terça-feira, 9 de setembro de 2014

Amenidades - Notícias de Tião

       Tião não aparecera nas costumeiras reuniões de início de noite, após o jantar, e não fora à escola, o que agora causava estranheza.
       - Alguém viu o Tião hoje? – perguntou Edu.
       - Eu não! – respondeu prontamente Jorge.
    - Também não! – respondeu igualmente Antônio Carlos, enquanto os demais faziam sinal negativo de cabeça.
       - Que será que aconteceu! – indagava ainda Edu.
       - Vai ver ele saiu! – aventurou-se Jorge.
       - Mas assim sem avisar e nem ir pra escola? – Edu insistia.
    - Ué! E precisa avisar? - perguntou Zecão, fingindo desinteresse - Às vezes acontece de repente e não dá tempo.
       - É...! - concordou Dino - E depois, como é que ele ia avisar pra todo mundo. Ia ser um trabalho danado!
       - Avisava um e aquele ia avisando todo mundo! – ensinou Jorge.
       - Quem, por exemplo? – a curiosidade de Edu era agora maior.
       - O Zecão! – apontou secamente Jorge.
       - Eu? Por que eu? – reclamou alto.
    - Você não vive dizendo que é o líder do grupo? Então tinha de ser você – continuou Jorge.
      - Eu não sou empregado do Tião! – respondeu bruscamente começando a ficar vermelho - Tem graça sair por aí, de casa em casa, ou lá na escola: olha o Tião viajou. Fulano, o Tião mandou dizer..., tem graça! – já se indignava
       - Tem nada de mais – comentou Antônio Carlos, sentando-se e encostando-se ao muro.
       - Tem sim, eu não sou empregado de ninguém! – Zecão fazia questão de repetir, desta vez falando mais alto.
      - Calma, Zecão, assim a rua inteira vai ouvir que você não quer ajudar o Tião – disse Dino debochando da situação.
       - Dane-se, não quero mesmo! – gesticulou jogando a mão adiante.
     - Vai ver é por isso que ele não avisou que ia viajar – falou Antônio Carlos na mesma posição, olhando para o chão, evitando encarar Zecão.
       - Isso o quê? – fingiu-se de desentendido Dino.
       - Que ninguém ia mesmo ajudar, nem o Zecão – completou Antônio Carlos. Zecão não se conteve e esbravejou:
       - Até você, Tonho, que quase não fala, resolveu hoje pegar no meu pé? Antônio Carlos levantou os olhos e deu um riso meio amarelo.
       - Oi, turma! – saudou Japonês, se aproximando.
       - Oi! – responderam dois deles.
       - Já souberam do Tião? – ele passou os olhos em todos.
       - É..., ele viajou e nem quis avisar pro... - Dino parou de repente, mas completou rapidinho - pra ninguém.
       - Viajou? - Japonês conseguiu franzir a testa - Viajou?
       - Mas ninguém sabe direito pra onde – explicou Jorge.
       - Como é que pode? – Japonês se mostrava pra lá de surpreso.
       - Podendo, ué! – Dino deu de ombros.
     - Mas..., mas como é que ele não me disse nada? – Japonês parecia inconformado e coçava a cabeça.
     - Pra nós também não, aquele careta prosa. Vai ver até pegou um trem lá pro interior e está agora numa boa. Ele não dizia que era da roça? – afirmava e perguntava Jorge.
       - Dizia - respondeu Edu - contou umas mentiras por aí; disse que o pai dele antes de morrer era fazendeiro e outras coisas.
        - Mas..., mas... – gaguejava Japonês.
      - Que nada! - interferiu Dino - vai ver ele foi mesmo é de ônibus. E já deve ter chegado!
       - Ônibus anda menos do que trem. O meu pai falou que por estrada de ferro é mais rápido – afirmou Edu.
       - Aí depende - intrometeu-se Zecão, parecendo ter um coelho na cartola - se o trem tiver de subir montanha ele vai quase parando. Neste caso o ônibus pode andar mais depressa.
       - Nem sempre. Tem ônibus que sobe também muito devagar – informou Jorge.
       - Mas na hora de descer o trem se manda e deixa o ônibus, ó, longe! – afirmou de novo Edu, fazendo gesto com a mão e estalando os dedos.
       - Ele vai contar que até caçou onça – disse Zecão, voltando à Tião.
     - Que tomou banho no açude e mergulhou sei lá quantos metros – adivinhava Dino.
      - Mas..., ele não pode! Ele... - Japonês tentou informar qualquer coisa, movendo negativamente o dedo indicador da mão direita.
       - Por que não? Ele sabe nadar. Bem, quer dizer..., pelo menos vive contando que sabe – lembrou Edu.
       - Conversa, ele nada mal pra burro! - Zecão voltou a criticar - Eu já vi lá no lago, um dia. Ele quase afundou. Eu tive que tirar ele de dentro d’água.
       - No lago, Zecão? Mas não é proibido? Tem até guarda tomando conta, por causa dos peixes – admirou-se Jorge e confirmando o motivo.
       - É que..., bem, foi num dia desses aí, na hora do jogo do Brasil. Tinha ninguém, nenhuma alma viva – respondeu sem graça.
       - Viva alma! – corrigiu Antônio Carlos de seu canto. Zecão já ia de novo protestar, mas Japonês interrompeu:
       - Ele não foi, turma, eu...
       - Foi sim! Não sou mentiroso, não, ouviu! – Zecão reagiu novamente.
      - Desta vez é verdade sim. O Tião me contou que já tinha mergulhado no lago - confirmava Dino - mas esta história de se afogar ele não me contou.
      - Que afogar? Quem falou em afogar? - Zecão já estava pra lá de irritado - Eu disse só que ele quase afundou, não falei nada de afogar!
      - Ah bem...! – fez Dino com cara fingida, como se somente agora tivesse entendido tudo.
       - Quando ele voltar de viagem vai ter tanto lê-lê-lê, que eu não vou querer nem ouvir – afirmou Jorge com certo desânimo.
     - Mas ele não viajou!!!  – berrou Japonês, assustando todos, logo tentando retomar o tom de voz normal - Quero dizer..., se viajou antes já voltou, mas não me disse nada – Japonês se atrapalhava nas explicações.
       - Como é que você sabe? – perguntou Zecão.
       - Eu estou vindo da casa dele. Ele está doente, lá na cama – falou finalmente, se aliviando.
       - Doente? – surpreendeu-se Edu.
       - É..., com problemas gastos... – tentava explicar.
       - Gastos? Que é isso? – perguntou Dino.
      - É aqui, ó..., na barriga, dói muito né! – mostrou batendo com a mão aberta no estômago.
       - É gástricos, seu burro! – corrigiu Antônio Carlos.
       - Então é... Ele pediu pra eu avisar todo mundo, e a professora dele na escola, só que amanhã não tem aula.

