia explicar, exatamente, porque necessito falar-lhe. Para dizer a verdade, nem sei como começar –  seus dedos uniam-se adiante como atraídos magneticamente. As mãos pareciam esculturas pétreas. Anita aguardou. Ele reiniciou: -  deixe-me então tentar. Não desejo de forma alguma entrar em sua intimidade e novamente atrapalhar-lhe a vida. Você está casada, parece-me –  ela tentou interrompê-lo, mas ele prosseguiu –  tem um filho, não sei, porém se outros.
  - Como soube destas coisas?  
  - Sua mãe contou-me meses atrás quando fui procurá-la. Vi seu filho. Ela naturalmente não lhe falou a respeito.
  - Não..., eu. Por que me procurou, Sorman?
  - Necessitava falar-lhe, você me aparece constantemente em visões. Achei que deveria saber de você.  Anita tremeu.
  - Este foi o único motivo?
  - Bem..., não sei exatamente. Perdoe-me por falar-lhe sobre isto, prometo respeitar o seu compromisso afastando-me depois, mas você jamais ficou longe de mim. Muitas coisas aconteceram desde que nos separamos; de alguma forma você esteve comigo o tempo todo.
  - Sorman...!  Ela não conteve as lágrimas.
  - Não desejava vê-la assim. Não a perturbarei mais a partir de hoje.
  - Não, Sorman!  Não devemos virar as costas um para o outro. Se aqui estamos é porque o destino quis. Devemos nos encontrar quando necessário, trocar impressões, conversar enfim. Coisas também acontecem comigo; são estranhas, não consigo explicações. É comum, por exemplo, meus sentidos se apagarem, eu viajar mentalmente – ela parou e assuou o nariz com o guardanapo de papel, depois passou suavemente os dedos sob os olhos, enxugando-os e continuou – sei que vou longe. Em ocasiões sei exatamente onde estou, o que faço, noutras não. Ouço vozes, capto mensagens. Por que estaria isto acontecendo comigo?  Sorman somente mirou-a.
  Súbita luz azul veio colocar-se entre ambos.
  - Vê o que eu vejo? - ele perguntou.
  - Sim, a luz azul, quem a envia?  Sorman fixou o olhar sobre a mesa; os olhos tomaram-se de um brilho hipnótico. Por alguns segundos sua mente desprendeu-se e o corpo permaneceu absolutamente imóvel. Anita vendo-o assim procurou não se mover, temendo atrapalhá-lo.
  - Seu mestre envia esta luz, a irmandade lhe chama – disse-lhe finalmente, voltando a mover-se.
  - Irmandade?  Qual?
  - Você saberá em breve. Ela não ficou satisfeita, porém não insistiu.

  O jantar foi servido, a atmosfera tensa desapareceu. Descontraídos conversaram sobre variados assuntos, mas falaram pouco sobre suas vidas; havia ainda feridas abertas e desconfianças. Ao término, Sorman propôs-lhe com dúvidas:
  - Não sei se devo oferecer-me para levá-la a casa, poderia complicar-lhe a vida.
  - Podemos ir, não existirá qualquer problema.
       
  No trajeto Sorman inquiriu-a:
  - Como é seu companheiro? Anita não respondeu. Mediante o silêncio ele mudou de assunto. Ao chegarem à extremidade da rua onde morava, ela tocou-lhe o braço.
  - Pare aqui, prefiro agora ir andando. Sorman parou.
  - Então voltaremos a nos ver?
  - Tenho certeza. Até breve! - ela sorriu e saiu.

