quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Pedro Pinote - O Reino da Floresta que Secou

Pedro ficou satisfeito e voltou-se para o nascente; puxou a camisa xadrez para fora das calças, abriu o fecho do estojo e retirou o disco de ouro. Teovaldo como já estivesse sobre seu ombro direito assim permaneceu. Pedro arcou-se trazendo Petisco para debaixo de seu braço, apertando-o suavemente contra o corpo e colou o disco sobre o plexo, ao lado esquerdo do umbigo, pronunciando:
- Senhor do Espaço eu quero viajar, me leve no tempo pra outro lugar; me leve pro Reino da Floresta!

O disco de ouro rebrilhou como um sol de muitas cores. Em três segundos eles desapareciam de sob a árvore e da vista de todas as coisas. E neste redemoinho em que mergulharam, Pedro pôde ainda ver num relance que seu relógio marcava exatamente nove horas!
- Pronto, chegamos!
- Ué, que lugar feio! – reclamou Teovaldo.
- Não tem planta viva alguma! – observou Petisco, que deste lado podia falar.
- É mesmo, só vejo galhos e troncos secos. Até parece que um incêndio aconteceu por aqui! – admirou-se o menino, que deste lado chamava-se Cabelos de Ouro.

Realmente, a visão que os três tinham era nada animadora: uma floresta inteira a perder de vista, transformada em milhares e milhares de esqueletos. Não havia uma plantinha sequer que fosse verde, nem uma minúscula folha, nem um capinzinho: estava tudo seco! Cabelos de Ouro colocou Petisco no chão e resolveu caminhar um pouco. Mas o panorama em nada mudava; a desolação era total.
- Não vejo nada vivo, Cabelos de Ouro – afirmou Teovaldo.
- Nem eu! – confirmou Petisco.
- Eu também não, amigos. Creio que deveríamos sair daqui e procurar outro lugar.

Neste momento Petisco começou a latir, se metendo por entre uns galhos e desaparecendo.
- Petisco, volte aqui! – o menino chamou-o, preocupado.
- Lá adiante, Cabelos de Ouro, ele está farejando algo. Acho que descobriu alguma coisa! O menino saiu atrás do cão, se enfiando também por debaixo de galhos secos. Teovaldo se encolhia sobre o seu ombro, meio desequilibrado, batia as asas e reclamava:
- Cuidado! Cuidado! Currupáco!
Cabelos de Ouro finalmente alcançou Petisco e se arcou para examinar o que havia detrás de um tronco.
- Oh, um anão! – exclamou surpreso, ajoelhando-se diante dele.
- Outro? – reclamou Teovaldo se lembrando de Servo-38.
- Mas este é diferente – explicou Petisco.

De fato era um anão, mas diferente daquele que haviam encontrado noutra jornada, no Reino das Pedras. Este se vestia como uma pessoa comum, embora com pessoais detalhes. Usava calças justas azuis, de pernas enfiadas nas botas marrons, até a altura das canelas, com camisa amarela de mangas inexistentes, esfiapadas aos ombros. Tinha na cabeça um gorro vermelho com um comprido rabicho que se dobrava para baixo terminado numa pequena bola. Estava ali, sentado, junto daquele tronco seco, com braços envolvendo as pernas encolhidas e rosto enfiado entre os joelhos.
- Ei, amigo, como se chama? – perguntou o menino educadamente. O anão nem se mexeu, ficando como estava.
- Quem é você? – insistiu do mesmo jeito.
- Sou um gnomo, rapaz, não está vendo? – finalmente respondeu com voz abafada e rosto ainda escondido.
- Um gnomo? – repetiu interrogativamente Teovaldo.
- Um gnomo? – Cabelos de Ouro também se surpreendeu.
- É..., um gnomo, sim, que coisa! Vão embora, deixem-me em paz! – respondeu zangado.
- Mas por que está assim? – insistiu Teovaldo.
- Porque sim!
- Mas o que houve? – voltou a insistir Cabelos de Ouro.
- Que houve? Então vocês não estão vendo, ora essa! – continuou ainda zangado, levantando a cabeça pela primeira vez. Os três puderam então observar-lhe a fisionomia. Seus olhos, a barba inteira e sobrancelhas eram negros. A testa era vincada e as orelhas muito grandes para o seu tamanho.
- Você diz..., da floresta? – Petisco perguntou desta vez
- É..., da floresta, de tudo isto que virou em nada! – respondeu ainda com zanga. Ele se levantou diante de Cabelos de Ouro e sua altura seria de um metro.
- Como isto aconteceu? – insistiu Cabelos de Ouro.
- Aconteceu, acontecendo. Foi secando, secando e pronto! – respondeu rispidamente, batendo as mãos contra as coxas.
- E quando tudo isso ficou seco? – Teovaldo perguntou.
- Quando eu não sei. Somente sei que aqui não se trabalha mais!
- E tinha gente que trabalhava aqui?
- Claro que tinha, menino bobo! Não lhe disse que sou um gnomo? Os gnomos são responsáveis pela conservação da forma e vida de todas as plantas!
- São??
- Claro que somos! Trabalhamos dia e noite, aqui, ali e acolá; não somos preguiçosos, não! E esta floresta era linda, cheia de árvores frondosas e frutíferas, com trepadeiras esparramadas, flores coloridas por todos os lados. Os pássaros cantavam, os animais corriam e pulavam, os córregos murmuravam. As ondinas bailavam, os silfos se embalavam sobre a aura perfumada das árvores. Tudo era beleza, tudo!
- Oh!
- Currupáco!
- Au! Au! Silêncio, porém logo Teovaldo voltou a perguntar:
- Que são ondinas e silfos?
- São vidas que habitam as águas e o ar, ora essa. E nós agora não temos mais nada pra fazer e ficamos por aí – mostrou com braço direito estendido e mão aberta, fazendo movimento adiante, de um lado a outro.
- Mas por que você não se muda para outra floresta? – perguntou Teovaldo.
- Ora por que! Por que não posso, gnomos precisam ficar até o fim!

[ Extraído da obra, Pedro Pinote – O Reino da Floresta que Secou, por Rayom Ra, disponível por inteira em on line ou para downloads no site Rayom Ra (Rayom_Ra) on Scribd | Scribd]

[ Os textos do Arca de Ouro, de autoria de Rayom Ra, podem ser reproduzidos parcial ou totalmente, desde que citada a origem ]

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