       Silêncio. Zecão olhou para o chão e coçou a orelha. Edu lançou olhar para Antônio Carlos e depois também para o chão. Jorge e Dino somente miravam Japonês. Como ninguém falasse Japonês recomeçou:
       - A mãe dele disse que ele vai precisar ir ao médico, mas ela não pôde ainda levar ele. – os meninos voltaram todos a encarar Japonês.
       - Por que não? – perguntou Jorge.
      - Porque ela não pode faltar ao trabalho. Aliás, ele ficou sozinho na casa todo o dia.
       Antônio Carlos pensou em corrigir as últimas palavras de Japonês, mas diante da situação perdeu o ânimo.
       - Mas eu acho que é outra coisa – prosseguiu Japonês.
       - O quê – perguntou Dino.
       - Ela não tem dinheiro pra pagar o doutor – completou, olhando novamente para todos.
       - Chi.... – lamentou Dino.
       - Mas não tem o hospital do I..., INES... – gaguejava Jorge
       - INSS! – ajudou Antônio Carlos.
       - É, esse daí! – apontou para o colega.
       - Já se esqueceu da greve? Está dando na televisão. Tem cada fila que não tem mais tamanho! – lembrou Edu.
       - É mesmo! – concordou Jorge desanimado.

       Novamente silêncio. Ninguém tinha qualquer outra idéia. Passou quase um minuto até que Dino quebrou aquele vazio:
       - Será que isto mata?
       - O que? O problema do Tião? Não sei! – perguntou e respondeu Jorge.
       - Acho que não – respondeu Edu.
       - Acho que sim – Japonês surpreendeu a todos.
       - Como é que você sabe? – perguntou Jorge.
    - Saber direito eu não sei, mas pela cara dele... – ele encolheu os ombros, afundando mais ainda o pequeno pescoço, passando uma idéia muito dramática.
       - Que é que tem a cara dele? – Jorge hoje estava realmente muito curioso.
       - Bem..., tava esquisita, né!
       - Esquisita, como? – a curiosidade era geral, mas Dino perguntou primeiro.
       - Assim..., parada. Depois ele me disse que doía a barriga quando comia, e não podia comer.
       - Só por isso? – A pergunta de Dino simplificava tudo.
       - É, né..., quem não come morre! –Japonês de novo complicava o problema.
       - Mas demora - resolveu Edu - meu pai disse que pra morrer de fome a pessoa precisa ir desfinando.
       - Desfinando? Como é? – interrogou Jorge.
       - É ir ficando fino, ora! – respondeu Edu com absoluta certeza.
       - É definhando, cavalgadura! – Antônio Carlos mais uma vez não aguentou.
       - Coitado do Tião... – lamentava Jorge ignorando o resto.
       - Olhe Turma, eu tive uma idéia - falou Dino subitamente - topa a gente ir lá agora visitar o Tião?
       - É mesmo, a gente até que podia – Edu gostou da idéia.
       - Então vamos? – convidava Dino.
       - Péra aí, péra aí! - interrompeu Jorge com energia - todos o olharam. Ele ficou sem graça, mas continuou - a gente não sabe se a doença dele pega. E se pegar...?  Eles se entreolharam. Jorge podia ter razão.
       - É mesmo! – concordou meio desanimado Dino, o autor da idéia da visita.
     - Se todo mundo pegar podemos morrer! – A lembrança de Edu já era uma ameaça.
    - O Japonês teve lá e não pegou! – lembrou Dino, embora antes tivesse concordado com Jorge.