                                                                  CAPÍTULO XI
                               
                                                       RUDOLFO, O ASTRÓLOGO

  Desde o inusitado ritual no Templo do Sol Nascente, muitas coisas vinham acontecendo no íntimo de Sorman. A energia que o tomara, de um teor completamente diferente, nele permanecera transformando-o pouco a pouco. Uma nova vida vinha possuí-lo, outra vontade conduzia-lhe os pensamentos: seu universo interior sofria choques e expansões! Ele começou a ter aspirações. Desejava ampliar o alcance da própria energia; trazer melhores condições para a irmandade, para o mundo! Dentro desse quadro de vigorosas possibilidades, passou a achar que como Ministro Extraordinário realizava muito pouco! Estaria estacionado; não houvera realmente entrado na engrenagem da hierarquia como esperava. Até esse momento não tomara decisões importantes, não tinha elaborado planos nem exercitado a criatividade. Essa constatação veio provocar-lhe angústia.

  Sob este clima, decidiu tentar um contato telepático com Bruno, mas não obteve sucesso. Forte bloqueio o impedia de se comunicar. Desistindo temporariamente dessa intenção preparou-se para dormir, idealizando antes a estratégia de trabalhar objetivamente seu corpo espiritual, a fim de ingressar no reduto da hierarquia com a consciência desperta. Porém, logo atestaria essa impossibilidade, por que ao pronunciar a senha que lhe abriria as portas da Grande Casa dos Estúdios e Câmaras da Hierarquia, viu descer-lhe uma branca luz que lhe apagaria de imediato a lucidez.

  Na manhã de sábado procurou de todas as maneiras lembrar-se do ocorrido na madrugada, porém debalde. Novamente tentou se comunicar telepaticamente com o Supremo, mas como antes esbarrou no bloqueio. Aborrecido com esses evidentes fracassos, tomou rápido banho, vestiu-se, lançou mão de uma pequena mala, acondicionando nela tudo o que julgava necessitar, e desceu. Tomando café a sós com Olga – Eduardo ainda dormia – anunciou-lhe a pequena viagem.
  - À nossa casa ao pé da serra? Por que esta decisão tão súbita? - sentada diante dele, Olga mostrava espanto, como sempre.
  - Tenho um amigo que possui uma pequena fazenda nos arredores. Preciso falar-lhe.
  - E por que não lhe telefona?
  - Porque o assunto é um tanto difícil e longo, seria indelicado falar por telefone. Talvez porque desejo mesmo viajar. E, para complicar, acabo de constatar que nem tenho o número de seu telefone.
  - Quem é este amigo?
  - Você não o conhece, nem meu pai. É uma bela pessoa.
  - Você volta hoje ou domingo?
  - Ainda não sei, vai depender de algumas coisas. Olga deu de ombros fingindo despreocupação, encerrando o interrogatório.

   Por mais de uma hora Sorman viajou mergulhado em pensamentos. Nesse tempo veio-lhe a imagem de Anita. Mais tarde lembraria de Lucéa e do último encontro com ela na cidade.

  Deucalião veio encontrá-lo. Ao escutar os ansiosos latidos, Lucen desceu correndo a fim de abrir-lhe o portão, recebendo-o  com beijos e abraço, após ele ter se desvencilhado do cão.
  - Pensei não vê-lo hoje, são quase dez horas! -  observou-lhe Bruno, em alegre e irônico tom à porta da varanda, tendo feito o sinal.
  - Você me esperava? – inquiriu-o meio espantado, respondendo ao sinal.
  - Naturalmente. Sei que jamais se esqueceria de um compromisso como este. Venha – convidou-o sem alterar a disposição alegre – quero lhe apresentar uma pessoa especial! Sorman adentrou a sala, meio atônito, sem nada entender. Bruno alcançou-o, sinalizando que o seguisse. – Aqui é o meu estúdio! – Anunciou diante de uma dependência no corredor, abrindo suavemente a porta.

  O estúdio era um bom escritório, Sorman evidentemente não o conhecia. As paredes eram forradas de papel claro florido. Tinha uma mesa de médio tamanho, uma poltrona giratória de gabinete, e duas cadeiras almofadadas. A um canto havia um sofá vermelho encostado à parede.  Num dos lados do sofá ficava um abajur de pé e no outro uma mesinha. Atrás da mesa e poltrona giratória, uma estante de madeira clara quase alcançava o teto. Nela existiam muitos livros meio arrumados ou em desordem, e vários e diversificados objetos espalhados nos escaninhos. Encostado a essa estante, havia um cofre de aço.

  Suave e fresca aragem movia as finas e brancas cortinas, como véus, na janela totalmente aberta. Os movimentos provocavam seguidos e leves sombreamentos na réstia solar que se insinuava até bem próximo da mesa, sobre o bem encerado chão de tábuas. Um homem magro, alto e claro, de cavanhaque e óculos de fina armação dourada, com cabelos castanhos deixando à mostra entradas acima da testa e falhas ao alto da cabeça, levantou-se detrás da mesa tão logo os dois se introduziram ao estúdio. Permanecia com um lápis à mão e diante dele folhas manuscritas, mapas com zodíaco, livros abertos, um pequeno globo, uma grossa lupa, um laptop, uma mini calculadora eletrônica e outros objetos de uso, testemunhavam que uma grande tarefa ali se realizava.

  - Este é o professor Rudolfo, iniciado na FIA, astrólogo de raro talento e cabalista prático – apresentou-o, Bruno, já próximo à mesa. Ele fez o sinal de seu grau.  Sorman respondeu e depois lhe apertou a mão. Nesse instante, várias imagens desfilaram na mente de Sorman e viu-se no estúdio do Supremo, na Grande Casa, exatamente com ambos. “Amanhã nos veremos novamente, antes do ritual”, dizia-lhe Bruno, ao final daquele encontro.
  - Creio já nos conhecermos, irmão - disse-lhe Sorman emergindo.
  - É possível –  ele sorriu e suas faces mostraram prematuros sulcos. Não teria mais do que trinta e dois anos, calculou Sorman. –  As atividades de nosso núcleo no plano espiritual são muito intensas, ele continuou, certamente lá nos encontramos antes.
  - Com toda a certeza – reafirmou o recém-chegado, desviando os olhos para a superfície da mesa.
  - Desnecessário dizer de nosso Ministro Extraordinário, principalmente porque você já está a conhecê-lo melhor do que ele a você - falou Bruno, olhando para o astrólogo com a intenção óbvia de motivar a curiosidade do Ministro. Rudolfo sorriu, desta vez, timidamente, baixando os olhos para o mapa em que vinha trabalhando. Sorman entendeu a mensagem, perguntando-lhes com real surpresa.
  - Este é o meu mapa astrológico?  Bruno riu largamente, mostrando os alvos dentes.
  - Não há segredos na FIA, meu jovem, que não sejam desafios para a nossa ciência. Nascimento, vida e morte de um iniciado são seus enigmas na Terra. Cabe-nos, no devido tempo, extrair-lhes todas as coisas importantes que nos acenem com sinais exatos. Dessa maneira, ganhamos  tempo para  melhores e mais proveitosas realizações em favor  de nossa célula.
  - E o que exatamente descobriram? - Sorman animou-se.
  Rudolfo lançou olhar para Bruno. Este ofereceu a cadeira para o visitante, sentando-se ao seu lado. Rudolfo também sentou-se, apoiando os cotovelos sobre a mesa e o queixo no dorso de uma das mãos unidas. O lápis ainda permanecia-lhe nos dedos da mão esquerda.
  - O irmão Rudolfo, ao meu pedido, já vinha fazendo levantamentos de seu mapa natal – falou Bruno jogando a perna direita sobre a esquerda, entrelaçando as mãos e as descansando sobre a perna – isto é norma da irmandade, caro Sorman. Permita-me informá-lo sobre isto antes de nos julgar abelhudos ou invasores de sua privacidade. Ademais, as definições externadas por este horóscopo não serão de forma alguma reveladas a outrem sem a sua autorização, fique tranquilo. É necessário você tomar conhecimento desta pesquisa e das revelações aqui feitas registrando-as no cérebro e memória físicas. Mas deixo agora a cargo de Rudolfo explicar-lhe o conteúdo do trabalho.
      