      - É cedo ainda pra saber, ele já pode estar contaminado  - continuava Edu  -  depois, têm certas doenças que aparecem mais tarde. A pessoa ta toda ruim e não sabe. Meu pai que falou.
     - Besteira! - interrompeu Zecão depois de seu longo silêncio, talvez com um pouco de remorso por ter criticado Tião.
       - Besteira nada! Pode perguntar pra quem sabe – confirmava Edu.

       Japonês, agora assustado, perdera a fala. Olhava de um para outro dos meninos enquanto discutiam, já começando a sentir alguma coisa estranha que não sabia direito o que era. Zecão resolveu explicar seu pensamento:
      - A gente só se contamina se fica muito tempo no quarto com o doente, ou se come com ele. Assim, de uma vez só é difícil.
       - Será? – duvidava Jorge.
       - Claro, continuou Zecão, não é assim também não – sua certeza parecia infalível -  escute, Japonês, quanto tempo você ficou lá com o Tião?
       - Ah..., eu..., meia hora! – respondeu nervoso.
       - Meia hora? – repetiu interrogativamente Zecão.
       - Aí já dá! – afirmou Dino com segurança.
       - É..., meia hora - repetia pensativo Zecão - mas só no quarto?
    - É né... - mordia o dedo Japonês - mas..., mas - gaguejava e não conseguia explicar - a mãe dele também estava lá! – finalmente completou.
      - Ué, e que é que tem a mãe dele?  - interferiu Edu - Mãe é mãe. Nelas essas coisas não pegam. Pegam mesmo é na gente!
       - Será que eu vou morrer também? – Japonês já mostrava certo desespero. Eles todos deram um passo atrás e Japonês se sentiu definitivamente morto.
    - Se eu fosse você, Japonês, corria pra casa e contava tudo pra sua mãe - aconselhou Antônio Carlos.
   - É, de repente ela tem um remédio lá pra ajudar – Edu mostrava imensa camaradagem.  Não precisou mais nada. Japonês rodopiou nos calcanhares e saiu em grande carreira, quase atropelando Magriça que neste instante chegava.
       - Que houve com o Japonês?  Por que ele está com cara de choro?
       - Ele foi pra casa se tratar, coitado, pegou a doença do Tião – respondeu Dino.
      - Ninguém sabe ainda. Pode ter pegado e pode não ter! – Jorge não tinha tanta certeza.
       - Que doença? O Tião está doente?
      - É, com problemas gás..., no estômago, pode até morrer. Não está comendo nada – tentava explicar Edu.
       - Chi... – Magriça fez careta.

       De novo silêncio. Jorge foi sentar-se ao lado de Antônio Carlos, se encostando ao muro, e os demais o seguiram, exceto Magriça. Este olhava para o extremo da rua tentando enxergar Japonês. Mas ele já havia desaparecido.
      - Sabem quem eu vi inda pouco? – recomeçou Magriça. Ninguém respondeu, talvez achando que não era mais importante do que a doença do Tião.
       - Seu Leal! – resolveu então dar a notícia.
       - Seu Leal? Ele já está de volta? – animou-se Dino.
      - É... – confirmou simplesmente Magriça. Porém nada mais falaram. Magriça, ainda meio sem ambiente, olhava de novo para a distância e murmurava:
       - Coitado do Tião, será que é grave mesmo? 

                                    Pedro Pinote III da Série "História Mágicas" 
     Capítulo I - Pedro Pinote e o Velocino, Livro transcrito integralmente no Scribd 

Rayom Ra
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