   Rudolfo descolou as mãos de sob o queixo, apoiando-as na mesa, largando o lápis sobre a folha na qual trabalhava, iniciando a exposição:
  - O mapa não está propriamente terminado visto precisar fazer novos cálculos e rever posições. Não nos baseamos unicamente no levantamento de um horóscopo da personalidade do iniciado para este tipo de armazenamento de dados e consequentes projeções de sua vida. Nossos cálculos têm também outros parâmetros, logicamente outros objetivos. Isso se deve, principalmente, ao fato de o iniciado avançado, como é o seu caso, bem como aqueles discípulos emergentes, não serem totalmente condicionados pelos fluxos normais e mecânicos dos planetas tradicionalmente tabulados para os doze signos do zodíaco. Há ponderáveis influências de outros planetas, constelações, sistemas solares etc. que, aliados a fatores ocultos ou esotéricos, veiculam outras energias, ensejando novas considerações. Por estes fatos, as energias com que trabalha o iniciado, em relação ao aspirante comum ou ao homem intelectualizado, são muito mais potentes em suas naturezas. Assim sendo, uma vez que os planetas tradicionais não influem no iniciado de forma ortodoxa, como tradicionalmente apresentada pela indústria dos horóscopos, haverá mudanças nas conceituações das relações alma-personalidade. Isto significa desdobrarem-se novas gamas de combinações, trazendo definições mais dinâmicas nas projeções futuras da obra pessoal da consciência sob tais influências.

  Para o iniciado, os resultados do estudo da alma e as ilações que se possam aduzir, irão dizer do teor da atomicidade de seus corpos, ou seja, do grau de expansão da consciência, das lutas internas necessárias empreender para eventualmente ajustar-se, bem como das possibilidades de atirar-se numa obra de maior envergadura ou mais abarcante. Os fatos contidos numa realidade consumada pelas projeções que deram certo poderão, eventualmente ou de forma constante e precisa, trazer-lhe o despertar de poderes psíquicos superiores, que devem ser canalizados para o mundo físico, nas realizações de necessários fenômenos. Essas conquistas, por certo, somente dependerão do próprio labor e esforços conscientes do iniciado, nunca de uma automação gerada pelos câmbios das energias na trajetória de sua vida.

  Esta tarefa, por oportuno, vem sendo a mais árdua de todas as que me propus realizar nesta ciência. Sua configuração astrológica, Sorman, é algo complicado, sutil, de difícil abordagem pelos meios e padrões esotéricos normalmente utilizados. A todo instante paro a fim de dar asas à minha imaginação, voando para os campos da pura intuição para pedir ajuda, motivo pelo qual hesito ainda em dar a tarefa por terminada – ele baixou o rosto olhando para a folha sob suas mãos, tomando-a e ajustou os óculos sem levantar os olhos do papel. Depois continuou – Neste pequeno resumo, concluo esotericamente, no lato sentido  oculto, que sua vida teve, está tendo e deverá ter três etapas absolutamente distintas e importantes na totalidade de seu transcurso. A primeira delas já foi concluída e decorreu da maneira mais difícil e exaustiva que uma consciência em formação de valores terrenos poderia experimentar numa encarnação, paralelamente ao despertar silencioso e proscênio dos valores espirituais. A meu ver você foi Arjuna muito cedo, embora por um tempo relativamente curto, e não sei como resistiu sem chegar à demência. Talvez porque o Sol e Vulcano puderam polarizar seu consciente propiciando-lhe energias hercúleas, apesar de fazê-lo mergulhar nos infernos de Hades. Ou, ainda, a experiência teria por escopo fazê-lo de novo apropriar-se de valores já antes conquistados. De qualquer forma, aquela primeira crucificação, em termos ocultos, a meus olhos, pareceu-me extremamente cruel. Matar as ilusões do ego terreno justamente quando ele florescia para o mundo foi o seu grande desafio; foi-lhe o Gólgota de sua infeliz herança, naqueles tempos, naturalmente. 

   Consoante aos fatos rapidamente precipitados nesta primeira etapa – e tendo trazido o ego terreno sob firmes rédeas, graças à você mesmo –  logo iniciou a segunda etapa desta trajetória. Esta, ainda em curso, aparenta ser mais longa do que a anterior e estará dividida em duas fases também distintas. A primeira, eu chamaria fase de apropriação, pelas características dos planetas de seu mapa oculto, ao manifestarem posições de grandeza – vindo Júpiter se aproximando numa posição secundária, proporcionando influência somente ao nível das respostas emitidas por você. Mas não ousaria estabelecer paralelos nem mensurar absolutamente nada em relação ao alcance de seu ego, porque vejo novamente seu mental especialmente polarizado nesse mesmo período. Esse fato talvez esteja começando a acontecer, e é um desafio para a confecção deste mapa, por cujo motivo ainda não consegui completar meus cálculos. Assim nada posso afirmar-lhe de maneira mais clara – ele parou novamente e ajeitou os óculos, enfiando depois a folha consultada sob outra não percebida antes por Sorman. Então continuou, consultando agora essa nova folha – por outro lado, a entrada de energias de outras constelações, sem o chamamento de novas iniciações, a esta altura o estimularão a empreender sucessivos impulsos de caráter esotérico, que precisarão ser compensados por ações físicas no lado material do mundo. Haverá grande risco para seu equilíbrio mental se você não conseguir realizar essa dupla ação.

  Na segunda fase desta segunda etapa, antevejo, exatamente, o campo de suas atividades bastante estimulado. Nesse particular, os poderes psíquicos estarão cada vez menos latentes e, sobretudo, mais pulsantes sob consciente controle. Sua vontade, esotericamente referida, estará estimulada de tal sorte que o trabalho por você realizado criará uma alma ou aura indestrutível. Entretanto, antevejo também nova e abismal luta entre Ego X ego, ou positivo x negativo, no seu Kurukchetra, sem qualquer perspectiva de previsão sobre os resultados ou consequências.

  A terceira etapa é verdadeiramente uma incógnita. Está coberta por véus porque o teor da energia de duas constelações, coadjuvadas ainda em segundo plano por uma terceira constelação, novamente poderão estimulá-lo a novas lutas, vindo condicionar os resultados de seus esforços ao acontecido na luta anterior. Isso considero e concordo, não é nada esclarecedor a essa altura, porém de modo algum poderia ser diferente porque somente quando se alcança um objetivo, reafirmando-se a conquista por posteriores e vitoriosos desafios, se consegue anular proporções da escravidão da matéria a fim de que novas e superiores energias consigam aportar.    Sorman olhou-o admirado e Rudolfo retomou. – Talvez lhe pareça estranho um mapa astrológico indicar um caminho a um iniciado como você, quando de inicio eu dissera exatamente o contrário. Observe, porém, que o homem do mundo, fazendo do intelecto o seu leme, aproxima-se de certa forma do arbítrio trabalhado pelo iniciado em seu mental.

  Insisto, porém: as previsões feitas no seu horóscopo estão condicionadas ao realizado agora em termos de conquistas iniciáticas; diferentes, portanto, das projeções dos acontecimentos previstos para a vida de um homem voltado unicamente para o mundo material, intelectualizado ou não, porque para este, os fatos, na sua maioria, já estarão alinhados na forma concreta de acontecer.

  Por outro lado, o caminho do iniciado é uma trilha natural delineada para um inicio, meio e fim, independentemente do que sucederá na sua vida material em termos de trabalho, família, casamento, fortuna, etc., e ao tempo consumido para atingir a meta. O iniciado é livre para palmilhar a trilha que aceitou antes de descer a esse mundo, do modo como achar melhor e com a aplicação que julgue necessária, pois a maestria é somente sua como é pessoal o seu brilho. Os acontecimentos futuros – melhores ou piores – dependerão, entretanto, de suas realizações presentes, insisto uma vez mais; porém, as configurações dos astros somente se farão sentir cada vez mais intensamente, após ele ter transposto os portais diante de si. Porém, o desgaste físico e mental virá definir o grau de suas condições e a possibilidade de recuperação para exercer novas e controladas ações  reprogramadas por uma hierarquia. E caso também não transpasse os principais portais com significativas vitórias intimas, ficará assim postergada a sua trajetória para superiores patamares, talvez a uma próxima vida com melhores condições.

  Esgotado este tema geral, entraram noutros aspectos particulares da astrologia esotérica e iniciática, tendo Sorman adquirido de Rudolfo boas e úteis informações práticas. Mais tarde, sentaram-se na sala enquanto aguardavam o almoço, ouvindo de Bruno a confirmação de suas participações no ritual da Casa Rosa. Sorman, desta feita, não mais se surpreendeu porquanto já houvera ficado consciente de outras imagens do encontro na Grande Casa dos Estúdios e Câmaras da Hierarquia. Em certo momento, incorporando habitual e austera postura, Bruno comunicou a Sorman:

  - Caro Sorman, é notória a sua integração com o corpo hierárquico da irmandade. Acredito firmemente na sua capacidade de logo assumir todas as necessárias funções de Ministro Extraordinário colocando em seus atos a vontade, o propósito e a energia que sabemos ser possuidor. Por sinal, devo adiantar-lhe que no inicio da próxima semana estarei viajando para a Europa a fim de reunir-me com os Mestres e representantes dos escalões daquele continente, para reavaliarmos situações e traçarmos novas estratégias. Devo lá permanecer por quinze dias. Nesse período, você deverá ser procurado para tomar decisões e resolver problemas. Já comuniquei aos Departamentos sobre quais assuntos o Ministro Extraordinário irá gerir. Ao término do ritual de hoje, virei passar-lhe as instruções para o seu melhor desempenho.

  Até então Sorman pensara em expandir sua ação na irmandade, desejando voar mais alto. Mas agora, diante dessa real situação informada por Bruno, sentiu o peso da responsabilidade, ficando preocupado.
                                                                                                                  
  - Onde está Lucéa? – perguntou Sorman ao início do leve almoço, consistindo de sopa creme, sem ingredientes de carne, com torradas, verduras, legumes e suco de frutas naturais.
  - Na Casa Rosa, preparando tudo para o ritual – informou Lucen diante dele – mas pela hora acredito que não virá almoçar.
  - Ela almoça lá mesmo quando as coisas se tornam muito trabalhosas. A mulher de Jerônimo, meu capataz, a ajuda com as coisas externas - explicou Bruno.
  - Come frutas! – acrescentou Lucen; Sorman meneou afirmativamente a cabeça. Silêncio. Somente ouvia-se agora o tilintar dos talheres contra as louças.
  - O ritual de hoje comemora alguma data ou especial efeméride? - perguntou novamente Sorman, decorridos dois ou três minutos.
  - Sim, inaugura o inverno. Nesse momento, no continente europeu, eles realizam o ritual de abertura do verão, e essas oposições das estações trazem grande significado nas correntes de energia da irmandade - respondeu Bruno.
  - Permita-me também informar que os rituais realizados concomitantemente à entrada das estações, abrem portas para o permanente ingresso das energias por todo um período - aduziu delicadamente Rudolfo ao lado de Sorman, como a não se omitir de informar no tocante a sua ciência.
  - Sim, evidente – concordou o jovem – era um das intenções dos antigos ao realizar esses tipos de rituais. Mas o fechamento do outono, já foi feito?
  - Não, ainda. Isso será feito hoje também – respondeu Bruno, estendendo o braço para puxar a mesinha rolante à cabeceira da mesa, nela depositando o prato da sopa. Em seguida, lançou-se a pegar de sobre a mesa a bandeja de salada, servindo-se noutro prato.

    Na chegada à Casa Rosa, Lucéa aproximou-se dos quatro. Seus negros olhos cintilavam ao ver Sorman:
   - Meu pai não me havia informado que viria! - disse efusivamente beijando-o nas faces, sorrindo com o encanto habitual.
  - Nem mesmo eu sabia. Alguns membros trocavam de roupa; outros, já prontos, permaneciam no salão em silêncio e concentração.
- Vamos entrar! - ordenou simplesmente Bruno e todos o seguiram.

  Após o ritual, tendo já despido as vestes sacerdotais, Bruno reuniu-se com Sorman na biblioteca, trancando a porta. Desejava passar-lhe as informações atinentes às funções que o Ministro exerceria. Explicou-lhe minuciosamente os procedimentos normais e todo o rito de ordem e execuções burocráticas. Sorman ora prestava atenção ora fazia anotações. Em dado instante, Bruno levantou-se e Sorman o acompanhou no gesto.
  - Não se esqueça, Sorman, ele enfatizou, de nas dificuldades sobrelevar a consciência às correntes do mundo concentrando-se no foco central da hierarquia, representado por nosso símbolo secreto. Pronuncie mentalmente a senha que lhe informei quando de sua iniciação, e da qual somente têm conhecimento os cabeças da hierarquia, e o símbolo se abrirá instantaneamente, trazendo-lhe força ou inspiração. Nada é definitivo nem imutável: todas as decisões anelam responsabilidades e havendo situações adversas você precisará, mais do que nunca, exercer a própria maestria. Noutras ocasiões, a minha ausência foi suprida por um ou outro dos meus Ministros de assessoria para assuntos rotineiros. Mas neste momento, você assume um status mais elevado, ou seja, com maior autonomia. Sorman olhou-o inquisitivamente com certa inquietude.
- Há expectativa de fatos tumultuantes?  A pergunta pareceu algo intuitiva.
 - A vida da irmandade não é de forma alguma plácida, nem o suficiente estratégica para todos os fatos a ela adstritos –  gerados ou por acontecer – estarem absolutamente contidos. Ao contrário, há uma dinâmica permanente. Ajustes nos planos adrede elaborados são necessários porque novos fatos vêm à tona com relativa frequência. A vigilância precisa ser constantemente observada. Devemos nos colocar, sempre que possível, um passo adiante das previsíveis dificuldades a fim de não sermos colhidos de surpresa. Há realmente expectativa de muitas reações no mundo pelo curso das energias por nós também liberadas. Essas energias mal empregadas podem precipitar acontecimentos negativos que certamente repercutirão de volta em nossa célula. Mas como pretendemos trabalhar sempre sobre as fundações de um pensamento de unidade, qualquer decisão criteriosamente tomada em favor da célula, obterá do mecanismo conjunto de seus membros destacados a perfeita adesão, sem, contudo, isentar de responsabilidade o seu mentor principal. Por isto, Sorman, você não estará só nas decisões maiores ou menores, caso haja.

 No retorno, Sorman foi convidado pelas irmãs a jantar e aceitou. Rudolfo se fora tão logo o ritual se encerrara. Em meio à conversa, Sorman informou-lhes que dormiria em sua casa na vila, próximo dali. Ao abraçar fortemente Bruno, desejou-lhe boa viagem e sucesso nas resoluções dos problemas. Lucen despediu-se ali mesmo, mas Lucéa o levou ao portão, beijando-o nos lábios com a mesma suavidade de antes. Ele sentiu-se envolto por sutis vibrações e perfume de rosas.
  - Quanto mais desejo sua permanência mais o sinto afastar-se - falou a moça com expressão séria. 
  - O que isto significa? - perguntou Sorman, surpreendido por aquela confissão.
       - Não sei – ela respondeu inspirando profundamente – algo penetra meu coração em nossas despedidas. Nada consigo desvendar. Sorman calou-se em reflexão; depois se arcou, beijou-a e se despediu.

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